quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da Tropa - Sexo é Sexo

Quero dizer o seguinte: sexo, pra mim, é homem com mulher. Tem cara
que curte transar com várias mulheres ao mesmo tempo. Isso também
existe. Deve ter mulher que prefira o contrário: vários homens ao mesmo
tempo. Tudo bem. Problema dela e dos homens dela. Não sou nenhuma
freirinha do Sion. Sei de tudo. Sei que o homossexualismo é parte da
natureza humana. Não é a minha, mas não condeno ninguém por sua opção
sexual. É uma coisa íntima. Entre quatro paredes, tudo é permitido, desde
que seja mutuamente consentido. Não vou fazer nenhum discurso moralista
sobre isso. Até porque, pelo que tenho visto, os arautos da moral e dos bons
costumes são os piores.
Estou dizendo tudo isso por uma razão muito simples: quando o
tenente Santiago empalou um vagabundo do Andaraí com uma vassoura pra
ele confessar onde estavam as armas, não estava promovendo uma cena de
sexo, como muita gente boa da polícia andou dizendo por aí. Não era sexo.
Sei lá o que era, mas sexo não era. Aliás, o cara acabou dando as armas. De
qualquer modo, acho que o Santiago tinha mesmo uma certa vocação para
diretor de filme pornô, um negócio meio perverso: antes de empalar o
gerente, ele cercou a boca de fumo e prendeu todo mundo: fogueteiros,
aviõezinhos, viciados... Todo mundo. Depois, mandou os rapazes baixarem
as calças e determinou que as meninas fizessem boquete em todos eles.
Montou uma verdadeira coreografia devassa.
A garotada toda em fila, ombro contra ombro, calça arriada. As
garotas foram postas de frente para eles, numa linha paralela. Três, quatro
metros de distância entre um gênero e outro. Olhos nos olhos. Tudo muito
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severo, metódico, simétrico e disciplinado, Elas tiveram de baixar as alças
dos vestidos ou arregaçar as blusas para exibir os peitinhos. Algumas foram
sorteadas para a tarefa ingrata. Se você pensou que as escolhidas, por uma
incrível coincidência, foram as meninas da favela, acertou. As patricinhas
brancas foram poupadas. Só tiveram de assistir. Cabe a você deduzir se
houve racismo ou pragmatismo. Ou os dois. Não se brinca com filhinhas de
classe média, impunemente. E tem mais. Santiago avisou: os meninos que
não ficassem de pau duro iriam entrar na porrada e, ainda por cima, seriam
autuados.
Não sei se ele quis inventar, punindo a turma com a pena moral
máxima, que é a humilhação, e jogando com as variações do significado da
palavra boca. O fato é que deu a maior merda. Ele foi acusado pelos próprios
colegas, os oficiais ficaram furiosos, os policiais ficaram indignados. Não pelo
rapaz empalado. Isso parecia parte da operação policial. Heterodoxa, mas
policial, porque o fim visado não era o prazer. O objetivo era prático e o
sofrimento era um método. Mas a sacanagem escrachada, com humilhação e
sexo forçado, era demais. Não sou eu quem está dizendo. Como já afirmei
antes, não julgo, avalio, denuncio ou critico, nem a mim nem aos outros.
Minha missão é relatar o que aconteceu. É uma espécie de trabalho de parto.
Só que, nesse caso, é a verdade que se dá à luz. Posta no mundo, cada um
que lide com ela como quiser.
O ambiente era de revolta generalizada contra o Santiago. Ainda que
ninguém tivesse tomado nenhuma atitude formal contra ele, havia uma
tensão no ar, um clima de constrangimento. Nada mais. Pelo menos até o
capítulo seguinte, que começou com a visita de três líderes da comunidade
ao batalhão. Eles queriam formalizar uma denúncia na corregedoria. Como
sempre acontece, a notícia ecoou pelos corredores em alta velocidade. O
Santiago logo ficou sabendo. Para se certificar, tirou o nome do uniforme e
foi à ante-sala da corregedoria. Entrou como quem não quer nada e
perguntou aos três se estavam esperando atendimento para uma denúncia.
