O telefone vermelho interrompe a reunião do coronel Rubilar com
quatro oficiais e o subcomandante. Assistiram juntos à fita do Jornal
Nacional e discutiam planos alternativos para uma operação emergencial
especialmente delicada. Metade do noticiário fora ocupado pelo
sepultamento do empresário carioca, seqüestrado e assassinado no cativeiro,
depois de barbaramente torturado. A comoção tomou conta da cidade, do
estado e do país. O Rio virou a capital da violência. Houve até leitura solene
de editorial exigindo o fim da impunidade.
— Rubilar, o que é que aconteceu? Fui informado de que o BOPE
ainda não chegou a Vigário Geral. O governador não pára de me ligar. Está
na maior ansiedade. Ele também foi informado pela Polícia Civil de que o
Matias está em Vigário. O comandante-geral tinha me garantido que o BOPE
já estava a caminho.
— Secretário, infelizmente, não podemos incursionar na favela a uma
hora dessas. Hoje é sexta-feira. Seria uma irresponsabilidade.
Tecnicamente, não há condições. Hoje é dia do baile funk. Uma
quantidade grande de gente circula na comunidade. Uma invasão nessas
condições só pode acabar em desastre.
— Desastre é lavar as mãos, coronel. Para que serve o BOPE?
— Secretário, com todo respeito, o BOPE serve justamente para
resolver problemas, não para criar mais um. A gente tem a responsabilidade
de servir com competência à segurança pública. A última coisa que o BOPE
quer é lhe dar dor de cabeça. O senhor e o governador já têm problemas
71
demais. A sociedade não agüenta mais e é claro que a gente tem de agir. O
BOPE não se nega a intervir, nem se furta a arriscar a vida dos nossos
homens. Fomos treinados para cumprir as missões mais difíceis. Mas não
posso, não podemos ser cúmplices de uma irresponsabilidade. Eu estaria
sendo mau conselheiro se lhe dissesse que a ação é viável. Não é, secretário.
Lamentavelmente, não é. E o que lhe afirmo se fundamenta no exame
estritamente técnico da situação. Estou dizendo ao senhor o que já disse ao
comandante-geral da Polícia Militar. Se o senhor julgar pertinente, posso
repetir ao próprio governador. Posso explicar tudo, tecnicamente.
— Tecnicamente, Rubilar, tecnicamente? Mas o que é isso? Parece
que você está em outro mundo. Será que você não está entendendo a
gravidade da situação? Rubilar, o governo está acuado. A população está
desesperada. O governo federal está estudando a hipótese de uma
intervenção. Uma intervenção, Rubilar. Você sabe o que isso significa?
— Sei, secretário. Eu compreendo sua angústia...
— Como é que você pode vir com argumentos técnicos? O desespero é
técnico? A intervenção federal é técnica? O assassinato foi técnico? Não
quero saber de técnica nenhuma. A única técnica que interessa é o
resultado. Quero o vagabundo, o Matias Matagal; quero esse monstro vivo ou
morto. É o que o governador determinou. O que a população deseja. Rubilar,
eu ordeno o imediato deslocamento do BOPE para Vigário Geral.
— Secretário, por favor, compreenda minha situação. Não se trata de
afrontar sua autoridade ou a do governador, nem a do comandante-geral. O
que eu não posso é dar uma ordem que vai provocar um desastre. O
Batalhão de Operações Policiais Especiais é diferenciado, secretário, não só
pela força, mas também pelo treinamento. O que nos distingue não é a força,
mas a técnica, porque a força, quando é eficiente, é uma decorrência da
técnica. Por isso, o BOPE, em combate, fere menos e mata menos; é menos
ferido e morre menos. Sei que o senhor sabe disso tudo, mas estou tomando
a liberdade de compartilhar essa reflexão, porque minha resistência a
deslocar meus comandados é uma manifestação de responsabilidade.
72
— É uma manifestação de insubordinação, isso sim. Vamos deixar as
coisas em pratos limpos, Rubilar. A rigor, eu não deveria nem estar falando
com você. Pela hierarquia, eu só falaria com seu superior, o comandantegeral
da Polícia Militar. Telefonei pra você por deferência ao BOPE. Parece
que você não compreendeu meu gesto, nem está se dando conta do que é
que está em jogo. Sendo assim, só me resta ser direto: sou eu ou você. O
Matias está em Vigário e é necessário caçá-lo. Se você não for, o BOPE vai
com outro comandante. Você tem trinta minutos para invadir Vigário.
O secretário desliga. Rubilar pousa o fone no gancho e grunhe
alguma coisa inaudível. Os oficiais e o subcomandante continuam em
silêncio, esperando as palavras que não vêm. O coronel tira com força o fone
do gancho e disca o número do gabinete do comando geral da PM.
— Comandante, sou eu, Rubilar. Ligou. Acabei de falar com ele. É por
isso que estou ligando pro senhor. Ele quer o BOPE em Vigário, agora. Eu
disse a ele o que já tinha dito ao senhor, mas não teve jeito. Comandante,
por favor, isso é muito sério. O senhor quer carregar uma catástrofe em sua
biografia? Eu não quero. Meus oficiais estão de acordo comigo. Qualquer
profissional sério, comandante, sabe que não faz sentido uma operação
improvisada a toque de caixa, de uma hora para outra, em meio ao baile da
comunidade, com centenas de pessoas transitando. Não é isso que
ensinamos aos recrutas. O BOPE não pode ser instrumento de uma
aventura irresponsável, comandante. Por favor, fale com o secretário. Fale,
novamente. Diga que é uma questão técnica. Por que o senhor não tenta um
contato com o governador?
Rubilar ouve em silêncio. Rosna um último "Sim, senhor", e desliga.
Volta-se para os subordinados que acompanham a cena com a respiração
quase suspensa e diz:
— Política. O comandante-geral disse que não pode fazer nada. Que a
decisão é política, não é técnica. Foda-se a comunidade. Foda-se o BOPE.
Po-lí-ti-ca.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário