Não há guerras só no mundo externo, esse lugar objetivo em que as coisas
ocupam espaço e cumprem as leis da natureza, independentemente da
nossa vontade. Há também os conflitos internos, que se travam dentro de
nós, dividindo a nossa vontade ao meio. O campo de luta é o espírito, ou a
mente, tanto faz. Tanto faz em termos, porque justamente o que caracteriza
esse jogo íntimo é o balanço das palavras, com seus significados liqüefeitos,
esponjosos, vaporosos, fluidos: sua imprecisão e seus ardis.
Digo isso porque foi assim que vivi o ingresso na PUC; foi uma
batalha campal. A praça de guerra era eu mesmo. De um lado, a vontade de
realizar o sonho da universidade, o curso de Direito; de outro, a vontade de
adiar a universidade e o curso de Direito. Talvez você compreenda o que eu
quero dizer, colocando-se em meu lugar. O dia-a-dia de um policial é pesado.
Um corre-corre alucinado. Exercícios físicos, deslocamentos, convocações,
sirenes, pressões, riscos, estresse, confrontos, levar esporro de cima, dar
esporro pra baixo, fingir sempre que está no comando de tudo. Combinar
esse cotidiano de Indiana Jones tupiniquim com a rotina de estudante — a
paisagem mental das leituras, o ritmo lento das aulas, a curva sinuosa das
divagações, a nebulosa dos conceitos — não é mole.
Por isso, pressionado pelas tarefas de policial, as pequenas tarefas de
cada semana, fui adiando, postergando, retardando, empurrando com a
barriga o momento tão esperado — e temido — da matrícula, sem nenhuma
razão palpável, um ano se passou entre meu encontro com padre Matos, na
rua Marquês de São Vicente, e as providências práticas que, finalmente,
transformaram seu convite na formalização de minha matrícula.
O que de fato aconteceu foi o seguinte: eu sabia que seria foda fazer o
meu trabalho à noite, numa favela; pisar, de madrugada, no fio da navalha
entre a vida e a morte; e passar a manhã na PUC, ouvindo neguinho falar
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mal da polícia. Eu sabia que aquela não era a minha turma, ainda que meu
desejo talvez fosse parecido com o desejo dos futuros colegas. Até chamá-los
de colegas soa mal, soa errado. No fundo, pensando na PUC, eu me sentia
traindo meus companheiros de corporação.
Sei que não há nada errado em querer estudar, pelo contrário; sei
que estudar é a coisa mais normal do mundo, que meu desenvolvimento
intelectual e meu aprimoramento cultural e toda essa baboseira poderia ser
útil até mesmo para a polícia etc. etc. Não há nada errado, não tem nada de
mal, mas alguma coisa não bate bem, não rima, não dá para assimilar. Não
sei exatamente o que é. Também não interessa. Vamos deixar isso de lado
que já estou dando muitas voltas e vou acabar ficando zonzo; ou você vai
achar que no próximo capítulo eu vou fazer psicanálise... Porra, veja lá o que
pensa de mim, ok?
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