Eles disseram que sim. Santiago encarou cada um dos três e respondeu com
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frieza profissional, como se fosse o anfitrião, pedindo que aguardassem mais
um pouco. O oficial encarregado os receberia em alguns minutos.
Saiu do batalhão e postou-se na primeira esquina, em um recuo do
terreno, no final do longo muro que cercava a velha construção policial. Uma
hora depois, passaram pela esquina os três homens do Andaraí. Um deles
era mais alto e caminhava mais devagar. Ia um pouco atrás dos outros. Foi
na cabeça desse último que Santiago acertou o tiro fatal. Avisou aos
sobreviventes que, da próxima vez, não os pouparia e voltou caminhando
para o batalhão. O clima, que já não estava bom, azedou, e o comandante
decidiu punir o Santiago, exemplarmente, como gostam de proclamar as
autoridades, quando não sabem o que dizer e o que fazer.
Santiago foi chamado ao gabinete do coronel.
A relação entre os dois nunca fora das melhores. Essa é uma longa
história, que começara um ano antes, quando Santiago chegou ao batalhão,
transferido para a capital por conta de uma briga com o prefeito e outras
autoridades municipais. Eu o conhecia porque ele tentara entrar para o
BOPE três vezes e estava sempre se voluntariando para operações que
envolviam algum tipo de cooperação entre os convencionais e os caveiras.
Ele foi reprovado as três vezes no teste de altura. Depois eu conto essa
história.
No interior, cidade pequena, ele, tenente novinho, virgem, cheio de
amor pra dar, orgulhoso da farda que vestia e do poder que encarnava,
centro das atenções femininas, ainda com grandes ilusões sobre a polícia e o
sacrossanto combate ao crime, teve o azar de abalroar um apontador do
bicho, que fazia anotações, apoiado na mala de uma viatura,
ostensivamente.
Santiago sabia que esse era um tema delicado, em qualquer latitude
do estado, especialmente nas cidades menores, mas não via saída. Era bola
ou búlica; tudo ou nada. Não poderia permitir aquela arrogância
despudorada do brutamontes debruçado sobre o carro policial, em plena luz
do dia, sob pena de perder toda sua autoridade.
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— O que é que você está fazendo? Me passe esses papéis. E seus
documentos. Quero ver seus documentos.
O sujeito não se mexeu. Levantou os olhos do papel, olhou o jovem
tenente de alto a baixo, e continuou anotando.
— Será que eu vou precisar tomar outras providências? Não falei
claro? Sai daí imediatamente e me passa os documentos.
— Trabalho para o Eliseu. Sou homem do Eliseu. Se você é novo na
cidade, é melhor se informar direitinho pra não fazer besteira.
— Não me interessa saber pra quem você trabalha. Você não
percebeu que está falando com um policial?
— Vai te foder, garoto. Meu chefe manda no teu. Se teu negócio é
grana, está agindo errado. O esquema aqui é diferente. Tu não leva nada
não. Eliseu não gosta de varejo. Está tudo acertado com teu chefe. Você se
entenda lá cora ele. E não enche o saco, se não quiser acordar com a boca
cheia de formiga.
Virou-se de costas e voltou às anotações.
Santiago chutou a banquinha e a cadeira que estavam na calçada, e
deu uma porrada com o cacetete nos joelhos do infeliz, que desabou sem
tempo de reagir. Encostou a arma na cabeça do bicheiro e deixou claro quem
é que mandava naquela merda:
— Tá preso, filho da puta. Desacato.
Algemou o sujeito, recolheu as provas, enfiou o malandro na viatura
e o despejou na delegacia.
No dia seguinte, ordenou a prisão de todos os apontadores do bicho
da circunscrição sob sua responsabilidade.
Como ele já esperava, o comandante do batalhão local o chamou para
uma conversa:
— Você compreende, Santiago. As coisas no interior são diferentes.
— Pelo que estou vendo, coronel, não parecem ser muito diferentes,
não.
