Não sou comédia, quero que você saiba. O caso do Tuiuti é interessante.
Quer dizer, é útil para você me conhecer um pouco melhor. E conhecer
minha turma do BOPE. A história anterior pode induzir a erro. Sobretudo
porque, hoje em dia, a gente fala em polícia todo mundo pensa logo em
zorra, bateção de cabeça e corrupção. O episódio da lixeira acaba soando
meio ambíguo e você pode ter tido com a impressão de que, se os pais dos
viciados aparecessem, eu e meus colegas teríamos cobrado propina para
liberá-los. Vou deixar claro desde já: isso não existe no BOPE e nunca
existiu. Na verdade, houve um caso ou outro, mas os próprios companheiros
deram um jeito de expulsar os responsáveis, antes que nossa honra fosse
conspurcada.
Porrada em vagabundo, execução de marginal, esse departamento é
com a gente mesmo. Mas não tem negócio, não. Conosco não existe essa
coisa de arrego. É engraçado — engraçado e triste ao mesmo tempo — que
até a linguagem dos bandidos e dos policiais corruptos vai ficando cada vez
mais parecida. No final, a gente vai ciliar mais de perto, o dinheiro é um só,
a motivação é a mesma e tudo acaba sendo um único embrulho: a polícia
vende as armas para os traficantes, vai buscá-las no morro para o
espetáculo das exibições políticas na mídia. No dia seguinte, devolve todas
elas e ainda cobra uma taxa aos traficantes. Essas armas são usadas contra
a própria polícia, mas essa cambada não está nem aí para as conseqüências.
18
No dia a dia, se o BOPE não age, a turma da boquinha dos batalhões
negocia um percentual da venda do tóxico e faz arrecadação diária. De vez
em quando, alguém rompe o acordo e o tiroteio come solto. Por isso mesmo,
é importante que eu seja inteiramente transparente, para que você separe o
joio do trigo. Com o BOPE não tem acerto, não tem negócio. E não é para me
gabar não, mas nós somos a melhor tropa de guerra urbana do mundo, a
mais técnica, a mais bem preparada, a mais forte. Não sou eu quem está
dizendo; os israelenses vêm aqui, aprender com a gente; os americanos,
também. Essa qualidade se deve a muitos fatores, um dos quais é o
seguinte: em nenhum lugar do mundo se pode praticar todos os dias.
Somos uns 150 homens, aproximadamente. Sempre que se quis
aumentar esse número, deu merda. Não é fácil ingressar no BOPE. Isso eu
posso garantir. Não é para qualquer um. Temos um puta orgulho do
uniforme preto e do nosso símbolo: a faca cravada na caveira. Os marginais
tremem diante de nós. Não vou iludir você: com os marginais, não tem
apelação. A noite, por exemplo, não fazemos prisioneiros. Nas incursões
noturnas, se toparmos com vagabundo, ele vai pra vala. Sei que essa política
não foi correta. Agora, não tem mais jeito. A gente mata ou morre. Antes da
implantação dessa política, há muitos anos, o marginal se rendia, quando se
via inferiorizado. A ordem de atirar para matar, não admitindo rendição de
bandido, acabou provocando um efeito paradoxal: aumentou a resistência
deles e a violência contra a polícia. Claro, o sujeito sabe que não adianta se
render, então luta até a morte. Pelo menos adia a morte e leva alguém junto.
Com isso, cresceu muito o número dos autos de resistência seguidos
de morte, que são os registros das mortes de civis em confrontos com a
polícia. Por outro lado, multiplicaram-se os assassinatos cometidos contra
policiais. Por vingança. Essa espécie de vingança ainda mais doentia,
dirigida a toda uma corporação. Espelho da vingança que nós mesmos
praticávamos, às vezes contra uma favela inteira. O sangue é um veneno.
Quanto mais se derrama, mais fertiliza o ódio. E a roda não pára de girar. No
final, todos pagamos a conta, a começar pela sociedade. Foi uma insanidade,
aquela política. E agora? Os herdeiros da loucura somos nós. O jeito é atirar
19
mais rápido para não morrer. Os políticos e os acadêmicos que discutam o
sexo dos anjos.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário