O Batalhão de Operações Policiais Especiais, BOPE para os íntimos, chega à
praça de guerra. Estamos com gana de invadir favela, um puta tesão.
Desculpe falar assim, mas é para contar verdade ou não é? Você vai logo
descobrir que sou um cara bem formado, com uma educação que pouca
gente tem no Brasil. Talvez você até se espante quando souber que estudo
na PUC, falo inglês e li Foucault. Mas isso fica para depois. Vou tomar a
liberdade de falar com toda franqueza, e, você sabe, quando a gente é
sincero, solta o verbo e nem sempre as palavras são as mais sóbrias e
elegantes.
Se você está esperando um depoimento bem educadinho, pode
esquecer. Melhor fechar o livro agora mesmo. Desculpe, mas me irrito com
as pessoas que querem ao mesmo tempo a verdade um discurso de
cavalheiro. A verdade tem de ser convocada a comparecer, e ela só baixa no
cavalo desbocado, que se recusa a filtrar a voz que vem do coração. Por isso,
a verdade está mais para discurso de cavaleiro e de cavalo, do que para os
salamaleques da corte. Esse depoimento é como se fosse minha casa. Ele vai
ser belo, sublime e horrendo, como eu sou, como tem sido a minha vida. E
como é a sua vida também, com toda certeza. Entre, fique à vontade. A casa
é sua. No início você vai estranhar um pouco algumas coisas, mas depois vai
se acostumar. Eu também estranhei no começo. Quando entrei pra polícia,
estranhei muita coisa. Mas logo me acostumei. A gente se acostuma.
Portanto, meu caro amigo, caríssima amiga — posso chamá-los assim? —,
apertem o cinto e vamos em frente.
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A primeira história acontece na favela do Jacaré.
Foi mais ou menos assim. A gente está chegando ao Jacaré cheio de
amor pra dar — se é que você me entende —, com uma puta disposição. Mal
descemos da viatura, dois viciados dão de cara com a gente — porque a
viatura parou justamente depois da quebrada da ladeira principal. Eu era
tenente, na ocasião, e comandava a patrulha. Eles não tiveram nem tempo
de disfarçar ou tentar uma fuga. Peguei o mais alto pelo braço e dei umas
sacudidas, para o filho da puta acordar e perceber que tinha caído na
ratoeira. Estava desarmado e trazia uns papelotes de cocaína no bolso.
— Quer dizer que o veadinho veio curtir um branco, não é? Vai ver a
boneca também curte fazer passeata vestidinho de branco, pedindo paz,
hein? Fala aí, mané.
— Não, senhor.
— Não senhor o quê, porra? Não comprou pó ou não gosta de
passeata pela paz?
— Eu não vendo não, senhor. Vim comprar só mesmo pro meu
consumo pessoal...
— Ah! É pro consumo pessoal, então tá.
Arranquei um extintor de uma de nossas viaturas e descarreguei nas
narinas do sujeito. Parecia um pastelão:
— Quer pó? Quer do branco? Então toma pó, animal...
Bem, nesse ponto devo admitir que me subiu um calor e não me
contive. Mas dei só umas porradas, porque tive uma idéia luminosa. Mandei
o Rocha parar de bater no outro viciado.
— Venham cá, os dois. De pé, olhando pra mim. Tá, aqui, meu
celular. Vocês têm três opções: ligar para o papai e pedir pra ele vir buscar
vocês, é a primeira; comer uma dúzia de ovos cozidos, cada um, em beber
água, é a segunda; entrar na porrada é a terceira. E aí?
Os dois escolheram os ovos. Eu sabia. A última coisa que viciado
quer é que o pai descubra. O que eles não sabiam é que os ovos estavam na
viatura desde a véspera, por causa de uma ocupação que o BOPE estava
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fazendo. Naquele calorzinho carioca gostoso, de janeiro, os ovos certamente
correspondiam a uma boa surra. Deus escreve certo por linhas tortas. O
livre-arbítrio foi respeitado. Mesmo assim, cumpriu-se o desígnio divino.
Cuidado, não pense que sou evangélico. Isso é puro preconceito seu. Nem
todo policial ou bandido que fala em Deus é evangélico. Está vendo só? Não é
só o policial que é preconceituoso, afinal de contas. Por falar em preconceito,
assinale aí em sua agenda que sou negro. Negro na acepção politicamente
correta da palavra, porque, do ponto de vista meramente físico, sou mulato,
moreno, na verdade. Mas faço questão de deixar claro — sem trocadilho —
que sou negro e prefiro que você pense em mim como negro, ok?
O diabo é que só havia uma dúzia de ovos, o que me obrigou a
improvisar. Mas eu até que sou bem criativo, modéstia à parte. Tanto que a
solução foi engenhosa. Enquanto o viciado baixinho engolia os ovos, para os
aplausos vibrantes de meus comandados, o outro se enterrava até o pescoço
na caçamba de lixo. Confessa... não foi uma sentença interessante? Se,
nesse momento, você ficou horrorizado e evocou os direitos humanos, acho
melhor fechar logo esse livro, cara, porque está arriscado a ter uma síncope
daqui a pouco.
Bem, na verdade, não quero que você feche o livro, nem gostaria que
você ficasse com má impressão de mim. Não leve tão a sério o que eu digo.
Às vezes, falo o que me vem à cabeça e acabo passando uma imagem falsa
de mim mesmo, como se fosse um desalmado, um perverso, ou coisa assim.
Mas não é nada disso. Quando você me conhecer melhor, vai ver que não é
nada disso. Só fiz questão de contar essa história porque o final dela é muito
engraçado. Aconteceu assim: eu descia a favela no bagaço; tinha sido uma
noite daquelas. Mais de três horas caçando vagabundo, sem resultado. Dois
soldados da minha unidade já esperavam na viatura. De longe dava para
ouvir a gargalhada deles. Quando me aproximei, apontaram a lanterna pra
caçamba de lixo, de onde despontava a cabeça do viciado, enterrado naquela
merda até o pescoço.
— O que é que você está fazendo aí, cara? — perguntei.
— O senhor mandou eu ficar aqui.
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— Pode sair, porra.
Juro por Deus que tinha esquecido. Se não fosse pelo barulho dos
ratos, os rapazes não teriam visto. E se não tivessem visto, era capaz de ele
estar lá até hoje.
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