Capítulo 4
Neville não pensou em pôr o despertador e o alarme não soou aquela manhã. Dormiu
toda a noite com a perna solta, o corpo imóvel, como que forjado em ferro. Quando por fim
abriu os olhos. Eram dez horas.
Mexeu-se com um murmúrio de desgosto, tirando as pernas para fora da cama.
Pulsavam-lhe as têmporas como se o cérebro quisesse sair do crânio. Fantástico,
pensou, isto é da bebedeira de ontem à noite. Não necessitava mais averiguações.
Levantou, e queixando-se, foi se arrastando até o banheiro, encharcou a cara e a
cabeça em água bem fria. Não é suficiente, protestou, não. Sinto-me realmente mal. O
homem que se refletia no espelho era fraco, barbudo, e aparentava mais de quarenta
anos. Amor, seu mágico encanto alcança a todos os homens. Estas palavras ininteligíveis
lhe golpearam no cérebro como lençóis molhados no vento.
Cruzou lentamente o vestíbulo e desobstruiu a porta da rua. Uma maldição saiu de seus
lábios quando viu outra mulher estendida na calçada. Sentiu que a raiva lhe
invadia o corpo, mas isso aumentou os batimentos do coração no crânio e se controlou.
Estou doente, pensou.
O céu era de um cinza plúmbeo. Bem!, disse. Outro dia encerrado nesta covinha! Deu
uma portada com raiva, mas em seguida se arrependeu, gemendo. O som do golpe havia
entrado em seu cérebro. Lá fora ouviu cair os últimos restos do espelho. Apertou os lábios
fazendo uma débil careta.
As duas xícaras de café só pioraram as coisas ainda mais. Deixou a xícara e retornou ao
vestíbulo. Ao diabo contudo, pensou. Voltarei a me embebedar.
Mas o álcool lhe tinha sabor de terebintina. Visivelmente contrariado, jogou o copo
contra a parede e ficou contemplando como o líquido molhava o tapete. Demônios, vou
ficar sem copos. A idéia o enfureceu.
Afundou-se no sofá e ficou ali sacudindo a cabeça com ingenuidade. Era inútil; sentia-se
vencido. Os escuros bastardos o tinham vencido.
De novo lhe atacava aquela inquietante sensação. Sentia como se seu corpo se
expandisse e que a casa se contraía sobre ele, e que em qualquer momento a armação
voaria em pedaços; madeiras, gesso e tijolos. Levantou-se e se dirigiu rapidamente para a
porta.
Parou na grama, respirando profundamente o ar úmido, de costas para casa. Mas as
outras casas não eram menos desagradáveis, e também as odiava, assim como o
pavimento e as calçadas e os jardins e toda a rua.
E de repente se deu conta de que devia sair dali. Estivesse nublado ou não, devia sair
imediatamente.
Fechou a porta da rua, tirou o cadeado da garagem e ergueu a pesada porta. Não se
entreteve em baixá-la. Voltarei logo, pensou. Será só um momento.
Tirou rapidamente a caminhonete dando marcha-ré até a rua. Deu volta e apertou o
acelerador, entrando na Boulevard Compton. Não tinha rumo algum.
Dobrou a esquina a uns sessenta quilômetros por hora e antes de cruzar a
próxima travessa já corria a mais de noventa. O carro saltava para frente. A perna tensa de
Neville apertava o acelerador no fundo. As mãos eram de gelo no volante. Pelo
Boulevard vazio e morto alcançou os cento e vinte quilômetros por hora: um
impressionante rugido quebrava aquela opressiva quietude.
O mato do cemitério havia crescido tão rápido que já se dobrava sobre si mesmo,
estalando sob os pesados sapatos de Neville. Não se ouvia mais som além dos seus
passos e o desafortunado canto dos pássaros. Em um tempo acreditei que cantavam
porque tudo estava bem no mundo, refletiu Neville. Equivoquei-me. Cantam porque
são débeis mentais.
Tinha percorrido dez quilômetros antes de descobrir aonde se dirigia. Era estranho como
se havia escondido. Em princípio só estava doente e deprimido e precisava sair da casa.
