quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da Tropa - Paginas 171 a 237

coronel Fraga vai poder nos ajudar a levantar melhor a ficha dele. Começou
no interior, se meteu em confusão logo no começo da carreira, veio pra
capital, era um policial muito certinho, um sujeito respeitado e até temido,
de tão rigoroso que era. Inclusive o problema que ele teve no interior, parece
que não foi por culpa dele. Casou-se, teve filho, tudo como manda o figurino.
Um ótimo profissional. Aos poucos, parece que foi mudando e a conversa
que corre sobre ele não recomenda muito não. Estamos investigando, mas já
chegamos a alguns sinais exteriores de riqueza, meio comprometedores.
Carro importado, lancha, casa no Alto da Tijuca, casa na região dos Lagos,
viagem de férias para Las Vegas, muita mulher bonita...
Vitor Graça se inquieta:
— Por favor, Vaz. Não sou PM, mas agora sou eu quem vai
chiar. Pelo amor de Deus. Por isso é que eu me pergunto se a nossa
Inteligência não está muito solta, não está sem rumo. Isso me parece uma
perseguição. O profissional não pode mais viajar, ter suas mulheres,
comprar o carro que quiser e que puder comprar. Se ele ganha bem, quem
me diz que não ganha, honradamente, no bico? Vai ver ele tá se dando bem
na iniciativa privada. Atire a primeira pedra quem não tem nada a ver com
segurança privada...
O secretário dá um salto na cadeira:
— Ei! Vamos devagar com o andor. Veja lá como fala, Vitor. É bom
você saber que eu não tenho nada, nunca tive, nem pretendo ter nada com
isso. Se você cuida dos supermercados, dos shoppings ou das redes de
farmácias, é problema seu. Encher o saco de vocês nessas coisas não é
prioridade política do governo, nem da secretaria, por ordem expressa do
governador. Já temos com o que nos preocupar. Além do mais, se formos
nos meter com essa história, onde é que vamos parar? Vamos exonerar todos
os oficiais superiores e delegados? Vamos jogar a tiragem contra nós? Os
salários que forem perdidos vão ser cobrados de quem? Vamos ter de
enfrentar greves por aumento salarial... Só me faltava essa. Por isso,
contravenção e essas pequenas ilegalidades não nos interessam. Não vamos
173
falar sobre isso. Mas que fique muito claro. Telhado de vidro, aqui, eu não
tenho.
— Não tive a intenção de ofender o senhor, secretário. Todo mundo
sabe que o senhor não se mete com isso. Minha intenção era mostrar que a
gente tem de ter cuidado com as acusações precipitadas. Esse capitão
Santiago pode estar sendo vítima dos colegas que estão mordidos de inveja...
A gente sabe quais são as fontes mais comuns dessas denúncias contra
colegas. Alguém deve estar de olho-grande... E depois, não concordo com a
linha de investigação que o pessoal da Inteligência está seguindo.
Secretário: — Como assim, Vitor? Explica.
Vitor: — Não me parece correto seguir a pista dessa moça, a Renata.
Uma pista muito frágil. Não há nenhuma evidência. Nenhuma. O trabalho
tem pés de barro. Uma criança ouviu alguma conversa do pai, não se sabe
com quem, onde, quando, como, em que termos. Uma conversa que bem
poderia ser uma brincadeira. Ou que poderia, propositalmente, ter duplo
sentido, porque o interlocutor poderia ser outro policial e os dois poderiam
estar falando sobre algum seqüestro que teria acontecido ou que eles
tivessem desvendado, não sobre terem seqüestrado. Como é que toda uma
linha de investigação pode ser montada sobre uma conversa de amigos sobre
outra conversa, ouvida por uma criança de 10 anos? Essa Renata pode
muito bem ter-se enganado e ter passado ao Moisés uma notícia falsa. E
toda a reação do CV, essa selvageria toda que se abateu sobre a cidade, o
vandalismo, o terrorismo, tudo isso pode ter como base um tremendo
engano. Acho que deveríamos entregar esse caso a quem de direito, que
somos nós. Investigação é a nossa competência. Isso é constitucional,
secretário. Se o senhor autorizar, convoco a Delegacia Anti-Seqüestro agora
mesmo. Vamos analisar que criminosos poderiam ter interesse no seqüestro
da mulher do Moisés. Isso deve ser lá briga entre eles. Se o senhor autorizar.
Secretário: — Vaz, me diga uma coisa: qual poderia ser o interesse do
Santiago num troço desses?
Vaz: — Não está claro, secretário. Nesse momento, não sei como
responder ao senhor. Esse é justamente o ponto em que nenhuma hipótese
174
parece fazer sentido. Tenho discutido essa questão com o Amílcar, e nada
que a gente imagina se sustenta, nenhuma hipótese resiste.
Vitor: — Nisso eu discordo, secretário. Pra mim, não há evidência de
que o policial seja o autor do seqüestro. Mas, caso isso seja verdade, caso o
responsável seja mesmo esse Santiago, aí eu não teria dúvida nenhuma em
afirmar que o interesse é econômico, secretário: dinheiro. Por que não seria
dinheiro? É dinheiro, claro.
Secretário: — Por que não seria dinheiro, Vaz? Amílcar se interpõe:
— Porque quem receber o pagamento de um seqüestro como esse não
sobrevive uma semana e qualquer policial carioca experiente sabe disso,
secretário.
Secretário: — Tudo bem, só que isso não explica por que um policial
que sabe disso seqüestra a mulher do cara. Afinal de contas, sendo por
grana ou por outra razão, se você estiver certo, o sujeito está condenado à
morte. Por quê, sabendo disso, o sujeito arriscaria?
Vaz: — O Santiago poderia arriscar tudo o que tem própria vida —
por algum motivo muito forte, sobretudo se pudesse se proteger com um
álibi muito poderoso. Dinheiro o Santiago pode sempre conseguir mais, da
fonte em que se alimenta.
Vitor: — Não concordo. Realmente, não concordo. Secretário, reitero
meu pedido. Gostaria de assumir o caso. A Polícia Civil gostaria de assumir o
caso.
Secretário: — Vou pensar. Agora, vou deitar nesse sofá e tentar
dormir, se me deixarem. Quando acordar, eu decido. Reunião encerrada,
senhores.
SALA DE ESTAR. APARTAMENTO DO DELEGADO LUIZÃO FRANÇA, NA LAGOA, DIA 30
DE SETEMBRO, ÀS 3H40
Luizão está de ceroulas. Liga o ar-refrigerado, antes de sentar se.
Enfia os braços nas mangas curtas de uma camisa de pijama, que desce
175
como uma cortina sobre a barriga prodigiosa. Vitor Graça está sentado na
poltrona de couro.
— Porra, Vitor, deve ser sério paca. Espero que seja seríssimo. Tô
exausto, parceiro. O corpo todo moído. Dormi depois de uma da manhã.
— É. O pior é que é sério pra caralho.
— Diz logo, porra. Quer me matar do coração? Olha a veia do meu
pescoço. Começa a inchar e pulsar. Agora dei pra isso. Hipertensão. É foda.
Vida de policial é foda. Não faz suspense, caralho. Diz logo.
— Vamos ter de agir rápido e eliminar o Santiago. Ele e o pessoal
dele.
— Você tá louco, cara. Perdeu a razão?
— Tô falando sério. Temos de agir rápido. Tem de ser já. Não dá pra
esperar um minuto.
— "Temos de agir"... eu sei o que significa isso, cacete. Isso significa
que eu tenho de agir. Não é isso que você quer dizer? Você veio aqui pra me
pedir pra apagar o Santiago? E mais o pessoal dele?
— Luizão, você acha que eu ia te pedir uma coisa dessas se não fosse
necessário? Se não fosse absolutamente necessário?
— Mas qual foi a merda?
— Imagina que o puto do Santiago tem uma ex-mulher, e essa
escrota dessa filha de uma puta deu com a língua nos dentes, porque ouviu
do filhinho a história de que o papaizinho seqüestrou a Michele. Só isso,
porra.
— Mas como é que o garoto descobriu?
— O menino ouviu uma conversa do pai.
— E como é que a piranha deu com a língua nos dentes?
— Ela trabalha em Bangu I, é assistente social.
— Essas putinhas são sempre assistentes sociais.
— A Inteligência tá monitorando a figura, porque identificou uma
relação promíscua com os vagabundos.
176
— Já sei: a mulher teve a brilhante idéia de contar pra melhor amiga
o que o rebento ouviu do papaizinho... E fez isso pelo telefone...
— Quase isso.
— Puta que o pariu.
— O pior é que a história chegou ao Moisés.
— A mulher contou...
— É.
— Filha de uma égua. Mas esse Santiago, isso é um merda. Que
incompetente, cacete; que irresponsável. Não se pode confiar em mais
ninguém. Só tem merda nessa PM.
— Eu fiz o seguinte, Luizão: em primeiro lugar, ganhei tempo.
Embananei a reunião com o secretário. Reivindiquei o caso, citei a
Constituição, essas merdas todas. Disse que não acreditava na teoria dos
caras, que isso não me cheirava a coisa de policial. Em segundo lugar,
empurrei a investigação pra linha do dinheiro. Joguei poeira nos olhos deles.
Tentei provar que uma coisa dessas só se faz por dinheiro. Mas não tá
colando.
— Como, não tá colando?
— O Amílcar e o Vaz, aqueles dois patetas, aqueles cretino acham
que não é dinheiro. Que o seqüestro tem a ver com algum outra coisa.
— O quê, porra?
— Eles não sabem.
— Você quer me matar do coração? Por que não disse logo caralho?
Os putos estão perdidos. Ainda bem.
— Estão. Mas acho que por pouco tempo. Estão atrás de Santiago e
acho que ele nem desconfia. Se não chegarmos a ele anta dos caras, tamos
fodidos.
— Que caras? Os dois patetas ou o pessoal do CV?
— Os patetas, claro.
— Pois é. O negócio, então, não é mandar o Santiago pra vala com
sua turma, é dar uma mãozinha à turma do Moisés, pra que ele façam o
trabalho sujo por nós.
177
— Tudo bem, só falta combinar com os beques. Se fosse fácil já
estaria tudo resolvido. Só que eu não sei onde aquele merdinha si meteu
com a Michele, nem tenho contato direto com a turma de Moisés. Eu teria
que procurar o Índio.
— Não. Melhor você não se meter nisso. Melhor não sei envolver.
— Mas eu já tô metido nessa merda até a raiz dos cabelos.
— Por isso mesmo. Deixa que eu toco. Daqui em diante, eu assumo.
Vai dormir.
— Mas espera um pouco, Luizão. Pensa. Vamos pensar melhor.
Digamos que você localize o Santiago e a Michele, faça contato imediato com
o pessoal do Comando e que eles cheguem logo ao local, antes dos patetas.
Tudo bem. Agora, imagina se o Santiago resolve abrir o bico pra não morrer?
E se ele entregar o enredo todo, de fio a pavio? O que vai ser da gente, porra?
Pensa, Luizão. Pensa, rapaz. Não dá pra terceirizar essa tarefa, não. Somos
nós que temos de resolver essa parada.
— "Somos nós" é modo de dizer, não é, Vitor? Na verdade, você quer
que eu resolva essa parada.
Vitor tenta um sorriso, que brota enviesado.
QUARTO DE MOTEL NA AVENIDA BRASIL, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS QUATRO DA
MANHÃ
Renata acorda ensopada de suor. Custa a se localizar, na penumbra
do cenário árabe. Se ela despertasse num carro alegórico de uma escola de
samba, a sensação não seria muito diferente. Pelo telefone do motel, liga
para o seu próprio número de celular. Como o aparelho está desligado, ela
tem acesso à caixa de mensagens. De hora em hora, ela checa. A
preocupação com o filho é maior que o cansaço. Dessa vez, há registro de
uma mensagem:
— Renata, quem fala é Doris. Olha, desculpa a hora, mas eu tinha de
falar com você. Entraram em seu apartamento. Uns policiais. Disseram que
receberam uma denúncia. Eu resisti o quanto pude. Disse que era calúnia.
178
Eles acharam alguma coisa lá. Parece que 4 quilos de cocaína e maconha.
Quer dizer, 2 quilos de cada produto. Bom, quer dizer, produto... eu nem sei
como chamar. Quando puder, me liga. Não se preocupe com Tábata. Ela tá
aqui em casa e tem se comportado com toda educação. Uma graça, ela. Só
faz xixi no jornal. Se adaptou muito bem. Você tem de mandar consertarem
a porta amanhã de manhã. Se você quiser, eu...
Esgota-se o tempo do recado.
Renata disca novamente. Erra o número várias vezes. As mãos não
obedecem.
— Baby?
— Quem?
— O Carlos Augusto está? Silêncio.
— Alô. Quem é?
— Baby, sou eu, Baby.
— Uma hora dessas, Renata. Você acordou o Érico. Esse seu trabalho
tá deixando você histérica.
— Baby, não fala assim.
Pausa. Renata não se contém. A fortaleza desaba. Não consegue falar.
Do outro lado da linha, Carlos Augusto se desespera. Um minuto de agonia.
Renata se recompõe:
— Entraram lá em casa. Plantaram droga. Coisa do pai do Pedro.
Agora, ele vai ganhar na Justiça a guarda do Pedro e, ainda por cima, vai
desmoralizar qualquer denúncia que eu faça Baby qualquer denúncia.
Entendeu, Baby? Olha, não deixa o Pedrinho ir a aula. Inventa uma
desculpa. Fica com ele. Falta ao trabalho. Não sai de casa. Não deixa ele um
minuto.
— Deixa comigo. Pode ficar tranqüila. Vou dar um jeito. Mas onde
você está, mulher?
— Não posso dizer, Baby. Melhor você não saber. Vou ver o que faço e
te mantenho informado. Melhor que eu te ligue. Não me liga. Nunca se sabe.
179
Um beijo. Obrigado por tudo. Não vou esquecer o que você tá fazendo por
mim e pelo Pedro.
— Que é isso, Natinha. Te cuida.
PORTARIA DE BANGU I, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS SEIS E MEIA DA MANHÃ
Oito mulheres se ajoelham entre bolsas abertas no chão. Carros de
reportagem montam equipamentos para transmissões ao vivo, ao lado de 12
viaturas policiais. Duas mulheres desenrolam uma faixa: "Carandiru Outra
abre um cartaz: "Estão matando nossos maridos". As outras cinco
desdobram a faixa maior: "Governo covarde! Polícia criminosa!" Alguns
membros do conselho da comunidade e de ONGs chegam na mesma Kombi
que traz alguns funcionários da penitenciária.
COZINHA DA CASA DE CARLOS AUGUSTO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 7h20
A mesa está posta para o café-da-manhã. Mamões papaya, geléia,
pão de forma, ricota e iogurte. Baby ajeita os últimos detalhes. Érico saiu
cedo. É melhor que Pedrinho durma até bem tarde. Quem sabe ele nem vai
precisar contar a mentira que concebeu? Pode ser que o despertador não
tenha funcionado. E que já seja muito tarde para ir à escola. Se Pedro
acordar bem tarde, essa seria a melhor solução.
Baby escuta um som, baixinho e distante. Parece uma voz feminina.
O som? Ele teria esquecido de desligar o som, na véspera? Não teria sido
impossível: ele tinha bebido um pouco, com Érico, depois que pôs o menino
para dormir. Ficaram ouvindo um pouco de música, na sala. Pode ter
acontecido. Dá os primeiros passos em direção à sala e um raio atravessa
180
sua espinha. Avança. Na entrada da sala, no lado oposto à cozinha, Pedro
está debruçado sobre a mesinha, falando ao telefone.
COZINHA CLARA E ESPAÇOSA. COBERTURA NA BARRA DA TIJUCA EM QUE SANTIAGO SE
ESCONDE, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS OITO DA MANHÃ
Ele acaba de fritar dois ovos com bacon. Dirige-se a um homem alto e
musculoso, que veste uniforme de uma empresa de carros-fortes:
— Tem certeza que não quer? O homem acena com a cabeça:
— Não posso. Colesterol...
Santiago passa o bacon e os ovos para o prato, deixa a frigideira na
pia e senta-se à mesa.
— Você entendeu tudo?
