O cabo Nestor e o soldado Amparo desciam a favela da Conceição, na Zona
Oeste do Rio. O resto da equipe já deixara o morro, transportando um
volumoso lote de armas apreendidas, na operação daquela noite. Depois de
uma incursão forte do BOPE, sem prisões ou mortes, a comunidade
respirava a serenidade de um cartão-postal, Todo mundo sabia que os
bandidos ficariam bem longe, por algum tempo. Amanhecia e os
trabalhadores saíam dos barracos a caminho do asfalto, apressados para
embarcar nas funções do dia. Com o sentimento de missão cumprida, Nestor
e Amparo pensavam em café com leite, pão, manteiga e o sono dos justos. Ao
fundo, o alarido de marmitas, crianças, bolsas e poeira.
Como o faro de policial fica ligado 24 horas por dia — em serviço ou
na folga, acho que até dormindo a gente permanece alerta —, os colegas
perceberam alguma coisa estranha no jeito de dois rapazes. Para não perder
a viagem, revistaram os caras. Eram irmãos Um deles portava uma pistola e
jurava que não era traficante:
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— Não sou do movimento, não, senhor. Sou só assaltante Não tenho
outra arma, não.
Garantia que não sabia nada sobre as armas do tráfico. Amparo
insistiu:
— Ou você dá as peças, ou vai pra vala.
O sujeito ficou apavorado: por um lado, sabia muito bem que não se
brinca com o BOPE; por outro lado, entregando as armas, talvez se safasse,
mas não escaparia dos seus comparsas, na prisão ou na favela. Seria tratado
como X-9. O fato é que resistia, negava, jurava era só um ladrãozinho de
merda, que não tinha nada, que a arma era só aquela ali mesmo. O irmão
tremia e garantia que não tinha nada a ver com o que o outro fazia ou
deixava de fazer, que era trabalhador — essa conversa fiada.
Nestor decidiu levá-los para casa:
— Vamos ver se vocês vão ou não vão dar as peças. Onde é moram?
Vamos pra lá.
Subiram uma ruela sinuosa e entraram numa casinha de dois
andares, próxima a um beco. Sala e cozinha escuras e apertadas, separadas
por uma cortina engordurada, azul-marinho. A geladeira ficava na sala, ao
lado da televisão. Um sofá rasgado e uma cadeira, sob um tapete de parede
com motivos venezianos: gôndolas, pontes, canais. A escada lateral de
madeira, íngreme. Um dos irmãos repetia que a mãe era doente, um AVC a
deixara paraplégica, passava os dias em casa e morreria se soubesse que os
filhos tinham qualquer problema com a polícia. Nestor, paternal e
compreensivo, fazia o contraponto a Amparo:
— Se vocês derem as armas, não vai acontecer nada com vocês, nem
com sua mãe. A porta rangeu.
— Quem está aí?
A voz feminina vinha do segundo andar. Provavelmente era
verdadeira a história da mãe doente.
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— Somos nós, mãe. Fica tranqüila. Os polícias só vieram ver se tem
alguma coisa errada, aqui -- disse o cara da pistola, que era mais alto e um
pouco mais velho.
— A senhora fica aí em cima. Não queremos nada com a senhora —
disse o Nestor.
— Agora, deixem de vendagem e passem os fuzis. Onde estão as
peças? — Amparo fazia o papel do meganha durão: — Vamos, porra. Não
temos a manhã toda não, caralho.
E sentou a mão na cara do mais baixo.
— Porra, seu polícia, não esculacha. Tô dizendo que não sei de arma
nenhuma. A única arma era aquela pistola. Estou falando a verdade.
— Não fode — Amparo respondeu com uma coronhada e um chute no
joelho.
O rapaz envergou e começou a chorar:
— Não sei de armas, porra; não tenho peça nenhuma. A mulher
gritava lá de cima:
— Os meninos são trabalhadores. Nossa família é honesta. Não tem
arma nessa casa. Deixem eles em paz.
— Não se mete, porra — Amparo respondeu. E aumentou o tom:
— Cala essa boca, sua puta. Se não fechar essa boca suja, eu vou
encher de porrada esses filhos da puta.
