Força máxima: rápida, devastadora e eficaz. Esse é o lema do BOPE. Se
você fosse governador ou governadora do estado do Rio, dispensaria nossos
serviços ou, mesmo que não usasse nossa tropa, preferiria mantê-la
disponível para pronto emprego, preparada para atuar, a qualquer momento,
mesmo que fosse apenas em alguma emergência crítica? Na verdade, não me
interessa sua resposta. Até porque não tenho como saber o que você está
pensando nesse exato momento, mas aposto, de olhos fechados, que lá no
fundo, bem no fundo, você gostaria de contar com a mão forte do BOPE para
esmagar o vandalismo e toda essa praga.
Por falar em olhos fechados, acabo de me lembrar de uma história
que tem a ver com isso, nas premissas táticas e nas conseqüências práticas.
Era mais uma noite daquelas. Aliás, como são todas as noites da nossa
tropa. O capitão Ângelo comandava a equipe, Dessa vez, o soldado Marques
era o ponta — o ponta é o policial que vai à frente do grupo de assalto,
abrindo passagem, indicando o caminho e passando informações por sinais.
O comandante é sempre o terceiro. A favela estava quieta. Já era tarde. O
plano era surpreender o grupo do Fabinho, no morro do Limão. Tínhamos o
mapa do lugar. Graças às incursões anteriores e a algumas informações
elementares obtidas no interrogatório de um traficante, sabíamos onde
estavam as armas e onde os bandidos costumavam se reunir para organizar
o bonde, que descia para a Tijuca barbarizando.
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O morro era margeado por um muro alto e longo. Nossa intenção era
descer em absoluto silêncio, colados à face externa do muro e penetrar na
favela pela parte baixa, a mais vigiada pelos falcões do tráfico e, portanto, a
menos propícia a uma ação policial. Mas esse era justamente o motivo da
escolha: sendo menos propício, o ponto seria a opção menos provável, o que
significava que poderia ser, paradoxalmente, o mais vulnerável. Descíamos o
morro no breu mais cerrado, pisando com cuidado, quase sem respirar.
Aquele tipo de formação em fila indiana era muito arriscado. Uma falha
qualquer e estaríamos fodidos. Se jogassem uma granada por cima do muro
não sobraria nada do lado de cá. Os movimentos eram dirigidos pelos sinais
do Marques: permanecer imóvel, avançar, acelerar, estancar. Nesses casos, o
ponta age como um cão farejador. A audição também tem de estar
atiladíssima. Os oito homens se movem obedecendo a uma coreografia
rigorosa. A disciplina é a de uma orquestra. Com uma diferença: o mais leve
deslize não desafina, mata.
Quando a gente mergulha numa procissão desse tipo, companheiro
atrás de companheiro, a confiança mútua é tão importante a autoconfiança.
Nada disso faltava, graças a Deus. Eu me orgulhava da destreza do coletivo e
tinha fé em mim e na minha arma. Só fui descobrir o que era medo de
morrer bem mais tarde, quando tive meu primeiro filho. O pavor estampado
no olhar do inimigo era nosso combustível. Na verdade, era mais que isso;
era nossa droga. A farda negra com a caveira atravessada pelo punhal era
privilégio de poucos. Não era fácil resistir aos testes para ser admitido no
BOPE, não era para qualquer um enfrentar o treinamento; assim como não
era mole, depois de aprovado e admitido no Batalhão de Operações Policiais
Especiais, tomar o ônibus iodos os dias como um cidadão comum, chegar ao
quartel como simples mortal, vestir o uniforme negro que era nosso orgulho
— mas também significava uma puta responsabilidade — e transportar-se
para outra dimensão, onde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro saía
de cena e era substituída pelo inferno da guerra. A faixa de Gaza convivia
conosco; Bagdá era aqui: 18 mortos por dia, há vinte anos.
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A cidade só tangenciava essa outra dimensão, essa outra versão de si
mesma, quando uma bala perdida atravessava as fronteiras. No mais,
carregava sua sombra como o peregrino traz no ombro a sua cruz, sentindolhe
o peso e intuindo-lhe o tamanho, sem olhá-la de frente para conhecer
sua forma e compreender sua natureza.
Você deve ter reparado no que eu disse: "chegar ao quartel como
simples mortal". Deve ter achado meio bizarro, talvez até engraçado: "Porra,
será que esse maluco está se achando um deus imortal?" Relendo o que
escrevi, confesso que também achei estranho, mas resolvi deixar como está,
porque saiu tão espontâneo, que retrata bem os meus sentimentos. E como o
propósito é você me conhecer melhor, decidi manter. Não, não me acho nada
disso; nem meus companheiros do BOPE são malucos. Mas o fato é que,
quando você convive com a morte todo dia, toda noite, quando sabe que é
matar ou morrer, enquanto você sobrevive, a sensação é de vitória sobre a
morte, uma espécie de vôo rasante sobre o precipício. Se você quiser chamar
isso de onipotência, tudo bem. Eu queria ver você passar por essa
experiência. Seria interessante verificar se seus conceitos não mudariam um
pouquinho. Mas tudo bem. Pode pensar o que quiser. Não vai mesmo fazer
diferença. Vamos voltar à história do muro.
Seguíamos, passo a passo, evitando o barulho dos galhos secos e do
mato alto, temendo cruzar com um cão vadio, fora de rota. A subida da
polícia nas favelas é marcada por três sons típicos: tiros, fogos dos olheiros
do tráfico e latido dos cães. Essa é a trilha sonora das incursões policiais.
Em geral, a gente vai subindo e vai calando os animais. Quando o tiro é
certeiro ele não sofre. Naquela noite não poderíamos calar os cães, porque
não queríamos dar bandeira de nossa presença. Mas, se não o fizéssemos, os
latidos dariam uma bandeira suficientemente ostensiva. Era um puta
dilema. Portanto, só nos restava contar com a sorte. É óbvio que
contemplamos esse risco quando planejamos a operação. Não somos tão
imprevidentes quanto você está imaginando. O fato é que apostávamos que
não haveria cães por ali. Nunca os víramos daquele lado. E, realmente, eles
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não apareceram. Confesso que não pensava nisso, quando descia margeando
o muro.
Quando a gente se concentra numa operação de guerra, tudo muda,
todos os sentidos ficam alterados. A gente não ouve praticamente nada e só
enxerga o que está no foco da atenção. É o que a gente chama visão de túnel.
O nome é bastante preciso. É como se a pessoa estivesse num túnel, com
um único ponto de luz. O tempo gira em torno daquele ponto e fica como que
congelado, talvez porque que se confunda com o espaço, quer dizer, com a
imagem. Não sei. Só posso lhe dizer que a gente sai desse mundo e viaja.
O universo passa a deslocar-se em câmera lenta. É como se toda
velocidade do mundo fosse absorvida pelos músculos e as sinapses que
mantêm o cérebro alerta. O resultado é que, no final de um tiroteio, a gente
tem a impressão de que passou meia hora. Vai olhar no relógio, passaram
dois, três, cinco minutos.
Algumas coisas extraordinárias acontecem, num momento como
esse. Uma vez, por exemplo, eu comandava uma invasão a uma favela em
Copacabana. O ponta se perdeu do resto da equipe e eu determinei que
esperássemos. Estávamos numa subida estreita. Não havia viva alma.
Adiante, a ruela dobrava à esquerda. Não era comum aquele silêncio, aquela
quietude. Nem os cachorros latiam. Nenhum logo explodia. Eu estava
determinado a avançar, Com cautela, mas avançar. Quando o cérebro já
disparava o comando para as pernas, uma velhinha surgiu na esquina e
desceu em nossa direção. Ela trazia uma dessas bolsas de pano, boa para
fazer feira. Andava com firmeza, apesar da idade, e não mostrou nenhuma
surpresa quando nos viu, encostados à parede. Ao passar por mim, sem me
olhar, cochichou: "Meu filho, não sobe não. Se subir vão matar você". Não
respondi. Aprendi a respeitar esse tipo de comunicação, nas favelas. É
preciso ter o máximo cuidado e não manifestar qualquer reação, para que os
vagabundos não percebam e se vinguem da pessoa que tenta nos ajudar. Por
isso, contei até vinte e, em vez de avançar, joguei uma granada na boca da
ruela, só para atrair a resposta dos traficantes e identificar sua localização e
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poder de fogo. A imediata e intensa fuzilaria mostrou que os bandidos
estavam preparados, à nossa espera.
