quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da Tropa - Brizola

Matar Brizola?
— Isso mesmo.
—Você está louco?
— Não sou eu. Somos nós. A decisão foi do grupo.
— Vocês estão loucos.
—Loucos mas não covardes.
—Você está me chamando de covarde?
— Querer cumprir a lei é ser louco? Lutar contra o crime é loucura?
Se é, somos loucos, sim.
— Você está maluco. Desde quando matar o governador é cumprir a
lei?
— Se o governador é a anti-lei, se impede o cumprimento da lei, se
bloqueia a luta contra o crime, se não deixa a polícia agir, se amarra nossas
mãos...
— E desde quando o Brizola amarrou as nossas mãos?
— Ele nos impôs a cumplicidade, nos obrigou à passividade. Que
policial sou eu? Que policial é você?
— Que é isso, rapaz?
Se estamos proibidos de subir morro, de invadir favela, de prender
traficante... Então, não é? Não nos amarrou?
— Claro que não. Esse papo não tem pé nem cabeça.
— Ah, não? Não é verdade?
— Não é isso, cara. Não é nada disso. Você não está entendendo
nada.
— Ah, não?
— Não, claro que não. Isso deve ser coisa daqueles seus tios
reacionários, nostálgicos de 64, que odeiam o Brizola.
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— Está bem. Então me diz uma coisa: podemos ou não podemos,
hein? O BOPE está ou não autorizado a entrar nas favelas e prender os
vagabundos?
— O que o governo não quer e nós também não deveríamos querer é
ficar subindo favela a toda hora, promovendo aquele banho de sangue,
matando e morrendo por nada.
— Como "por nada"? O que você quer dizer com "por nada"? Lutar
contra o crime é nada? Defender a lei e a sociedade é nada?
— Será que você não percebe, cara?
— Percebe o quê? Você é que está na estratosfera. Sempre te achei
meio esquerdista mesmo. Qualquer hora dessas você vai entrar pra uma
ONG e vai começar a falar em direitos humanos.
— Porra, cara, mas que burrice, que pobreza.
— Já comprou sua sunguinha pro verão? E uma camisetinha branca
básica, pra caminhada pela paz?
Que caretice. — Ah! Agora, sim, agora você se revelou.
— Como "me revelei"?
— Claro, não viu o que você falou? Pensa que não ouvi?
— Falei o quê, porra?
— Caretice. Me chamou de careta. Que isso, cara. Fala feito homem.
Ou já anda dando uns tapinhas, puxando um baseado? Puta que o pariu. Só
faltava essa. Logo você? Um sujeito sério? Viciado?
— Que merda. Não dá pra conversar com você.
— Mas eu não vim aqui conversar com você. Pra falar a verdade, esse
papo é uma perda de tempo, uma babaquice. Vim aqui cumprir uma missão.
— Então, desembucha.
— Vamos matar o Brizola.
— Lá vem você de novo com esse desvario.
— Esse o quê?
— Desvario, piração, loucura.
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— Que saco, cara. Muda o disco. Só sabe voltar pro mesmo lugar.
Não é loucura porra nenhuma. Já levantamos os dados elementares.
— Mesmo que não fosse loucura, que fosse justo e necessário, será
que você não se dá conta de que não é fácil matar um governador de Estado
e sair assoviando, na maior?
— Como eu dizia, já levantamos as informações fundamentais. E vou
repetir só mais uma vez pra ver se entra na sua cabeça: não sou eu, somos
nós. É o BOPE, quer dizer, a nata do BOPE. Somos nós. Você incluído.
— Ah, tá legal, só faltava essa. Vocês piram e ainda querem me levar
pro buraco com vocês. Tem graça.
— Não é brincadeira, não. É sério. Eu estou falando sério. Será que
você ainda não percebeu? Nós estamos falando sério. E você está envolvido,
queira ou não queira. Até porque, meu caro, sendo missão de segurança
máxima, quem hesitar, dança. Não vamos recuar nem incitar defecções.
Qualquer defecção será tratada como alta traição. Você sabe muito bem o
que isso significa.
— Vocês enlouqueceram... Talvez, não. Talvez haja algum grupo
político por trás disso. É isso? São os mesmos que quiseram explodir o
gasômetro? São aqueles "sinceros mas radicais"? São os que mataram o
sargento na porta do Riocentro? Qual vai ser o próximo passo? Explodir
banca de revista?
— Já temos o mapa dos deslocamentos diários dele. Descobrimos que
ele tem parentes em Santa Teresa. Ele vai lá uma, duas vezes por semana.
Como você vê, não é nada impossível. Se for bem planejado e bem executado,
o plano é perfeitamente viável.
— Puta que o pariu. Onde é que fui amarrar o meu bode?
O grupo não podia se reunir em qualquer lugar. Era preciso cuidado.