Não se havia dado conta de que ia visitar Virginia.
Mas tinha vindo diretamente e a toda velocidade. Havia parado a caminhonete junto à
calçada, cruzando a pé a enferrujada porta, e agora caminhava entre aquele mato
crescido.
Quando havia sido a última visita? Fazia um mês pelo menos. Poderia ter trazido algumas
flores, mas até chegar à grade não compreendeu o que estava fazendo.
Apertou os lábios ao sentir de novo a persistente dor. Por que Kathy não estava
descansando também ali? Como teria se deixado dominar por aqueles estúpidos,
seguindo suas regras? Se pelo menos estivesse ali junto a sua mãe...
Tenso, aproximou-se da cripta. A porta de ferro estava entreaberta. Oh, não terão se
atrevido, pensou. Pôs-se a correr entre o mato úmido. Se a houverem tocado queimarei a
cidade, anunciou. Juro-o, queimarei a cidade até seus alicerces.
Abriu bruscamente a porta e o ferro golpeou com um som oco e ressonante a
parede de mármore. Deu uma rápida olhada na lápide e no ataúde.
Tranqüilizou-se, suspirando com alívio. Ainda seguia intacta. Em seguida viu o homem.
Estava jogado em um canto da cripta, com o corpo dobrado sobre o chão.
Furioso, Neville correu para o corpo, e agarrando-o pela camisa, sacudiu-o,
arrastou-o pelo chão e o jogou violentamente fora da cripta. O corpo rodou sobre si
mesmo, ficando de cara ao céu.
Neville voltou para a cripta, ofegante. Com os olhos fechados, colocou as mãos
sobre o ataúde.
Estou aqui, pensou. Voltei. Recordei-me.
Atirou as flores que havia trazido na última visita e tirou as folhas que o vento teria
arrastado até a cripta.
Em seguida se sentou junto ao ataúde e apoiou a testa no frio metal. Era como
sentir a carícia das suaves mãos do silêncio.
Poderia morrer agora, pensou, assim, docemente, sem prantos nem tremores. Se
pudesse estar com ela... Se tivesse a certeza de que estaria com ela...
Fechou lentamente as mãos e deixou cair a cabeça. Virginia. Leve-me contigo.
Uma lágrima cristalina se deslizou sobre suas mãos imóveis.
Não sabia quanto tempo havia transcorrido desde que chegou ali. Ao fim, pensou, até a
dor mais profunda se abranda, o desespero mais intenso cede. A maldição do
carrasco: o prisioneiro se acostuma á sua pena.
Colocou-se de pé. Ainda vivo, refletiu; meu coração pulsa insensatamente; o
sangue corre por inércia; ossos e músculos funcionam sem motivo.
Deu um último olhar à tampa do ataúde, e ao fim se voltou com um suspiro e deixou a
cripta fechando a porta silenciosamente.
Havia esquecido ao homem e quase tropeçou nele. desviou-se murmurando uma
maldição e afastou-se do corpo.
De repente, virou-o com brutalidade.
Como podia ser? Olhou, incrédulo, o corpo do homem. Estava morto, realmente
morto. A mudança tinha sido imediata, parecia como se levasse vários dias morto.
Sentiu-se subitamente excitado. Algo havia matado ao vampiro, algo brutalmente eficaz.
Nem estacas, nem alhos, e entretanto...
De repente compreendeu. Claro, a luz do dia! Durante cinco meses tinha visto que não
saíam durante o dia, mas não se lhe havia ocorrido perguntar o porquê! Fechou os olhos
assombrado de sua própria estupidez.
Tinham que ser os raios do sol; os raios infravermelhos e ultravioletas. Mas por que?
Nada sabia sobre os efeitos da luz solar no corpo humano.
E, além disso, aquele homem havia sido realmente um vampiro, um cadáver
vivente.
Teria a luz o mesmo efeito sobre os que ainda estavam vivos? Pela primeira vez em
meses se sentia excitado. Correu à caminhonete.
Quando esteve no interior do veículo pensou se não seria melhor levar o cadáver.