Comentei com o sargento Aguinaldo, a meu lado: "A velhinha salvou
nossa vida. Era uma emboscada." "Que velhinha?", ele perguntou. "Como,
que velhinha? A velhinha, ora bolas. Aquela senhora que passou por nós
com a bolsa e sussurrou a mensagem pra mim". "Tenente", ele disse,
"tenente, não teve senhora nenhuma, não teve velhinha nenhuma. Ninguém
passou por aqui desde que nós chegamos. O senhor acha que uma velhinha
ia passear entre dois fogos, assim, sem mais nem menos? E que, além de
tudo, eu não ia ver?" Fiquei gelado. Aliás, até hoje fico arrepiado quando
conto essa história.
Na visão de túnel, tudo é possível: encontros inusitados de terceiro
grau com personagens irreais ou até mesmo delírios — dependendo da
interpretação de cada um, posso ter ficado maluco, temporariamente, ou
posso ter mantido perfeito estado mental; neste caso, fantástica não seria
minha imaginação, mas a realidade. Bem, há também a hipótese de que meu
parceiro é que tenha ficado momentaneamente cego pela tensão. Cego e
surdo. Mas esse assunto transcende meu entendimento. Melhor voltar à
favela do Turano, ao grande muro.
Pois é, estávamos ali, colados ao foco, pregados à missão pela
adrenalina, passo a passo, muro abaixo, agarrados aos fuzis, prendendo a
respiração. Foi uma longa caminhada. Prefiro o confronto aberto do que a
expectativa. Às vezes torço para que a bomba arrebente de uma vez. Tenho a
sensação de que a lenta antecipação coagula o sangue e me sufoca. A
explosão do confronto fluidifica o corpo e a mente. O sangue lava o espírito.
Mais um passo, e outro, mais um, em silêncio, morro abaixo, margeando o
muro. O soldado Marques levantou o braço direito. Paramos. Chegara à
ponta inferior do muro. Hora de virar e começar a subir pelo outro lado,
onde estaríamos muito mais expostos. Quando Marques saltou para o outro
lado, deu de cara com um grupo de traficantes descendo, também
margeando o muro. Eles estavam relaxados e desatentos, ainda que armados
até os dentes. Não esperavam aquele encontro. Nosso ponta só precisou
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apertar o gatilho. Corremos para apoiá-lo, enquanto os vagabundos se
dispersavam em desespero, fugindo morro acima, procurando escapar à
linha de tiro. Não tiveram tempo de reagir. Tínhamos de ter acertado alguém.
Não era possível que todos tivessem sobrevivido.
Subimos atrás dos marginais, atirando.
De fato, acertáramos pelo menos um deles: descobrimos um rastro de
sangue e seguimos a pista. Bem acima, já na parte superior do muro, num
platô, um vagabundo se arrastava. Ele correra até ali, mas as forças se
extinguiam. Um de nós atirou para completar o serviço. O tiro atravessou as
têmporas, de um lado a outro, em linha reta, e jogou no chão os dois globos
oculares, que rolaram como bolas de bilhar. Eu me lembrei de uma cena
famosa do Rei Lear, de Shakespeare, que tive de ler na faculdade. Aquele
negócio de geléia viscosa saltando fora da órbita sempre me provocou
náusea. Por isso, reconheço que na hora não pensei em Shakespeare porra
nenhuma.
Na verdade, olhei para outro lado, sob pretexto de dar cobertura à
equipe. Fiquei um pouco nervoso e pedi para executar o marginal de uma
vez. Ele já estava mesmo virando monstro.
O cara vira monstro quando vai partindo desta para a melhor — no
caso dos bandidos, a rota deve ser inversa; deve ser desta para a pior. Nesse
momento de passagem, acontece uma espécie de metamorfose com o
moribundo — para você ver que eu não sou nenhuma besta, devo lhe dizer
que isso me lembra um conto do Kafka com este nome e que conta a história
de um sujeito chamado Gregor Samsa, que vira barata. Não falo para me
gabar, não. Seria ridículo. Falo para que você faça um juízo correto sobre
mim e não se iluda com os próprios preconceitos. Na metamorfose em que o
vagabundo vira monstro — como a gente diz no BOPE —, o filho da puta
parece que regride, volta a ser criança e começa a chamar pela mãe. É de
lascar. Assim, escrevendo, parece cômico, não é? Mas lá na favela, no teatro
de operações — as narinas repletas de pólvora, pedaços de corpo espalhados
pelo chão —, não tem graça nenhuma.
