Camargo foi um dos nossos melhores comandantes. Era firme e justo, e
não aceitava que o BOPE fosse usado pela política de propaganda do
governo, que delega à mídia as decisões sobre nossas prioridades. Graças ao
rigor de gente como ele, nosso batalhão resistiu à corrupção, durante muitos
e muitos anos. Enquanto o conjunto da polícia se desmoralizava, a gente
permanecia como uma ilha de excelência e credibilidade. Não é conversa
fiada, não. Sei que isso parece demagogia barata, mas não é. É a pura
verdade. Se não fosse isso, nada mais faria sentido. Quem observa de fora,
não tem a mínima idéia do que acontece dentro dos quartéis, nas operações
e, sobretudo, na cabeça e no coração dos policiais.
Às vezes, é doloroso enfrentar a praga da corrupção, principalmente
quando a gente tem de cortar na própria carne para evitar que a doença
contagie o corpo inteiro. É como amputar um braço ou uma perna para
salvar a vida. A diferença é que, no BOPE, depois de mutilado, o corpo se
regenera: outro braço cresce, a perna renasce. A gente volta a ser o que era.
Em termos, claro, porque fica a cicatriz, fica a lembrança.
Uma cicatriz de que não esquecemos é o Lisboa. Antes de entrar para
o BOPE, ele era policial civil e nunca abandonou alguns amigos dos velhos
tempos. Eram umas amizades que não faziam bem. Além disso, ele passava
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por uma dificuldade financeira grave. A família tinha tido algum problema
sério. Ninguém sabia o que era, mas ele volta e meia reclamava da vida — o
que, aliás, não era incomum, considerando-se os salários que a gente
recebia. No caso dele, as coisas pareciam ser mais complicadas do que o
habitual. Até que, ao final de uma operação que comandei, ele se aproximou
de mim, cabisbaixo, falando baixinho: "Sabe o que é, capitão (eu já era
capitão naquela época), estava pensando se não seria possível que o senhor
cedesse um fuzil desses que a gente apreendeu. O senhor sabe que eu não
sou disso, mas, afinal, não vai fazer falta e, nesse momento, resolveria a
minha vida. Uma arma dessas está valendo uma boa grana e a minha
situação..." Eu lhe dei ordem de prisão imediata, abri um procedimento
pedindo a expulsão do BOPE e relatei o caso ao coronel Camargo.
Dois meses depois do episódio, já de volta ao trabalho, mas restrito a
funções burocráticas, enquanto aguardava o julgamento interno, o Lisboa se
meteu em outra encrenca. Camargo foi informado pela P2 de que o Lisboa
tinha montado, com os antigos companheiros da delegacia, um esquema de
tráfico de armas. As evidências não deixavam margem a dúvidas.
O comandante Camargo reuniu os oficiais e tivemos de tomar a
penosa decisão. Na manhã seguinte, quando chegava do plantão, Lisboa foi
morto, na porta de casa, por dois homens, numa motocicleta.
A única testemunha do justiçamento relatou à imprensa: "O Lisboa
parecia conhecer os dois homens da moto, porque ele parou, tranqüilo,
quando foi chamado pelo nome. Aproximou-se como se fossem todos amigos.
Estava amanhecendo e eu saio muito cedo, mas a rua estava deserta. Eu
nem me preocupei e fui em frente, na direção oposta. De repente, ouvi um
tiro seco e o ronco da moto. Me assustei e corri, mas o Lisboa já estava
morto. O tiro foi de profissional, bem no meio da testa."
Não se tratava propriamente de justiça, mas de interrupção da
gangrena institucional e de sinalização aos companheiros. De fato, a
indiscutível culpa do Lisboa não era nossa maior preocupação. Se talvez
bastasse aplicar as penas previstas no Código Penal e no regimento
disciplinar da corporação. A lei não escrita é mais importante quando a
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matéria é a honra e o objetivo é a reafirmação da integridade de uma história
coletiva. Engana-se quem pensa que o mundo real são os poderes visíveis, as
leis escritas e a grana. O mais importante não é dito, nem escrito, nem
contabilizado.
A família foi amparada e vacinada contra a verdade. O sepultamento
prestou todas as honras à memória de um soldado honrado, que tombou no
cumprimento do dever. Zelamos para que os filhos de nosso companheiro
herdassem esse legado inspirador.
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