Quem sabe atrairia os outros, que poderiam invadir a cripta? Não, não se
atreveriam a aproximar-se do ataúde; estava selado com alho. Além disso, o sangue do
homem agora estava morto...
Com certeza, os raios do sol modificavam de algum modo o sangue dos vampiros!
Era possível, então, que tudo guardasse relação com o sangue? O alho, as cruzes, o
espelho, a estaca, a luz do dia, e inclusive a terra em que alguns dormiam? Não
compreendia a razão, e entretanto...
Teria muito por ler, muito por investigar. Havia pensado nisso á algum tempo, mas
ultimamente não havia se dedicado a isso. Agora esta idéia lhe dava novas forças.
Colocou em marcha o carro e se dirigiu rua acima, entrando em um bairro de
residências, e parou diante da casa mais próxima.
Dirigiu-se até a porta, mas a encontrou fechada com chave. Com um sussurro
de impaciência tentou o mesmo na casa vizinha. A porta estava aberta aqui e Neville
cruzou o vestíbulo a toda pressa e subiu atapetados degraus de dois em dois.
Encontrou à mulher no dormitório. Sem vacilar, agarrou-a pelos pulsos. O corpo golpeou
contra o chão e ouviu-se um fraco gemido. Neville a arrastou escada abaixo.
Quando atravessavam o vestíbulo, a mulher começou a mover-se. Suas mãos
apertaram os pulsos de Neville e o corpo se retorceu sobre o tapete. Não abriu os olhos,
mas ofegava e rosnava tentando liberar-se.
De repente cravou suas unhas escuras na carne de Neville, que se afastou e
proferindo uma maldição a agarrou pelos cabelos. Habitualmente, tivesse-lhe parecido
quase intolerável fazer estas coisas; aquelas pessoas tinham sido como ele. Mas agora
se sentia animado por um novo ardor, o ardor experimental.
Ainda assim, quando chegaram à rua se estremeceu ao ouvir o entrecortado grito de
horror da mulher.
Apoiou-a na calçada. A mulher agitava as mãos; estirava os lábios manchados de
vermelho. Neville a olhava tensamente.
Sentiu que algo lhe sufocava. Bom, sofre, é verdade; mas é um vampiro e se pudesse, me
mataria com prazer. Terei que ver deste modo, o único modo. Mordendo os lábios ficou
ali, até que a viu morrer.
A mulher deixou de agitar-se, deixou de rosnar, e suas mãos foram abrindo-se
lentamente como casulos brancos sobre o cimento. Neville escutou-lhe o coração. Não
pulsava. A carne começava a esfriar-se.
Esboçou um débil sorriso, subiu no carro e se afastou dali. Depois de tanto tempo,
descobria um método mais eficaz. Não necessitaria mais estacas.
De repente, lhe cortou o fôlego. Como podia saber se a mulher estava morta? Como
podia averiguá-lo antes do crepúsculo?
A raiva o dominava de novo, uma raiva impaciente. Todas as perguntas pareciam anular
as possíveis respostas.
Parou a caminhonete em um supermercado e se sentou para beber um suco de tomate.
Como iria saber? Não podia ficar com a mulher até que anoitecesse. Podia levá-la a sua
casa.
Estava irritado consigo mesmo. Hoje não conseguiria acertar uma resposta. Agora tinha
que retroceder o caminho e encontrar o cadáver, e não se lembrava onde estava a casa
exatamente.
Ligou o motor jogando um olhar ao seu relógio. Três horas. Tinha tempo. Pisou no
acelerador e a caminhonete começou a correr.
Demorou meia hora aproximadamente para encontrar a casa. A mulher continuava na
calçada, tal como a havia deixado. Neville colocou as luvas, abriu as portas da
caminhonete, aproximou-se da mulher e meteu-a na caixa. Depois tirou as luvas. Levantou
o pulso. Olhou o relógio. Só eram três horas. Tinha tempo... Três!
Sacudiu o relógio e o aproximou do ouvido, com o coração nas mãos. O relógio tinha
parado.
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