quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da tropa - Caveira

Quando vejo uma autoridade da área de Segurança Pública de "conversa
fiada na televisão, confesso que fico puto. Em geral, esses dirigentes são
políticos, uma turma que costuma bater no peito e bradar discursos
moralistas, na maior hipocrisia. Quando o problema são os bandidos, o papo
é um só: "Vamos apurar e punir com rigor, doa a quem doer." Quando o alvo
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somos nós, os policiais, a desconversa é mais ou menos assim: "Vamos
afastar imediatamente quem estiver desonrando o uniforme que veste. A
integridade e a história da instituição têm de ser preservadas." O pior é que
nossos superiores hierárquicos, nas próprias polícias, freqüentemente agem
como políticos. E até viram políticos, no final da carreira. Tudo bem, nada
contra os políticos. Eles são como os policiais, honestos ou desonestos. Cada
caso é um caso. Não dá para generalizar. Mas admito que chego a ficar
enojado quando vejo algumas farsas e manipulações demagógicas. O que
mais me revolta é a hipocrisia. Ela, às vezes, é fatal.
Outro dia, trocava idéia com um amigo, o Franco, e esse assunto veio
à baila. Acabamos nos lembrando de um caso revelador. A conversa
começou com o Franco me dizendo o seguinte:
— Porra, cara, vai ficar o maior barato. Vou fazer aqui, no braço,
perto do ombro.
— Vai ser o quê? Uma sereia? Um coraçãozinho flechado? O da
Duília?
— Qual é, meu irmão? Não fode. Vai ser coisa de sujeito homem.
— Uma âncora...
— Que âncora, rapaz. Não sacaneia, porra. Vai ser uma caveira.
Claro.
— Esse negócio de tatuagem pra mim não tem sentido. Pra que a
caveira?
— Muita gente do BOPE tá tatuando a caveira. Já recebi telefonema
de colegas que se tatuaram, no maior orgulho. É importante, cara. É nosso
orgulho, nossa honra. Fica pra sempre. Assim como ser membro do BOPE. É
uma coisa que fica pra sempre na gente. É como se fosse uma medalha. É a
nossa bandeira. O tempo passa, a gente envelhece, sai do BOPE, sai da
polícia, mas a história não se apaga. O orgulho fica. E quando a gente se
encontrar, um dia, já reformado, vai se lembrar com orgulho. É o nosso
símbolo, porra. A nossa religião.
— E se, de repente, você descobrir que um punhado de filho da puta
manipula o seu orgulho? Vai lavar a caveira pra não fazer papel de babaca?
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Franco me olhou meio puto, meio curioso. Expliquei:
— Viu o jornal, hoje? — E daí?
— Viu ou não viu?
— Vi.
— O que é que você acha?
— Sobre o quê?
— O tiro, porra. A tragédia. Sei lá como chamar. Lá em Vigário. Não
viu aquele menino baleado pela equipe do capitão Plácido, pelos nossos
bravos companheiros do BOPE?
— O artista?
— Aquele cara é legal pra caralho.
— Eu sei, conheço ele. Todo mundo admira ele, lá na comunidade.
Ele é um super exemplo pra todo mundo. E canta bem paca.
— Então, porra. O que é que você acha?
— Acho triste. Uma coisa horrível. Deve ter sido um acidente, uma
fatalidade.
— Fatalidade porra nenhuma. Conversei com o Plácido, hoje de
manhã.
— Foi proposital?
— Claro que não. Ele tá arrasado. Mas é como se tivesse sido. No
fundo, pode-se dizer que sim, foi intencional.
— Não tô entendendo.
— Você sabe que o pessoal da Secretaria de Segurança está louca
atrás do Matias Matagal. A sociedade quer sangue, quer vingança. O
governador cobra a prisão do vagabundo a qualquer custo, de qualquer
maneira. Cobra todo dia, toda hora. O secretário diz que vai ficar maluco;
que não agüenta mais a pressão. Você pode imaginar o sufoco em que estão
o comandante-geral da PM e o chefe da Polícia Civil.
— Posso imaginar.
—Numa hora dessas, neguinho esquece tudo: técnica, lei,
metodologia de trabalho, tudo. Quer resultado. Resultado a qualquer preço.
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— Depende do resultado, cacete. Arrebentar a perna de um cara que
não tem nada a ver com porra nenhuma, e que é um ídolo da comunidade, é
um resultado de merda.
— Aí é que está o ponto. Você matou a charada. O que aconteceu lá
em Vigário, foi, literalmente, um tiro no pé.

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