Lembro-me de uma novela, estilo mexicano, um dramalhão bem ruidoso,
com título parecido: bodas de sangue. Ah! Sim, não era novela, não. Era um
romance do Nelson Rodrigues, assinado com algum daqueles pseudônimos
incríveis que ele inventava, do tipo Suzana Flag. A essa altura você deve
estar pensando que eu sou obcecado pelo Nelson. É verdade. Sou mesmo.
Aliás, nesse caso, com um pequeno twist e alguma boa vontade, as bodas
sangrentas poderiam muito bem ser atribuídas a Garcia Lorca. O bom gosto
e o mau gosto se separam e se superpõem, dependendo da perspectiva. Isso
tudo é muito relativo. Não é preciso ser doutor em estética para saber. Mas
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isso não importa. O que interessa é contar a história, a estranha história das
botas do cabo Alves. Ou do soldado Alves, porque na época das botas ele
ainda não tinha sido promovido.
Estávamos no fórum, apoiando o deslocamento de um preso perigoso
para depoimento à Justiça. Conversávamos do lado de fora da sala de
audiências, porque o corredor estava praticamente vazio e a situação, sob
controle. Colegas acompanhavam o preso, dentro da sala; outros se
postavam na entrada do prédio; havia ainda companheiros nos pontos
estratégicos — escadas, saídas de emergência etc. Um sistema de câmeras
completava o trabalho de vigilância, a cargo outro colega. Portanto, nenhum
problema em trocar algumas palavras. Digo isso para que você não pense
que éramos profissionais relapsos, batendo papo em serviço. Por favor, não
confunda o BOPE com a polícia que você costuma ver, por aí.
Em certo momento, o cabo Alves sussurrou:
— O senhor viu quem passou, capitão?
Eu tinha visto um rapaz empurrado numa cadeira de rodas, de
algemas, conduzido por um policial militar.
— E daí? — perguntei.
— Não reconheceu? — insistiu Alves. — Estou pasmo. Como é que
aquele filho da puta sobreviveu? Aquele é o Naldinho, das botas.
— O Naldinho? Tem certeza? Não é possível. Parece outra pessoa.
— Claro, capitão, deve estar uns 20 quilos mais magro e pelo menos
um ano mais velho.
— Aquela operação já tem um ano?
— Pelo menos. Além do mais, ele deve ter envelhecido vários anos.
Não sei como é que o cara sobreviveu.
— Alves, para ser bem sincero, também não.
— Será que ele viu a gente?
— Que nada. Ele passou de cabeça baixa. Parecia anestesiado
— Será que ele ficou abonado?
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— Ficou, não, Alves, o Naldinho sempre foi meio débil. Aliás, nunca
conheci um traficante que fosse um gênio. Você já?
— Não, capitão. Mas agora fiquei preocupado. Será que ele viu a
gente e disfarçou? Só faltava o filho da puta, além de ressuscitar foder a
gente.
— Fica frio, Alves. Desliga, porra. É a nossa palavra contra a dele e
não se esqueça que a Justiça está sempre do nosso lado. Você algum auto de
resistência dar alguma merda?
O cabo Alves teve de concordar. Na verdade, falei com muita ênfase
para convencer a mim mesmo. Eu não tinha tanta certeza assim de que o
filho da puta não nos tinha visto e reconhecido. Nem que a gente estivesse
blindado contra qualquer merda.
O caso do Naldinho aconteceu na favela de Murici, em Niterói. Alves
ainda era soldado, se não estou enganado. Ele era o ponta. Eu comandava a
operação. Não me lembro bem se ainda era tenente ou se já era capitão. O
fato é que nós oito estávamos incursionando para prender ou eliminar os
traficantes, que estavam infernizando as redondezas com seus bondes
noturnos, que desciam a favela para fazer falsas blitzes, roubar carros e
pertences de motoristas e passageiros, especialmente as armas que
encontrassem. E quem estivesse armado era morto, imediatamente, fosse ou
não policial. Se fosse policial, o requinte de crueldade era maior. A subida
tinha sido bem planejada. Cercamos uma favela próxima, a Coréia,
ostensivamente, dando toda bandeira de que invadiríamos com força total.
Mas nosso alvo era a Murici. Durante o dia, tínhamos combinado com o 22o.
Batalhão uma limpeza no terreno. Não explicamos o motivo, mas pedimos
que eles subissem executando todos os cães que achassem pelo caminho.
Inventamos uma história meio maluca a propósito de uma suposta epidemia
de raiva, na favela, constatada pela Secretaria de Saúde, e sobre a
necessidade de não compartilhar a informação com os moradores, para
evitar pânico. Não sei se engoliram a besteira, mas aplainaram o caminho
para nós, garantindo o silêncio de nossa incursão noturna. Uma longa
caminhada morro acima, sem um único latido. Os falcões — garotos do
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tráfico responsáveis pela vigilância estavam desativados, porque todas as
atenções se voltaram para o morro da Coréia. O campo não poderia ser mais
favorável. Mesmo assim, como sempre, subimos com toda cautela: o ponta
avançando até o próximo local estratégico, de onde se pudesse visualizar a
próxima etapa da incursão, e assim sucessivamente. Alves fazia o sinal para
o segundo e para mim, eu definia a orientação mais adequada, em cada
momento, procurando seguir, na medida do possível, o que tínhamos
previsto.