— Entendi, sim, capitão. Não é pra matar. É só assustar, aplicar um
corretivo e transmitir a mensagem do senhor. Não preciso dizer nada. A
pessoa vai entender, direitinho. É pra seguir a pessoa, escolhei um local
público, em Copacabana, fazer o serviço e sair andando, tranqüilamente. A
patrulha da área é gente do senhor. Não preciso me preocupar. É só sair
andando. O Miranda vai entrar em contato pra me passar o endereço da
residência, certo?
— Certíssimo. Profissional é outra coisa. Senta aí, toma pelo menos
um café.
— Posso não, capitão. Tenho de me apressar pra organizar tudo. Se
não correr, não vai dar tempo. É muita coisa. Vou montar a campana
imediatamente. Assim que a missão for cumprida, aviso o senhor com
aquela mensagem comercial da firma, pelo celular. Como sempre.
— Tá certo. Bom trabalho. Depois o Miranda te procura pra gente
acertar.
— Não tem problema. Quando for melhor pro senhor. O senhor tem
crédito.
GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 8H06
181
— Estou quebrado, Marquinho.
— Eu me sinto como se tivesse sido atropelado por uma jamanta.
Imagina o senhor, secretário.
— Como, "imagina o senhor"?
— Quer dizer, se eu estou como estou, imagino como o senhor deve
estar se sentindo, já que o senhor é um pouco mais..., tem mais idade do
que eu.
— Não amola. Algum informe recente?
— Negativo. Tudo na mesma. A paz reina na cidade, na avenida
Brasil, na Baixada, em Niterói e São Gonçalo, nas favelas, em todo o estado.
— Menos mal. Parabéns.
— Por quê?
— Está tudo calmo. A cidade está tranqüila. Vitória da Segurança
Pública.
— Não fala besteira, Marquinho. A pior coisa do mundo é assistente
puxa-saco. A gente fica totalmente desamparado. Perde contato com a
realidade. Você sabe que eu detesto isso.
— Tudo bem, secretário, o senhor tem razão.
— Lá vem você de novo?
— Desculpe. Não foi minha intenção. Pode deixar que eu agora vou
caprichar.
— Caprichar em quê?
— Em falar a verdade, ué? O senhor não quer o máximo de
sinceridade? Não é isso o que o senhor quer?
O secretário se cala.
— Posso ser mesmo sincero com o senhor?
— Mais ou menos, Marquinho. Mais ou menos.
GALERIA NORTE DE BANGU I. SILÊNCIO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 8H09
182
Os presos dormem. Receberam toalhas e panos para secar as celas.
Os que tossiam mais foram encaminhados para a enfermaria.
PORTARIA DE BANGU I, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 8H10
Cerca de trinta mulheres estão sentadas no meio-fio, à sombra de
uma árvore frondosa. Conversam e descansam. Bebem o mal que trouxeram
de casa e comem sanduíches. As faixas e cartazes esta empilhados no chão.
Um carro de reportagem permanece no loca Quatro viaturas policiais
continuam estacionadas em frente ao por tão principal. Ouvem-se latidos de
cães à distância. Os personagens relaxam; o cenário repousa.
QUARTO DE CARLOS AUGUSTO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 8H11
— Natinha, sou eu, Baby. Meu coração vai saltar pela boca. Vou falar
rapidinho pra dar tempo de gravar todo o recado. Olha, tá tudo bem. Eu tô
bem. Pedrinho tá bem. Mas o pai dele já sabe que ele está aqui. Dei a maior
bobeira, Natinha. Esqueci de desligar o telefone fixo. Esqueci
completamente. Nunca imaginei que o Pedrinho fosse acordar antes de mim.
Quando acordei, ele estava pendurado no telefone, falando baixinho com o
pai. Não consegui saber exatamente d que ele falou. Mas tava com aquela
carinha de quem está escondendo alguma coisa. Sabe quando ele apronta
alguma coisa? Pois é, aquela carinha. Não sei o que ele pode ter dito. O Érico
dormiu aqui, mas fomos super discretos. Você sabe como o Érico é discreto.
E eu fiz tudo pra me conter, meu anjo, tudo. Mas você sabe como é. Sabe o
que é cabecinha de criança. Ele fica me perguntando o que é que houve, por
que você não conversou com ele, onde você está, por que ele está em minha
casa. Eu disse o que a gente tinha combinado. Mas ele é muito esperto. É
um garoto muito esperto. Agora, não sei mais o que fazer. Vou esperar urna
ligação sua, tá bom, meu amor? Me liga logo, por favor, antes que meu
coração pule pra fora do corpo. Liga pro celular, porque já desliguei o fixo.
Não vou deixar o Pedrinho sair, nem vou abrir a porta pra ninguém. Não vou
183
trabalhar. Já avisei no escritório. Disse que não estou me sentindo bem e
que vou adiantar o serviço em casa mesmo. Não vai ter problema, porque eu
tô com crédito. É a vantagem de ser caxias. Só vou ter de dar uma
corridinha ao banco, mas a Suely vai ficar com Pedrinho. Dez minutinhos.
Você sabe que ela é de toda confiança. Há muito tempo deixou de ser
diarista e virou minha amiga, amiga mesmo. Fica tranqüila. Mas não deixa
de ligar assim que puder. Um beijo.
SALA NO 15º ANDAR DE UM EDIFÍCIO COMERCIAL, NO CENTRO DA CIDADE, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS 8H12
O delegado Luizão França manda todo mundo se calar pra ouvi-lo.
Apóia-se na base do basculante que dá para o interior do prédio, com as
duas mãos para trás. Encara a equipe, agora em silêncio.
— Desde as cinco horas da manhã eu tô aqui com o Otacílio, atrás de
vocês. Porra, assim não é possível. Eu já disse que todo mundo tem direito a
descanso. Até eu... Mas ninguém pode desligar o rádio. Que merda é essa,
porra? A gente tá no meio de uma guerra ou tá de sacanagem? Se alguém
prefere ficar de sacanagem, ir pra Night, pra balada, hein, seu Sander?,
hein, seu Bernardinho? Não ri não, cacete, não é pra rir. Tô falando sério...
Não é assim que vocês falam, bem aveadado, "vou pra night, vou pra
balada..."? Ou se alguém prefere ir pra boate, comer a sua puta predileta,
num motel de São Conrado, e encher a cara com Campari, hein, seu
Adriano? Não é pra rir, não. Se alguém prefere ficar de sacanagem, mete o
pé, vai com Deus. Mas quem ficar... eu já disse isso... atenção, porra, já
disse essa merda, quem ficar é pra valer. É ficar feito homem, caralho. Quem
desligar rádio, tá fora; daqui pra frente, tá fora. Não quero nem saber. Ah!
acabou a bateria... Foda-se. Não pode. Não pode deixar acabar. Queria ver se
vocês estivessem no Iraque, que gracinha que ia ser. Ou em Israel. O Félix já
foi lá, já viu o que é o Mossad. Viu ou não viu, Félix? Tinha alguém de
frescura por lá? Viu alguém aprontando veadagem por lá? Em lugar
civilizado, bobeou, passa o cerol. Eu devia é fazer isso, mas não faço, não
184
sou de fazer. Tô só dizendo que desligo o filho da puta do nosso grupo, mas
vou desligar mesmo. O rádio tá desligado? Então, o veadinho também tá.
Não vou passar cerol. Vou deixar o babaca ir embora. Mas acabou. Alguém
não entendeu? Alguém tem alguma dúvida?
Luizão se aproxima da mesa, senta-se com as pernas abertas, de
frente para as costas da cadeira, a barriga farta esbarrando nas trave, do
encosto, e olha devagar para seus comandados. Bebe um copo d'água, do
início ao fim, sem parar, e prossegue:
— O negócio é o seguinte. O Lincoln vai com o Otacílio atrás do
Anderson, aquele X-9 que o deputado Amaríldo Horta meteu goela abaixo do
Vitor, e que tá lotado na delegacia de Botafogo. Ele tá grampeando tudo que
é artista, mulher de secretário, filho de autoridade, jogador de futebol, pra
ver se garimpa alguma coisa que renda uma graninha pra ele e,
principalmente, que renda ao Amarildo um movimento pesado no xadrez
político. Quem diz Amarildo diz, o governador, porque eles são unha e carne.
Agora, não vou ensinar pai nosso a vigário. Todo mundo aqui sabe que,
quando se grampeia, ouve-se o que se quer e o que não se quer, acha-se o
que se procura e o que não se procura. Eu tenho informações de que o
Anderson achou o que não queria. Parece que tem umas gravações
interessantes da mulher do Nuno Cedro, aquele magnata que financia as
campanhas do governador.
— Aquele cara dos bingos? — pergunta Otacílio.
— Não, o dos bingos é outro. O Nuno é empresário sério. Parece que
tem umas conversas da mulher do sujeito com algum traficante, alguma
coisa bem quente. Nitroglicerina pura. Nas mãos do governo, é sopa no mel,
porque pode ficar arquivado, pro caso de vir a ser conveniente, no futuro.
Mas hoje, isso, se chega à imprensa, implode tudo, arrebenta com o
esquema do governador, mata na pista seus vôos mais ambiciosos... Vocês
sabem... Joga o Nuno contra o governador. Afinal, como é que a polícia do
governador faz uma coisa dessas com um aliado? Então, rapaziada, tarefa
número um: segurar o Anderson e localizar as fitas comprometedoras da
senhora Nuno Cedro. Objetivo: manter o governador em rédea curta; fungar
185
no cangote dele, pra ele saber que o Vitor é intocável. É só um seguro de cu.
Política preventiva.
Luizão sua mais e mais, mesmo àquela hora da manhã e com o arrefrigerado
cm potência máxima. Passa o lenço na testa larga e continua:
— Félix, você vai procurar o Índio. Vai fazer uma visita à favela da
Mineira. Falar com o dono. Sondar. Sentir o que é que eles tão pensando.
Nós temos boas relações com eles, lá, não temos? Vai lá. Faz perguntas como
quem tá buscando informações que ajudem a entender o que teria levado o
Santiago a seqüestrar a mulher do cara. Mas o objetivo principal é passar
pro Índio a impressão de que você e, portanto, eu, nós, a turma do Vitor, não
estamos metidos nessa encrenca. A missão é transmitir pro CV, através do
Índio, a mensagem de que nós não temos nada a ver com o seqüestro da
mulher do Moisés. Entendido?
Outro copo cheio bebido num gole, Luizão França está pronto para a
terceira cartada:
— Bernardinho e Adriano, vocês vão colar no pessoal da Anti-
Seqüestro. O objetivo é descobrir tudo o que eles já sabem e ir me passando
tudo o que eles forem descobrindo sobre essa merda toda. Antes, os dois vão
ligar pro Disque-Denúncia, com uma hora de intervalo, e vão contar
histórias semelhantes. Eu disse semelhantes, não iguais. É uma espécie de
vacina. Pode vir a ser necessário imobilizar o Mauro Pedreira ou até coisa
pior. E a gente tem de estar preparado pra tudo. A história é a seguinte: o
delegado titular da Delegacia Anti-Seqüestro está envolvido em um esquema
do Terceiro Comando, que visa desmoralizar a liderança do Comando
Vermelho através do seqüestro de Michele, mulher do Moisés. Ela será morta
e nenhum resgate vai ser pedido. A prova do interesse em desmoralizar o CV
é o vazamento do seqüestro para a imprensa, que o delegado promoveu,
usando alguns de seus asseclas que são fontes dos jornais. Entenderam?
— Mas a história é tão redonda — diz Adriano —, como é que vamos
inventar diferenças para que não fique tudo igual, como o senhor
determinou?
186
— Põe a cabeça pra funcionar, sua besta. O Bernardinho vai telefonar
primeiro e não vai usar o verbo desmoralizar, não vai mencionar o CV, nem
vai falar em delegado titular. Vai dizer que o Mauro Pedreira quer foder o
Moisés, ponto. E você vai repetir o que eu disse, sem tirar nem pôr.
Compreendeu, agora? Entendeu, Bernardinho?
Luizão se levanta para a última ordem:
— Os outros vêm comigo. Vamos atrás do Miranda. O objetivo é
eliminar o Santiago. Não importa onde e como. Ele não pode sobreviver às
próximas 24 horas. Vamos nos dividir: Criciúma vai atrás do nosso pessoal
na PM, com cuidado, porque tem muito jogo duplo ali. Juremir vai atrás de
nossos contatos na Inteligência. Eu tenho as minhas intuições e uma
hipótese de trabalho, que não vou abrir pra não atrapalhar. Sander e Sales
ficam comigo.
PALÁCIO GUANABARA. SALA DE RECEPÇÃO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 8H59
Cabo Maria do Carmo larga o telefone, afasta a cadeira e se levanta,
batendo continência:
— Coronel Fraga, secretário, doutor Vitor... Vou avisar que os
senhores chegaram. Podem passar para a ante-sala.
Aperta um botão sob a mesa e a porta que separa a recepção da antesala
do gabinete do governador destrava, com um silvo estridente, seguido
do som seco.
As três autoridades retribuem a gentileza com o "bom-dia" padrão.
A ante-sala é vasta, repleta de espelhos, quadros, mesas e poltronas.
As janelas amplas se abrem sobre o verde e a luz dos jardins.
— Secretário, o governador disse qual seria a pauta?
— Fraga, o governador convoca, não informa pauta, nem fica limitado
a pauta. Mas é óbvio que, na atual conjuntura, o tema é o samba de uma
nota só.
187
— Eu pergunto, secretário, porque, o senhor sabe, o governador é um
político e, como todo político, pensa de uma maneira um pouco diferente da
gente.
— O que é que você quer dizer, Fraga?
— Bem, não quero ser inoportuno e impertinente, mas, considerando
que o seqüestro da Michele é um fato extremamente grave, com um potencial
explosivo enorme, eu estaria tentado a admitir que talvez fosse melhor que
ele não fosse divulgado pela mídia.
— Claro, não pode. Não pode, de jeito nenhum, Fraga. Nem pensar.
Se um troço desses vaza, os caras que a gente conseguiu frear podem se ver
obrigados a agir.
— É exatamente o que eu estava pensando. Eles têm lá os códigos de
honra deles e a própria política deles. Se ficar público o seqüestro, o CV se
desmoraliza se não fizer alguma coisa. Por enquanto, eles fizeram aquela
baderna de ontem, mas o recado foi dado só pra bom entendedor. A
população não entendeu. Enquanto o seqüestro não vier a público, eles
podem recuar. Se vier, ninguém sabe o que pode acontecer.
— Claro. Tem toda razão, Fraga. Concorda, Vitor?
O chefe da Polícia Civil balança afirmativamente a cabeça. O
secretário volta-se para o comandante da PM:
— Fraga, não entendi aonde você quer chegar.
— É que a cabeça do governador sendo política, pode ser que ele
avalie a situação apenas pelo ângulo da política. E quem nos diz qual
poderia ser o resultado da avaliação, nesse caso? Quem nos diz que o
governador não vai considerar politicamente conveniente a divulgação do
seqüestro?
— Você está sugerindo que eu minta para o governador?
— De jeito nenhum, secretário. Seria muita irresponsabilidade. E
antiético, ainda por cima.
— Ah, bom.
— O senhor podia só omitir o fato.
— Fraga, isso não tem cabimento.
188
— Como o senhor decidir, secretário. Só estava pensando alto.
— Melhor pensar baixo, de agora em diante. — Sim, senhor.
Os três permanecem calados. O secretário espreguiça duas vezes e
reclama do ar refrigerado. Ele acha que o governador vive embutido numa
geladeira. O palácio lhe parece um freezer.
— Entrar nesse frigorífico e sair para o calor senegalês do Rio me
arrebenta os pulmões.
Ninguém diz nada. Vitor esboça um sorriso.
O tempo se retesa e estira, feito uma atiradeira. O secretário começa
a sentir-se a vidraça — logo ele, que sempre foi crítico de tudo, que sempre
cumpriu a função da pedra. Passa a imaginar quem faria, agora, o papel da
pedra no estilingue.
É sempre assim, quando se senta naquela ante-sala. Tem a sensação
de que a qualquer momento os enfermeiros virão buscá-lo para raspar-lhe os
pêlos e serrar-lhe o crânio.
— Alguém tem uma Novalgina?
Os dois chefes das polícias não têm Novalgina. Vitor oferece pastilha
Valda. Diet.
Ao fundo da sala, a mais de 20 metros de distância, com sua voz
inaudível, suave e doce, a secretária particular do governador os convida a
entrar. O governador está pronto para recebê-los.