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Foi aí que me surpreendi. Eu, não; todo nosso grupo. Capitão Ângelo
não autorizou a execução. Levantou o braço. Era a ordem para não atirar.
Aproximou-se do vagabundo, abaixou-se e lhe perguntou, ao pé do ouvido:
"Aceita Jesus?" Repetiu, elevando a voz: "Aceita Jesus?" O infeliz disse que
sim, aceitava. Fazer o quê? Até eu. Pois é isso mesmo que você está
pensando: o capitão era evangélico e levava a religião tão a sério, que,
quando subia as favelas em nossas incursões, dificilmente passava por uma
imagem de santo sem atirar. Ele mirava, arrebentava a criatura de louça e
resmungava: "Idolatria, blasfêmia." Fazia outras imprecações, mas a gente
não ouvia direito.
— Capitão, porra, capitão, assim os moradores vão odiar a gente
mais ainda — um de nós ousava dizer, quando ele estourava os santos.
— Não tem problema. Melhor ser odiado do que admitir o culto das
imagens. Isso é coisa do demônio. Por isso é que o crime não pára de
crescer.
Antes de conhecer o Ângelo, eu já tinha visto de tudo: tiro em
ratazana, no quartel, tiro em cachorro, tiro em vagabundo, tiro em caixa de
som de baile funk, tiro em caixa de luz — quando a gente tem visor noturno
—, mas tiro em santo... era novidade.
O diabo é que a gente queria executar o vagabundo e saltar fora da
favela. Era tarde e os bandidos poderiam estar se reorganizando, preparando
um contra-ataque. Nós não íamos mesmo descer com o cadáver favela
abaixo muito menos com um sujeito agonizante, mas ainda com força
suficiente para gritar alguma bobagem, no meio percurso, e nos criar mais
dificuldades. O jeito era fazer como de hábito: executar e cair fora.
Ponderamos com o capitão, mas ele estava inflexível: "Não vamos matar o
rapaz. Ele aceitou Jesus. Vai se recuperar."
Chamamos o helicóptero da Polícia Civil. Esse era um procedimento
raro, raríssimo. Só chamávamos quando estávamos cercados, em condições
especialmente sérias. Ou quando um dos nossos se feria com gravidade e a
localização impedia a remoção imediata, em segurança. Mais raro ainda era
usar a aeronave para remover o corpo de algum bandido. Só mesmo em
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situações extremas. Por exemplo, morto fosse importante, na hierarquia do
tráfico, e o corpo, caso entregue aos moradores, servisse de bandeira a
protestos.
O helicóptero chegou. Não podia aterrissar. Não havia espaço
suficiente. As árvores impediam. O terreno era irregular. Os tripulantes
jogaram a caçamba. Pensavam que o cara estivesse morto.
Quando descobriram que o vagabundo estava vivo, recusaram-se a
içá-lo. Eu compreendi. No fundo, concordava com eles. Levar para quê?
Deslocar uma aeronave até ali por quê? Tudo isso para salvar a vida de um
marginal e levá-lo a fazer um cursinho de aperfeiçoamento em criminalidade,
na penitenciária, com pós-graduação em ressentimento e ódio? Tudo isso
para que ele um dia voltasse às ruas para matar e roubar?
Depois de muito bate-boca dos tripulantes do helicóptero, pelo rádio,
com Ângelo e depois de algumas ameaças — o capitão parecia possuído por
um espírito subitamente legalista —, levaram o vagabundo. Na noite
seguinte, o hospital foi invadido e ele foi resgatado por seus comparsas. De
volta à favela, cego, acabou abandonado pelos cúmplices. Já não era útil.
Não durou muito. Não sei se a alma foi salva, mas o corpo não tinha mesmo
muitas chances.
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