quinta-feira, 8 de maio de 2008

Eu sou a Lenda - capitulo 15

III - Junho de 1978
Capítulo 15
Havia saído para caçar Cortman. Este era agora seu principal entretenimento, uma das
poucas diversões. Nos dias em que podia deixar o bairro, e não havia reparações
urgentes na casa, Neville procurava desesperadamente. debaixo dos carros, nos
matagais, nas chaminés, nos armários, sob as camas, nas geladeiras. Em qualquer lugar
onde um homem pudesse esconder-se.
Ben Cortman podia ser achado em qualquer um desses lugares, em um momento ou
outro. Neville acreditava que Cortman trocava de esconderijo continuamente. Sentia,
também, que amava o perigo. Se a frase não tivesse sido um contra-senso, poderia dizer
que Cortman gozava da vida. Até havia chegado a pensar que agora era mais feliz que
nunca.
Neville se dirigiu pausadamente para uma casa da Boulevard Compton. Era uma manhã
como outra qualquer. Cortman não aparecia, embora não podia esconder-se muito
longe. Pois sempre era o primeiro a chegar.
Enquanto avançava com passos rápidos, pensou outra vez o que faria se o encontrasse.
Seu plano era o de sempre: eliminação imediata. Mas não seria fácil. Oh, não sentia mais o
mínimo afeto por Cortman. Nem sequer representava, para ele, uma parte do passado.
Porque o passado estava morto, e ele, Neville, tinha assumido essa morte.
Não, não se tratava disso. Possivelmente, pensou, não desejava terminar aquela
atividade recreativa. Outros eram criaturas inanimadas. Ben, pelo menos, tinha
mais imaginação. Podia ser, arriscava Neville, que Cortman tivesse nascido para ser
vampiro e seguir vivo depois de morto. Com estes pensamentos ficou sorrindo.
Em um alpendre próximo se sentou emitindo um grunhido. Logo tirou lentamente o
cachimbo, e preguiçosamente o encheu de tabaco. Pouco depois uns fios de fumaça
flutuavam no ar quente e tranqüilo.
Nesta época Neville havia se convertido em um homem mais corpulento e mais sereno.
A vida tranqüila de ermitão o havia feito ganhar alguns quilos, e agora pesava mais de
noventa. Seu rosto havia arredondado; o corpo —sob as roupas largas— era forte e
musculoso. Já fazia um tempo que havia deixado de barbear-se. Só de vez em quando
aparava a barba espessa e loira. Estava com o cabelo comprido e solto.
Contrastando com a escura cor morena do rosto, seus olhos azuis pareciam mais serenos
e claros.
Apoiou as costas no degrau de tijolos, jogando umas lentas baforadas de fumaça.
Naquele campo de em frente, no outro lado, ainda se conservava uma depressão onde
havia enterrado Virginia, e aonde ela havia se desenterrado. Mas esta lembrança não
entristecia Neville. Havia se amenizado. O tempo tinha perdido sua projeção de
passado e futuro. Havia só o presente. Uma luta cotidiana sem topos de alegria nem
profundidades de desespero. Sou fundamentalmente vegetativo, pensava freqüentemente
de si mesmo. E por isso lutava.
Permaneceu ali um momento, olhando uma mancha branca no meio do campo. de
repente, percebeu que se movia.
Piscou. Os músculos ficaram rígidos. Um som de dúvida lhe saiu da garganta.
Logo, erguendo-se, elevou a mão esquerda para evitar o ofuscamento do sol.
Mordeu convulsivamente o extremo do cachimbo. Uma mulher.
Abriu a boca e o cachimbo caiu ao chão, mas não se incomodou em recolhê-lo. Durante
um extenso momento ficou ali, de pé no alpendre, olhando.
Fechou os olhos, voltou-os a abrir. Todavia continuava ali. Sentiu que o coração lhe
golpeava o peito.
A mulher não o tinha visto. Cruzava o campo com a cabeça baixa. Neville conseguia
distinguir os cabelos avermelhados, que se moviam com a brisa, os braços que caíam
frouxamente aos lados. Piscou outra vez, imóvel. Era uma visão tão incrível, depois de três
anos. Não podia acreditar.
Uma mulher. Viva. Sob a luz do sol.
Olhou-a, boquiaberto. Estava mais perto e via-se que era jovem. Não teria muito
mais de vinte anos. Levava um vestido branco, enrugado e sujo. A pele era morena, o
cabelo avermelhado.
—Estou ficando louco... As palavras surgiram espontaneamente.
Levava tempo para se recompor de uma alucinação semelhante. O homem que morre
de sede vê um lago em uma miragem.
Por que um homem que deseja desesperadamente uma companhia não tem que ver
uma mulher que caminha sob o sol?
Neville moveu a cabeça de um lado a outro. Não, não era isso. Podia ouvir até suas
pegadas.
A mulher não era uma miragem. O movimento de seu cabelo, o dos braços. Seguia
olhando o chão. Quem era? Aonde ia? Onde tinha estado?
Deixou de fazer perguntas. Algum instinto saltou por um instante as barreiras defensivas
levantadas pelo tempo.
Levantou o braço esquerdo.
—Ei! —gritou, dando um salto para a calçada—. Ei! Ei!
Um instante de silêncio, repentino e absoluto. A mulher levantou a cabeça e ambos se
olharam.
Neville queria gritar outra vez, mas não lhe saía a voz, ficou com a mente em branco.
Uma mulher viva. A palavra se repetia a si mesmo como um eco. Viva, viva, viva...
Girando rapidamente, a mulher pôs-se a correr através do campo.
Durante um instante, Neville não soube o que fazer. Ao fim sentiu que o coração lhe
sufocava e se lançou à rua. Suas pesadas botas golpearam o pavimento.
—Espere! —gritou.
A mulher seguiu correndo. Neville viu como saltava afastando-se pelo terreno irregular.
E de repente se deu conta, compreendeu que não poderia detê-la com palavras. Pensou
em sua própria estupefação ao vê-la. Como ela devia ter se surpreendido ao ouvir aquela
chamada no silêncio e ver aquele homem barbudo gesticulando!
Neville saltou à outra calçada e correu. Estava viva! Não podia acreditar. Viva. Uma
mulher viva!
A mulher não podia correr tão depressa como ele. Neville logo chegou perto. Ela o olhou
aterrorizada.
—Não lhe farei mal! —gritou Neville, correndo. De repente a mulher tropeçou e
caiu de joelhos. Virou o rosto e Neville viu uma vez mais aquela expressão de terror.
—Não lhe farei mal! —gritou de novo.
A mulher se levantou de um salto e correu.
Não se ouvia mais som que o dos sapatos dela e as botas de Neville. Ele
começou a saltar sobre o mato, ganhando terreno. O vestido da mulher se enredava entre
as plantas.
—Pare! —gritou Neville, embora temia que ela não o escutaria.
Não o escutou. Correu mais depressa ainda, apertando os lábios. Neville fez um esforço
e correu ainda mais, em linha reta. A mulher corria em zigue-zague, com o cabelo ao
vento.
Neville já estava tão próximo que podia ouvir a respiração agitada da mulher. Não queria
assustá-la, mas tampouco podia perdê-la. Não havia nada no mundo, exceto ela. Tinha
que alcançá-la.
Outra vez o campo aberto. Os dois ofegavam. A mulher se voltou e Neville viu o terror
desenhado em seu rosto: um homem alto e barbudo, de olhos decididos, perseguindo-a.
Mas ao fim alcançou-lhe. Estirou a mão e agarrou-a pelo ombro.
Sufocando um grito, a mulher se retorceu e se cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu de
lado. Neville deu um salto e tentou ajudá-la. Ela retrocedeu, arrastando-se, e tratou
de ficar de pé, mas esta vez caiu de costas.
—Tome —ofegou Neville, lhe estendendo uma mão. A mulher afastou a mão de
Neville bruscamente e lutou para levantar-se. Neville a pegou pelo braço, mas a outra mão
caiu sobre ele e suas afiadas unhas lhe cruzaram toda a testa e a têmpora direita. Neville
gemeu e soltou o braço e ela se voltou rapidamente e pôs-se a correr de novo.
Neville saltou e a agarrou pelos ombros.
—Não tema nada, por favor...
Não pôde terminar a frase. A mão da mulher lhe tapou a boca, e se ouviu somente um
arquejo e uma luta e os pés que escorregavam no chão, sobre as ervas.
—Basta! —gritou Neville enfurecido, mas ela não se importou.
Saltou para trás, e a mão fechada de Neville rasgou-lhe o vestido, deixando descoberto
um ombro. A mulher quis arranhá-lo de novo, mas Neville a conteve pelos pulsos,
enquanto recebia um pontapé no tornozelo.
—Maldita seja!
Furioso, esbofeteou-a. A mulher baixou a cabeça e o olhou aturdida. De repente
desatou-se a chorar. Ficou-se de joelhos e cobriu a cabeça com os braços, como que
protegendo-se de outros golpes.
Neville olhou ofegando a postura retorcida. Piscou e suspirou.
—Levante-se —disse—. Não lhe farei mal!
A mulher não levantou nem a cabeça. Neville a olhou confundido. Não sabia como lhe
falar.
—Disse que não lhe farei mal —repetiu.
Ela o olhou então, mas se moveu para trás, como se o rosto de Neville a assustasse.
Ficou assim, olhando-o atemorizada.
—Por que tem medo?
Neville não reparou que a sua voz era dura e estéril; a voz de um homem que perdeu
todo o contato humano. Não emanava amabilidade de nenhuma espécie.
Deu um passo adiante e a mulher tornou a retroceder, gemendo. Neville lhe voltou a
oferecer a mão.
—Tome, levante se.
A moça se levantou lentamente, mas sem sua ajuda. De repente percebeu a
nudez de seu peito e se cobriu com o tecido rasgado.
Passaram um momento se olhando, recuperando o fôlego com dificuldade. E agora que
havia superado o primeiro contato, Neville não sabia o que dizer. Havia sonhado
esta cena durante anos. Mas seus sonhos não se pareciam com isto.
—Como... como se chama? —perguntou.
A moça não podia falar. Olhava fixamente Neville, tremendo os lábios.
—E então? —exclamou Neville, e ela se estremeceu.
—R-Ruth —titubeou.
Neville sentiu uma descarga que lhe corria por todo o corpo. A voz da mulher o havia
afrouxado. Qualquer pergunta agora era inútil. Sentia vontade de chorar.
Estendeu uma mão, quase sem dar-se conta. O ombro tremeu sob sua palma.
—Ruth —disse Neville com uma voz inexpressiva. Sentiu um nó na garganta.
—Ruth —repetiu.
Os dois ficaram se olhando no meio do campo, aberto e quente.

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