sexta-feira, 9 de maio de 2008

Eu sou a Lenda - Capitulo 8

Capítulo 8
Neville se agachou e pegou um punhado de terra. Deixou-a escapar por entre os dedos,
desfazendo os negros torrões. Quantos, perguntava-se, dormem na terra, como diz a
lenda?
Alguns.
Então, que percentagem da lenda era realidade?
Com os olhos fechados, soltou lentamente a terra escura. Existia alguma resposta? Se
pelo menos tivesse a certeza dos que dormiam na terra, tinham retornado da morte,
poderia elaborar alguma teoria.
Mas não sabia. Outro problema insolúvel. Como o que se tinha deparado na noite
anterior.
Como reagiria um vampiro maometano diante da visão de uma cruz?
Surpreendeu-se ao ouvir sua própria risada: um rouco latido na manhã silenciosa. Meu
Deus, pensou, faz tempo que não rio. Já tinha esquecido. Recordava a tosse de um cão
doente. Bom, isso é o que sou agora, ao fim e ao cabo: Um cão muito doente.
Houve um princípio de tormenta por volta das quatro da manhã, e as lembranças
voltaram para sua memória. Virginia, Kathy, aqueles horríveis dias.
Tratou de distrair-se. Era perigoso. Pensar no passado era terminar bebendo.
Embora não se explicava por quê havia sobrevivido. Provavelmente, pensou, não há um
motivo concreto. Estou muito aturdido para acabar com tudo.
Bom... Juntou as mãos como se por fim tivesse decidido algo. O que faria agora?
Olhou ao redor como se acontecesse algo interessante na rua silenciosa.
Muito bem, decidiu impulsivamente, verei se o truque da água dá resultado.
Escondeu uma mangueira em uma sarjeta e levou-a assim até uma mesa de madeira.
A água passava pela mesa, passava por outro buraco a uma segunda mangueira, e
chegava ao subsolo.
Quando finalizou a tarefa, entrou e tomou uma ducha. Em seguida se barbeou e tirou a
atadura da mão. A ferida havia cicatrizado bem. Mas isto não lhe tirava o sono. O tempo
tinha demonstrado que estava imunizado.
Às seis e vinte se instalou na sala, frente ao buraco. No momento se espreguiçava;
doíam-lhe todos os músculos. Serviu-se um uísque.
Quando se aproximou do buraco, Ben Cortman já cruzava a grama.
—Saia, Neville —rosnou Neville, e Cortman, como se lhe ouvisse, devolveu-lhe as
mesmas palavras em um grito.
Neville continuou ali, imóvel, observando Cortman.
Em geral, não havia mudado muito de aspecto. Tinha o cabelo ainda preto, seguia
sendo corpulento e com o rosto pálido. Mas agora levava barba e um grosso
bigode. Esta era a diferença fundamental. Antes, quando lhe esperava para irem juntos à
fábrica, Ben estava sempre perfeitamente barbeado e cheirava a colônia.
Parecia estranho vê-lo agora: um Ben completamente desconhecido. Em outro
tempo tinha conversado com aquele homem, ido com ele ao trabalho, comentando as
partidas de beisebol ou os assuntos políticos, e depois da enfermidade e de como
estavam Virginia e Kathy, de como estava Freda Cortman, e...
Neville sacudiu a cabeça. Era inútil seguir com isso. O passado estava tão longe como o
verdadeiro Cortman.
Sacudiu novamente a cabeça. O mundo está no avesso, pensou. Os mortos caminham
pelas ruas, e isso não me surpreende. O retorno dos cadáveres se converteu em algo
cotidiano. Com que rapidez se aceita o incrível, se você o vê com freqüência!
Tragou um pouco de uísque e tratou de pensar a quem se parecia Cortman. Durante um
tempo esteve convencido de que Cortman recordava alguém, mas não sabia a quem.
Encolheu-se de ombros. Que importância tinha isso?
Deixou o copo no chão e foi à cozinha para abrir a torneira da água. Quando voltou a
vigiar pelo buraco viu outro homem e uma mulher na grama. Nunca falavam entre si.
Davam voltas e voltas, infatigavelmente, como se tratassem de lobos, sem cruzar jamais
um olhar, os olhos famintos cravados na casa e na presa que havia dentro.
De repente Cortman viu a água que corria pela mesa e ficou olhando-a. Depois de um
momento levantou a cara e sorriu mostrando os dentes.
Neville ficou rígido.
