O sargento Juarez já retornava à viatura, na favela da Boa Esperança, na
Ilha do Governador, quando um sniper do tráfico lhe arrebentou a cabeça
por trás, num tiro de longa distância. A comoção de sua equipe estendeu-se
à família e contagiou todo o BOPE, onde ele era um dos veteranos mais
queridos.
Nós, oficiais, mal conseguíamos conter os ânimos dos soldados. Na
verdade, estávamos tão revoltados quanto eles. Não era só ódio ou
indignação; era fúria. Também achávamos que a resposta tinha de ser
imediata e radical. Todos tinham sido feridos por aquele tiro covarde.
Covarde e humilhante. A honra do Batalhão estava em jogo, além da
memória de um companheiro. Era hora de colocar em prática o que
aprendemos no curso de operações especiais: "O máximo de, violência, morte
e confusão, na retaguarda profunda do inimigo.". Fomos adestrados para
nos transformarmos em cães selvagens. Pois, muito bem, tinha chegado o
momento feroz.
Formamos um grupo de oficiais para conversar com o comandante
em nome do coletivo, depois do sepultamento. Queríamos vingança. O
coronel Camargo disse que sim, claro, a reação era necessária e legítima; ele
compartilhava nosso sentimento. Mas achava que era preciso cautela,
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porque operações desse tipo já tinham provocado grandes desastres, no
passado, envolvendo morte de inocentes e crises políticas de proporções
internacionais, com efeitos desastrosos para a imagem da polícia. Preferia
uma solução mais racional — foi a palavra que ele usou, não sou eu quem
está dizendo. Repetiu aquele velho chavão: "Vingança é um prato que se
come frio." E completou, mais ou menos assim: "Não vamos voltar à favela
da Boa Esperança, hoje.
Vamos planejar uma bela operação, que se desdobre no tempo, para
liquidar todo o grupo, um a um, mas com precisão cirúrgica. Somos
guerreiros, não somos açougueiros."
Insistimos, mas não adiantou. Saímos da sala do comandante,
inconformados. Sentamos no alojamento de oficiais. Éramos uns nove ou
dez. Tínhamos de imaginar uma saída. Com que cara iríamos dizer aos
soldados que nada seria feito? Que tínhamos de botar o rabo entre as pernas
e que essa era a coisa sensata a fazer; que isso era racional.
Convocamos a equipe do Juarez e mais alguns homens que estavam
disponíveis. Daríamos um jeito à nossa maneira.
Um de nós tinha um amigo no setor de cautela de armas do Exército.
Conseguimos vinte fuzis, munição, granadas, visores noturnos. Combinamos
nos reunir à meia-noite, numa escola municipal, perto da favela. Fomos à
paisana, com carros descaracterizados. Tive de ameaçar o vigia para que ele
abrisse o portão. Escolhemos uma sala de aula. Gomes abriu o mapa, expôs
a localização habitual dos traficantes. Ele conhecia bem o lugar. Discutimos
um plano de ação. Éramos 24. Designamos o Gomes para comandar a
operação e distribuímos as funções. Invadiríamos a favela com três grupos,
ocupando as principais vias internas. Um quarto grupo subiria o morro
vizinho imitaria a parte superior da Boa Esperança. Em seguida,
pressionaria os vagabundos de cima para baixo, até que caíssem no cerco
armado na área inferior da favela. Vestimos os capuzes e rezamos pela alma
de nosso companheiro morto.
A estratégia e a tática funcionaram à perfeição. Ninguém escapou,
com exceção do assassino do Juarez, que já havia fugido da comunidade,
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justamente por temer a retaliação. Ninguém provoca o BOPE impunemente.
A caveira tem um nome a zelar. Oito marginais foram executados para que
se fizesse justiça.
Descemos a favela em paz, devolvemos as armas e nunca fomos
convocados pela corregedoria da PM para tratar do assunto. Às vezes, o
silêncio e a inércia são inteligentes. Na prática, nunca houve operação
alguma. Nenhuma arma dos policiais do BOPE, mesmo periciada, indicaria
qualquer participação. Nossos rostos não foram vistos. O vigia não ousaria
testemunhar contra nós. Mesmo assim, os vagabundos não tiveram dúvida
sobre quem nós éramos. Eles sempre sabem muito bem quando enfrentam a
caveira. Registramos nos nossos caderninhos o nome do rapaz que escapou.
Os traficantes o denunciaram. Nós o acharíamos, mais cedo ou mais tarde,
onde quer que ele estivesse.
