quinta-feira, 8 de maio de 2008

Eu sou a Lenda

Capítulo 19
Quando voltou a si, o silêncio reinava na casa.
Durante um momento seguiu ali, deitado, olhando confusamente o chão. Em
seguida, com um lamento de dor, levantou-se. Sentiu como se um milhão de agulhas lhe
atravessassem a cabeça, e tornou a cair sobre o chão frio, agarrando a cabeça com as
mãos.
Minutos depois tratou de se levantar lentamente agarrando na borda da mesa. O chão
se movia sob seus pés, e Neville teve que fechar os olhos. Esperou um momento.
No fim conseguiu chegar rastejando até o banheiro. Lavou a cara com água fria e se
sentou na borda da banheira, com uma toalha úmida envolta da testa.
Que tinha acontecido? Olhou piscando para os brancos ladrilhos do chão.
Levantou-se e chegou até a sala. Estava vazia. A porta da rua estava aberta
permitindo a entrada da luz cinza da manhã. A jovem tinha ido embora.
Começava a se lembrar. Retornou ao dormitório, apoiando-se nas paredes.
Sobre a mesa, junto ao derrubado microscópio, tinha uma carta. Pegou o papel com
dedos intumescidos, e aproximando-se da cama, sentou-se. Ergueu o papel até os
olhos. Mas lhe dançavam as letras. Sacudiu a cabeça brandamente e voltou a fechar os
olhos. Ao final de um momento pôde ler:
“Robert: Agora já sabe. Já descobriu que lhe espionava e sabe que quase tudo o que
disse era falso”.
“Escrevo-lhe esta carta porque quero te salvar, na medida do possível”.
“Quando me pediram que lhe espionasse, não me interessava sua vida. Porque
eu tinha um marido, Robert, e você o matou”.
“Mas agora as coisas são diferentes. Eu sei agora que você não escolheu este modo de
vida, como nós não escolhemos o nosso. Estamos infectados. Mas apesar de suas
descobertas, continuaremos vivos. Descobrimos um modo, e vamos criar uma nova
sociedade, sem pressa, mas sem tardar. Nos livraremos desses miseráveis castigados
pela morte. E embora eu não o queira, decidimos lhe matar, a você e a seus semelhantes.”
—A meus semelhantes?, pensou Neville, aturdido. Mas seguiu lendo.
“Tentarei lhe salvar. Explicarei-lhes que está muito bem protegido para que o
ataquemos agora. Aproveite o tempo que lhe dou, Robert. Saia da casa, fuja para as
montanhas e se salve. Agora somos uns tantos. Mas nos aumentaremos cedo ou
tarde, e então não poderei impedir sua destruição. Repito-lhe isso Robert, salve-se
enquanto pode!”
“Sei que lhe custará acreditar. Não acreditará que podemos viver à luz do sol, embora
só o seja durante curtos períodos. Não acreditará que minha cor é natural e não
produto da maquiagem. Não acreditará que podemos viver com o germe no sangue”.
“Por isso lhe deixo uma de minhas pílulas”.
“Todo o tempo que passei aqui as estive tomando. Escondi-as em meu cinto.
Descobrirá que estão compostas por sangue coagulado e uma droga. Não sei
exatamente qual. Mas sei que o sangue alimenta o germe e a droga impede sua
reprodução. O descobrimento desta pílula freou nossa eliminação, nos ajudando a
reconstruir o mundo. Acredite-me, tenho certeza. E por favor, fuja!”
“Me perdoe também. Não queria lhe fazer nenhum mal. Mas me aterrorizava pensar o
que faria quando soubesse a verdade”.
“Me perdoe por lhe haver enganado tanto. Mas, por favor, acredite só uma coisa:
quando estávamos abraçados, na escuridão, não estava lhe espionando. Eu lhe queria”.
“Ruth.”
Neville leu outra vez a carta. Em seguida deixou cair a mão, abatido, e ficou olhando o
chão. Não podia acreditá-lo. Movia a cabeça, tentando compreender, mas era difícil.
Aproximou-se da mesa com passos inseguros. Pegou a pílula alaranjada, sustentou-a
na palma, e a cheirou. Sentia que a segurança o havia abandonando.
Como podia, entretanto, negar a evidência? A pílula, o encontro à luz do sol, sua reação
diante do alho.
Sentou-se na banqueta e olhou a estatueta caída no chão. Lentamente, as lembranças
foram amontoando em sua mente.
Quando se encontraram no campo, a jovem tinha fugido assustada. Estava-o
enganando? Não, assustou-se seriamente. Seu grito a havia surpreendido sem dúvida,
embora ela estivesse esperando-o. Logo, mais tarde, controlando mais a situação, havia
argumentado que sua reação perante o alho se devia a um estômago delicado. E tinha
mentido, fingindo uma aceitação sem esperança, e o havia surrupiado habilmente toda a
informação possível. E quando queria ir embora, não podia, por culpa de Cortman e dos
outros.
Tinha despertado naquele momento e se abraçaram, e...
Neville deu um murro na mesa. “Eu lhe Queria”. Mentira. Mentira! Amassou a carta e a
jogou longe.
A dor cresceu com a raiva e teve que segurar a cabeça entre as mãos, fechando os
olhos.
Ao cabo de um momento se recuperou e colocou o microscópio em seu lugar.
O resto da carta não era mentira, devia reconhecer. Até sem a pílula, até sem
aquelas lembranças, devia reconhecer. Ficava algo que Ruth e os seus amigos
pareciam ignorar.
Olhou pelo microscópio um longo momento. Sim, havia-o encontrado. E admitir o que
via, mudou todo seu mundo. Que estúpido e incapaz se sentia! Como não o tinha previsto?
E entretanto, havia lido a frase cem, mil vezes. E nunca se havia detido a entender todo
seu significado. Era uma frase muito simples:
As bactérias também podem ser mutantes.

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