Cortman saltava de um lado ao outro da mesa. Neville sentiu um nó na garganta.
O bastardo sabia!
Caminhou depressa até o dormitório e tremendo pegou as pistolas da gaveta da
cômoda.
Cortman estava pisoteando as bordas da mesa quando a bala o feriu no ombro direito.
Retrocedeu cambaleando e caiu no cimento, com as pernas para cima. Neville
voltou a disparar e a bala deu contra a calçada a uns centímetros de seu corpo.
Cortman se levantou grunhindo e a terceira bala lhe alcançou o peito.
Neville, com a fumaça acre da pistola ainda no ambiente, tornou a olhar. A
mulher apareceu então diante de Cortman e começou a levantar a saia.
Neville fechou o buraco. Não queria ver isso. Havia bastado um segundo para sentir
aquela dor ardente em seu interior.
Ao cabo de um momento voltou a olhar e Cortman estava passeando, chamando-o.
E, sob a luz da lua, de repente recordou a quem se parecia Cortman.
Meu Deus, era como Oliver Hardy!. Dos dois curtas-metragens que tinha passado em
seu projetor. Cortman era o eco morto do grande cômico. Um pouco mais magro, somente.
Até o bigode era igual.
Oliver Hardy caindo de costas sob o impacto das balas. Oliver Hardy voltando sempre
por outra ração, não importava o que ocorresse. Furado pelas balas, cravado por facas,
esmagado por automóveis, chocando-se contra paredes, afundando no mar,
passando por chaminés. E voltando sempre, paciente e arroxeado. Isso era Ben
Cortman. Um maligno e detestável Oliver Hardy aporreado e resistente.
Meu Deus! Não podia parar de rir. Mais que a vontade de rir, isso era um alívio, uma
saída. As lágrimas lhe rodavam pelas bochechas. Com as sacudidas o copo se derramou e
o líquido molhou-lhe de acima a abaixo, lhe provocando ainda mais risada. O copo por
fim caiu no tapete, e Neville também, retorcendo-se com espasmos de incontida
diversão. A risada incessante encheu a sala.
Mais tarde foi o pranto.
Introduziu a estaca no estômago, no ombro. No pescoço com uma só martelada.
Nos braços e pernas, e sempre acontecia o mesmo: a carne branca ficava coberta pelo
sangue vermelho.
Acreditava ter encontrado a solução. Tinha que sangrá-los: uma hemorragia.
Mas logo, quando encontrou a mulher na casinha branca e verde, e lhe cravou a estaca,
a decomposição foi tão rápida que teve que fugir, e já não pôde provar o seu café da
manhã.
Quando se recuperou, e se atreveu a voltar, só encontrou sobre a colcha uma linha de
algo parecido com sal e pimenta, uma linha tão larga como o corpo. Nunca tinha visto
nada parecido.
Abalado pela cena, saiu devagarzinho da casa e se sentou no carro durante uma hora,
bebendo até esvaziar a garrafa. Mas nem sequer o álcool podia apagar aquela
impressão.
Havia sido tudo tão rápido... A martelada ainda lhe soava nos ouvidos, e a mulher já não
era mais que uma linha.
Recordou um bate-papo com um negro, na fábrica. O homem conhecia o assunto e
havia falado de mausoléus e de gente metida em caixões herméticos, onde se
conservavam com a mesma aparência de sempre.
—Mas deixe entrar um pouco de ar —tinha dito o negro—, e Bum!, transformamse
em uma linha de sal e pimenta. Assim fácil. —E o negro fazia estalar os dedos.
A mulher, pois, estava á muito tempo morta. Possivelmente, lhe ocorreu, era um dos
vampiros originários da praga. Só Deus sabia quanto tempo tinha escapado da morte.
Neville se sentiu muito deprimido, e nesse dia, e nos seguintes, não fez nada.
Ficou em casa, bebendo e tratando de esquecer, e deixou que os corpos se empilhassem
no mato, e na frente da casa, sem se importar.
Durante vários dias, sentado na poltrona, com o copo na mão, pensou em sua mulher. E
não importava a quantidade de álcool ingerida. Continuava pensando em sua mulher. Viase
a si mesmo entrando na cripta, levantando a tampa do ataúde.
Pensou que algo estava destruindo-se nele. Sentia-se tão paralisado, tão sereno e tão
frio. Só isso ficaria dela?

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