— São sim, tenente. É que você ainda não se ambientou, ainda não
conheceu as regras do lugar. Aqui, a política é um pouco diferente. Você vai
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logo compreender. Esse pessoalzinho miúdo, da contravenção, não faz
nenhum mal à cidade. Na cultura local, eles são respeitados, dão sua
contribuição, são ordeiros. De certa forma, indiretamente, pagam seus
impostos. Para que você tenha uma idéia, ao contrário do que acontece na
capital e nas cidades maiores, eles não querem saber de maquininhas caçaníqueis,
nem de drogas ou prostituição de menores. Os apontadores, muitos
deles são egressos, ex-apenados, estão aí, fazendo seu trabalho
honestamente, tentando sobreviver. O que é que nós deveríamos fazer?
Empurrá-los de volta para o crime? Fechar portas? Quem se beneficiaria
com isso?
— Quando o senhor diz que, de certa forma, eles pagam seus
impostos, o senhor quer dizer que esta forma é aquela mesma em que eu
estou pensando?
— Tenente, não posso saber em que você está pensando, só posso lhe
dizer que sua atitude não está contribuindo para a ordem pública.
— Coronel, se o senhor quer saber, eu nem tinha a intenção de
prender o sujeito. Por mim, não quero problema, não quero procurar sarna
pra me coçar. Mas o senhor não tem idéia da cena: o sujeito estava todo
jogado em cima da viatura, na frente de todo mundo, no meio da rua, à luz
do dia. Ali, era eu ou ele.
— Tudo bem, tenente. Mas que isso não se repita. Você não vai ter
motivos para se arrepender. Nossos salários não são dignos da importância
de nossa função social. Por isso, nada mais justo do que valorizarmos nossa
profissão, sem sacrificar a ordem pública, é claro. Você vai ver que a vida no
interior tem suas vantagens.
O Santiago não estava preparado para aquela conversa. Ele era o tipo
do policial vocacionado. Sabe aquele cara que treina a sério e entra em
campo com a corda toda? Tanto que o sonho dele era o BOPE. Estava com
todo o gás e com aquelas convicções de noviço. O papo com o comandante
foi um balde de água fria.
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Ele decidiu se fazer de desentendido e voltou a prender os
apontadores. O coronel convocou-o novamente. Recebeu-o com expressão
mais carregada, como era previsível.
— Escuta, aqui, tenente. O negócio é o seguinte. Se não vai por bem,
vai por mal. O prefeito me chamou. Levei a maior descompostura por sua
causa. Só estou na posição que ocupo por conta do acordo político do
governo com a prefeitura. Se você quer saber, não sou eu que recebo, não. É
o prefeito, o governo, a secretaria, o comando geral. A minha parte é ínfima.
Mesmo porque não sou goelão. Minha fatia, eu divido. Como você preferiu
ficar de fora, vai pagar um preço por isso. Se você quer ser mais realista que
o rei, paciência. Problema seu. Só não posso permitir que o problema fique
sendo meu. Se você não sabe como é que as coisas funcionam na polícia, já
é hora de aprender. Se não gostou, cai fora enquanto é tempo. Sua
transferência sai em 48 horas. Estou colocando você em licença para que
não te falte tempo para as providências pessoais. Você vai para a capital. Se
eu fosse você, começaria a preparar a mudança. Um dia, no futuro, vamos
voltar a conversar. Pode ir.
Santiago me contou que sentiu um travo na garganta. Um misto de
angústia, depressão e revolta. Por um lado, ele estava preparado para aquele
desfecho. Imaginava mais ou menos aquele resultado. Por outro lado,
mantinha uma certa esperança de que o comandante propusesse um acordo
que o poupasse e respeitasse sua disposição legalista. No fundo, guardava
ainda a expectativa de que o comandante recuasse para uma postura mais
moderada, na pior das hipóteses dividindo a cidade e o autorizando a manter
uma zona livre do bicho na região sob sua responsabilidade. Seria uma saída
razoável — lhe parecia que sim —, uma espécie de solução de compromisso.
Pelo menos para manter as aparências.
Vá entender os mistérios da alma humana. Eu não tenho essa
pretensão. Por isso, não me deixo impressionar pela veloz metamorfose do
Santiago. Ele chegou à capital, devolvido à nossa selva por sua própria
resistência à prostituição da polícia. Não sou eu que estou dizendo. Ele é
quem usava essa expressão. A ironia está justamente aí. Seis meses depois
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de se estabelecer na capital e dois anos antes de se transferir para o
batalhão em cuja esquina matou o tal cara do Andaraí, Santiago já não era o
mesmo. Copacabana derreteu o rigor puritano. A praia, as mulheres da
noite, os turistas, as oportunidades. Sabe-se lá. No 19º Batalhão, Santiago
se converteu no personagem que, nós, do BOPE, chamamos "um
convencional típico". Só que pior do que isso, bem pior, como você vai ver
daqui a pouco. Uma espécie de conversão ao contrário. Ele se rendeu à fé no
deus pagão. Ou se entregou ao panteísmo, ao hedonismo. Sei lá como
definir. Melhor dizer claramente: optou pela bandalha, o escracho, a
sacanagem. Passou a representar o pior da polícia convencional. Tudo aquilo
que eu e meus companheiros do BOPE mais odiávamos. Resultado: toda
sexta-feira, lá estava o Santiago, supervisionando a coleta da propina do
bicho e dos pontos especiais.
Os pontos especiais variam conforme as características do bairro. As
saunas, boates e casas de massagem são os exemplos mais comuns,
sobretudo aquelas que preferem não ser incomodadas com batidas policiais
para verificar a idade das meninas de programa, ou dos rapazes que fazem
michê. É voz corrente que, na segunda batida, os clientes que têm um nome
a zelar desaparecem para sempre e o empreendimento acaba condenado à
falência. As clínicas de aborto e as oficinas mecânicas não autorizadas, que
invadem as calçadas e atravancam as ruas, também são boas fontes.
Estacionamentos irregulares e postos fixos de camelôs, agenciados por
empresários do ramo, rendem uma boa grana. A polícia vive do que é ilegal.
Quanto mais desordem houver, maior o lucro dos convencionais.
Falando assim, pode parecer engraçado, mas nós, do BOPE, não
achávamos a menor graça. Sentíamos nojo disso tudo. Enquanto
arriscávamos a vida na guerra noturna, a máquina da corrupção mais semvergonha,
mais medíocre, girava, girava, engordando a poliçada, cada vez
mais rechonchuda, as panças arredondadas, o espírito amolecido pela
gorjeta, a alma literalmente vendida ao diabo.
Em pouco tempo, além desse pequeno varejo da corrupção, Santiago
descobriu os filões mais promissores desse campo de negócios: as vans, a
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segurança privada ilegal, os grampos telefônicos, as maquininhas de
videopôquer e caça-níqueis, o velho mas sempre rentável bicho — no qual ele
fora introduzido, traumaticamente — e os arregos, quer dizer, as transações
com traficantes. Em certo sentido, eu poderia dizer, sem afetação, que ele
progrediu do varejo para o atacado da sacanagem. Virou um expert, um
profissional, um mestre na arte de extorquir, chantagear, blefar e manipular.
Aprendeu também a mexer os pauzinhos na corporação para conseguir as
transferências para os batalhões mais cobiçados, nos momentos mais
convenientes. Essa habilidade o levou do 19º ao 23º Batalhão. Ele fez a festa
na Zona Sul. Em seguida, se recolheu estrategicamente na área do Andaraí,
onde se meteu naquela enrascada do boquete. Como ele não pregava prego
sem estopa, cada transferência do Santiago correspondia a um movimento
nas peças do xadrez que ele jogava sei lá com quem. Com os deuses, as
fantasias, seus delírios de poder, os traficantes, os políticos, os coronéis, os
donos da polícia?
Alguns dias depois de ter assassinado o sujeito que o denunciara,
Santiago foi convocado ao gabinete do comandante. Ele permaneceu
trancado no gabinete mais de uma hora. Saiu em silêncio.
A versão oficial confirmou a primeira hipótese que o porta-voz do
comando divulgara para a mídia: os culpados foram os traficantes nus;
Santiago era inocente. Em outras palavras, o comunicado formal declarava
que a vítima fora surpreendida numa emboscada por traficantes do Andaraí,
que se vingaram por terem sido denunciados, O homicida e seus cúmplices
seriam presos a qualquer momento. Nunca mais se falou no assunto.

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