No final da tarde do dia seguinte, coronel Camargo chamou os quatro
oficiais mais ligados ao Juarez para uma conversa em seu gabinete.
Entramos e cumprimos todas as obrigações que a situação exigia: prestamos
continência e permanecemos em posição de senti do diante da mesa do
comandante, que mal notara nossa presença, elevando rapidamente os
olhos, erguendo e abaixando quase imperceptivelmente a cabeça. Na mesa à
sua frente, estavam uns papéis rabiscados, ao lado das medalhas militares e
das fotografias familiares. Parecia um pelotão de fuzilamento, só que, ali,
naquele momento, os sentenciados éramos nós. Por mais que se aprenda a
criticar e a se distanciar das formalidades que a hierarquia impõe; por mais
que, privadamente, sejamos os primeiros a ridicularizar a religião laica que é
a PM, com os seus ritos, o fato é que, diante da autoridade, tudo muda de
figura: quem não tremeria? Você poderia pensar que a causa de meu tremor
não era a hierarquia militar, mas a culpa que sentia pela ação da noite
anterior. Engano seu. Não havia culpa nenhuma. Culpa, por quê? A
memória do Juarez não merecia aquela resposta: A honra da corporação não
valia nada? Culpa eu sentiria se tivesse sido covarde, isso sim.
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— Eu me sinto mal, diante de tudo o que ocorreu. Acho que a culpa
foi minha — disse o coronel, com um fio de voz, num tom que não era o seu,
numa empostação nada habitual.
Tudo bem que houvesse culpa na história, mas não era minha. Isso é
o que eu queria dizer. Quem estava culpado era o coronel.
— Estou me sentindo muito mal — ele repetiu e se levantou da
cadeira. Andou até as estantes, na parede oposta à porta de entrada, e
estancou, de costas para nós. Puxou um livro, abriu, virou a cabeça para
trás em nossa direção e ordenou que ficássemos à vontade. Folheou o livro e
voltou a virar a cabeça.
— Podem se sentar. Sentem-se — apontou o sofá, na lateral da sala, e
as cadeiras diante da mesa. — Não estou bem e... — completou, andando em
nossa direção — quero falar com cada um de mês de homem para homem.
Quem está aqui não é o coronel, muito menos o comandante, é um cristão,
um servo de Deus. Vocês acreditam em Deus?
Os quatro policiais convocados pelo coronel para aquela estranha
visita ao seu gabinete afundamos no sofá e nas cadeiras. O silêncio
prolongado enterrou o gabinete numa atmosfera desconcertante. Tinha a
sensação de que mergulhávamos aquém do nível do mar, rumo ao centro da
Terra. Nenhum de nós ousou responder. Confesso que comecei a ficar muito
mais assustado do que se estivesse recebendo um esporro humilhante ou a
descompostura típica, aquela que se recebe quando se faz uma cagada
irremediável, ainda que estivesse convencido de que não fizéramos nenhuma
cagada. Era lícito vingar um colega executado a sangue-frio por criminosos
sanguinários. Ou não era? Lícito talvez não fosse, mas legítimo era.
— Você — dirigindo-se a mim — acredita? Tem fé?
Quase respondo "obrigado". Sei que não faria sentido. E daí? Nada
estava fazendo sentido. Então gaguejei e balbuciei: Ahn, ahn.
— Ahn, ahn, o quê? O que é ahn; ahn? O que é que isso quer dizer?
Acredita ou não acredita?
Eu disse que sim.
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— Sim, senhor, claro. Por quê?
— Porque o que eu vou contar pra vocês não é coisa desse mundo.
Não se pode entender com a lógica desse mundo.
Aturdido, confuso, atônito, eu quase disse: "Ahn, ahn, claro, muito
obrigado, sim, senhor."
— Por que é que você está me olhando com essa cara? — O coronel
me desafiava. Parecia que ele estava lendo meus pensamentos. Quanto mais
eu me atrapalhava, mais o seu radar seguia minha fuga para o fundo da
Terra.
— Eu, eu sei sim, senhor.
— Sabe o quê, capitão? — voltou a me provocar.
— Nem todas as coisas desse mundo têm razões... desse mundo; quer
dizer, nem tudo é racional.
— Você acredita nos espíritos?
— Sim, senhor.
— Vou repetir: capitão, você acredita nos espíritos?
— Acredito nos espíritos, sim, senhor.
— Muito bem. Alguém duvida? Alguém, aqui nessa sala, duvida dos
espíritos?
Silêncio.
— Tem algum ateu, aqui?
— Não, senhor — respondi.
Acho que minha vontade era só quebrar o silêncio. Tenho uma certa
dificuldade de lidar com o silêncio diante de autoridade — me dá a sensação
de que uma granada vai explodir a qualquer instante na minha cabeça.
Quando me chamava a atenção, meu pai costumava interpretar meu silêncio
como sinal de indiferença e desrespeito. O resultado é que o silêncio
geralmente era sucedido por um cascudo.
Granada na cabeça.
— Não perguntei a você, capitão. Você já tinha respondido. Quero
saber o que pensam seus companheiros.
Felizmente, o capitão Irley não deixou a peteca cair:
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— Não tem nenhum ateu, não, coronel. Todo mundo aqui tem fé em
Deus e crê nos espíritos. Santos nós não somos, coronel, mas posso garantir
ao senhor que ateu ninguém é.
Os outros dois, Paulinho e Miro, balançaram a cabeça, concordando.
Estavam sentados lado a lado no sofá, suando em bicas, com o rabo entre as
pernas e um letreiro na testa: "Fizemos uma cagada."
Mais um pouco, se o coronel insiste um pouco mais, se pressiona
mais um pouquinho, aposto que os dois iam derreter e confessar o pecado
original. Nem parecia que tinham sido treinados no BOPE e aprovados no
teste Charlie-Charlie — a referência, aqui, é CC, sigla que designa "campo de
concentração", sobre o qual você vai ler mais adiante. Fuzilei os dois com
olhos fixos, esperando que seus olhares colassem no meu, franzindo o cenho
para lhes passar a mensagem de que o mínimo que se espera de dois
marmanjos é hombridade.
Se não amarelaram no morro, por que se entregariam ao
comandante? Tão importante quanto vingar o Juarez era respeitar o pacto de
lealdade entre os parceiros. Me deu vontade de sacudir aqueles dois filhos da
puta e gritar: "Porra, caralho!" Encarei o Irley buscando sua cumplicidade,
como quem diz: ninguém merece confiança. Não se pode acreditar em
ninguém.
— Todos acreditam. Que bom. Assim vai ser mais fácil — disse o
Camargo. Andou em volta da mesa com as mãos juntas atrás da cintura,
olhos postos no chão. Parecia pensar, enquanto falava. Falar para ganhar
tempo, enquanto calculava.
— Muito bem — prosseguiu, sentando-se em sua cadeira, atrás da
mesa e nos encarando a todos, um a um. — Eu creio nos espíritos e lhes falo
como um servo. Cumpro uma missão. Missão que exige muita energia e,
sobretudo, humildade.
Baixou a vista, mexeu nos papéis desalinhados, pôs as duas mãos
sobre o tampo da mesa, fechou os olhos, voltou a abri-los e continuou:
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— Há muitos anos eu faço um trabalho religioso, fora daqui. Não
trago para o quartel minha vida privada. Não confundo a carreira na polícia
militar com as minhas coisas pessoais, muito menos com as experiências
espirituais. Sou médium. O Camargo é médium. Trabalho no centro Luz do
Mundo. Vou lá com minha família. Quem dá passe, psicografa, recebe as
entidades, não é o coronel, não é o comandante do BOPE. Quem psicografa é
o Camargo, estão entendendo?
— Sim, senhor — me apressei a devolvê-lo à sua narrativa para
evitar outro interrogatório. Eu estava aliviado. Quem estava confessando era
ele.
— Então, vocês vão compreender que, agora, é o Camargo quem
precisa lhes dizer uma coisa. Não é o coronel, é o homem, o servo de Deus, o
sujeito que carrega nas costas a cruz de uma missão.
Respirou, hesitou, olhou o tampo da mesa, misturou ou organizou a
papelada, voltou a nos encarar, um a um, e prosseguiu:
— Essa noite não consegui dormir. Não preguei os olhos. Virava na
cama, pra cá e pra lá. Minha mulher estranhou, porque eu durmo feito uma
pedra. Nunca tive insônia. Não sou sujeito de ter insônia, vocês
compreendem? Fui pra sala. Acendi o abajur. Não me sentia bem. De início,
pensei que fosse coração, mas não quis preocupar minha mulher. Ela acorda
cedo, mais cedo do que eu pra cuidar do neto. Fui percebendo que não era
nada físico. Peguei um copo d'água, bebi e senti que o que eu tinha era uma
puta angústia.