O secretário ergue-se mais rápido que seus auxiliares e lhes dita a
ordem, entre dentes:
— Fraga, Vitor, não vamos mencionar o seqüestro. Deixem que eu
conduzo. Vocês apenas sigam a direção que eu for indicando.
Avançam rumo ao gabinete.
O governador acena para que entrem. Conversa com o chefe de
gabinete, em sua mesa de trabalho. Aponta com a mão a larga mesa para
reuniões. Os três colaboradores sentam-se, como de hábito. A cabeceira é
cativa do governador. O secretário senta-se à sua direita. A direita do
secretário, o comandante-geral da Polícia Militar, em frente do qual, na
189
segunda cadeira disponível à esquerda do governador, fica o delegado chefe
da Polícia Civil. Aguardam alguns longos minutos.
Finalmente, o governador atravessa o gabinete com passadas curtas e
ligeiras, inaugurando a reunião com a primeira pergunta:
— E então, secretário? Que história é essa de seqüestro da mulher do
Moisés? Michele, não é? Já comprovaram que o capitão Santiago é o autor?
INTERIOR DE UM AUDI NEGRO COM PLACA FRIA, CRUZANDO A LLNHA AMARELA EM
ALTA VELOCIDADE, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 9H35
Luizão, sentado no banco de trás, atende o rádio:
— Diz aí, Félix.
— Não consegui falar com o Índio, mas o Jonas confirma que eles tão
na cola do Santiago.
— Eu vou acabar batendo de frente com eles. Sabe que pista eles
têm?
— Negativo.
— O cara fez referência a algum bairro, algum local? Disse que grupo
estaria incumbido da missão? Se é algum pessoal da Zona Sul, da Zona
Oeste...?
— Nada.
— Mas eles tão atrás do Santiago ou do cativeiro de Michele?
— Dos dois. Pelo que entendi, dos dois.
— Eles acham que o Santiago é que tá cuidando do cativeiro?
— Duvido, eles não são tão ingênuos assim. Sabem que o Santiago é
um profissional.
— Alguma dica sobre o cativeiro, então?
— Nada.
—Além do Santiago, eles mencionaram mais alguém?
— O senhor quer dizer...
— Isso mesmo: eles acham que o Santiago tá sozinho nessa bosta?
Mencionaram o Vitor?
190
— Não. Não sei o que eles pensam sobre isso, mas o Jonas só falou
no Santiago.
— Meu nome não apareceu?
— Não, de jeito nenhum.
— Tudo bem. Continua tentando obter alguma coisa. Fica por aí.
Tenta falar com o homem diretamente.
—Copiado. Câmbio.
REDAÇÃO DO JORNAL DE MAIOR CIRCULAÇÃO NA CIDADE, DIA 30 DE SETEMBRO,
ÀS 10H22
— Alguém, aí. Aumenta o volume da TV.
Em edição extraordinária, o noticiário Em Cima da Hora, da Globo
News, informa o seqüestro de Michele. O secretário de Segurança aparece
descendo as escadas do Palácio e se negando a fazer comentários. Os chefes
das polícias o acompanham. Mudos.
LAJE DA QUAL SE DIVISA O IMENSO PLANETA QUE É O COMPLEXO DO ALEMÃO, DIA
30 DE SETEMBRO, ÀS 11h25
O dono da boca olha o horizonte, enquanto aguarda a resposta, sob o
sol a pino.
— Nada, Cezinha. Ninguém sabe nada. Ninguém conseguiu fazer
contato com Bangu. Nada. Falei com o Noca, com o Nereu, o Jonas, o
Rivaldo, todo mundo. Ninguém tem notícia. O Noca também acha que ficou
mal pra nós. A notícia já tá dando em tudo o que é lugar. Ele acha que agora
a gente vai ter que dar uma resposta, nem que seja... peraí, o rádio tá
chamando...
191
Urubu se debruça sobre o rádio, um pouco mais pesado que o celular
normal, diz alguma coisa e estende o braço para Cezinha.
— Fala aí, mano. Fala aí. É pra você.
— Cezinha falando, câmbio. Diz aí. É nós, é nós. Demorou, demorou.
Fala e ouve, sobretudo ouve, dobrando levemente a cabeça para
apurar a audição, afastando-se de Urubu, que se apóia em um suporte de
ferro, bom para descansar e péssimo para o sinal do rádio.
— Era ele mesmo, cara? Diz aí, Cezinha. E aí? Alguém morreu? Os
porcos mataram algum irmão?
— Não, mas quase. Se bem que tem dois desaparecidos. Foram pra
enfermaria e ninguém sabe deles. O Moisés quase foi parar na gaveta. Se
safou por pouco.
— O que mais?
— Convoca o pessoal. Vamos fazer o encontro agora mesmo. Tem
tarefa urgente esperando por nós.
POSTO DE GASOLINA, NA ESTRADA AYRTON SENNA, DIA 30 DE SETEMBRO ÀS
11H26
Luizão toma um refrigerante numa pequena sala, nos fundos da loja
de conveniência. Interrompe a conversa com seu velho parceiro Lúcio Pé-de-
Valsa Moraes, para atender o rádio:
— Diz aí.
— É Adriano. — Sim.
— A Anti-Seqüestro tá pianinho. Não sabem e não querem saber do
caso Michele. Têm mais o que fazer. Puseram as mãos pro céu quando o
Vitor mandou eles ficarem longe do caso.
— E o Disque-Denúncia?
— Não ligamos. — Por quê?
— Se a Delegacia Anti-Seqüestro tá longe do caso, pra que a gente ia
precisar...
192
— Porra, Adriano. Vocês são uns merdas mesmo, hein? Não
entenderam porra nenhuma, hein? Por isso que não adianta ficar explicando
nada a vocês. A PM é que tá certa. Ordem dada, ordem cumprida, e foda-se o
resto. Eu não falei que era preventivo? Não disse que a gente tem de estar
preparado pra tudo, cacete? Que a gente pode ter de imobilizar o Mauro
Pedreira? Ou coisa pior, não disse? Não usei essas palavras?
— Certo.
— Certo, não, porra. Errado. Agora faz logo o que eu mandei, caralho.
Com uma hora de intervalo entre as ligações, ouviu? Quero vocês na cola do
pessoal da Delegacia Anti-Seqüestro. Não dá pra confiar no que esses putos
disseram pra vocês. Podem estar despistando. Continuem por aí, fuçando.
Copiou?
PRÉDIO DA SECRETARIA DE SEGURANÇA, NO GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30
DE SETEMBRO, ÀS 11H27
O secretário está de pé, próximo à cabeceira da mesa, e acaba de
esmurrá-la, espalhando água, café e açúcar. Marquinho se esgueira entre os
braços do secretário para passar um maço de guardanapos na sujeira e
conter sua expansão.
— Deixa essa merda, Marquinho. Puta que o pariu. Puta que o pariu.
Eu quero saber. Não me interessa de que forma vocês vão descobrir, nem o
que vão fazer. Eu quero saber hoje. Ou eu fico sabendo ou me demito. Mas,
antes, faço questão de ter o prazer de exonerar vocês dois. Estão
entendendo? Preciso ser mais claro? Hoje, ainda hoje, na merda dessa mesa,
eu quero a explicação: quem está levando informações classificadas ao
governador? A Inteligência está subordinada a quem, Amílcar? Posso saber?
É a mim ou não é, porra? Quem é seu chefe, Vaz? Sou eu ou não sou eu,
caralho? Agora, tem uma coisa: eu sei que o Fraga não tem nada a ver com
isso. Tenho as minhas razões pra deduzir isso. Ele não sabia que o
governador sabia do seqüestro. Nem queria que ele soubesse. Se bem que
não custa checar também. Do jeito que tem filho da puta nessa merda de
193
Segurança Pública, tudo é possível. A gente tem de ser paranóico, doente
mental, pra imaginar a galeria fantástica de pervertidos... Mesmo assim,
mesmo pondo pra funcionar a mais patológica das fantasias, a gente não vai
conceber o grau de degradação, sacanagem e traição dessa corja. Quem dera
nossos inimigos fossem os bandidos. Quem dera. Isso aqui seria um paraíso.
Portanto, pode ser o Fraga, sim. Investiguem o Fraga também. Tudo é
possível. Se essa porra de polícia existe, tudo é possível. De qualquer
maneira, pra mim, o maior suspeito, além de vocês dois, é o Vitor, que tava
muito quieto hoje. O secretário vai até a janela, encosta a testa no vidro,
observa a avenida Presidente Vargas.
— Diminui essa merda desse ar-refrigerado, Marquinho. Manda
abaixar essa porra. Será que nesse antro só tem pervertido? Será que
ninguém sente frio nessa merda?
— Nem tanto. Sabe como é, Saramago, um dia os negócios melhoram,
no outro pioram. Esse nosso país não é sério. Falta estabilidade, equilíbrio,
previsibilidade.
— Isso é verdade. É difícil investir numa situação de incerteza.
— Pois é. Eu estava lendo um economista outro dia. O artigo falava
justamente disso. Sem segurança jurídica as expectativas não se estabilizam
e os investimentos caem.
— Claro, natural.
— É um fato, não é?
— Sem dúvida. Mas a política não ajuda, doutor França. Não ajuda.
— Um bando de salafrários, oportunistas.
— Não se pode confiar em mais ninguém. Especialmente em meu
ramo, que, aliás, não anda muito bem. Sinto que há um certo esgotamento
do velho jogo do bicho, meu caro doutor França. Por mais que eu tenha me
prevenido e diversificado os investimentos para os bingos, as maquininhas
caça-níqueis, o setor de transporte e coleta de lixo... O fato é que não
vivemos mais aquele momento de exuberância. Mas, tudo bem. Não sou de
me lamentar. Nem sou ingrato com o destino. Afinal, construí a minha vida;
meus filhos estão bem encaminhados...
194
— É o que eu digo: a gente tem de dar graças a Deus, meu amigo.
Apesar dos pesares... Você disse que tinha convidado o Brito pro nosso
papo?
— Convidei. Ele deve estar chegando. Ele mora aqui perto. Não
demora.
— Ótimo. Eu até lhe devo desculpas, porque, afinal, não se faz isso,
não é? Marcar assim um encontro, em cima da hora.
— Que é isso, França? Entre nós esses constrangimentos não podem
existir. A mão que lava a outra não tem hora.
— Obrigado, Saramago. Você é sempre muito gentil. E recebe com
essa fartura prodigiosa, essa generosidade...
— Essas empadinhas são mesmo uma delícia, hein?
— Uma maravilha.
— Pra mim, são uma tortura, porque não posso comer...
— Não pode?
— Não, uns probleminhas de saúde. Natural na minha idade. Tenho
mais de 70, França. Há muito tempo passei dos 70.
— Você tá muito bem. Ninguém diz sua idade.
A governanta volta, à varanda para introduzir o terceiro personagem.
— Taí o Brito — diz Saramago, dirigindo-se a Luizão França.
Depois das saudações protocolares, Saramago pede a Luizão que
explique os motivos daquela visita inesperada. Nesse momento, o rádio do
delegado vibra em seu bolso e ele pede licença para atender. Levanta-se e
caminha para a ponta extrema da varanda:
— Diz aí, Otacílio. Diz rápido, porque agora não posso falar.
— Missão abortada, delegado.
— Como assim?
— O Anderson sumiu. Passei a manhã toda com o Lincoln atrás do
cara, mas ele sumiu. Desapareceu. Ninguém sabe dele.
— Na delegacia...
— Ninguém sabe.
195
— Desde quando?
— Desde ontem a noite, já tem umas 12 horas que ninguém sabe do
paradeiro dele.
— E a família?
— Ele é do interior. Veio pro Rio quando aquele deputado foi eleito.
— Mas vocês tentaram contato com a família?
— Claro. Nenhum sinal.
— E o gabinete do deputado?
— Tentamos também.
— Nada?
— Nada.
— Bom, então é melhor mesmo não perder mais tempo. Alguém
pensou o que nós pensamos antes de nós.
— O Santiago?
— Não é óbvio? Liga pro Sander ou pro Sales. Eles estão almoçando
aqui perto. Combina com eles. Quero você e o Lincoln conosco. Precisamos
reforçar nosso time. Nossa missão também tá um abacaxi.
— Tá bem, doutor. Câmbio.
Luizão volta para sua cadeira e retoma a conversa:
— Desculpem. Vida de policial...
— É como a de médico... — diz Brito.
— O senhor é médico? — pergunta Luizão.
— Brito foi um dos melhores em sua especialidade — responde
Saramago.
— Fui. Hoje, estou aposentado. Na verdade, deixei a profissão nos
anos 70.
— Outros negócios se tornaram mais atraentes... — diz Saramago,
sorrindo e batendo com a mão direita na perna esquerda do amigo.
— Mas eu pedi esse encontro, meus amigos — Luizão retoma a
palavra —, porque preciso da ajuda de ambos. Tenho de localizar com
urgência uma pessoa que vocês conhecem, uma pessoa com a qual vocês
mantêm relações comerciais.
196
— Vamos lá, vamos ver o que é possível fazer... — diz Saramago. —
Quem é?
— O Santiago.
AVENIDA NOSSA SENHORA DE COPACABANA, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 14H20
Carlos Augusto sai da agência do Banco do Brasil. Veste calça cáqui,
estilo cargo, e camisa branca de algodão, quase uma bata. As sandálias de
couro foram compradas na viagem de férias a Caruaru. Carrega mochila
verde-musgo, pendurada no ombro direito. Caminha rumo à esquina e
levanta os óculos escuros para olhar o relógio de pulso, mas não enxerga o
marcador nem o pulso. Vê o desenho geométrico da calçada e rostos que
giram nas paredes dos prédios, e o azul brilhante do céu que desaba em
cheio na poça d'água e na lata de sol de amendoim, que se espalha na nesga
de rua e desliza até a perna e quebra a vitrine, e rompe o fio negro de aço.
Rodopiam mãos, braços, punhos. Baby sente o gosto viscoso e morno de
sangue enquanto escurece.
Quando recobra a consciência, estendido na calçada, Carlos Augusto
está cercado por populares e ouve as vozes que relatam a agressão. Fica
sabendo que eram três, os homens que o atacaram; que pareciam
profissionais de segurança privada, pelo porte e a destreza dos golpes.
Descobre que não fugiram; caminharam para a esquina, dobraram à
esquerda, em direção à avenida Atlântica, tranqüilamente, como quaisquer
pedestres. A mochila rasgada estava atirada a seu lado. Seus pertences
espalharam-se. Alguns itens haviam sido esmagados, como o celular, o pente
e as fotos.
Baby recusa a ambulância. Aceita um táxi. Pede que liguem para seu
médico, mas não se lembra o telefone. Será eternamente grato àquelas
pessoas tão gentis e delicadas, e preocupadas com ele, e atentas. Ele se
emociona e agradece, e insiste, e volta a agradecer. No táxi, a caminho do
hospital, ri quando se dá conta de que não está chorando pela dor, mas
porque foi inundado pela gratidão. Nunca se sentira tão imerso num mar de
197
fraternidade. E pensou como era engraçado ser invadido por ondas calorosas
de amor, enquanto cuspia fragmentos de dente.
QUINTAL AMPLO E DESERTO, GRAMA CRESCIDA, DUAS LARANJEIRAS, ALGUMAS
GALINHAS CISCANDO JUNTO AO CASEBRE DE TIJOLO APARENTE, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS 14H40
Dentro da sala, um homem de meia-idade espia entre as folhas da
persiana, na janela da sala.
— Tranqüilo. São eles.
Rapaz com barba por fazer esconde a pistola debaixo da almofada.
Santiago e Miranda batem à porta.
O homem mais velho os recebe com uma reclamação:
— Vocês demoraram a chegar, nós estávamos... Miranda fala com voz
quase inaudível:
— Onde é que ela está?
O rapaz aponta para o corredor. Seu parceiro responde:
— No quarto dos fundos.
Miranda, sempre em voz baixa: —Tudo bem? Ela tá bem?
— Tudo bem — diz o primeiro. O segundo complementa:
— Tá meio histérica, mas a gente aplicou uma dose leve de Valíum,
só pra ela sossegar.
Santiago fala pela primeira vez:
— Vamos lá, então. Vamos ver essa mulher.
O rapaz dirige-se para o corredor, mexendo no bolso. Santiago, que o
acompanha, o interrompe:
— Me arranja um copo d'água?
O rapaz entra à direita, seguido por Santiago. A cozinha é comprida.