— É melhor a senhora ficar na sua; se não, as coisas podem se
complicar — ponderou Nestor, a voz hierática de um sacerdote da segurança
pública.
— E você, seu vagabundo de merda?
Amparo deu um tapa de mão aberta na cara do menino mais alto.
Nelson Rodrigues dizia que tapa não dói, mas o som do estalo humilha. Não
sei se não dói. Conhecendo a força do Amparo, não sei não.
Agora era Nestor quem entrava na pilha:
— Dá logo as peças, caralho.
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— Pô, eu já disse ao senhor que não tenho nada a ver com isso, não
sei de nada.
Esse menino era mais baixo e mais frágil. Passou do choro ao soluço
feito criança, o que deixou o Amparo fora de si.
— Dá logo, cacete, ou te estouro a cabeça aqui mesmo.
— Não atira, pelo amor de Deus. Meus filhos, pelo amor de Deus. São
meus filhos. Nosso Senhor Jesus Cristo.
A mulher entrou num surto histérico. Não ajudou. As orações não
ajudaram. Nem os apelos. Ao contrário, os brados da beata, ecoando como
se fosse um coro de Igreja, enlouqueceram Amparo. Reagiu na mesma
linguagem, vociferando como o Deus do Primeiro Testamento:
— Cala essa boca, sua filha da puta.
Apontou o fuzil para a coluna em que se fixava a escada e disparou
para assustar os garotos e a mãe, e restaurar a ordem no recinto. Acontece
que, por um desses ardis da sorte ou do azar, a bala ricocheteou na coluna e
acertou a nuca do rapaz que chorava. A explosão injetou adrenalina nos
personagens, acelerou o tempo, detonou o equilíbrio de Nestor e Amparo,
aumentou o volume dos gritos da mulher e paralisou o rapaz mais alto. Ante
os vestígios do irmão na parede, ele ficou verde, amarelo, azul e branco.
— Meus filhos, meus filhos, quem atirou? Pelo amor de Deus,
Seguiram-se uivos estridentes da mãe que intuiu o pior.
— Eu dou. As peças estão na caixa d'água — o sobrevivente
encarando Amparo.
— Agora é tarde. Como é que nós vamos ficar, hein?
Amparo sabia que não tinha saída. Por isso, teve que continuar
atirando. Nestor também sabia e pôs-se a disparar. O rapaz corria pela
cozinha e a sala como um peru bêbado, em véspera de Natal, implorava,
guinchava, subia na pia, deslizava pelo sofá, saltava geladeira, empurrava a
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TV, e os ruídos se misturavam à ebulição da mulher, no segundo andar, que
acompanhava a cena pelos sons. Parecia incrível que fossem necessários
tantos disparos em um espaço tão pequeno. Imagina dois cavalos, três
cavalos incontroláveis condenados a travar uma luta de vida ou morte no
interior de uma casa modesta; um confronto arquetípico entre deuses
gregos, ciclopes e unicórnios, movendo céus e terra, raios, fogo, ventos e
oceanos. Gênesis e apocalipse entre quatro paredes: chão e teto salpicados
de sangue, ossos, cacos de vidro, blocos de gesso, pedaços de madeira e
pano, fragmentos de tijolos, imagens diluídas na nebulosa de poeira, cheiro
de pólvora e carne queimada.
O menino tombou, agarrado à cortina, os olhos arregalados o
imóveis.
Quando Nestor e Amparo fecharam a porta, só a voz da mãe se ouvia.
Um erro leva a outro. Nesse caso, um golpe de azar exigiu uma ação
indesejada: não faria sentido permitir que uma testemunha sobrevivesse. A
mulher foi preservada porque não viu ninguém. Às vezes, somos nós ou eles.
Nem sempre fazemos o que é certo ou o que gostaríamos de fazer. Nem
sempre os resultados são os melhores, Não pense você que Nestor e Amparo
eram monstros insensíveis, Tenho certeza de que eles também sofreram com
a carnificina. Que tiveram pesadelos. Tomaram tarja preta para dormir. Mas
a gente acaba se acostumando.
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