Tanto que a água lavou o mal-estar. Quando percebi que a água era o
remédio, deduzi que o problema não era desse mundo. Era espiritual,
entendem? Algum de vocês é kardecista?
Antes que eu preenchesse o vazio com alguma bobagem, o Irley que
seu padrinho era leitor assíduo do Chico Xavier, mas o coronel não ouviu.
Acho que não ouviu, porque continuou falando:
— O kardecismo é uma ciência. Uma ciência cristã, entenderam?
Claro que tem aspectos religiosos, mas não deixa de ser uma ciência. Não
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tem nada a ver com aquelas maluquices da macumba. O espiritualismo é
muito exigente. A gente tem de se preparar, estudar, não é pra qualquer
ignorante, não.
— O meu padrinho também dizia isso — o Irley insistia com a
história do padrinho, mas o coronel não estava nem um pouco interessado
na cultura científica da família de meu colega. Foi logo atropelando os
comentários do Irley:
— Bebi um segundo copo d'água e os canais se abriram. Sentei à
mesa da sala com lápis e papel, apertei os olhos, pus a mão direita nos
olhos, vocês sabem que sou canhoto... e comecei a rabiscar, escrever,
escrever. Quando a gente recebe...
— Meu padrinho leu pra mim o Nosso Lar, do espírito André Luiz,
que o Chico Xavier psicografou — interveio de novo o Irley, cada vez mais
íntimo do coronel.
— Pois é, o Nosso Lar foi a primeira grande obra... A gente não sabe o
que escreve, não vê a mensagem que o espírito transmite. É o espírito que
escreve com as mãos humanas. Por isso se diz que quem escreve é o
médium.
— O meio — era o Irley, de novo, pontuando o comandante.
— O meio, exatamente. Quando recuperei a consciência, vocês sabem
o que encontrei? Sabem o que eu li? Têm idéia de quem era a mensagem?
Camargo não esperou a resposta do Irley:
— Do Juarez.
Confesso que, naquele momento, senti um frio na espinha e não
consegui dizer nada para quebrar o gelo. O Irley também se rendeu Por isso,
coube ao próprio Camargo romper o silêncio:
— Do Juarez, sim, senhores, do Juarez.
Depois de olhar para cada um de nós, o comandante leu mensagem.
Confesso que nunca me senti bem com essas coisas Senti a gravitação do
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planeta puxando a sala para baixo. É um modo de dizer que tive de apertar o
braço da cadeira e trincar os dentes para controlar uma vontade doida que
me deu de desaparecer dali. O Juarez, com palavras bem suas, o seu jeitão
típico de falar, pedia aos colegas que não se vingassem por sua morte, que
uma desgraça só já bastava, que não era isso que ele desejava, que nós, por
favor, fôssemos dormir, esfriar a cabeça, que nós orássemos por ele e
apoiássemos sua mulher e seus filhos. E que não acrescentássemos outros
cadáveres à história dele.
— Fiz questão de ler pra vocês, porque, no fundo — prosseguiu o
coronel —, a mensagem é dirigida a vocês, oficiais que ele admirava, aos
quais ele sempre foi fiel, nos quais sempre confiou. Senti que era minha
obrigação servir de ponte entre ele, onde quer que esteja, e cada um de
vocês. Vamos fazer uma oração à alma de nosso irmão, Juarez.
Coronel Camargo pôs-se de pé. Eu, Irley, Paulinho e Miro saltamos,
despertando de uma espécie de torpor. O comandante disse umas palavras.
Nós fechamos os olhos e abaixamos a cabeça. Repetimos "amém", no final,
em voz alta. Ele nos pediu que refletíssemos mil vezes naquela mensagem,
antes de tomarmos qualquer medida impensada. E completou: a melhor
homenagem à memória do Juarez será respeitar o seu desejo.
— Vou fazer uma visita à viúva, ainda hoje, mas não vou dizer nada a
ela sobre essa mensagem. É melhor que isso fique só entre nós. Confio em
vocês. Podem ir.
Camargo fez questão de estender a mão a cada um, como se
precisasse selar um pacto entre nós.
Saímos do gabinete em silêncio. No corredor, caminhamos de cabeça
baixa. Ninguém conseguia dizer nada. Nunca falamos do assunto. Eu nunca
conversei sobre isso com ninguém. Procurei esquecer. Era como se
precisasse sepultar o encontro, a psicografia, a mensagem, o gabinete do
coronel, talvez porque tudo aquilo tivera o efeito de ressuscitar o Juarez,
cuja palavra não parou mais de me assombrar.
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