Numa dessas situações raras e complicadas — mas, afinal, para isso
existe o ponta —, virando a esquina ao fundo de um beco, logo depois de
pisar em um bueiro solto e imperceptível naquela penumbra, Alves foi
surpreendido por um traficante que descia armado. Alertado pelo barulho, o
vagabundo atirou na sombra que mal divisava à distância, porque estava no
outro extremo do pátio.
O beco desembocava em um pátio amplo, razoavelmente iluminado,
cercado de casas de dois andares, a quadra da escola de samba, postes, fios
enrodilhados pelos milhares de gatos e algumas árvores isoladas, que o
poder público plantara, provavelmente para que não se dissesse que não
falou de flores. Filhos da puta. Eles todos, os traficantes de um lado, os
políticos de outro. Nem sei se é mesmo assim, um lado e outro. Às vezes, é o
mesmo lado, o bolo é um só. É o crime organizado, aquele que penetra as
instituições públicas, como reza a cartilha. Mas deixa isso pra lá, que a
guerra já vai começar na frente da quadra da escola.
Alves não foi atingido, mas acertou o vagabundo. Nós corremos para
apoiar o ponta, buscamos abrigo nos postes e nas árvores. Os traficantes
abriram fogo, cobrindo o bandido designado para resgatar o comparsa ferido.
Jogaram uma granada. O soldado Rodrigues saltou para perto do lugar em
que a granada caía e não para longe, como faria um amador. Protegeu a
cabeça, junto ao chão, e sobreviveu. Sua agilidade o salvou. Foi atingido por
estilhaços, mas nada mais grave. Apertamos a pressão e impusemos o recuo
aos inimigos.
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O vagabundo se contorcia, sangrando como um porco. Avançamos e
montamos um 360 graus. Os vagabundos se deram conta de que estavam
lidando com o BOPE e fugiram. O moribundo era nosso butim. O tiro lhe
abrira a barriga e cuspira as vísceras para fora. Aproximei o cano do fuzil do
rosto do infeliz e ele ainda teve força pura pedir que eu não esculachasse.
Bandido tem pavor de morrer desfigurado, porque assim não pode ser velado
com caixão aberto. Quando ia dar o tiro de misericórdia entre os olhos,
naquele ângulo que mata mais rápido, uma moradora abriu a janela e
começou a me hostilizar:
— Não mata, não mata. A polícia vai matar o rapaz. A polícia vai
matar. Assassino.
Se tem uma coisa que me deixa puto, é isso.
— Fecha a janela, sua vaca, ou morre também, sua puta.
Gritei e apontei a arma para cima. A mulher fechou a janela, apagou
a luz.
Lamento ter de empregar expressões vulgares. Não faria sentido
mentir e fingir que, naquela hora, eu tive sangue-frio para dizer: “Minha
senhora, se não for incômodo, será que daria pra senhora fazer a gentileza
de fechar a janela, porque eu tenho de executar esse cidadão e a senhora
está distraindo minha atenção?"
A mulher fechou a janela e apagou a luz, sim, mas quem diz que não
continuou olhando e, quem sabe, fotografando e filmando? Não dava mais
para completar o serviço. O jeito era descer com o porco sangrando. O
vagabundo, provavelmente, apagaria antes de chegar à viatura. Nossa única
preocupação era o Rodrigues. Ele disse que estava bem, só se ferira nas
mãos e nos braços, mas, com explosões, nunca se sabe. Há casos em que a
pessoa absorve o impacto e sofre uma hemorragia violenta, mas custa a
perceber; vai-se esvaindo sem se dar conta. Puxamos o porco ladeira abaixo,
sem fazer nenhum esforço para poupar o filho da puta. Lamento ter de
escrever desse jeito, mais uma vez. Foi assim. Quando chegamos ao sopé do
morro, enquanto aguardávamos a ambulância, o Alves não se conteve e
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meteu o pé na massa vermelha, meio esbranquiçada, meio enegrecida, que
pendia do ventre aberto do vagabundo. E ainda pronunciou a maldição:
— Pronto, assim o filho da puta não escapa. Tem terra, bosta,
bactéria e germe pra caralho. Engole essa merda, seu puto.
É ruim isso, eu sei, é de mau gosto, é nojento. É o que eu chamo
trabalho sujo. Porra, mas aconteceu. O que é que eu vou fazer? Agora você
entende por que o Alves ficou da cor do papel quando Naldinho cruzou
conosco no fórum, um ano depois. O cara sobre viveu. Quando não é a hora,
não é a hora, não adianta.
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