A geladeira fica depois da pia, à direita. O rapaz tira a chave do bolso,
deposita-a na bancada da pia, abre a porta da geladeira e se abaixa para
alcançar a garrafa d'água, que está na prateleira inferior da porta. Tomba
com três tiros na cabeça. Os estampidos são secos, silenciosos. Santiago
198
nem precisa conferir. Trabalho concluído. Deixa o corpo ajoelhado ao pé da
geladeira aberta, recolhe a chave e volta à sala.
Miranda pressiona o pescoço do homem com o polegar, para sentir a
carótida. Usa luvas, como um profissional. Olha para Santiago, exibindo
aquela sua expressão típica, que significa missão cumprida. O corpo, no
chão, está inerte.
Caminham juntos rumo ao quarto dos fundos.
Abrem a porta devagar. Michele dorme, agarrada a dois travesseiros,
sentada em um colchão fino, encaixado no encontro de duas paredes. O
quarto está vazio e escuro; a janela fechada com tábuas pregadas.
Sacodem a mulher.
— Michele, acorda. Tá tudo bem. Você tá livre. Liquidamos os
seqüestradores, mas ainda há riscos. Depois você vai entender. Agora, você
precisa confiar em nós. Vamos te dar um café e tirar você daqui.
FAVELA DA MINEIRA, PÁTIO DA PEQUENA ESCOLA DE SAMBA LOCAL, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS QUATRO DA TARDE
Jonas reúne os soldados do tráfico. Quase todos estão sentados na
mureta lateral, protegidos do sol pela extensão de zinco do teto da quadra.
Ele ordena atenção total. Avisa que tempo de guerra se aproxima.
Na pequena sala da direção da escola, Índio observa a reunião de
seus comandados. Ligou para os amigos, em Bangu I, e pediu licença para
uma consulta pessoal a Moisés. Está esperando a resposta.
Jonas vocifera. Inflama o ânimo dos combatentes. Dá a palavra ao
recruta Juvenal, o professor que trocou a faculdade de História pelo
Exército, para prestar um serviço à sua comunidade, trazendo cultura e
conhecimento prático para o movimento da Mineira. É o que diz Jonas, em
sua introdução. Juvenal ensina a diferença entre um bando e um pelotão,
uma companhia, um batalhão, uma unidade de guerra, uma agência de
inteligência. Insiste na importância da organização, da hierarquia e da
disciplina. Juvenal fala sobre o poder da DAS, a Delegacia Anti-Seqüestro,
199
no Rio de Janeiro, e sua disputa com a DRE, a Delegacia de Repressão a
Entorpecentes:
— A Anti-Seqüestro se fortaleceu muito, mas a Repressão a
Entorpecentes voltou a crescer, graças aos negócios de importação de pasta
de coca colombiana, via Angra dos Reis, que é a maior concentração de
embarcações privadas do país, onde o PIB brasileiro passa férias, e que
mantém conexões com o rico interior paulista, via pistas clandestinas.
— Professor, é melhor explicar o que é PIB, onde fica Angra dos Reis e
falar um pouquinho mais devagar, porque o pessoal aqui não tá muito
acostumado com esse tipo de coisa, não.
Índio não ouve direito o que falam lá embaixo. De qualquer jeito,
mesmo que escutasse, não se ligaria. Sua cabeça está longe dali. O coração,
aos solavancos. O aparelho ronca. Ele o agarra, num gesto veloz:
— Fala aí, brother.
— Índio?
— Eu.
— Como é que você está passando, meu amigo? Como vai a família?
Rodriguinho? Marcinha? Dona Rita?
— É nós, brother. Tudo beleza.
— Você precisava muito falar comigo. Tinha de ser comigo. É isso
mesmo?
— Isso. Seguinte, chefe: o porco do Santiago fez contato.
— Falou com você?
— Não, que ele não é besta. Mandou recado.
— E?
— Quer um encontro comigo. Eu e ele, só nós dois.
— Pra quê?
— Diz que tá com a Michele. Que ela tá bem. Que ele resgatou ela.
— Quanto ele quer?
— Diz que não quer saber de grana.
— Quer em tóxico?
200
— Não, não quer nada, não.
— Arma?
— Negativo. Diz que não teve nada com o seqüestro. Que sabe que
você tá pensando que foi ele, porque a ex-mulher dele entregou ele. Mas isso
foi porque ela quer ficar com o filho do casal. É tudo uma porradaria pela
guarda da criança. Ele diz que ela quer ver ele morto ou preso, ou
perseguido e desmoralizado.
— Ele disse isso?
— Disse. E disse também que arriscou a vida pra salvar a Michele;
que, inclusive, teve de matar dois seqüestradores, porque era o jeito dele
salvar a vida dele também.
— Ela está com ele, sã e salva? — É o que ele diz.
— Deus seja louvado!
— Amém, chefe.
— E ele denunciou alguém?
— Ele sabe, né? Tem de saber. Se não, como é que ele ia resgatar a
Michele?
— É verdade. Será que ele está disposto a entregar esses porcos
covardes? Confirmou, pelo menos, que são os porcos, mesmo?
— Não sei, chefe. Isso não sei. Mas tá com toda pinta de ser polícia.
Claro. Como é que o Santiago ia trabalhar tão ligeiro assim, se não fosse
algum esquema que ele conhecesse por dentro? Por mais que ele negocie
com os caras do Terceiro Comando e do ADA, com eles o Santiago não ia se
meter assim e com tanta facilidade.
— É. Faz sentido. Ele conversa com nossos inimigos como conversa
com a gente. São negócios.
— Foi o que pensei.
— Devem ter sido os porcos, mesmo.
— Só pode ser.
— E o que é que ele quer agora, pra devolver a Michele? Só um
encontro com você?
201
— É.
— Por quê?
— Não explicou. Eu não sei, chefe, será que é... algum lance?
— Uma arapuca? O que é que eu faço?
— Ele já marcou hora e local?
— Não. Disse que vai ligar pra mim. Pediu o número atual do meu
rádio. Vai ligar às quatro e meia.
— Daqui a dez minutos.
— Então você diz que vai, que falou comigo, que eu autorizei, que o
importante é a vida da Michele, que tá tudo bem.
— Só isso?
— Só. Quando souber onde e como vai ser o encontro, você prepara o
melhor pessoal disponível pra te acompanhar. Pede ao Rivaldo pra fazer uma
seleção entre os moleques dele... ele está educando e treinando uma
garotada formidável. O plano vai ser o seguinte: o pessoal vai fazer um 360.
Do jeito que o BOPE faz, quando invade favela. Só que, nesse caso, o círculo
de proteção tem de ser grande pra caralho para que, do centro, ninguém seja
visto, além de você, claro, porque você vai estar no centro, que é o ponto de
seu encontro com o porco. E é óbvio que o círculo vai perder aquela forma
bonitinha, certinha, porque vai ter de se colar nas coisas todas daquela área,
as ruas, os prédios, tudo isso. E é também óbvio que o objetivo não será
defender a sua vida, mas capturar o Santiago quando ele liberar a Michele,
ou resgatar a Michele, se ele tiver outras intenções e trair você. De qualquer
maneira, aconteça o que acontecer, eu quero o Santiago vivo. Copiou?
— Copiado. Só tem uma coisa.
— O quê?
— Não vai dar tempo de falar com o Rivaldo, pedir o apoio, esperar o
pessoal chegar... Pode ser que o Santiago queira um encontro daqui a uma
hora. E aí?
— Então esquece o Rivaldo. Prepara a prata da casa, mesmo.
— Desculpe, chefe, não entendi. A prata o quê?
202
— Nada, esquece. Eu quis dizer pra você agir com seu pessoal,
mesmo.
— Ah! Certo, chefe. Mas pode ficar tranqüilo. Tenho gente muito boa
aqui comigo. Agora, tenho até um professor do Exército, que tá instruindo
meus meninos.
— Cuidado com infiltração, Índio.
— Nós é que tamos infiltrando, chefe.
— Nunca se sabe, Índio. Veja lá isso com cuidado.
— Pode deixar, chefe. Vou tratar disso com carinho. E vou começar a
organizar o pessoal imediatamente. O plano vai dar certo. Ainda hoje vamos
estar com a Michele aqui, comemorando, chefe.
— Me mantenha informado. O outro plano já está em andamento?
— Tudo nos conformes, chefe.
— Ficou mesmo com o Cezinha?
— Cezinha, Urubu e a turma lá deles.
— Muito bem.
Índio ainda espera que Moisés se despeça, mas o líder do CV, preso
em Bangu I, interrompe a ligação sem dizer mais nada. O chefe da Mineira
abre a janela e convoca Jonas aos gritos. Alunos e professor olham pra cima,
protegendo os olhos do sol, com a mão Juvenal não consegue disfarçar o
sorriso quando percebe que aquela cena parece demonstrar a eficiência de
seus ensinamentos. Quem registrasse aquela imagem numa foto deduziria
que os comandados estavam batendo continência para o comandante. O
jovem recruta e historiador retoma a preleção, enquanto Jonas se abala na
direção das escadas. Na salinha, Índio desenha alguma coisa:
— Quero os mapas que o piloto da Polícia Civil preparou pra nós.
Quero tudo aqui, correndo. Operação de guerra. É emergência, Jonas.
Escolhe nossos 18 melhores soldados. Armas para curta, média e longa
distância. Vamos precisar de seis motoristas e seis carros.
— Posso substituir alguns carros por vans, pra reduzir o número?
— Não. Vamos precisar de seis carros, seis unidades móveis, porque
cada ponto precisa de agilidade máxima e total independência.
203
— Certo.
— E mais quatro rapazes experientes, para o trabalho de apoio Eles
vão subir, dois a dois, em prédios de onde possam orientar a ação. Pra eles,
quero binóculos e rádios especiais. Preciso daquele microfone oculto e do
selo para acompanhamento pelo sistema GPS. Traz visor noturno também.
Não sei ainda a hora da operação. Pega lá no arquivo as fotos que mandei
juntar da Michele. Todo mundo conhece o Santiago?
— Isso eu não sei responder.
— Quero fotos do Santiago também.
— Do Santiago não temos.
— Manda a Vikie procurar na internet.
— Só isso?
— Quer mais?
— Não. Tá de bom tamanho. — Então, corre, porra, mete o pé.
QUARTO DE HOSPITAL, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 19h25
Carlos Augusto abre os olhos devagar e, devagar, divisa o perfil de
Renata. A silhueta embaçada da amiga o remete aos dias anteriores à
memória das últimas horas. Aos poucos, compreende que não seria Renata,
não poderia ser. Aperta os olhos, volta a abri-los. É mesmo Renata. Ela
saúda seu retorno à consciência:
— Baby, tá tudo bem. O pior já passou — aperta-lhe a mão.
— O que... — uma dor lancinante interrompe a pergunta.
— Não fala agora, Baby. Melhor não falar. Foi ruim e vai doer um
pouco, mas o pior já passou. Você perdeu dois dentes, quebrou o nariz, o
antebraço esquerdo e duas costelas. Tem escoriações nas costas e nas
pernas. Mas vai ficar tudo bem, Baby.
— Meus dentes... vou ficar sem os dentes? Da frente?
— Não fala agora, Baby. Vai ficar tudo bem. As próteses, hoje em dia,
são mais perfeitas que os originais.
204
— Mas são — embola as palavras, porque a língua está inchada e a
boca, anestesiada — artificiais... Vou ficar igual ao meu pai, que usa
dentadura desde os 35 anos...
— Não tem nada de dentadura. Isso foi em Pernambuco, na década
de 60. Esquece isso, Baby. Relaxa. Dorme. Vai ficar tudo bem.
— E você? E Pedrinho? Como é que você... — a dor vence a
curiosidade.
— Tá tudo bem. A Suely me ligou. Como você não chegava e ela tinha
de sair, ela me ligou. Lembra que eu tinha dado pra ela meu celular, uma
vez que ela ficou com Pedrinho? Por sorte, eu ouvi o recado pouco depois.
— Mas não ligaram pra ela? Eu dei o número de casa. Me lembro
que dei pra alguém, quando tava entrando no hospital...
— Vai ver tentaram e não conseguiram. Lembra que você
desconectou o telefone fixo, pra evitar que o Pedrinho falasse com o pai?
— O pai do Pedro...
— Natinha... — Baby começa a chorar.
— Não fica assim, Baby. Eu sei, eu sei. Mas agora você tá seguro. Já
chamei o Itamar e o Júlio. Eles estão aí fora. Achei que você não ia querer
meter o Érico nessa história. Acho que é muito cedo pra ele mergulhar assim
de cabeça no caldeirão...
— O caldeirão do Baby... — sorriu sem os dentes da frente e Renata
disfarçou o susto. Continuou: — Natinha, não foi assalto?
— Olha, Baby. Sua carteira tá com dinheiro, talão de cheques,
cartões de crédito, tudo. Assalto não foi.
— Você chamou a polícia?
—Disseram, na recepção do hospital, que você proibiu
terminantemente que se envolvesse a polícia.
— Eu disse?
— Mas é melhor mesmo. Imagina envolver a polícia nisso? Só faltava
essa. Era capaz do pai do Pedro aparecer aqui com sua quadrilha... pra te
proteger...
205
— Deus do céu! Bebê de Rosemary! Ah! pelo amor de Deus, não me
assusta, Renata.
— Isso não vai acontecer. Ninguém chamou a polícia. Fica tranqüilo.
Relaxa.
— Foi o pai do Pedro, não foi? Foi ele, não foi? O que ele quer, esse
homem? Meu Deus do céu.
— Ele não quer nada com você, Baby. Você apanhou, mas o alvo era
eu. Foi um recado, uma ameaça. Não é nada com você.
— E como é que você me localizou?
— Acharam um papel em seu bolso com o número de minha mãe.
— É, eu lembro disso. O seu número e o celular da Suely eu sei de
cor, mas não sabia o de sua mãe, e com essa história do Pedrinho, achei que
podia precisar.
— Mamãe me deixou um recado com o endereço do hospital. Toda
preocupada, coitada. Ela te adora. Aposto que se não fosse a osteoporose e o
trauma por causa daquele tombo, ela já estaria aqui, grudada na sua
cabeceira. Olha, Baby, eu tenho de ir. Não se preocupe comigo e com Pedro.
Nós vamos ficar bem. Vamos pra um lugar bem seguro. Prometo dar notícia.
Pra sua segurança, o melhor é você ficar longe de mim. Vou chamar os
rapazes. Eles vão se revezar. Enquanto você estiver internado, um deles vai
ficar com você. Você não vai ficar sozinho.
Renata se abaixa e beija a testa de Baby.
SALA DE RECEPÇÃO DO HOSPITAL, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS OITO DA NOITE
Renata checa a agenda e disca o número no telefone público:
— Alice? É Renata. Tudo bem, tudo bem, tudo ótimo. E você? Tá
podendo falar? É, já tem tempo. Essa corrida tremenda da vida da gente...
Mas você tá bem? Legal. Que legal. E a PUC, quando termina? Já? É
mesmo? Esse ano? Que barato. Vai ter festa de formatura? Claro, conta
comigo. Vou ficar esperando o convite. É, o endereço de sempre. O mesmo
endereço e a mesma vidinha de sempre. Nada, que namorado nada. Você
206
acha que homem interessante e desimpedido vai querer se envolver com uma
assistente social do complexo penitenciário de segurança máxima do estado
do Rio de Janeiro? Um ou outro rolo, de vez em quando, que é pra espanar
teia de aranha, minha amiga. Só isso. Que nada. Bondade sua. Quem dera
fosse verdade. A vida não é assim, Licinha. Mas não é. Quem dera fosse.
Não, amarga não. Pode ter certeza de que do alto-astral não abro mão. Mas
eu garanto que vou estar na primeira fila, na sua formatura. Pedrinho tá
bem, tá ótimo, crescendo a toda velocidade. Você nem vai reconhecer. Já tem
o quê, seis meses que você não vai lá em casa? Mais? Isso tudo? Caramba.
