quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da Tropa - Golfinhos de Miami

Minha mulher, que tem mania de psicanálise, costuma dizer que quando a
gente passa determinada impressão é porque ela expressa pelo menos um
lado nosso. Se minha mulher tem razão, o que você percebeu não está
inteiramente errado. Mas, de todo modo, parcial. Em português claro: eu não
sou inteiramente isso que você está pensando. Ainda que não seja
totalmente o que eu mesmo gostaria de ser. Como prefiro o português claro
às frescuras psicológicas, vou direto ao ponto. Eu digo que faço e aconteço,
afirmo que sou direto, chamo de frescuras a visão crítica de minha esposa,
mas acabo dando mil voltas, mil e uma piruetas em torno do assunto que
quero comentar. É que o tema é espinhoso, é cabeludo.
O assunto é violência. Quer dizer, a violência que a gente comete.
Alguns chamam tortura. Eu não gosto da palavra, porque ela carrega uma
conotação diabólica. Acho que há casos e casos, e que nem toda tortura é
tortura, na acepção mais comum do conceito. Está entendendo? Não? Pois é,
a coisa é bem complicada. Eu próprio também não sei se compreendo
direito. O que quero dizer é que não me envergonho de não me envergonhar
de ter dado muita porrada em vagabundo. Primeiro, porque só bati em
vagabundo, só matei vagabundo. Isso eu posso afirmar com toda certeza.
Sinto minha alma limpa e tenho a consciência leve, porque só executei
bandido. E, para mim, bandido é bandido, seja ele moleque ou homem feito.
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Vagabundo é vagabundo. E tem mais — essa não é uma regra do BOPE, é
minha mesmo, mas eu sigo à risca: não espanco nem mato mulher. A menos
que seja em legítima defesa. Mas aí não tem jeito, é matar ou morrer. Fora
disso, respeito mulher. Até porque não é preciso fazer diferente. Mulher se
assusta logo e entrega até a mãe. Nem é preciso bater. Homem, não. Tem
cara que é tão safado que agüenta firme uma noite de porrada e não entrega.
Talvez porque saiba que a vingança dos comparsas seria ainda pior do que o
castigo do BOPE.
Bem, essa questão toda é muito enrolada e eu, por mim, saltaria essa
parte, mas me sinto obrigado a contar algumas coisas, já que o acordo foi
não esconder nada. Depois você avalia, faz seu próprio balanço e me diz se
eu sou um covarde ou se fiz a coisa certa — ou, pelo menos, o que você teria
feito em meu lugar. Vai me dizer que não obrigaria um seqüestrador a falar,
mesmo que tivesse de usar a força? Se sua filha estivesse seqüestrada,
correndo risco de vida, nas mãos de uns doentes, vai me dizer que você não
espancaria o filho da puta até a morte pra tirar dele a informação? Pois é, a
única diferença é que você não saberia como bater direito e acabaria
desperdiçando energia, acertando os pontos menos sensíveis e empregando
mais ódio e desespero do que técnica. Nós somos pura técnica.
Hoje, olhando para trás, me sinto meio inibido em narrar fatos, mas
no calor dos acontecimentos, confesso que não tinha nenhum problema com
isso. A verdade é a seguinte: eu e meus colegas nos divertimos bastante.
Portanto, não é bem verdade essa história de "pura técnica". Somos técnica,
diversão e arte... como diria o Arnaldo Antunes.
Lembro-me, por exemplo, de um marginal que pescamos meio por
acaso, logo que chegamos ao morro da Providência, num mês de março.
Nossa equipe estava completa. Éramos oito. Primeiro, demos uma coça
regulamentar para que ele desse as peças — esse é o nome que os
traficantes cariocas dão às armas e o verbo "dar", nesse contexto, a gente
emprega com o sentido de entregar. Ele portava um revolver fuleiro e jurava
que só tinha aquilo mesmo e que era só assaltante, não estava metido com
tráfico de drogas. Nesse momento, minorada dele passou, viu o tumulto, se
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aproximou e o chamou pelo nome. Foi quando as fichas caíram. A gente se
deu conta de que o cara era simplesmente o dono do lugar. Já pensou que
sorte? De repente, sem mais nem menos, o dono, o gerentão cai na nossa
rede. Era tudo o que a gente poderia pedir a papai do céu. Daí em diante,
intensificamos o trabalho.
