A PM nem sempre foi o BOPE para mim, ainda que nunca tenha tido
dúvidas quanto à minha vocação e sempre tenha sonhado com o dia em que
seria aprovado no teste e receberia minha caveirinha.
Durante vários anos, cumpri minha trajetória como policial militar,
em diferentes batalhões no Rio de Janeiro. Um dos momentos mais
importantes de minha vida ocorreu na época em que estava lotado no 23o.
BPM, responsável pela área que vai do Jardim Botânico à Gávea, passando
por Lagoa, Ipanema e Leblon, sem esquecer Rocinha, Vidigal e adjacências.
O dia D aconteceu quando o comandante do 23º determinou que eu me
deslocasse com urgência para a rua Marquês de São Vicente: "Manifestação
de estudantes da PUC bloqueando o trânsito e provocando engarrafamento
monstro."
A tropa sob minha responsabilidade não era lá flor que se cheirasse,
o que me preocupava, sobretudo porque, do outro lado, estavam as flores da
burguesia carioca — aquelas maravilhosas patricinhas da PUC — e os
mauricinhos que cheiram pó, no sábado, e fazem passeata pela paz, no
domingo.
O comandante me alertou:
— Veja lá, tenente, o que vai me aprontar. Vai devagar. Se você
descer o cacete nos herdeiros da elite carioca, sou eu que vou pagar a conta.
Cuidado. Na PUC só tem padre e sobrenome. Segura o seu pessoal. Abre a
rua e não faz confusão.
"Sim, senhor", foi o que me ocorreu dizer, enquanto eu pensava na
merda que é o nosso país — com o perdão da heresia antipatriótica. Aliás, se
meu pai fosse vivo eu não teria coragem de escrever isso, assim, com essa
franqueza. Mas, o que fazer? O país é ou não é uma merda? Se os pobres
desdentados e negros descem o morro e fecham a avenida, a ordem é botar
pra foder, baixar o cacete e, se o tempo fechar, atirar antes e perguntar
depois. Agora, se são os filhinhos de papai da Zona Sul, lourinhos, com
sobrenome de rua, o tratamento tem de ser cinco estrelas, policiamento vip,
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até porque, se o tempo fechar, a corda arrebenta do nosso lado... Naquele
caso, do meu lado.
Você pode imaginar meu humor, descendo da viatura e mandando
minha tropa se desarmar e ficar à distância. Fui sozinho, andando na
direção dos líderes do movimento. Meu propósito era mandar aquele bando
de veadinhos e garotas histéricas sair da rua. Porra, aqueles filhos da puta
têm casa própria, roupa lavada, futuro garantido, universidade privada de
primeira qualidade e ainda querem encher o saco de quem precisa trabalhar,
interrompendo o trânsito, se esgoelando para ecoar os slogans mais
ridículos. Se ainda fossem subversivos da época da ditadura, se pelo menos
arriscassem a vida, sacrificassem o conforto, pegassem em armas... É
verdade que eu continuaria odiando eles todos... Pensar nessas coisas me
fazia lembrar que foram aqueles covardes que acabaram com a vida de meu
pai e, por tabela, destruíram a vida de minha mãe. Mas não era uma boa
hora para pensar nisso. Tudo tem sua hora e seu lugar. Ali, quanto menos
eu pensasse nessas coisas, melhor. Tinha de manter a calma e controlar a
arruaça, sem dar um tiro. Não ia ser fácil. Se um de meus policiais erguesse
o braço, era certo que um fotógrafo pularia da primeira árvore, bem no meio
da cena, e o flagrante da violência policial estaria nas manchetes do dia
seguinte — e eu é que ia acabar me fodendo. Eu, o comandante do batalhão
e o comandante-geral da PM, nessa ordem. Começando por baixo, é claro —
isto é, por mim. Portanto, era bom esfriar a cabeça.
Andei firme, exorcizando os fantasmas que me azucrinavam a cabeça.
Procurei focalizar a mente na missão. A missão. Olhando e caminhando com
firmeza, começando a analisar a situação e avaliar as alternativas táticas
disponíveis, agora que me aproximava da linha de frente da passeata, minha
atenção foi atraída por uma figura que, de relance, parecia familiar. Ele se
destacava e desaparecia, engolido pela turba com bandeiras e faixas. Fixei o
olhar e identifiquei, entre rostos, panos, letras, gritos e buzinas, uma
silhueta definitivamente conhecida: "Peraí, não é o Nelinho? Porra, é o
Nelinho. Claro que é ele, pensei. Era. O Nelinho em pessoa, ele mesmo, com
aquele sorrisão escrachado e malandro, os dentes separados, o cabelão
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escorrido aliás, seu grande trunfo com as meninas do cursinho. "Porra, é o
Nelinho". Era ele o líder daquela bosta. Quem sabe, ele quebra meu galho e
me ajuda a resolver essa encrenca?
"Caralho, eu devia ter desconfiado. Claro, só podia ser. Ele adora
uma sacanagem. Adora uma confusão. Aposto que só se meteu nessa merda
de passeata pra comer alguma beldade. Mas como é que eu laço pra abordar
um grande amigo, um velho chapa, no meio do exército inimigo, sendo que o
amigo não é mais nem menos que o general, o manda-chuva da tribo
inimiga? Se eu chamo o líder dos estudantes de Nelinho, me desmoralizo. Se
chamo de Nélio, pior ainda. Ele vai se sentir insultado. Vai ficar puto, com
razão. Vai deduzir que fiquei besta, não reconheço mais os amigos, mudei,
virei autoridade, essas coisas. Se eu disser senhor Nélio Braga, aí eu é que
vou me sentir ridículo. Imagina, chamar o Nelinho de seu Nélio Braga. Onde
já se viu?"
De repente, ele bateu os olhos em mim e correu em minha direção.
Estávamos a uns 50 metros um do outro. A passeata avançava lentamente,
ondulando ao som dos hinos favoritos da juventude, no sentido da Gávea
para a praça Santos Dumont, no Jóquei. Eu caminhava em sentido
contrário. O trecho inicial da Marques de São Vicente, para onde seguia a
multidão, permanecia vazio, porque o trânsito fora desviado lá atrás, no
Jardim Botânico. Os carros que seguiam no mesmo rumo da passeata não
tinham escolha senão acompanhá-la, a passo de cagado. Por isso, Nelinho
não encontrou obstáculos e pôde correr para me abraçar , no espaço deserto.
As testemunhas mais próximas se comprimiam nos bares, nas lojas e nas
janelas dos prédios. Meus comandados tinham ficado a uns 200 metros,
mais ou menos na esquina da rua com a praça.
— Cara, cara, puta que o pariu, não acredito — ele gritou, vindo em
minha direção, com a maior alegria. — Puta merda, é você. Que barato! Me
dá um abraço.
— Não é bom, Nelinho. Agora, não. Não vai pegar bem nem pra mim
nem pra você. Depois a gente toma uma gelada e mata a saudade.
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— Porra, cara, que barato, que legal te ver. Como é que você está?
Você sumiu, não dá mais notícias, não freqüenta mais a praia, não vai ao
futebol, desapareceu das festas, não responde aos recados. Porra, que
saudade. Como é que está a dona Luiza? E o Carlão?
— Tudo na santa paz. Eu ando mesmo meio desaparecido. Muito
trabalho, você sabe. Mas você parece que está ótimo. Cercado de mulher
bonita, pra variar, nesse cortejo de patricinhas.
— Pô, que é isso, cara? O papo é sério. A luta é justa. Aliás, você
devia tirar o uniforme e aderir... Brincadeira. O cabo Anselmo já fez isso e
deu no que deu...
— Quem?
— Deixa pra lá.
— Nelinho, pô, você bem que podia me dar uma força. Já que você
está com a maior moral, você bem que podia me ajudar a liberar um lado da
pista. Ficaria tudo resolvido, sem problema nenhum. Eu cumpriria minha
missão, numa boa, e você mostraria que é um bom negociador, garantindo a
continuidade da manifestação e tudo o mais.
— Deixa eu falar com os caras. Acho que não vai ter problema, não.
Mas vê se não some de novo. Promete que vai me ligar. Eu continuo no
mesmo lugar, na casa de papai e mamãe, como você costumava dizer...
Enquanto conversávamos, a passeata avançava em nossa direção.