Então, você não vai reconhecer ele mesmo. Mamãe tá mais ou menos. Levou
um tombo, quebrou o fêmur, um sufoco. Pois é. Foi mesmo. Coitada. Essa
idade não é fácil. As mulheres vivem mais que os homens, mas, literalmente,
aos trancos e barrancos, tombos e fraturas. Claro, né? Sobra pra gente. Mas
a mamãe bem que merece ser bem tratada. Dei um bocado de trabalho. É,
comigo também, apesar de sozinha, tá tudo bem, tudo em paz, quer dizer, na
verdade, Licinha, mais ou menos. Não, não é nada de mais, mas acho que
vou precisar da sua ajuda. Seria ótimo se a gente pudesse conversar
pessoalmente. Você ainda tá namorando aquele rapaz simpático, bonitão? É,
o policial? Que bom, que legal. Fico super feliz por você. Quem sabe depois
da formatura vai pintar outra cerimônia? Ué, minha filha, quem sabe? Eu
aposto que sim. Tomara. Bom, o importante é que esteja sendo legal, não é?
Então, podemos conversar um pouquinho? Quando você puder, quer dizer,
se pudesse ser hoje seria o máximo? É, jura? Bem, pra mim, o ideal seria,
pra te ser franca, completamente franca, o ideal seria agora, se for possível
pra você. É mesmo? Daria pra chamar seu namorado? Não, depois eu te
explico. Se desse, seria fantástico. Puxa, seria maravilhoso. Então tô indo
praí voando, antes que ele saia. Beijo.
BAR DO ARNAUDO, RUA ALMIRANTE ALEXANDRINO, SANTA TERESA, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS 20H05
207
Luizão mastiga sua carne-de-sol com feijão-de-corda, na manteiga de
garrafa. Criciúma, Sander e Sales se aplicam com vigor na macaxeira.
Bebericam suco de mangaba com acerola. O rádio de Luizão vibra com os
talheres, enquanto ele repete a ladainha, "uma pena que esse bar não tenha
ar-refrigerado".
— Diz aí, Félix.
— Não é o Félix, não.
— Quem é?
— O Félix não tá podendo falar agora, não. Ele tem outro
compromisso. Ele e o X-9 que vocês meteram aqui tão muito ocupados
agora. E pelo visto não vão poder conversar tão cedo com vocês. Só na outra
encarnação. Se vocês gostarem de churrasco, tão convidados. Vai ter
churrasco essa noite.
A ligação é interrompida. A carótida de Luizão salta, injetando sangue
nas orelhas, no nariz, na testa, nas bochechas, menos no cérebro do
delegado, que parece bestializado com o que ouviu.
SALA DE ESTAR DO APARTAMENTO DE ALICE DE ANDRADE MELO, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS 20H10
Na verdade, sala de estar do apartamento dos pais de Alice. Mais
especificamente, da mãe de Alice, como a orgulhosa proprietária gosta de
assinalar, para que não pairem dúvidas sobre a fatia que lhe coube, na
disputa travada, em juízo, com o pai de Alice. No momento, entretanto, a
casa é mesmo de Alice. Sua mãe avalia, in loco, a extensão de seus domínios
na Península Ibérica.
— Você não vai se arrepender, meu amorzinho. É só mais um
pouquinho. Deixa de ser cdf. Você tem o dia livre amanhã. Dá perfeitamente
pra estudar pra prova amanhã. Você pode ficar mais um pouquinho, sem
problema, tá? Aliás, pensando bem, pra ser bem franca, você poderia, se
quisesse, se desse valor a certas coisas, você poderia perfeitamente passar a
noite aqui.
208
— Licinha, eu já te expliquei. Não é falta de vontade.
— Não é bem de vontade que se trata, neném.
— Tá bem, não é falta de tesão, se você quer saber. É que eu sou um
cara sério, um cara responsável e todas essas caretices.
— Legal, legal, tudo bem. Só não precisava exagerar.
— Deve ser difícil pra você entender, porque... quer dizer, Licinha, a
vida é difícil pra todo mundo, por uma razão ou outra. Só que, pra mim, ela
é difícil em todos os sentidos e, se eu não agarrar o tempo com as duas
mãos, com toda força, e não morder pra tirar pedaço, eu danço. Só isso.
— Tudo bem, não vamos falar disso de novo.
— Eu também não quero. Foi você que provocou.
— Isso é provocação? Pra você, isso é provocação?
— Não, não foi nesse sentido que eu disse. Eu quis dizer que você é
que trouxe o assunto à baila.
— Ah! agora ficou melhor. Por falar em baile, que tal a festa da Juju,
na sexta? Tá de pé? Não vai me deixar na mão novamente. Olha lá, neném.
Você prometeu.
— Vou fazer o possível.
— O possível, não. O possível é pouco. Quero que você jure, agora.
Põe a mão aqui na minha perna e jura.
— Sua perna agora é bíblia, é?
— E não é?
— Pô, não faz assim comigo. Isso é maldade. É sacanagem.
Literalmente. Como é que eu vou me concentrar depois? Você sabe que
tenho de ir embora. Tenho de estudar de verdade, senão vou me dar mal. Eu
não posso me dar mal. Se eu me der mal, perco a bolsa. Será que você ainda
não percebeu o que significa pra mim estudar na PUC? Puxa, era um sonho.
Pra mim, é um sonho.
— Pra mim, é pesadelo. Principalmente, nessa época das provas. Se
você, que é o maior cdf, uma das melhores médias tio curso de Direito... diz
isso, imagina eu. O que é que vai ser de mim, neném? Então, faz uma coisa:
fica pra estudar comigo.
209
— Você sabe que isso não dá certo. Não dá.
— Não dá?
— Dá, sim. Você entendeu, sua sacaninha. Dá outra coisa.
— Coisa que pelo visto não te interessa.
— Mas que coisa, Alice. Parece criança.
— Tá bem. Então conversa com a Renata e vai embora. Mas não vai
ficar fazendo charme pra ela. Eu tô de olho, hein?
— Ela é bonita?
— Ué, você não se lembra dela? Nós estivemos várias vezes juntos.
— Eu acho que sim, vagamente, mas não tenho muita certeza.
— É bonita, sim. Do jeito dela. Não sei se é bonita, mas é atraente. É
uma pessoa superlegal. Por isso é que tô te pedindo pra conversar com ela.
— Tá bem. Tô aqui, esperando.
— Ela tá a caminho.
— Aumenta ali a televisão. Tá começando o Jornal Nacional.
O volume da TV mergulha a sala na musiquinha que atravessa todas
as salas do Leblon. A primeira notícia é alarmante: "Assassinado o diretor de
Bangu I. Anacleto Chaves de Melo, de 54 anos, foi fuzilado no início desta
noite, na porta de sua casa, no bairro da Penha. Ele havia dispensado os
seguranças que o acompanhavam desde março, quando sofreu um
atentado."
O locutor chama o repórter: "Saul Noodles está no local do crime. Já
há alguma pista, Saul? A polícia já tem algum suspeito?"
"Boa noite, William. Por enquanto, não há pistas dos assassinos. A
Secretaria de Segurança informa que ainda não é possível estabelecer
relações entre o crime e os atos de vandalismo que tumultuaram a cidade
ontem. Mas afirma que as investigações estão sendo conduzidas por uma
equipe especialmente selecionada pela Polícia Civil e que os culpados serão
punidos com todo o rigor."
Corte para o secretário de Segurança, em close: "Pode haver e pode
não haver relação entre esse homicídio brutal e as escaramuças de
traficantes, esses selvagens que ontem fizeram da cidade a sucursal do
210
inferno. Nenhuma hipótese pode ser descartada. Mas seria precipitado e
leviano antecipar alguma conclusão. O que eu quero dizer à população do
estado do Rio de Janeiro é que a investigação irá até o fim, doa a quem doer.
A sociedade fluminense pode continuar confiando em suas polícias."
Saul Noodles: "É com você, Fátima."
A locutora completa: "Antes do final desta edição, novas informações
sobre o assassinato do diretor de Bangu I, no Rio de Janeiro, Anacleto
Chaves de Melo.".
O namorado de Alice se aproxima da TV.
— Ele é seu parente?
— Era, né?
— Não.
— Que susto.
— Ué? Você só se importa se é meu parente. É assim que se
comporta um herói da segurança pública?
O interfone anuncia a chegada de Renata.
RESTAURANTE ALCAPARRA, PRAIA DO FLAMENGO, DIA 30 DE SETEMBRO, AS 20H38
O secretário de Segurança janta com Marquinho.
— Não vou repetir que tô exausto pra não parecer que, além de
cansado, tô ficando esclerosado.
— Eu também tô muito cansado, secretário.
— Meu filho, garçom, venha cá.
— Pois não, secretário.
— Escuta aqui, meu filho, dá pra diminuir um pouquinho esse arrefrigerado?
Tá bem em cima de mim. Esse restaurante tá uma geladeira.
Diz ao gerente que nós não somos esquimós. Chama ele aqui.
— Vou dar um jeitinho, secretário. Pode deixar. O senhor manda.
— Obrigado, meu filho. Obrigado.
O garçom se afasta.
211
— Marquinho, detesto essas coisas. Você ouviu o que ele disse?
— É o quê, Marquinho. Ouviu ou não ouviu?
— Ouvi.
— Então fala direito, homem. Que coisa. Viu como ele me trata?
— Ele foi educado, secretário. Achei ele educado.
— Que educado, Marquinho. Será que você não distingue uma
pessoa educada de um puxa-saco?
O celular-rádio que o secretário usa, exclusivamente para falar com o
governador, treme em seu bolso.
— Ai, meu Deus do céu. Será que nem jantar em paz eu posso? A
criatura não me dá uma trégua...
Aperta uma tecla no aparelho e atende:
— Governador... Diga, mestre. Ah! É você, Paulinho? Tô jantando,
mas não faz mal. Pode falar. Não, fala, pode falar.
Vira-se para Marquinho, tampa o bocal do aparelho e sussurra:
— É o secretário de Comunicação, aquele idiota. Continua a
conversar com Paulinho:
— Sei. Ah! é? O Jornal Nacional? Ah! Sei. Pois é, eu já tinha feito o
relato ao governador. É, eu sei. Muito chato. Horrível. Pois é, isso é que é o
pior. Exato. Essa coincidência... Claro, pode não ser coincidência. Não deve
ser, aliás. Eu quis dizer: essa seqüência de fatos desagradáveis. Horrível,
Paulinho, horrível mesmo. Nossa mãe, pra imagem, então, é péssimo. Ih!
Que chato. Essa imprensa estrangeira também só noticia desgraça. Igual à
nossa. São todos iguais. Uns abutres. O governador vai ao sepultamento?
Bom, não sei; é verdade, se ele for, chama atenção pro fato, que é negativo.
Nisso você tem razão. Mas se não for, será que não passa uma certa,
digamos, indiferença? É verdade. Sei, sei. Compreendo. Tá bom, eu vou e
represento o governador. Melhor assim. Tá certo. Ah! quanto à entrevista...
não sei... Compreendo. Sei. O que eu quis dizer é que... Não, não foi bem
isso. Eu não disse inferno, eu disse que o Rio até parecia uma sucursal do
inferno, o que é diferente, Paulinho, muito diferente. Mas foi mesmo, não foi?
212
Claro, a nós compete tranqüilizar, passar confiança. Claro, é a tese que eu
sempre defendi. Eu inclusive conclamei a sociedade a manter a confiança
nas polícias, você viu essa parte? O que é que você achou dessa parte? Mas
eu... nisso aí eu discordo de você, porque não acho que existe exagero
quando a gente apenas reconhece a realidade. É a realidade, Paulinho. Se a
gente não diz alguma coisa que se assemelhe à verdade, como é que vai
querer que confiem na gente? Se passarmos essa mensagem... vão perder a
confiança... Certo, sei, tá bem, admito que inferno foi um pouco forte.
Entendo. Não, isso não. Agora você já tá indo longe demais, Paulinho. Não
vamos nos iludir. Não, peraí, não foi a prefeitura que provocou o caos. Não.
Fechar as escolas atrapalhou, claro, ajudou a difundir o medo, eu sei, é
verdade, mas não foi isso que causou todo o tumulto. Claro, claro que o
prefeito fez jogo sujo. Ele se aproveitou pra desgastar a gente. É uma puta
sacanagem, mas daí a dizer que... tá, ok. Tudo bem. Não, eu também. Claro,
estamos de acordo. Claro. Ah! ele viu? Ele também achou? Diga ao
governador que eu tive a mesma impressão que ele, quando vi o resultado na
TV. Também não gostei. Ele tem razão. Vou, sim, sem dúvida, vou procurar
ser um pouco mais cuidadoso. Diga a ele pra ficar tranqüilo. Ótimo. Ótimo.
Pra você também.
O secretário desliga o aparelho. Volta-se para Marquinho.
— Tô por aqui com esse cara. Quem ele pensa que é pra me criticar,
me corrigir, me dar lições? Ele que vá se foder. Aposto que o canalha tá
ligando, nesse momento, pro Ancelmo Gois, pra plantar uma notinha bem
amigável, cheia de amor e lealdade: "Secretário de Segurança nega que tenha
colocado seu cargo à disposição do governador. Garante que o boato não tem
fundamento, até porque, como diria o presidente Geisel, o cargo sempre
esteve à disposição do governador." O que é que você vai comer, Marquinho?
Vamos pedir logo, antes que eu perca a fome. A gente tem uma hora pra
comer. A reunião tá marcada pras dez. Quero só ver o prato que a
Inteligência vai me servir. Quero só ver o que é que aqueles dois (Mitos vão
me dizer.
213
O rádio do secretário para contatos com as chefias das polícias entoa,
dentro da pasta de Marquinho, um som de festa rave.
— Que diabo é isso? indaga o secretário.
— Seu celular. Na minha pasta. Deixa eu achar ele aqui.
— Foi você que escolheu essa campainha?
— Foi.
— Que coisa horrível, Marquinho. Vê se muda isso. Imagina eu ao
lado de uma autoridade, um jornalista... Imagina eu atendendo essa coisa ao
lado do governador...
Enquanto ouvia o sermão, Marquinho atendia o telefone. Tapando a
boca do celular, cochicha:
— É o doutor Vitor Graça. Eu avisei que o senhor está jantando, mas
ele disse que é urgente.
O secretário faz uma careta e atende:
— Doutor Vitor.
— Secretário. Más notícias.
— E quando foi que você me ligou pra dar uma boa notícia, Vitor?
— Mas essa é ruim mesmo. O inspetor Félix Coutinho, homem de
confiança do delegado Luizão França, foi brutalmente assassinado na
Mineira.
— Os traficantes?
— Os vagabundos ligados ao Índio.
— Tem relação com o seqüestro?
— Não, nenhuma.
— Ele tava fazendo o quê, lá?
— Foi encontrar um colaborador nosso, infiltrado.
— Sozinho?
— Pra esse tipo de encontro, é mais seguro ir sozinho. Chama menos
atenção.
— Mas como é que o colaborador vai colaborar na área em que atua
infiltrado?
214
— Quando o cara não tem como sair, é o jeito, secretário. Por isso é
que nosso ofício é tão perigoso, apesar de tão desvalorizado pelas
autoridades.
— Não é hora para lamúrias, Vitor. O X-9 caiu também?
— Também. E os corpos ainda estão lá. Tudo indica que foram para o
microondas.
— Que horror, Vitor. Que horror. Temos de resgatar os cadáveres.
— Era exatamente o que ia sugerir ao senhor. Pensei em mandar o
Core, da Polícia Civil, pra lá, pra não envolver a PM, que está tão
concentrada lá na Rocinha, naquela missão que o senhor considera
prioritária, mas... pensei melhor e concluí que talvez o senhor recomendasse
um tratamento de choque mais completo, de maior impacto, o que só o
BOPE poderia fazer.
— Prioridades mudam, Vitor, de acordo com as circunstâncias.
Ontem, era a Rocinha; hoje, é a Mineira. Vou deslocar o BOPE,
imediatamente.
— Mas isso pode demorar, secretário. Pode exigir uma ocupação
prolongada. Os traficantes vão reagir, vão convocar reforços de outras áreas,
isso pode atravessar o mês...
— Que seja, Vitor. O Core não é pra isso. Vou ligar pro Fraga agora
mesmo. A partir desse momento, o BOPE tem outra prioridade. Dê um apoio
lá na Rocinha aos convencionais. A Polícia Civil vai ser útil lá na Rocinha.
Qualquer novidade me liga.
O secretário desliga o rádio e desabafa:
— Sou macaco velho, Marquinho. Esse pessoal me trata como se eu
fosse marinheiro de primeira viagem. Pelo visto, me tomam por um perfeito
idiota. O Vitor veio pra cima de mim fazendo um jogo esperto. Malandro...
