quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da tropa - Politica

O coronel Leme era um político nato. Mais que isso: um diplomata. Seus
colegas brincavam, insinuando que ele agia, 24 horas por dia, como o
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ministro de relações exteriores de si mesmo. Era polido, afável, prudente e,
sobretudo, sagaz nas estratégias de ascensão na carreira. Aprendera a dizer
o que o interlocutor quisesse ouvir. O que não é fácil. Freqüentemente,
requer agilidade mental e habilidade para antecipar expectativas alheias.
Claro que, às vezes, buscando harmonizar o inconciliável, acabava
desagradando a todo mundo.
Quando comandava um batalhão da capital do estado, foi chamado a
um trailer que a PM fixara na entrada do Maracanã. Domingo de sol,
bandeiras em guerra: era um clássico do futebol carioca. A multidão que
lotava o estádio nem sempre portava só a camisa do clube e o espírito
armado. O magricela detido no trailer era prova disso. Trazia, debaixo da
camiseta, uma pistola Taurus, nove milímetros, .99, de uso exclusivo das
Forças Armadas.
O cabo e o sargento que o prenderam o entregaram ao major Roger
com aquela satisfação de quem acha agulha no palheiro. O homem se
chamava César Castro ou Carvalho, uma coisa assim. Nome de gente
graúda. Peixe grande. Podia não ser vagabundo fichado ou bandido famoso,
mas não era nenhum bagrinho. Os policiais mostravam a si mesmos — e a
seus superiores — que seu trabalho eu importante, sério, honrado e
competente. O nome disso é orgulho... E isso não tem preço.
César, o magricela, insistiu com o major: precisava telefonar para um
amigo que resolveria o problema. Usou o próprio celular. Falou longamente
com alguém. Parecia mais enrolado com o interlocutor do que com a polícia.
Uns quarenta minutos depois, o trailer recebeu uma visita ilustre: chegou o
deputado. Simpático, apertando mãos. Uma celebridade. Bonitão e seguro.
Tinha pressa. Não podia perder o jogo. Seus votos vinham do futebol, aquela
usina de paixões e interesses, que fervia os nervos das dezenas de milhares
de torcedores apinhados nas arquibancadas, gerais e cadeiras do velho e
nobre Maracanã. Exigiu a presença do coronel Leme. Precisava falar com o
coronel, imediatamente. Um deputado não negocia com majores.
Leme entrou esbaforido no trailer:
— Deputado, que honra receber sua visita. Um prazer revê-lo.
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O tema era o magricela. "Para que prender uma pessoa de bem",
indagava o deputado, em tom de discurso doméstico. Sim, ele garantia que,
apesar da arma absolutamente ilegal e inexplicável, o cidadão era um sujeito
de bem.
— Mas deputado, por favor, compreenda, o crime está capitulado no
Código Penal. É muito grave. Não é uma arma qualquer. Como é que eu vou
libertar o homem? Como é que posso não conduzir o caso à delegacia para o
registro da ocorrência? Um inquérito tem de ser aberto.
O deputado subiu o tom. Insistiu. Repetiu-se. Reiterou cada ponto do
argumento: tratava-se de um homem de bem. Ele conhecia o passado do
magricela, seus parentes, sua vida. Empenhava nesse testemunho a sua
palavra. O que estava em jogo, afinal, era sua palavra, sua credibilidade.
Será que o coronel poria em dúvida o depoimento de uma autoridade, que
era, além disso, um fraterno amigo da Polícia Militar, um dileto aliado do
comandante-geral e até, ousaria afirmar, um amigo e admirador do próprio
Leme?
O coronel começou a ponderar, vacilar, gaguejar. Mesmo assim,
ainda tentou resistir:
— Deputado, contar com seu apreço é um privilégio para a
corporação e para mim mesmo, pessoalmente. Jamais poria em dúvida seu
testemunho. No entanto, o fato, o senhor compreende, sendo assim grave,
torna o caso um pouco delicado. O senhor entende que não estamos apenas
nós dois, diante desse fato. Meus subordinados cumpriram o dever e
detiveram o seu amigo. O senhor pode imaginar o que eles pensariam de
mim, da própria instituição a que servem... Sei que o senhor sabe do que
estou falando e entende a minha situação. Ninguém mais do que eu deseja
atendê-lo, entretanto, minha posição, o senhor entende...
O deputado não recuou. Pelo contrário, mostrou-se desconfortável e
um pouco irritado. Usou o adjetivo "inflexível", recorreu à expressão "má
vontade" e chegou a admitir que o quadro talvez já começasse a merecer um
qualificativo extremo: "ingratidão", diante de tanto que fizera pela PM, na
Assembléia Legislativa.
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O coronel pediu-lhe licença por um instante e chamou Roger.
— Major, estamos ante um caso peculiar que requer tato. Temos de
pensar, acima de tudo, na instituição. Ela é mais importante que uma ou
outra prisão. Esse varejo não leva a nada mesmo. Eu estaria sendo
irresponsável se permitisse que se criasse uma situação constrangedora
para a corporação, na Assembléia. Além do mais, o deputado deu a sua
palavra. Garantiu que o sujeito não é bandido. Então, major, é melhor o
senhor determinar ao sargento e ao cabo que tomem as providências para
liberar o sujeito.
Roger, educadamente, pediu ao coronel que passasse a ordem,
diretamente. Não concordava com aquele procedimento e não aceitava
desmoralizar-se com os subordinados. Claro que não respondeu ao coronel
com essas palavras. Mas transmitiu a mensagem, com jeito. Tanto que Leme
viu-se obrigado a comunicar ao sargento e ao cabo, diretamente. Engoliu o
embaraço em seco, empertigou-se e escondeu a vergonha sob a máscara da
autoridade. Os subordinados tiveram uma aula prática de política.
Depois da tempestade, a bonança. Por isso, Leme sentiu-se leve
quando voltou ao deputado para dar-lhe as boas-novas. Era o momento de
colher os frutos. Conquistaria para sempre a simpatia do deputado. Nunca
se sabe qual será o futuro. Não é demais precaver-se. Quem sabe, um dia,
ele não seria indicado para o comando geral ou mesmo para a secretaria? O
apoio político seria imprescindível.
— Deputado, em homenagem à nossa amizade, à sua integridade
pessoal, às suas reconhecidas contribuições à Polícia Militar do estado do
Rio de Janeiro, dei um jeito na situação: o rapaz está livre. Já determinei a
mudança do registro. Oficialmente, o episódio não existiu. A arma será
classificada na lista das apreensões e pronto, o senhor já pode aproveitar
seu domingo.
O sorriso triunfante do coronel tombou, alvejado pela reação do
deputado: Leme não tinha entendido nada. O deputado precisava levar
consigo a arma. A arma era tão importante quanto o magricela. O
representante do povo levantou a voz. Classificou a solução que Leme
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construíra como uma verdadeira desconsideração, um desplante. Quando o
deputado descobriu que não havia mais o que fazer, porque a arma já tinha
sido despachada para o setor responsável, saiu com rispidez. O magricela
seguiu-o, e olhou para trás, antes de bater a porta do trailer. O coronel
sofrerá a maior derrota dos últimos anos. Uma derrota que não cabe no
Maracanã. Como encarar Roger, o sargento e o cabo? Como evitar que a
história se propagasse pela instituição? O que fazer para prevenir o contraataque
do deputado? Sentiu-se mais vulnerável, em seu bunker, do que os
100 mil torcedores que lhe cumpria proteger.

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