só vai confirmar que os filhos da puta tinham razão quando te perseguiam
dentro da polícia.
Continuei ouvindo, com os olhos fixos na mesinha à nossa frente.
Fazia um esforço pra não ficar irritado e pra entender que, afinal de contas,
talvez Laerte estivesse falando mesmo como um amigo preocupado,
legitimamente preocupado. Era engraçado. Eu tinha ido ao comando geral
justamente pra conversar sobre aquele tema. Tudo tinha ido às mil
maravilhas na conversa com o comandante-geral, pra minha surpresa. E aos
45 do segundo tempo, quando já estava de saída, quando menos esperava,
veio de um velho amigo o papo do qual pensei que já tivesse me livrado.
Laerte parecia mais acelerado. Pegou o embalo:
— Então, cara, pra que escrever um livro? Você tem tantas coisas
mais interessantes pra fazer. E depois, pensa nos seus amigos, nos seus
velhos companheiros. Porra, cara, se você vai contar tudo, como estão
falando pelos corredores, o que será da gente? Como é que eu vou encarar
meu pai, minha mulher, meu filho? Eles vão ler o teu livro e vão me
questionar. Meu filho um dia vai me perguntar: "Pai, como é que você pode
trabalhar numa instituição assim?" O que é que eu vou dizer pra minha
família, pro meu filho, cara? E o que é que vai acontecer com a imagem da
corporação, que já vem sofrendo tanto desgaste? Você vai jogar a pá de cal.
Não vai sobrar pedra sobre pedra. O que vai ser de nós? Estou falando dos
seus amigos, cara, dos seus companheiros.
Nesse momento, a porta finalmente abriu e o coronel Ariosto, com
sua voz de barítono, entrou como se estivesse desembarcando na
Normandia. Esse era seu estilo — que, aliás, tinha virado folclore na PM.
Parecia uma ambulância atravessando a procissão. Ele chegou
acompanhado do ajudante-de-ordem do comandante-geral, que lhe pediu
que aguardasse um minutinho — o comandante o receberia em um instante
—, e saiu novamente.
— Coronel, há quanto tempo. Eu me levantei antes do Laerte.
— Como vai o senhor?
Eu e Laerte perguntamos formalmente, sem esperar pela resposta.
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Ariosto era simpático. Um sujeito expansivo. Amigo dos amigos. Era
querido por todo mundo. Ou quase todo mundo, porque na polícia não existe
unanimidade. Ele fez uma festa ao me ver. Eu trabalhara com ele, durante
uns bons anos. Sempre nos demos bem. Ele tinha vindo do interior do
estado, onde comandava um batalhão, para uma audiência com o
comandante-geral.
— Vocês sabem que estou aqui rindo, brincando, mas meu coração
está apertado. Uma situação muito chata.
Interrompeu para enxugar o suor na testa com a mão de jogador de
basquete, que mais parecia uma raquete de tênis.
— O coração, lá no fundo, está apertado. Uma situação realmente
muito desagradável. Eu, inclusive, vim aqui cumprimentar o comandantegeral.
Agradecer. Ele sempre foi muito correto comigo. Sempre. Mesmo
agora, ele fez o que pôde... Perdi o comando do batalhão.
Apertou os lábios e sacudiu a cabeça, confirmando o que acabara de
declarar.
— Perdi o comando. Que se há de fazer? É assim a vida, meus caros.
Nossa polícia é assim.
Pôs a mão em meu ombro. Pensei que ele fosse mudar de assunto e
fazer uma pergunta sobre minha vida. Mas ele estava concentrado em seu
comando perdido.
— Pois é, major — olhou firme para o Laerte —, capitão — olhou pra
mim e continuou: —, anteontem, o coronel José Henrique foi me visitar.
Queria meu apoio. Vai ser candidato a deputado. Eu fui franco. Vocês sabem
que sou franco. Disse que não podia. Até gostaria, mas não podia. Já tinha
compromisso com o prefeito, que tinha arranjado o comando pra mim e já
tinha me avisado que também seria candidato. O que é que eu poderia fazer?
Não poderia fazer nada. Compromisso é compromisso, não é? Dívida é
dívida. Pensei que o Zé Henrique tinha entendido. Mas no dia seguinte fui
informado de que o governo... a secretaria precisava do meu cargo. Me
deram uma semana pra sair da cidade e preparar o lugar para o substituto.
Uma semana. O comandante-geral fez tudo o que podia pra evitar. Eu sei
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que fez. O possível e o impossível. Não adiantou. Sabe como é. Vocês sabem
o que é a política, meus amigos. Política é uma merda.
Ariosto apertou meu ombro e deu um tapinha nas costas. Logo em
seguida, emendou:
— A gente se sente, sei lá.... vocês sabem. Respirou fundo:
— A gente se sente traído. Afinal, você é testemunha, não é Laerte?,
eu sempre fui leal, sempre fui fiel. Nunca atrasei. Todo santo mês eu trouxe
aqui pro gabinete os 7 mil reais. Nunca falhei. Falhei, Laerte? Nunca falhei.
Quer dizer, teve aquele problema em abril. Só trouxe 4. Precisei de 3 pra
uma obra lá em casa. Mas foi só naquele mês. Nunca faltei. Sou um sujeito
que honra os compromissos que assume. Sou um cara fiel, leal. Ao Zé
Henrique, também. A grana dele eu levava em mãos todo mês,
religiosamente. Vinha aqui, passava por lá. É verdade ou mentira, Laerte?
Laerte mantinha a cabeça baixa. Olhava o tapete puído. O ajudantede-
ordem entrou novamente na sala e chamou Ariosto:
— Coronel, o comandante-geral vai recebê-lo agora. Pode vir, por
favor.
— Gente, foi bom ver vocês. Boa sorte.
Ariosto se despediu com apertos de mão e avançou num movimento
súbito que parecia uma estocada de infantaria.
Laerte me pegou pelo braço e me puxou para o canto oposto à porta.
Quase no meu ouvido, depois de conferir que a sala estava vazia, sussurrou:
— Porra, cara, escreve logo essa merda desse livro. Publica logo essa
porra.
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