Pra malandro, malandro e meio, Marquinho. Veio propor que o BOPE
assumisse determinada responsabilidade na Mineira. Tão generoso, tão
bonzinho..., repassando atribuições à PM, entregando de mão beijada
responsabilidades importantes à PM, valorizando o BOPE, logo o BOPE, o
arqui-rival. No fundo, ele gostaria que eu julgasse a atitude dele muito
215
louvável e generosa, mas recusasse a proposta e determinasse que o Core
tomasse a Mineira. Era isso que ele queria, o safado. Assim, mataria dois
coelhos. Ia ter o que queria, ao mesmo tempo que passaria uma imagem de
grandeza... Vitor, o estadista... Esse cretino... Mas não sou nenhuma besta,
não, tá ouvindo, Marquinho? Quebrou a cara. Liga aí pro Fraga. Põe ele na
linha. Quero o BOPE na Mineira, já.
TÁXI AÉREO SOBREVOA PISTA CLANDESTINA NAS PROXIMIDADES DE ANGRA DOS
REIS. LUZES ESPARSAS PONTUAM O RELEVO IRREGULAR DAS MIL ILHAS, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS 22H05
Santiago não vê o rosário de estrelas marinhas. Dorme
profundamente, a cabeça tombada sobre o encosto do assento vizinho, que
está vazio. No bolso interno do paletó estão o escapulário e a fita com as
conversas comprometedoras da senhora Nuno Cedro. O abismo inconsciente
traga seu espírito para despenhadeiros profundos e escarpados.
Mais tarde vai relatar seu pesadelo ao amigo que o aguarda:
— Lá de baixo, ao pé da altíssima estrutura metálica, o grupo apupa,
chama seu nome aos berros, assovia, atira latas vazias. Os gozadores da
turma abanam lenços e gritam: "Olha pra baixo, Santiago. Eeeeeaaaaaa.
Agora, vai; agora vem... Eeeaaa." Ao seu lado, na quina da estrutura elevada,
20 metros acima do solo, o instrutor lê a sentença: "O aluno zero-meia terá
de caminhar sobre a estreita trilha de aço suspensa, de 15 centímetros de
largura." Apenas 20 metros separam sucesso e fracasso. Se for reprovado
nesta sua terceira tentativa de ingressar no BOPE, terá de cavar a própria
sepultura, deitar-se nela e submeter-se ao escárnio coletivo. A suprema
humilhação será consagrada pelo retorno irreversível do candidato à polícia
convencional.
O pavor tanto quanto a vergonha destravam suas mãos, que largam o
poste em que se agarravam e o lançam no estribo fino, sobre o vazio. Olha
para o céu, o vazio superior; olha para a frente, a estria de aço vai se
estreitando até reduzir-se a um fio imperceptível e intransitável,
216
prenunciando a impossibilidade de percorrê-lo. Olha para baixo, os colegas
aos brados, apupando, o vazio. Sente as pernas fugirem-lhe. Despenca.
Aterrissa docemente sobre a cadeira do dragão, à qual seu corpo é
atado pelos colegas, supervisionados pelo mesmo instrutor, que o informa:
"Charlie-Charlie, aluno zero-meia. Campo de Concentração. Você passou no
teste de altura. Venceu a vertigem. Só lhe falta, agora, derrotar a dor."
Estranha o que lhe é dito, porque sabe que já está morto. Os colegas de
negro tomam cerveja, cantam em coro as cantigas do BOPE e erguem os
punhos. O instrutor abaixa a alavanca e a descarga elétrica torra seu
cérebro. Suas narinas exalam um perfume dulcíssimo de cadáver
embrulhado em rosas.
Acorda num sobressalto, quando o co-piloto toca seu braço. É preciso
preparar-se para a aterrissagem. Aperta o cinto de segurança e inspira o ar
que lhe falta.
SAIDA DO APARTAMENTO DE ALICE, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 22H09
Renata resiste ao convite para passar a noite com a amiga:
— Não quero expor vocês. Não quero envolver vocês.
— Nós já estamos envolvidos — insiste o namorado de Alice. — Não
tem mais jeito. Já somos pane dessa trama. O que é que você queria?
Primeiro, somos seres humanos, não somos máquinas. Depois, Licinha é sua
amiga. Por tabela, também sou. Além disso, puxa vida, você se esqueceu o
que eu sou? O que eu faço na vida, além de estudar na PUC? Sou policial.
Como é que um policial poderia dormir com um barulho desses? Ouvir a
história que você contou e dizer, tudo bem, boa noite, até amanhã, vou
tratar da minha vida, vou pra casa, vou dormir?
— Tem policial que não só dorme com um barulho desses, como faz
um barulho desses. Meu ex-marido... não se esqueça...
— Você teve azar, Natinha — diz Alice.
— Você é que teve sorte, Alice. O namorado retoma o raciocínio:
217
— Não dá, Renata. Não vou deixar você sair daqui sem que a gente
tenha encaminhado uma boa solução. Você tem certeza que seu filho vai
ficar bem com sua mãe?
— Eu tentei o quanto pude não meter minha mãe nesse melê, mas...
que fazer? Ela tem uma boa estrutura de apoio e, pelo menos, o Pedrinho vai
ficar vigiado e protegido 24 horas por dia. Não sei se o pai dele seria maluco
a ponto de ir até lá ou mandar alguém. Acho que não. Acho que agora ele já
me meteu numa enrascada tão grande que deve estar achando que a disputa
judicial pela guarda do Pedro são favas contadas. Pra que ele iria provocar
uma situação que gerasse uma denúncia por parte de minha mãe e
complicasse as coisas?
O namorado de Alice concorda:
— Acho que você tá certa, Renata. Então, vamos tratar de você.
Vamos esquecer o Pedrinho por alguns minutos. Licinha, que tal se eu
dormir aqui também?
— Tudo bem. Vai ser melhor mesmo — concorda Alice.
— Olha, eu não quero criar problemas pra vocês, mudar os planos
de vocês... — diz Renata.
— Não enche, Nati. Pára com isso. Que coisa mais chata. Parece que
não somos amigas... — responde Alice.
— Então, combinado. Eu volto pra dormir aqui — conclui o
namorado.
— Como assim? — pergunta Alice. — Você vai sair?
— Vou. O caso vai se agravar se eu não tomar uma providência. Mas
eu volto.
GABINETE DO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 22H12
O secretário tira a gravata, o paletó, manda desligarem o arrefrigerado,
senta-se em seu lugar, certifica-se de que o suprimento de café
fresquinho é suficiente, manda ligar o sinal que bloqueia a entrada, estende
218
os braços sobre a mesa, puxa para si um maço de folhas em branco e
declara aberta a reunião:
— Amílcar, Vaz, a palavra está com vocês.
Amílcar se ajeita na cadeira, mexe, aflito, na caneta e no caderno à
sua frente, olha para o secretário e volta a baixar os olhos. Vaz mantém a
cabeça baixa e olha a mesa à sua frente, fixamente.
— Não vou mandar o Marquinho sair. Confio mais nele do que em
vocês dois. Podem começar — determina o secretário.
— Em primeiro lugar — diz Amílcar —, um breve relatório do que
fizemos, se o senhor não se opõe, secretário.
— Me oponho. Vamos direto às conclusões.
— Pois não, secretário. Se o senhor acha melhor, vamos direto às
conclusões: seus celulares estão grampeados. Os telefones fixos também, os
daqui e os de sua casa. Encontramos cinco pontos de captação de áudio,
aqui no gabinete, e um no elevador exclusivo. Os quatro motoristas que se
revezam no seu carro trabalham para a P2 e apresentam relatório diário ao
tomando geral da PM.
— Um bom começo, Amílcar. Estou gostando. Estou gostando muito.
Pode seguir.
— O delegado Vitor Graça mandou um investigador de sua estrita
confiança ao Paraná, pra levantar a situação de seus negócios por lá.
— Meus negócios no Paraná? Que negócios?
— Não sei, secretário, só sei que um investigador está lá apurando
alguma coisa e tem conversado muito com seus antigos sócios.
— A família de minha mulher é que é do Paraná.
— Não sei, secretário, mas que tem um sujeito lá xeretando,
fuxicando, tem.
— Que filho da puta... Será que é alguma coisa lá com as terras?
Minha mulher é herdeira de umas propriedades, com os irmãos dela.
— Não sei, secretário. Mas alguma coisa tem interesse pro Vitor,
senão ele não mandaria o sujeito pra lá.
219
— Pode ser alguma coisa ligada ao conflito de terras. Eles têm tido
uns problemas com os sem-terra.
— Quem sabe? É provável que seja isso, secretário. Já pensou?
Apresentarem o senhor como latifundiário, grileiro, explorador de trabalho
escravo, cúmplice de violências contra os sem-terra?
— Puta que o pariu. Só faltava essa.
— Mas isso é só o início, secretário. Infelizmente, tem muito mais.
— Então, fala.
— Os telefones do Marquinho estão grampeados também, o celular, o
da sala dele, aqui ao lado do gabinete, e o de casa.
— Viu, Marquinho? Pensou que era só comigo? Tava aí bem relaxado,
se divertindo com meu calvário... Viu? Pimenta no olho alheio é colírio... Tá
vendo só, rapaz, você também é importante. E o que mais, Amílcar? A
namorada do Marquinho também é herdeira de terras no Paraná?
— Não, mas o namorado vende ecstasy na boate Le Boy.
— O quê? Vai devagar, vai devagar. Repete o que você disse.
— Não precisa, secretário, eu posso explicar. O Leonardo não é meu
namorado. Não é isso. Nós somos só bons amigos. Não tenho namorado. Isso
é calúnia, secretário. Na polícia, a gente tem de demonstrar virilidade toda
hora. Ninguém confia em ninguém. I uma coisa horrível. Isso é insegurança
de quem acusa.
— Marquinho, eu não estou nem um pouco preocupado com quem
que você copula... se diz isso, entre gays?
— Nunca ouvi — responde Marquinho.
— Então, deixa eu dizer isso de outra forma: não me importa se você
é homossexual ou heterossexual, se é ativo ou passivo, se gosta de mulher
gorda ou magra, homem alto ou baixo, se tem tara por grávidas ou anões.
Eu quero que você me explique é o seu envolvimento com o narcotráfico.
— Ecstasy não é narcótico, secretário.
— Não interessa, Marquinho. Tráfico de entorpecente. — Também
não é entorpecente.
— Barbitúrico, não interessa, porra.
220
— Também não é.
— Foda-se, Marquinho. Não interessa. Quero que você me explique
seu envolvimento com o tráfico. Que escândalo! Só me faltava essa. Logo
você, recomendado pela Cibele, filho da minha afilhada mais querida. Que
decepção.
— Secretário, por favor, o Amílcar não falou em tráfico— pondera
Marquinho.
— Quadrilha. Que diferença faz?
— Mas que quadrilha, secretário? O Amílcar se referiu a um
indivíduo.
— Um indivíduo que você, por acaso, conhece...
— Tá certo, conheço.
— Com quem, por acaso, você tem algum grau de interação, digamos,
íntima...
— Próxima, secretário. Tenho uma interação próxima. Nada mais que
isso.
— E próximo pra você não tem problema...? Próximo é tranqüilo?
Próximo é bacana? Próximo de um bandido que trafica ecstasy?
— Não. O que eu quis dizer é que eu sou só um...
— Um parceiro, um chapa, um camaradinha, um amigo de fé do
traficante.
— Nem isso, secretário. Muito menos. Sou apenas um interlocutor do
rapaz, entre tantos outros, provavelmente. E eu nunca soube, nunca sequer
desconfiei que ele vendesse ecstasy. Os investigadores da Inteligência são
muito preconceituosos. São profissionais sem qualificação. Não tô falando do
Vaz e do Amílcar. Mas eles mesmos hão de reconhecer que os seus
subordinados deixam muito a desejar. Aposto que me viram conversando na
praia ou no calçadão com o Leonardo e já deduziram que temos um caso.
Como ele freqüenta boate gay, é logo taxado de gay. Nem sei se é ou não é.
Pra mim, seria surpresa. Se trafica ou não trafica, como é que eu vou saber?
— O problema são as conversas telefônicas entre vocês — agora é o
Amílcar que intervém.
221
— Tinha mais essa, Marquinho — o secretário aperta o cerco. — Você
se precipitou. Deveria ter esperado um pouco mais antes de se defender.
Imprudência da juventude, meu caro. O que tem nas conversas, Amílcar?
— Os dois conversam sobre o flagrante que o pessoal da 13ª DP deu
lá na Le Boy.
— Por que é que os policiais do estado do Rio de Janeiro não
empregam nunca o numeral ordinal? É uma promessa? Um juramento que
se faz para a admissão na carreira? Você se referia aos seus colegas da 13a
Delegacia Distrital, que fica lá em Copacabana.
— É, secretário. Uma das duas que ficam em Copacabana.
— E então...
— Na conversa registrada, o Leonardo relata ao interlocutor...
— Ao Marquinho...
— Ao Marquinho, que houve um flagrante, na véspera. Ele, esse
cidadão, o Leonardo, cujo nome completo é... deixa ver...
Nesse momento, o delegado Vaz ajuda seu colega:
—Queiroz, Leonardo Queiroz.
— Exatamente. Esse cidadão menciona o fato de ter sido detido em
flagrante delito por detetives que o viram vendendo ecstasy para
freqüentadores daquele estabelecimento, inclusive para menores de idade,
lamentando que a liberação tenha lhe custado todo o estoque da droga que
mantinha em casa.
Vaz intervém:
— Se o secretário me permite, gostaria de aduzir ao que o coronel
Amílcar expôs um elemento deveras significativo.
Vaz — diz o secretário —, depois de nosso encontro, hoje de manhã,
observei uma mudança em seu estilo. Pode relaxar, viu?
Aquilo tudo que eu disse foi uma explosão de momento. Não tinha a
intenção de agredir nem você, nem o Amílcar, que são meus melhores
homens. Mas, diga lá.
222
— O elemento novo que ajuda a esclarecer o episódio, secretário, é a
referência explícita que o cidadão citado faz à droga, referência que não
provoca nenhum sinal de surpresa ou de reprimenda do outro lado da linha.
— Quer dizer, do lado da linha em que está o Marquinho — diz o
secretário, voltando-se para o filho da afilhada mais estimada.
Marquinho abaixa a cabeça e permanece mudo. Vaz prossegue:
— Além disso, secretário, o mencionado cidadão...
— Marquinho?
— Não, Leonardo. Este cidadão faz pilhéria com o fato de os detetives
terem ido à sua casa buscar o estoque de ecstasy, perguntando ao
Marquinho o que aconteceria se ele estivesse lá, naquele momento.
O secretário abaixa a cabeça. Vaz continua:
— Nesse ponto do telefonema, secretário, os dois riem juntos.
— Vaz, escuta aqui. Quantas pessoas ouviram essa fita? Quem
grampeou o Marquinho? Houve autorização judicial?
É Amílcar quem responde:
— Nesse caso específico, houve, sim, secretário, porque esse
Leonardo estava na mira da DRE. Já havia muita coisa contra ele.
— Mas você disse que os detetives que o prenderam eram da 13ª DP,
não da DRE?
— É verdade. Alguém da especializada deve ter passado informação
classificada para os coleguinhas da DP, visando, justamente, à extorsão,
cujo fruto seria compartilhado. O pessoal da DRE é mesmo muito
complicado. Aquilo lá costuma funcionar mais como um condomínio de
interesses privados. Pequenos grupos assaltam o banco de dados e
alimentam operadores na ponta, nas DPs, porque nas DPs se tem muito
mais autonomia de vôo, sem qualquer controle.
— Sei — sussurra o secretário. — Olha, se esse grampo foi feito
legalmente e já está formalmente registrado, paciência.
Marquinho começa a soluçar.
O silêncio destaca o choro, que aos poucos vai-se tornando
convulsivo.
223
— Mas pra tudo tem jeito, secretário — intercede o coronel Amílcar.
O secretário olha para ele com expressão deprimida. É o Vaz,
entretanto, quem avança:
— Só a morte é irreparável. Há sempre uma saída, havendo boa
vontade, foi o que meu colega quis dizer. Nós sabemos que a família do rapaz
é decente. A mãe dele é, inclusive, afilhada do senhor e não é uma afilhada
qualquer, é uma afilhada querida, como o senhor fez questão de sublinhar.