Se uma coisa dessas vazasse, estaríamos fodidos. Eu, inclusive. Na época,
eu não passava de mero coadjuvante. Por isso, fui simples testemunha desse
diálogo. Quando dei por mim, já estava metido até o pescoço na conspiração.
Não tinha muita clareza sobre os argumentos do Mauro e do Olavo. Minha
cabeça dava um nó. Tinha a impressão de que os dois tinham razão. Eu
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concordava com o que cada um deles dizia, e os neurônios iam virando
mingau. Só me restava agir. Fiquei responsável pela identificação de uma
sala que servisse de quartel-general. Vetamos conversas telefônicas ou
menção ao projeto fora do nosso QG clandestino. As regras eram rígidas: não
chegaríamos juntos, nem fardados, não iríamos com nossos carros e nunca
repetiríamos o trajeto para chegar ao ponto de encontro. O grupo ficaria
restrito ao número mínimo, para reduzir os riscos de sermos delatados ou
descobertos pela contra-inteligência.
Os membros do grupo eram policiais da mais absoluta confiança, O
mais frio era o Diego. O mais cerebral era o Sabino. O mais experiente, o
Valter. Por isso, cabia ao Sabino o primeiro desenho do plano de ação. Diego
ficaria com a execução e Valter supervisionaria o conjunto do trabalho. Eu
carregava o piano.
Quando pensávamos no Sabino, pensávamos ao mesmo tempo na
mãe do Sabino. Ela estava sempre conosco, indiretamente, espiritualmente.
É muito comum compartilharmos intimidades, na trincheira. Às vezes, a
gente tem a sensação de que cada palavra pode ser um testamento para a
posteridade e o papo furado mais bocó cintila numa espécie de clarão
místico. Bem, talvez eu esteja exagerando um pouco. Mas o que quero dizer é
que falamos mais do que devíamos sobre nós mesmos, as namoradas,
mulheres e famílias. O personagem inesquecível do Sabino era sua mãe.
Dona Rosália era tão evocada, em tantas situações diferentes, que já passara
a freqüentar as conversas, mesmo na ausência de Sabino. Seqüestramos
dona Rosália para nossas vidas. Já era possível prever o que diria a santa
mãe do Sabino em cada nova situação, mesmo nos contextos que nada
tinham a ver com os dois. Parte da destreza do Sabino, ele atribuía à mãe. O
equilíbrio e a serenidade que lhe davam um aspecto mais maduro vinham da
mãe. Isso ele não dizia; nós deduzíamos. A sabedoria de dona Rosália
contagiava o filho por osmose, pelo DNA ou pela pedagogia cotidiana. Por
extensão, em alguma medida, nos tornamos todos seus aprendizes, à
distância. Nunca a encontráramos, mas provavelmente seríamos capazes de
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identificá-la a quilômetros. E quantas vezes ela nos salvara? Mesmo que
tenha sido através da prudência do filho, ela nos tirou de poucas e boas.
Sábado à tarde, lá estávamos nós, o exército de Brancaleone.
Debruçados sobre o mapa de Santa Teresa. Um sol abrasador focalizava o
litoral efervescente. Ninguém estava interessado num bando de malucos
discretos, pais de família em bermudas para as compras da semana. De todo
modo, nunca abrimos as cortinas. Para respirar, o ventilador de teto e a
água gelada. Sabino chegou atrasado. Isso jamais acontecia.
Trouxe más notícias — ele disse.
O silêncio foi tão ativo — engraçado chamar o silêncio de ativo, mas
era isso mesmo — e foi tão intensa aquela atividade imóvel do silêncio, que
parecia nos projetar para fora de nossas cabeças. Pensei logo no pior: nosso
ponto de encontro teria vazado por algum erro meu.
Sabino estalou a língua no palato. Ele costumava fazer isso quando
estava nervoso.
— Não vai dar. Vamos ter de abortar.
— Como assim? Por quê? — Não me lembro quem disse o quê em
qual ordem, mas todos nos precipitamos sobre o Sabino: como assim,
abortar?
— É isso mesmo, abortar a operação. Minha mãe acha muito
perigoso. Acha uma maluquice.
De novo, o silêncio. Diego foi quem falou primeiro:
— Você contou pra sua mãe?
Sabino balançou a cabeça pra frente e pra trás, olhando para o chão
e elevando o lábio inferior à altura do superior, até cobri-lo inteiramente —
que era outra de suas manias.
— Nesse caso, vamos ter de matar também sua mãe — Diego
completou o raciocínio, com aquele espírito prático que o distinguia.
A sala convulsionou-se num alvoroço de vozes e braços, todos de pé.
Brizola morreu em 2004, de morte natural, sem saber que, no início
dos anos 90, dona Rosália salvou-lhe a vida.

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