O verbo é trabalhar. Quando o subordinado chama o comandante
pelo rádio e pergunta, "chefe, posso trabalhar o meliante?", está pedindo
autorização para fazê-lo cantar, ou seja, para fazê-lo contar o que sabe. Da
mesma forma que o governador autoriza o secretário de segurança a
autorizar o comandante da PM, a autorizar o policial, quando lhe diz: "Faça o
que for necessário para resolver o problema". O governador dorme o sono
dos justos; o secretário descansa em berço esplêndido; o comandante
repousa como um cristão; e o soldado, lá ponta, suja as mãos de sangue. Se
der merda, o bagulho estoura no elo mais fraco, é claro. Quem paga o pato é
o soldado. Quem vai a juízo é o soldado. Quem freqüenta as listas das
entidades internacionais de direitos humanos é o soldado. O governador é
ambíguo para descansar em paz; o secretário é sutil para preservar a
consciência; o comandante cultiva os eufemismos e opta pelo vocabulário
enviesado para proteger a honra e o emprego. Sobra para o soldado, que
bota pra foder por dever de ofício. É curioso: a ambigüidade só pode ser
cultivada nos ambientes solenes do Palácio do Governo, onde a impostura e
a violência são adocicadas pela coreografia elegante da política. Quando a
arena é a favela, os rituais são outros, menos sofisticados. Na praça de
guerra não há espaço nem tempo para a solenidade e as ambivalências. O
que era doce fica amargo, azeda e cai de podre. A gente, que atua lá na ponta
da cadeia de decisões, colhe o fruto podre e faz o que pode para digerir. Por
isso, talvez seja mentira dizer que só há ambivalências nos salões da corte.
Elas estão por toda a parte. E estão aqui entre nós. E dentro de nós, em mim
e em você.
Um modo de adaptar a ambigüidade ao terreno do combate é divertirse
com a dor alheia. Desconfio das nossas risadas. Até hoje escuto aquelas
gargalhadas que a gente dava e elas me soam um pouco estranhas. Não sei
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mais com tanta certeza se a gente gostava daquilo e achava mesmo tanta
graça. Mas a gente ria, ia fazer o quê? E procurava curtir as tarefas práticas
com o máximo de criatividade. Eu, por exemplo, me orgulhava de inventar
modalidades novas. Tinha noite de gala, com estréia e tudo. Um show que
foi o maior barato eu denominei "Golfinhos de Miami". A estréia aconteceu
justamente naquela noite. Aproveitamos a resistência do Juninho para testar
a eficiência e a beleza do novo espetáculo. A idéia era amolecer aquela
macheza toda com água.
Água é um ótimo condutor de energia. A idéia foi um desenvolvimento
mais ou menos natural das torturas tradicionais com saco plástico e água:
sufocamento e afogamento. Todo policial do BOPE sai do quartel com seu
saquinho plástico, peça que já foi integrada ao kit básico. O saco serve para
pôr na cabeça do marginal, apertando bem na base, que fica amarrada no
pescoço. O sujeito sufoca, vomita e desmaia. É o momento de afrouxar. É
meio nojento, mas eficaz. Trabalhamos o Juninho com afinco, horas a fio.
Primeiro porrada, a velha e boa porrada, que costuma bastar. Nada.
Enfiamos fiapos de madeira debaixo das unhas. O animal urrava, mas não
abria o bico. Foi então que me ocorreu estrear os Golfinhos. Fomos até uma
caixa d'água. Retiramos dois fios da rede de iluminação pública. Mandamos
o Juninho entrar na caixa e mergulhamos as pontas dos fios, uma em cada
lado. Que beleza! Você precisava ver aquilo. Ele saltava com leveza e graça.
Só faltava trilha sonora e um jogo de luzes. Mesmo assim, o filho da puta
não cantava. Mergulhei os fios n'água muitas vezes. Acho que o marginal
chegou perto do óbito, como a gente dizia.
Fui ficando nervoso e irritado. Você há de convir, já eram horas, e
nada. O sangue me subiu à cabeça e comecei a atirar na caixa, até ser
contido pelos colegas. Fiquei fora de mim. Por sorte do vagabundo, a
trajetória da bala sofre uma refração no meio líquido. Se não fosse isso, ele
estava fodido. Salvou-se por pouco. Não sou de errar tiro.
Bati um rádio para o comandante. Contei que estávamos trabalhando
o marginal havia bastante tempo, sem sucesso. Queria eliminar o
vagabundo, mas tinha de ouvir meu superior, dadas as condições especiais
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que cercavam o caso. Ele mandou conduzir o sujeito à delegacia de Proteção
à Criança e ao Adolescente (DPCA), que lida com menores. O jeito foi levá-lo.
O cara estava branco feito uma folha de papel. Tinhoso. Diante da delegada,
ele resmungou: "Os policiais do BOPE me torturaram", e mostrou os
dedinhos roxinhos, com as unhinhas levantadas. A doutora delegada era
uma profissional escolada e não nos decepcionou. Encarou o sujeito e
emendou de primeira: "Ah, é? Coitadinho... Tá doendo, tá, filhinho? Quer
que chame a mamãe, seu filho da puta?"
Se não fosse a cooperação entre os profissionais das polícias seria
impossível fazer o serviço que nos compete com um mínimo de eficiência. A
população reclama da gente porque acha que é muito fácil manter a ordem
na cidade. Mal sabe que, enquanto o jantar está sendo saboreado em família,
na frente da televisão, no conforto do lar, do outro lado, no submundo,
muito sangue está correndo, o nosso e o dos vagabundos.

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