Por outro lado, não há nenhum indício, muito menos qualquer evidência que
comprove cumplicidade ativa do Marcos nos negócios de seu conhecido. Se
ele tivesse um cargo na polícia ou na secretaria que lhe impusesse
responsabilidades repressivas, diante de irregularidades, poder-se-ia acusálo
de prevaricação, numa situação como essa. No mínimo, ele estaria
prevaricando. Mas sua função aqui é subalterna. Ele desempenha papel...
— Secundário, coadjuvante — acrescenta Amílcar.
— Sendo assim, não se lhe pode imputar prevaricação. Portanto,
secretário, removendo essa fita dos arquivos da DRE, o que já está feito, a
conversa comprometedora deixa de existir.
— Isso me repugna, Vaz, me entristece e envergonha. Mas vendo esse
menino chorar e imaginando o pranto da mãe dele, que é o que me corta o
coração...
— Vamos eliminar essa fita. Pronto, ela não existe mais. Vaz a
entrega ao secretário, teatralmente. Com dificuldade, o secretário a recolhe e
guarda-a no bolso. Marquinho corre para a porta, cobrindo o rosto, mas é
interceptado pela voz do secretário:
— Que é isso, menino? Sair assim... Onde já se viu? Os impulsos é
que te estragam, Marquinho. Você pensou nas conseqüências de ser visto
saindo assim do gabinete? Senta aí e se comporta feito homem.
O passado está apagado. Pronto. Está esquecido. Quero ver você se
emendar, daqui pra frente. Vamos olhar pra frente.
A tensão dá ao silêncio um status de nobreza.
— Fim do capítulo Marcos Paiva de Souza Carneiro, doutor Vaz.
Vamos em frente.
224
Marquinho se recompõe e joga na lata de lixo, atrás da cadeira do
secretário, a pilha de lenços de papel usados, que guardara nos bolsos.
— Pois não, secretário. Se o senhor não se opõe, tomo a liberdade de
passar a palavra ao coronel Amílcar.
O secretário anui com um gesto largo e lento, espalmando as duas
mãos, como se entregasse um embrulho, uma criança ou uma bomba, ao
coronel, que tira e põe os óculos, lê as anotações, volta a tirar os óculos, até
que, finalmente, se empertiga, deposita os óculos na mesa, e retoma a
exposição:
— A principal pergunta que o senhor nos fez, hoje de manhã, dizia
respeito ao vazamento de informações para o governador. O caso em pauta
era o do seqüestro, mas certamente interessa ao senhor saber se o canal
permanece aberto e se já estava aberto, antes do episódio dessa manhã.
— Esse é o ponto, coronel. Esse é precisamente o ponto. — Nós não
sabemos, secretário.
— Não têm nenhuma hipótese? Nada? Nenhuma pista?
— Bem, alguma pista nós temos. Eu e o Vaz gostaríamos que o
senhor desse uma espiada num vídeo, que nos chegou de uma maneira
muito estranha e suspeita. Por isso, não dá pra confiar. Pode ser encenação,
sei lá. Já checamos a autenticidade material, física. A fita não foi editada.
Quer dizer, o que o senhor vai ver não é uma montagem cinematográfica,
mas pode ter sido uma montagem teatral. Ou seja, que aconteceu,
aconteceu. Só não dá pra ter certeza de que não foi encenação. Mas, se não
for pedir demais, eu e o Vaz consideramos que o conteúdo talvez exigisse
uma cautela adicional, o que, nesse caso... Quer dizer, dado o contexto,
secretário, dos problemas que estamos enfrentando, que são graves, até para
proteger a pessoa em causa de qualquer futura suspeita infundada, quanto
a eventual vazamento, talvez fosse conveniente, se o senhor não se
opusesse...
— Dá licença, Marquinho. Eu, o doutor Vaz e o coronel Amílcar
precisamos ficar a sós. Precisamos de privacidade.
— O senhor quer que eu saia, secretário?
225
— Preciso falar mais claro, Marquinho? Que coisa...
Marquinho recolhe seu material, pastas, livros, documentos, um
notebook, e se retira:
— Com licença. Boa noite.
— Boa noite, não, Marquinho. Você não está dispensado. Ainda quero
falar com você. E preste muita atenção: você está proibido de falar ao
telefone qualquer coisa que não seja absolutamente trivial. E não atenda,
nem ligue para ninguém que não seja de máxima confiança. Não quero você
batendo papo com ninguém em sua sala. Até prova em contrário, todos são
suspeitos. Inclusive você, ouviu?
Marquinho balançou a cabeça afirmativamente, enquanto saía. O
secretário mal espera que a porta se feche:
— Pode passar o vídeo.
Vaz levanta-se e se dirige à TV. Mete uma fita cassete no vídeo.
Prepara-se para ligar a TV, mas a porta do gabinete se abre num estrondo
para a entrada espalhafatosa de Marquinho, que lê folhas de papel com
notícias da internet:
— Secretário, desculpe, mas é urgente. O pessoal tava aqui na antesala
louco pra que o senhor autorizasse algum contato. Olha só: "Michele foi
libertada." "Os morros do CV estão em festa." "Bebida grátis para o povo."
"Carnaval fora de época em alguns bairros da cidade." "Bangu I comemora."
"Pichada com palavrões a sede da Ebony, a empresa de segurança da viúva
de Anacleto, o diretor de Bangu I que foi assassinado no início da noite, na
Penha." Ah! ainda tem mais uma, que é meio chata: "Polícia não se
pronuncia e secretário é o último a saber."
QUARTEL-GENERAL DO BOPE, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 11 DA NOITE
O namorado de Alice tenta um contato com Ramirez, o amigo do
BOPE que ele considera o mais maduro, correto, equilibrado e inteligente, e
que tem o vício de ser um legalista inveterado; é aquele cara que está sempre
resistindo a tudo que embrulha o estômago do estudante de Direito da PUC.
226
O namorado de Alice tem-se descoberto, aliás, a cada dia, mais
estudante de Direito e menos caveira, menos caveira cega. O policial caveira,
quer dizer, do BOPE, em geral acredita que faz justiça pelas próprias mãos e
tende a separar a justiça das leis. Na PUC e no mundo do Direito, a visão é
outra, bem diferente. Por isso, ele tem se aproximado cada vez mais do
Ramirez, que antes ele via com certo desdém, complacente mas crítico,
quando não sarcástico. O oficial do BOPE, estudante de Direito da PUC, não
se reconhece no espelho do "Diário da Guerra", que escreveu há dois anos.
Ele hesitou muito até autorizar sua publicação como primeira parte deste
livro. Só se convenceu de que valia a pena autorizar, quando, mergulhando
na história de Renata e Santiago, caiu em si e descobriu quão ingênuos ele e
os companheiros do BOPE eram. Por mais durões e violentos que fossem,
não faziam idéia do que era o mundo da Segurança Pública do Rio de
Janeiro. Não tinham a menor idéia do que era a política do Rio, de como ela
penetrava as polícias e o crime. Não sabiam que o crime transbordara seus
limites e empastelara as instituições. Nunca, ele e seus parceiros do BOPE
se imaginaram peças de um jogo. De muitos jogos.
O namorado de Alice, oficial do BOPE, estudante de Direito da PUC,
narrador do "Diário da Guerra", agora envolvido até a raiz dos cabelos com o
drama de Renata, insiste, novamente, com ansiedade crescente, em buscar
um contato com Ramirez. Insiste. Liga de novo. Não consegue. Tenta, então,
contactar o comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais, para
lhe contar a versão de Renata. Para pedir ajuda e intervir. Para soltar os
cães de guerra nos calcanhares dos filhos da puta. Para salvar a amiga de
Alice ou talvez para se salvar daquele puta quadro aterrador que desabara
sobre sua cabeça, com o relato de Renata.
Quando consegue falar com o ajudante-de-ordem do comandante,
fica sabendo que está sendo procurado. Todos os oficiais do BOPE — mesmo
os de folga — estão sendo convocados. A razão é a seguinte: "Possível missão
emergencial a ser desencadeada a qualquer momento."
227
SALA DE REUNIÕES DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DA FAVELA DA MINEIRA, DIA
30 DE SETEMBRO, ÀS 23H05
Jonas passa o rádio a Índio, que encontra um caminho entre as
pernas dos companheiros e derruba duas garrafas de cerveja quando passa.
— É nós, brother, é nós.
— Já falei com Michele. Ela não parece bem.
— Tá bem, sim, chefe. Tá bem. É que andaram dando muito remédio
pra ela. Mas ela tá legal.
— Pegou o porco?
— Não, chefe. Não deu. Ele não foi. Disse que ia, mas não foi.
— Você pegou a pessoa que ele mandou no lugar dele?
— Achei que não valia a pena, chefe. Era uma senhora bem velhinha,
da igreja do alto da Tijuca, onde o Santiago mora, que aceitou levar a
Michele pra fazer uma caridade.
— E a velha foi sozinha com a Michele? Por que a Michele não fugiu?
— A equipe do Santiago levou as duas até o local e mandou que elas
ficassem ali, esperando por eles. Pouco depois, nós chegamos.
— Vocês não cruzaram com eles?
— Não.
— Ninguém do nosso grupo identificou, a equipe do Santiago?
— Não.
— Qual era o local?
— Um centro espírita. Falei com o diretor, um médium lá, um senhor
de idade. Mas o sujeito não tinha nada a ver com nada. Era tanta gente na
sala de espera... Eu falei com ele e anotei os dados dele, mas...
—Tá bem. A gente ainda pega o porco, mais dia, menos dia.
— E se ele não estiver mentindo?
— Vamos ver. No interrogatório, nós vamos descobrir se ele está
mentindo ou não. Vamos aplicar nele os métodos que ele nos ensinou.
GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 23H59
228
Depois do frenesi provocado pela entrada intempestiva de Marquinho,
a poeira começa a baixar.
O secretário ainda está com o coronel Fraga na linha, depois de ter
conversado com o governador pelo telefone vermelho.
— Coronel, notícias sobre comemorações na Mineira e em várias
favelas estão correndo na internet. Eu tinha determinado o imediato
deslocamento da força máxima do BOPE, da Rocinha para a Mineira. Não
estou entendendo. As notícias estão erradas? Ou minha ordem não foi
cumprida?
— Secretário, com todo respeito, suas ordens não se discutem, mas
eu não posso tirar o BOPE da Rocinha, por enquanto.
— Como? Eu não aceito isso, Fraga. Não aceito. Isso é
insubordinação.
— Não se trata disso, secretário. É que há alguns problemas que
precisam ser equacionados... Eu inclusive convoquei todos os oficiais do
BOPE que estavam de folga. Todos já estão aqui, no nosso QG. Só não
repassei ainda sua determinação, secretário, por conta do que lhe disse.
— Quais problemas? E por que você não me disse isso quando dei a
ordem? Quer dizer que nós temos o corpo de um policial sendo trucidado e
uma celebração de traficantes, que vão se arrogar a heróica libertação de
uma mulher seqüestrada, enquanto a polícia assiste a tudo isso,
passivamente?
— Não, secretário. De modo algum, já dei ordem ao batalhão da área
da Mineira para incursionar, o que estará acontecendo a qualquer momento,
secretário.
— E qual é esse diabo desse problema que precisa ser equacionado?
— Não poderia falar por telefone, secretário.
— Então, venha já para cá. Marquinho interrompe novamente:
— Com licença, secretário. Sei que o senhor quer retomar a reunião,
mas como o sinal vermelho ainda não está ligado, achei que eu estaria
autorizado a lhe trazer um recado urgente.
229
— Qual?
— O diretor de redação, que falou mais cedo com o senhor, diz que
está com uma bomba nas mãos e não quer detonar sem ouvir o senhor.
— Ah! Jesus. Mais uma bomba? Será que tem lugar pra mais alguma
merda? Ele tá na linha? Passa, pode passar. Alô, sim, claro, como vai? Ok.
Não, tudo bem. Estamos trabalhando, não é verdade? Você, aí; eu, aqui.
Fronts diferentes da mesma guerra, meu caro. Diga.
O secretário puxa a cadeira para sentar-se. O olhar se perde, vago.
Ouve, mudo, por um longo tempo. Amílcar e Vaz se entreolham,
preocupados e curiosos. Até que o secretário volta a se levantar:
— Entendi. Entendi sua posição. Publique, meu caro. O que fazer?
Sei que você não pediu, nem precisa de minha autorização, mas se você quer
saber o que eu penso, eu, cidadão, eu, secretário, eu lhe afirmo: põe na rua,
publica. Não tenho nenhum elemento que refute, in limine, as acusações que
você recolheu. É uma pena. Claro que é uma pena, porque sempre tive o
Fraga por um homem da maior integridade. Mas a vida é assim. A vida
pública, sobretudo, é assim. Não basta ser honesto, meu caro, é preciso
parecer. É o caso da mulher de César. Está bem. Claro, compreendo. Eu é
que agradeço. Outro.
O secretário desliga o telefone. Avisa a Marquinho, pelo interfone, que
acenda a luz vermelha e que não mais ouse interrompê-lo. Ordena que faça o
comandante-geral da PM esperar, quando chegar.
Volta-se para Amilcar e Vaz:
— Isso aqui é um vulcão. Um vulcão, que lança merda pra tudo que é
lado. É quase inviável sobreviver, sentado na boca do vulcão. Não sei como
eu ainda estou resistindo. Vocês devem ter ouvido o telefonema. Vão
implodir o Fraga. Sai amanhã, com destaque, em manchete, um dossiê
apócrifo com denúncias cabeludas. Cabeludíssimas. Parece que o Fraga
empregou a cunhada na entidade gestora do fundo de assistência dos
policiais militares reformados, uma coisa assim.
— Mas o fundo não está subordinado ao comandante-geral... —
pondera Amílcar.
230
— Sei lá. Vá você explicar depois que a acusação tá na rua... Quem
se explica, fica sempre na defensiva. Quem não se explica, admite a culpa.
Se correr o bicho pega; se ficar, o bicho come.
— É terrível, secretário — concordou Amílcar. — No que o sujeito se
defendeu, virou culpado. Vem a carga dos editoriais: onde há fumaça, há
fogo. Essas tolices.
— Tem mais — prosseguiu o secretário —, o Fraga teria contratado
um serviço de conservação mecânica das viaturas, sem licitação. E
descobriram que a empresa que fornece o tal serviço é de um vizinho dele,
na casa de praia que ele tem. Parece que eles são íntimos, se tratam como
compadres. Esse negócio de dossiê apócrifo é uma merda. Puro fascismo.
Como eu sofri com essas coisas na época da ditadura. Isso deve ser o valetudo
da disputa interna à PM. Eles se comem uns aos outros. Acabam
inviabilizando a instituição. Olhem o estado de nossa Polícia Militar.
— Mas, secretário — Amílcar não desiste —, diante das fontes
pesadas de corrupção, como o tráfico de drogas e armas, o contrabando, a
pirataria, a adulteração de combustível, a receptação de carga roubada e
furtada, a segurança privada clandestina, o transporte ilegal, as
maquininhas caça-níqueis, o bicho, diante de Sodoma e Gomorra, a munição
contra o coronel Fraga é essa? Só essa? Isso não é meio ridículo?
— É, mas parece que tem mais umas coisas: favorecimento de
colegas que se reformam por invalidez, alegando falsa surdez ou grave dano
auditivo...
— Com o perdão do chiste, secretário — Vaz intrometeu-se —, até
que não seria mal se a turma do grampo fosse afastada por surdez.
— Nesse caso, como é que vocês dois ficariam? — perguntou o
secretário, sorrindo pela primeira vez. — De qualquer maneira — continuou
—, devo confessar a vocês que não fico triste, não. O Fraga não foi nada leal
comigo. Não tem sido. Nem como companheiro, nem como subordinado.
Esse negócio de colar motorista em mim... E vocês ainda não me disseram a
quem devo os grampos em meus telefones e os receptores de áudio no
231
gabinete. Nem me contaram quem vazou a história do seqüestro da Michele
para o governador.
Pára um instante e olha para os dois, que abaixam a cabeça.
Prossegue:
— Os motoristas e a petulância em postergar as minhas ordens já são
suficientes. Por mim, ele sai. Vou ter de comunicar ao governador que essa
bomba explode amanhã. Vou propor a ele que publique a exoneração do
Fraga do comando geral, já no Diário Oficial de amanhã, quer dizer, de hoje,
dia 1º de outubro. Já estamos no dia 1º, não é? Assim, quando a imprensa
pensa que está indo, o governo já está voltando. Seria uma baita
demonstração de agilidade política e administrativa, competência de gestão,
eficiência, eficácia, efetividade, toda essa merda de que o governador gosta
tanto. O processo todo vai acabar me fortalecendo, porque eu vou vazar que
a iniciativa partiu daqui, deste gabinete.
