Cássio era uma figura. Capitão Cássio. Quem não o conhecesse subindo
favelas, comandando equipes do BOPE, empunhando com coragem um fuzil
e se arriscando pelos companheiros, poderia ter uma impressão errada dele.
A primeira vista, parecia meio arrogante, metido a intelectual, olhando todo
mundo do segundo andar, com um jeitão de David Niven, aquele velho ator
de bigodinho, que o Nelson Xavier ou o André Vali imitariam muito bem, se
vestissem um fraque e falassem inglês com sotaque britânico. O Cássio
passeava seu charme com um certo ar meio biltre, como diria meu avô; meio
cafajeste, como diria meu pai. Ele estava mais para Jece Valadão do que
para Charles Bronson, mas adorava um final feliz. Só que, para o réu, o final
era previsível e sempre infeliz. Exatamente como nos filmes de Bronson, em
que os 427 bandidos que mataram e estupraram sua filha vão sendo
eliminados, um a um, pelo vingador solitário, o justiceiro das famílias
ameaçadas. Vou explicar por que falei em réu.
Cássio queria ser advogado. Até aí, tudo bem. Muita gente boa da
polícia sonha com um futuro melhor. Quem não quer mais prestígio, poder e
dinheiro? Nada de mais. Isso é natural. Se o cara tiver uma boa base, for
inteligente, estudioso, contar com o apoio em casa e não perder a disposição
para atingir o objetivo, pode dar certo. Quanta gente boa da polícia não faz
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prova para o Ministério Público? Por que não a Ordem dos Advogados ou
mesmo a Magistratura? Era um sonho legítimo do Cássio. Ninguém discute.
Só que ele era uma peça.
O capitão subia as favelas levando uma cadeirinha de armar, aquela
que os diretores de cinema usam. Quando chegava ao lugar que planejara
ocupar, enquanto esperava que o resto da equipe fizesse uma varredura no
morro, mandava os soldados que ficavam com ele fazer um gato e pendurar
uma lâmpada bem em cima da cadeira. Sentava ali, tirava um livro de direito
da mochila, abria o diabo do livro e começava a estudar — fazia anotações e
tudo, na maior tranqüilidade. Era capaz de passar horas assim.
Participei de uma das incursões noturnas comandadas pelo Cássio.
Fiquei responsável pela busca de armas e drogas, e pela prisão dos
traficantes. Não conseguimos muita coisa. Depois de quase duas horas,
levamos só um vagabundo ao capitão, que lia, sentado com aprumo na
cadeirinha de diretor, sob a luz improvisada e, claro, devidamente escoltado.
O bandido estava com um fuzil, uma pistola mais ou menos um quilo de
cocaína. O sujeito tinha sido adotado pelo tráfico local, porque teve de fugir
de sua favela, tomada por uma facção rival. Não era dali. Isso facilitava
nosso trabalho. Não ia ter choro nem vela. Os moradores não fariam
arruaça. Não ia ter irmã chorando, tia se descabelando, mãe desmaiando.
Quando apresentei o caso ao capitão, ele aplicou a fórmula com
apuro: "Vamos fazer o julgamento do réu." Distribuiu as funções: eu seria o
promotor; o réu faria a própria defesa. Determinou que fizéssemos um 360
graus, que significa um círculo completo de proteção, para evitar surpresas e
prevenir ataques. Relatei a ocorrência, como se estivesse diante de uma
autoridade judiciária. Imitei um promotor e pedi a condenação. Treinando a
linguagem empolada e a coreografia do tribunal, o capitão, imitando um juiz,
passou a palavra ao réu.
O sujeito não estava entendendo nada. Disse que não era traficante,
que tinha ficado com as armas e as drogas, porque a turma do tráfico local,
percebendo que a polícia se aproximava, queria queimá-lo, exatamente
porque ele sempre se recusam a colaborar. Cássio não gostou nada da cara41
de-pau do vagabundo. Sentiu que ele estava ofendendo o Judiciário e
fazendo o BOPE de bobo. Não demorou muito, disse que estava pronto a
prolatar a sentença — isso mesmo, prolatar. E prolatou. O marginal foi
sentenciado à pena capital, que deveria cumprir-se, imediatamente.
O bandido parecia zonzo, não sabia se a mise-en-scène era a sério. O
capitão há muito encarnara o juiz. Agora, arregaçava, imaginariamente, as
longas mangas da toga, porque lhe competia assumir a função de carrasco.
O vagabundo tremia e implorava clemência, mas esse comportamento não
agradava a Cássio: a sentença já fora proferida e não admitia recursos. O
capitão mandou o soldado Lobo empunhar a arma do próprio traficante,
repetiu solenemente a condenação, autorizou o pobre-diabo a dizer o que
quisesse, e determinou que ele fosse calado com um tiro na testa. "Vamos
embora", ordenou. Estava encerrada a sessão.
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