Este é o relato fiel do que Amâncio contou: "Eu e meu parceiro
voltávamos para o 2o. Batalhão no Gol descaracterizado que a gente usava
em algumas missões. Estávamos na rua Almirante Alexandrino, em Santa
Teresa, porque tínhamos seguido um cara que fazia a ligação entre os
traficantes do morro Santa Marta e os vagabundos do Tabajara. Mas
perdemos o cara e, como já tinham passado as 24 horas de nosso plantão,
resolvemos voltar. Ali em cima, perto da favela do Balé, tem uma bifurcação.
Queríamos descer para o Cosme Velho e Laranjeiras, mas o meu parceiro,
que dirigia o carro, pegou o lado errado. Quando a gente viu, estava num
declive muito íngreme que nos levava direto para o miolo da favela.
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Não dava para recuar, nem para frear, abandonar o carro e correr a
pé, de volta. A gente praticamente deslizava para o meio da favela.
Nosso carro era uma bandeira só. Porra, dois homens, num Gol
daqueles, ou a gente era bandido ou polícia. Nos dois casos iríamos tomar
tiro. O carro seguiu devagar, ladeira abaixo, e já dava pra ver que os
traficantes estavam reunidos bem no meio da rua. Estavam distribuindo as
cargas e as armas. Tive a intuição de que a gente só tinha uma saída,
acelerar.
"Gritei: acelera, pisa até o fundo e abaixa a cabeça. Parecia um strike
no jogo de boliche. O carro disparou ladeira abaixo e nós pegamos uns três
ou quatro. Foi uma puta porrada; voou moleque pra todo lado; o carro
capotou algumas vezes. Consegui escapar, no meio uma chuva de bala. Corri
atirando e buscando uma cobertura. Não o que aconteceu com o Amílcar.
Não pude mais olhar pra trás. Só fiz correr pelos becos na direção oposta à
da entrada. Você deve se lembrar da favela. Ela fica num vale, entre a ladeira
que desce de Santa Teresa e a escadaria que sobe, na outra ponta. Fugi pra
escadaria. Eles não me seguiram. Devem ter ficado cuidando dos feridos. Vai
ver que o chefe estava entre os atropelados. Corri com todas as minhas
forças e subi a escadaria pulando os degraus. Quando estava mais ou menos
na metade, apareceram uns colegas do 1o. Batalhão no alto da escadaria. Fiz
um sinal e me senti salvo pelo gongo.
"De repente me apontam o fuzil lá de cima e eu só sinto aquele coice
na barriga. Ficou tudo preto. Acordei aqui, depois da cirurgia. I oi tiro amigo,
meu irmão. Tiro amigo. Agora, eu te pergunto: por quê? Está certo que sou
negro e que estava armado e sem uniforme, mas, porra, para quê atirar
antes de identificar o camarada?"
Amâncio não passou daquele dia. No enterro, na salva de tiros tive
vontade de mandar pararem aquela farsa, aquela palhaçada.
Mas pensei na viúva, no filho, ponderei um pouco e achei que o
melhor mesmo seria colocar uma pedra no caso. Melhor ter um pai herói,
morto pelos inimigos, do que vítima de um mal-entendido. Digo malentendido
para manter um certo nível de sobriedade, em homenagem à
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memória de um amigo querido, um homem de valor. O que senti mesmo foi
vontade de chorar e de vomitar as verdades sobre essa merda toda.
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