Amílcar e Vaz falam ao mesmo tempo. Pedem que o secretário pense
mais um pouco e assista ao vídeo antes de decidir o que fazer.
Enquanto falam, o telefone vermelho toca. O secretário se levanta, vai
até a mesa pessoal e atende.
— O senhor prefere que a gente saia? — interroga o coronel Amílcar.
O secretário faz um sinal negativo com o braço, largo e enfático,
enquanto aguarda que o secretário particular do governador transfira a
ligação.
Dirige-se aos dois, enquanto espera:
— Só tem uma coisa pior do que ser secretário de Segurança Pública
do estado do Rio de Janeiro: ser governador. Salve, governador, não, não.
Estava comentando, aqui... Sei, perfeitamente. Sei. Sei. Ele ligou, é? Ah!
então o senhor já sabe? Era isso o que eu... Pois é, uma tristeza. Claro, não
se faz, não se faz. Um horror. Inteiramente, inteiramente antidemocrático.
Umas bobagens, umas bobagens. Pois é. Isso é. Nisso, o senhor tem razão,
governador. Ah! O senhor já decidiu? Bem, o senhor é quem manda. Não me
compete dizer nada, governador. Eu aqui cumpro ordens. Nessa matéria
política o senhor é que tem toda a experiência. Quem sou eu, governador,
232
pra avaliar uma decisão sua? Sim, sim, de pleno acordo. Também acho. É,
exatamente. É brilhante, um lance brilhante. Rápido. Foi muito rápido.
Rapidíssimo. Mostra sim. Justamente. Mostra muita capacidade. Em
matéria de administração, o senhor é craque mesmo. Como líder e como
gerente. Ê isso mesmo.
"Parabéns, governador. É claro, bom substituto não vai faltar. Tem
muita gente boa entre os coronéis da PM. O senhor já decidiu? Está certo.
Bem cedinho. Pode deixar. Boa noite."
Deposita no gancho o telefone vermelho e se dirige a Amílcar e Vaz:
— Ele já sabia e já tinha decidido publicar a exoneração no Diário
Oficial. Viram como ele é? Mais rápido no gatilho do que a gente. Me pegou
desprevenido, mesmo eu concordando... Ê um avião, o governador. Depois
quero analisar com vocês, do ponto de vista da Inteligência, os nomes
alternativos ao Fraga, na PM. Mas, enfim, meus amigos, vamos lá. Ao vídeo,
finalmente.
Vêem-se imagens esmaecidas de um prédio comercial. Foco precário.
Vê-se a portaria. No canto superior direito, a data está registrada, 30 de
setembro, e o horário vai correndo, a começar pelos segundos que giram,
celeremente. Cinco horas e dois minutos. Está escuro. Da esquerda para a
direita surgem dois vultos que caminham juntos. Fazem sinal para o porteiro
que lhes abre a porta. Corte. Nova cena: dia claro. Imagem nítida.
Movimento intenso de automóveis e pedestres. São oito horas da manhã. A
data é a mesma. Várias pessoas entram e saem do prédio. A seqüência
interrompe-se. Um zoom destaca o rosto de um homem que entra no prédio.
Corte. Oito horas e dois minutos. A cena parece a mesma. Novo zoom. Agora
são duas, as pessoas destacadas. O processo se repete. Ao todo, nove
pessoas foram objeto da atenção especial de quem filmava.
Nesse momento, Vaz se ergue, pede licença para explicar e diz:
— Secretário, o que o senhor acaba de ver foi um trabalho feito hoje
de manhã. A equipe da Inteligência está fazendo campana diante desse
prédio, porque há cerca de um mês descobrimos que um de nossos suspeitos
freqüenta com regularidade uma sala, no 15º andar desse prédio, que fica no
233
Centro do Rio. A sala foi alugada, originalmente, há três anos e meio, por
uma pessoa jurídica, que atendia pelo nome de "Movimento Vitor Graça pela
Segurança com Justiça Social".
— Como é que é? — pergunta o secretário. Amílcar é quem responde:
— Era o nome fantasia da entidade que bancou a campanha do Vitor
a deputado estadual, na eleição passada.
Autorizado pelo secretário, Vaz retoma a exposição:
— Os dois homens que aparecem primeiro são Luizão França e
Otacílio Malta. O delegado Luizão e seu fiel escudeiro, o inspetor Otacílio. Os
outros são detetives e inspetores da Polícia Civil. Depois eu leio os nomes pro
senhor. Félix Coutinho é o terceiro a chegar. Aquele que chega sozinho.
Supomos que tenham ido participar de uma reunião, até porque parte desse
pessoal já foi visto entrando nesse prédio, quando Félix esteve lá. Além disso,
saem mais ou menos na mesma hora. Em duplas ou grupos. Félix é o único
que sai sozinho.
— Por que é que vocês têm seguido esse cara? — indaga o secretário.
— É uma longa história, secretário. Acho que vai ficar mais fácil
entender quando eu tiver contado tudo, mas, por ora, já posso lhe antecipar
que esse cara tem ligações, digamos, próximas com Índio, o dono da boca na
Mineira.
— Tá bem, Vaz. Pode continuar. Epa, espera aí. Esse Félix não é o
que foi assassinado pelos traficantes hoje, justamente na Mineira?
— Sim e não, secretário.
— Como é que pode ser sim e não? Ou sim, ou não. — O senhor vai
entender.
— Tudo bem. Vá em frente.
— Veja, agora, secretário essas outras imagens.
A cena parece ser a mesma. O ângulo é o mesmo. Oito e 55, e dez, e
11, e 12 segundos. Pessoas entram e saem do prédio. Uma delas é destacada
com um halo, quando a imagem congela.
— Félix saindo, secretário.
234
A seqüência volta a correr. Os segundos voam à direita do vídeo. Mal
se distingue Félix da multidão que transita. As imagens são captadas de
uma altura relativamente baixa, provavelmente do prédio em frente:
sobreloja, primeiro andar, não mais alto que isso. O personagem caminha
entre as pessoas, atravessa duas ruas, seguindo sempre em linha reta, cruza
a avenida em que se situa o prédio, caminhando para o lado em que está
instalada a câmera que o vigia. Dirige-se a um orelhão. Estanca, olha em
redor e fala ao telefone. Corte.
— Estranho — diz o secretário. — Um policial em atividade não tem
um celular? Um rádio?
— Essa é a questão, secretário. Por que ele ligaria de um telefone
público? E por que andaria tanto para fazê-lo, se havia um par de orelhões
exatamente na frente do prédio de onde saiu? O senhor reparou nesse
detalhe, que aparece bem nas primeiras imagens? Será que nosso
personagem só se lembrou de ligar depois de ter caminhado 300 metros? A
hipótese não se sustenta, porque, depois de falar, ele voltou. Seu carro
estava em um estacionamento que fica a uns 100 metros do prédio, na
direção oposta à do orelhão que ele usou. Portanto, ele andou
propositalmente 300 metros. O que significa que havia algo que não podia
esperar.
— E que não podia ser dito pelo rádio que ele usa — complementa
Amílcar. — Ele não estava sem o rádio, secretário, porque eles trabalham
com o aparelho o tempo todo. Tenho tanta certeza de que ele estava com o
rádio, quanto de que ele estava armado. Descobrimos que os freqüentadores
da sala 1.509 usam um sistema exclusivo de rádio, com misturador de voz.
Só eles têm o código. Não há como grampear. Continua, Vaz.
— Isso significa o seguinte, secretário: o Félix não temia grampo, mas
não podia permitir que seu próprio grupo soubesse que ele ligou ou ouvisse
o que ele diria. E, talvez ainda mais importante, para quem ele diria.
O secretário nem deixou Vaz respirar: — Pra quem ele telefonou?
— Foi o que fomos averiguar, logo depois que nosso homem na
campana relatou o que viu. Félix ligou para Vitor Graça.
235
— Então esse grupo é inimigo do Vitor, e o Félix é agente do Vitor,
infiltrado? Mas como é que inimigos do Vitor se reúnem na sala dele?
— Boas perguntas, secretário. Os policiais que freqüentam a sala do
Vitor não são inimigos dele. Pelo contrário. Todos sabem que Luizão França
é o principal aliado de Vitor na Polícia Civil. Por isso é que achamos muito
esquisito esse movimento do Félix. Mas ele não ligou só pro Vitor. Ligou, em
seguida, para a 10ª DP, em Botafogo, perguntando por Anderson, como
viemos a saber depois, quando interrogamos o detetive de plantão que o
atendeu. Ele não se identificou como policial para o detetive.
— Anderson...
— Pois é, secretário, essa é uma figura típica da polícia carioca. É um
X-9, trazido do interior do estado para a capital por Amarildo Horta, aquele
deputado estadual ligado ao governador. Vive na DP, atua como policial, usa
e abusa de todas as prerrogativas de um policial e recorre a expedientes
escusos para cumprir outras missões, de natureza não policial. Por exemplo,
grampeia telefones. Sobretudo de personalidades.
— A serviço do Vitor? Foi ele quem me grampeou?
— Não, secretário. A coisa é bem mais enrolada. Vitor fez tudo o que
pôde pra evitar que o Anderson se metesse na 10a DP. Ele sabia o risco que
correria, com aquele cara plantado numa DP, com costas quentes, operando
na retaguarda, nos bastidores, chantageando, manipulando, extorquindo.
Por outro lado, sabia que o Amarildo é homem do governador e que não
podia bater de frente com ele. Chegou a suspeitar que a jogada tivesse o
dedo do governador, visando justamente controlar a polícia. Mas não parece
ser esse exatamente o caso, porque... corre à boca pequena... veja, nem
tivemos de investigar, esse boato está correndo pelos corredores... que o
Anderson gravou conversas comprometedoras de uma grã-fina, esposa de
um industrial, peso pesado da economia e amigo pessoal do governador.
— E aí? O Félix telefona para Vitor e para a DP, pergunta pelo
Anderson e...
— E logo em seguida, secretário, enquanto um homem nosso estava
apurando o telefonema na DP, chegam o inspetor Otacílio e o detetive
236
Lincoln, que também estiveram na reunião, mais cedo. Otacílio é o braço
direito de Luizão. É o que chega primeiro, com ele, às cinco da manhã, no
prédio que aparece no vídeo. E o que é que eles querem naquela DP? Falar
com Anderson.
Amílcar intervém:
— Não é interessante, secretário? Estavam todos juntos.
Supostamente, discutiram alguma coisa com efeitos práticos, ou não
estariam ali, naquele horário, em pleno dia útil, num local de trabalho.
— Eu chamo isso conspiração.
— Conspiração. É isso mesmo, secretário. Se houve uma reunião com
efeitos práticos, decisões foram tomadas. O grupo se divide. Deduz-se que
vão cumprir deliberações. Por que é, então, que um membro do grupo se
antecipa a seus parceiros e o faz de modo tão suspeito? Veja bem, secretário:
o Félix omite sua identidade para o colega que atende sua ligação, na DP; e
anda 300 metros para evitar o uso do rádio, que poderia identificar seus
telefonemas, para seu próprio grupo. Vá em frente, Vaz.
— Nosso homem na campana do prédio recebeu nossa ordem para
seguir o Félix. O senhor pode imaginar, secretário, para onde ele foi. O
apartamento de Anderson, no Catumbi. Entrou sem carregar nada e saiu,
meia hora depois, com uma sacola de supermercado. Dali, foi a uma
delicatéssen, na Cobal, em Botafogo. Deixou a sacola de supermercado com
o balconista e saiu. A delicatéssen é de Vitor. Está registrada no nome da
mulher. Mandamos um investigador nosso ao apartamento de Anderson. Ele
não atendia o interfone, mas não teria saído de casa, segundo o porteiro. O
prédio não tem câmeras de vigilância. Seu telefone não atendia. Não
aparecera na DP. Nosso homem confirmou no local: Anderson foi morto com
um tiro na boca.
— Já tinha imaginado uma coisa assim — disse o secretário.
— Continuamos seguindo o Félix. Da Cobal, ele foi à Tijuca.
Estacionou o carro nos arredores da praça Saenz Pena, caminhou menos de
100 metros e entrou em outro carro, de placa fria. Entrou sem arrombar.
Com a própria chave. Dali, seguiu para a avenida Brasil, de onde tomou o
237
rumo da via Dutra. Não chegou a ir muito longe. Foi parado numa blitz da
Polícia Rodoviária Federal. Foi conduzido a uma caminhonete da PRF e
desapareceu. A blitz bloqueou a passagem de todos os veículos durante o
tempo suficiente para que a caminhonete sumisse. Um homem, talvez um
policial à paisana, se apossou do carro do Félix. Esse carro seguiu a
caminhonete e desapareceu com ela. Não há registro da placa nas polícias do
Rio.
— E o que é que a PRF diz?
— Oficialmente, nada — Amílcar intervém.
— Como, oficialmente nada?
— Eles negam que tenham feito essa blitz ou essa operação.
— E o seu investigador não tem os dados das viaturas da PRF
envolvidas?
— Claro, mas a PRF diz que elas não existem.
— E não havia outros carros, assistindo a tudo?
— Havia mais de vinte carros. Temos as placas de seis e estamos
tentando contato.
— Não temos as imagens dessa operação?
— Não, infelizmente. Nosso serviço é ainda muito deficiente,
secretário.
— Mas isso então quer dizer que a PRF está envolvida alguma coisa.
O quê?
— Já vamos mostrar ao senhor um outro vídeo muito interessante,
gravado há cerca de um mês — diz o Vaz. — Mas antes, permita que lhe
chame a atenção, secretário, para uma outra questão bastante significativa.
Por volta das 20h15, Vitor liga do gabinete da chefia da Polícia Civil para o
gabinete do comando geral da Polícia Militar. Pede para falar com o coronel
Fraga e lhe diz que Félix Coutinho foi assassinado por traficantes na Mineira
e que seu corpo está sendo queimado na fogueira de pneus, que os bandidos
chamam microondas. Diz a Fraga que é urgente que o BOPE ocupe a
Mineira.
238
— Mas... No fundo ele queria é que o Core agisse na Mineira. Por
quê...? — O secretário está perplexo. — E por que custou a falar comigo? Por
que não falou primeiro comigo?
— Nossa hipótese é a seguinte — diz o delegado Vaz. — Vitor foi
informado de que Félix entregou, a um grupo da PRF, uma cópia da fita mais
preciosa, aquela com a gravação da tal grã-fina, que provavelmente
derrubaria Vitor, se divulgada. Ele pode ter dado a cópia da fita por duas
razões: grana ou coação.
— Primeiro, Vaz, é melhor explicar ao secretário por que Félix teria
feito cópia da tal fita, antes de tirá-la do apartamento do Anderson e levá-la
para Vitor.
— Certo. Eu e Amílcar achamos plausível supor, secretário, que o
inspetor Félix tenha feito cópia para ter consigo um trunfo, uma carta na
manga, em qualquer eventualidade. Ele sabia do risco que corria, atuando
como agente duplo, porque ajudava Luizão, como membro de seu grupo
clandestino, mas também servia a Vitor — afinal, secretário, o fato de Luizão
e Vitor serem aliados não elimina a necessidade de cuidados e vigilância.
Isso vale em ambas as direções. O Félix poderia acabar prensado feito
sanduíche, como acabou acontecendo.
— Mas ele poderia estar interessado em jogar um contra o outro, por
alguma razão — diz o secretário.
— Poderia, ainda que eu, pessoalmente, não acredite que ele tivesse
autonomia de vôo para atiçar, por sua conta e risco, a onça com vara curta
— diz Vaz.
— Talvez ele estivesse a serviço de mais alguém — insiste o
secretário.
— Não parece razoável, secretário. Não vemos nada nesse sentido, no
horizonte.
— Mas ele poderia estar atrás de dinheiro, de algum negócio com a
fita — o secretário não se rende.
— Sem dúvida, secretário, ainda que a gente não considere provável.
Pelo mesmo motivo: ele não era do tipo autônomo; não era um sujeito que

Nenhum comentário:

Produtos

Hospedagem de Sites