Quando concluímos nosso acordo, estávamos muito próximos da linha de
frente da manifestação. Tanto que Nelinho, que voltou correndo para a linha
de frente da passeata, teve de puxar uns três ou quatro pelo braço para a
lateral da rua e andar mais rápido do que a massa, os braços abertos,
apoiados nos ombros dos parceiros, Era o único jeito de criar uma espécie de
concha para a deliberação emergencial.
Quando faltavam poucos metros para a multidão me envolver, virei
de costas para a linha de frente e voltei apressado, rumo ao início da rua,
onde estava minha tropa. Nelinho me deixara sozinho no meio da pista e, por
alguns instantes, minha questão passou a ser estritamente simbólica: se
caminho ao lado da liderança, dou a impressão de que estou ajudando a
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puxar a manifestação; se continuo parado, sou engolfado pela massa e
desapareço, correndo o risco de não merecer um tratamento, digamos,
hospitaleiro, no interior da turba; se ando de costas, encarando a primeira
fileira, faço um papel patético, além de acrobático — com os riscos de levar
um tombo e presentear os fotógrafos com a imagem do dia: a queda hilária
da Segurança Pública, aos pés dos estudantes desordeiros.
Nelinho encerrou as tratativas e voltou correndo:
— Tenente, tenente.
Parei e girei o corpo. A passeata prosseguia sua marcha. Meu amigo
estendeu a mão, fingiu formalismo e encenou para as câmeras da imprensa
o que poderia ser interpretado como a celebração de um acordo. Piscou o
olho e liberou uma das pistas. Quer dizer, para todos os efeitos, quem
liberou fui eu. Os méritos eu acabei capitalizando, porque, afinal, a
autoridade era eu e foi minha chegada ao evento que mudou o quadro, em
benefício da segurança pública, como disse um repórter, segundo o relato
que minha mãe fez do que ouvira no rádio. Preferi não lhe contar a história
do Nelinho, para não desvalorizar o filho de dona Luiza.
Quando o trânsito começou a fluir pelo lado esquerdo da pista, um
senhor se aproximou de mim com um ar de irmão mais velho.
— Tenente, permita que me apresente. Sou o padre Raul de Matos,
pró-reitor da PUC. Parabéns pela condução do conflito. O senhor agiu com
grande destreza e sensibilidade.
Juro que ele falou destreza. Não estou exagerando. E continuou:
— Eu percebi que o senhor dialogou com as lideranças do movimento
estudantil, ouviu os rapazes e as moças, ponderou, argumentou, negociou
uma solução e produziu um resultado eficiente. Na verdade, tenente, o
senhor deu uma aula de gerenciamento de crise, uma lição sobre o
comportamento justo e eficaz da polícia na democracia. O senhor, tenente,
está encarnando a polícia do futuro, a polícia para a cidadania, que garante
direitos e liberdades. Que diferença, tenente, que diferença do
comportamento que nos habituamos a testemunhar todos os dias no Rio de
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Janeiro. Aqui não esteve a repressão do Estado, mas a proteção da
cidadania. Parabéns, tenente.
Enquanto ele falava, eu sorria um pouco constrangido, porque é
sempre bom receber elogios. Mas não pense que renunciei ao meu espírito
crítico, não. Aquela arenga do padre eu sei muito bem aonde conduz. De
todo modo, me surpreendi com o que ele disse, depois de toda a xaropada.
— Tenente. Você está estudando?
— Eu tinha vontade, padre, mas, sabe como é...
— O senhor gostaria de fazer uma faculdade?
— Meu sonho é fazer Direito, padre.
— Então, combinado. Pode me procurar. Toma, aqui, meu cartão.
Não deixa de me procurar. A PUC faz questão de lhe oferecer uma bolsa
integral para o curso de Direito.
Agradeci, guardei o cartão e continuei cuidando do trânsito e da
ordem pública, na rua Marquês de São Vicente, como se nada tivesse
acontecido. Mas minha cabeça voou para longe. Confesso que tive vontade
de chorar, sair gritando, abraçar meus companheiros. Não sei se já tinha
dito isso. Acho que não. Fazer Direito era meu sonho, Sempre foi. Não era
exagero o que disse ao padre. Era a mais pura verdade. Um sonho adiado
por falta de grana, os problemas em casa. no meu pai. Imaginei meu pai
ouvindo a notícia.
Passei a manga do uniforme no rosto. Muita fumaça, cheiro de
gasolina. A poluição irrita os olhos. E deixa a gente emocionado pra caralho.
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