quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da Tropa - A Mulher do Almeida

Copacabana me engana que eu gosto. Difícil resistir ao charme do bairro
e aos encantos clandestinos. Os policiais convencionais que se estabelecem
no 19º Batalhão, cedo ou tarde, se lambuzam na fartura de mulheres,
estrelas, babados, shows, bebidas, strip-teases e línguas estrangeiras,
turbinados pelo branco e pelo preto, conforme o gosto do freguês e a
disponibilidade dos aviõezinhos, que formam uma rede de apoio mútuo com
camelôs, flanelinhas, leões-de-chácara e travestis. Pó e fumo, cocaína e
maconha, branco e preto, o bairro alucina à noite. As meninas que
trabalham nas boates e saunas costumam manter uma relação ambígua
com os policiais. Gostam deles, sobretudo dos mais jovens, porque se
sentem atraídas e protegidas; mas temem as chantagens. Sentem-se sob o
risco constante de verem-se constrangidas a transar com o policial e não
receber o pagamento nunca. Como é que iriam cobrar desses fregueses
especiais?
Alguns policiais convencionais — devo admitir que certos caveiras
também são assim — têm o espírito fraco, a carne mais fraca ainda, ou são
românticos, e se apaixonam pelas prostitutas. Foi o que aconteceu com o
sargento Almeida. Gordo, baixinho, muito feio, de meia-idade, conquistou
um mulherão. "A mulher do Almeida..."
"Ah! a mulher do Almeida". Esse era o papo no refeitório, no plantão,
nas rondas, nas patrulhas. "Que mulher, tem o Almeida!" "Já viu a mulher
do Almeida?" A mulher do Almeida desbravou territórios, conquistou
espaços, colonizou fronteiras e ocupou, soberana, a fantasia coletiva da
tropa.
Almeida não deixava faltar nada ao colosso que trazia na coleira.
Todo o dinheiro que ganhava ia direto para as despesas da mulher. Mimava
a moça a leite e mel, como uma deusa amestrada. Tudo era ela, ela sempre,
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ela antes, ela acima de tudo, ela em primeiro lugar. Comprou um carro
decente. Modesto mas decente. Ela não podia trafegar naquele Dodge caindo
aos pedaços, que fora a parte que coubera ao sargento, no espólio do
primeiro casamento. Um apartamento no nome dela. Bom apartamento.
Simples, mas confortável. No Flamengo. Almeida preferia mantê-la afastada
de Copacabana tanto quanto possível, pelo menos durante o dia, ainda que
seu acordo conjugai garantisse o respeito à vida profissional da amada. De
madrugada, atendido o desejo do último cliente, ela telefonava ao Almeida,
porque ele fazia questão de buscá-la onde ela estivesse. Tinha prazer,
enchia-se de satisfação, dizia sentir-se útil como um marido provedor
levando a mulher para casa depois do batente. Ele saía cedo. Ela dormia até
as duas da tarde.
Um dia, Almeida foi chamado às pressas. Estava supervisionando a
oficina do seu batalhão, o 19º, quando recebeu o recado. A mulher estava na
linha, queria falar com ele. Eram dez horas da manhã. Coisa rara, raríssima.
Chegou pálido ao telefone — era um tempo em que os problemas humanos
se acomodavam ao ritmo da telefonia fixa. Nada grave, graças a Deus. Ela só
estava precisando do carro, porque tinha marcado hora no salão de beleza e
queria fazer umas compras no shopping.
— Imediatamente, querida. Não leva mais que vinte, trinta minutos.
Um beijo, coração. Boas compras.
Saiu da recepção acelerado, pensando no Azevedo, o companheiro de
todas as horas, na alegria e na dor, na saúde e na doença, como eles
gostavam de dizer. Se é que o cabo Azevedo poderia deixar o almoxarifado
por quarenta minutos, uma hora. Não podia. Estava cheio de serviço e o
auxiliar tinha saído para acompanhar a esposa grávida, num exame. O
maior azar. Almeida também estava enrolado. O comandante lhe
encomendara um serviço que não tinha como ser adiado. O jeito foi chamar
o Guedes, recém-chegado ao batalhão, que ainda estava se aclimatando na
oficina, fazendo de tudo um pouco pra aprender o serviço.
— Meu filho, vem cá. Faz um favorzinho aqui pra mim e eu vou
aliviar o seu plantão, tá bem? Pega o meu carro, ali, aquele Siena vermelho,
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e leva lá pra minha casa. Entrega a chave pra dona Samantha, no 702. Pode
estacionar na garagem. Vai rápido, porque ela está com pressa. Esse é o
endereço. Não tem erro. Você se localiza bem no Flamengo?
Onze horas, meio-dia, e nada do Guedes voltar. Almeida foi buscar o
Azevedo para almoçarem:
— Essa rapaziada nova é foda. A gente pede um favor e eles se
aproveitam. Esse garoto me deixa sozinho, no meio do expediente, sabendo a
quantidade de coisa que eu tenho de aprontar ainda hoje. Deve estar na
praia, passeando.
— Tem certeza de que ele acertou o caminho? Já ligou pra
Samantha?
— Já. Não tem ninguém em casa. Sinal de que o carro já está com
ela. Se não, ela teria me ligado ou estaria em casa, esperando.
— É.
Duas, três horas. Nada. Almeida começou a ficar encucado.
A noite, em casa, antes do jantar, Almeida olhava a rua pela janela da
sala. Samantha fazia uma boquinha com o marido antes de sair para o
batente e exigia o ar refrigerado. Era uma característica pessoal. "Cada
pessoa tem o seu jeito", dizia o Almeida. "Ela gosta do ar. Não suporta o
calor. Somos muito diferentes. Mas o amor está nessas pequenas coisas, não
é? A gente tem de aprender a conviver com as diferenças. Eu tolero bem o
frio, tolero perfeitamente. Já me adaptei.".
Almeida estava angustiado. O Guedes não saía de sua cabeça.
Detestava desconfiar da mulher, mas a cabeça ia acabar estourando se ele
não falasse. Decidiu falar:
— Coração, o rapaz que eu mandei te trazer o carro, ele te tratou
bem? Te respeitou? Confesso que fiquei preocupado, porque era pra ele
voltar pro batalhão, mas ele não voltou, e aí fiquei pensando, porque...
Samantha não gostava de ser controlada. Detestava. Se tinha uma
coisa que ela não suportava, era desconfiança. Odiava controle, ciúme, essas
coisas. Não admitia. E depois, ela era uma profissional e o próprio Almeida
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tinha prometido, tinha jurado nunca se meter no trabalho dela. Além do
mais, o rapaz era sadio, educado e se dispôs a pagar adiantado.
Almeida dissimulou o mal-estar. Afinal, Samantha tinha razão. Girou
a cabeça para o lado, como costumava fazer em certas situações e pensou:
"Se era uma coisa assim, profissional, tudo bem." Cada um com a sua
profissão. Ele deu um beijo na testa de Samantha. Não queria que ela fosse
para Copacabana com raiva no coração.

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