quinta-feira, 8 de maio de 2008

Eu sou a Lenda - capitulo 17

Capítulo 17
—Não posso entender —disse Neville depois do jantar—. Haviam passado quase
três anos, e alguns ainda estão vivos. As reservas de mantimentos acabaram. Pelo que
pude observar, passam as horas de sol em estado de coma. —Neville sacudiu a cabeça—.
Mas não estão mortos. Três anos, e não estão mortos. O que é que os mantém
vivos?
Ruth tinha colocado o roupão de Neville. Por volta das cinco tinha começado a
tranqüilizar-se, tinha tomado banho e trocado de roupa. Seu corpo fraco se perdia entre as
largas dobras do roupão. Havia jogado o cabelo para trás, atando-lhe na nuca com um
laço.
Ruth deu um soquinho no pires de café.
—Nós os víamos freqüentemente —disse—. Temíamos de nos aproximar. Mas
acreditávamos que não eram perigosos.
—Você sabia que eles retornam depois de mortos? Ruth moveu negativamente a
cabeça.
—Não.
—E não se perguntavam quem eram os que atacavam de noite?
—Nunca pensamos que... —Ruth sacudiu a cabeça lentamente—. É difícil acreditar em
algo assim.
—Acredito que sim —disse Neville.
Ruth comia em silêncio, e Neville a contemplava. Parecia incrível que fosse uma mulher
normal. Parecia mentira que depois de tantos anos tivesse por fim uma companheira. Não
só duvidava dela. Duvidava de que algo tão extraordinário pudesse ocorrer naquele lugar
perdido.
—Me conte mais coisas sobre eles —disse Ruth. Neville se levantou e tirou a cafeteira
do fogo. Serviu a Ruth outra xícara, serviu-se também, devolveu a cafeteira ao seu lugar e
sentou-se.
—Como você está agora?
—Melhor. Obrigada.
Neville fez um gesto afirmativo e se serviu de uma colherinha de açúcar em seu café.
Sentiu que ela o observava. O que estará pensando? Suspirou perguntando-se como
poderia dissipar suas dúvidas. Durante um momento tinha decidido que confiava
nela. Agora já não estava tão seguro.
—Ainda não confia em mim —disse Ruth como se lesse seus pensamentos.
—Não... não é isso —disse.
—É sim —disse Ruth pausadamente. Suspirou—. Oh, bem. Se você quer analisar
meu sangue, analise-o.
Neville a olhou perturbado, perguntando se, se trataria de um truque. Bebeu um gole de
café, tentando reprimir o movimento convulsivo de sua garganta. É absurdo, pensou, ser
tão desconfiado.
Deixou a xícara na mesa.
—Bem —disse—. Muito bem.
Olhou a jovem, que tinha os olhos fixos no café.
—Se estiver você infectada —lhe disse— tratarei de curá-la por todos os meios. Ela o
olhou nos olhos.
—E se não puder? fez-se um silêncio
—Bebamos primeiro —disse ao fim Neville.
Os dois beberam. Em seguida Neville perguntou:
—Vamos tentar agora?
—Por favor —disse a jovem—. Amanhã pela manhã. Sinto-me ainda... Amanhã pela
manhã.
Terminaram o café em silêncio. Não sentia uma grande satisfação sabendo que
ia lhe analisar o sangue. Temia descobrir que estivesse infectada. Enquanto isso
passariam uma noite juntos. Ficariam mais perto, e possivelmente se sentissem atraídos
um pelo outro. Quando no dia seguinte, tivesse que...
Mais tarde, na sala, tomaram um pouco de Porto olhando o mural e escutando a quarta
sinfonia de Schubert.
—Nunca acreditaria —disse Ruth, mais animada—. Nunca teria acreditado que
voltaria a escutar música. Que beberia vinho. —Olhou a seu redor—. Tem feito um
excelente trabalho.
—Como era sua casa? —perguntou Neville.
—Não se parecia em nada a isto —disse Ruth—. Não tínhamos um...
—Como protegiam a casa? —interrompeu Neville.
—Oh —A jovem pensou um momento—. Tínhamos trancado as janelas, é obvio.
E usávamos cruzes.
—Nem sempre dá resultado —disse Neville serenamente, depois de olhá-la
um momento.
Ruth ficou surpreendida.
—Não?
—Por que um judeu tem que temer a cruz? —disse Neville—. Por que um vampiro que
foi judeu tem que temê-la? Quase todos que temem converter-se em vampiros. A maioria
tem cegueira histérica diante dos espelhos. Mas a cruz... Bom, não acredito que nem um
judeu, nem um hindu, nem um maometano, nem um ateu temessem a cruz.
Ruth ergueu o copo de vinho e continuou escutando Neville em silêncio.
—Por isso as cruzes nem sempre dão resultado —continuou Neville.
—Não me deixou terminar a frase —disse Ruth—. Utilizávamos alhos também.
—Acreditei que isso lhe provocava náuseas.
—E me provoca. Perdi mais de dez quilos neste último tempo. Estava doente.
Neville moveu a cabeça convencido. Mas enquanto ia à cozinha em busca de
outra garrafa de vinho pensou que ela já devia estar habituada ao alho depois de tanto
tempo. Também podia não ter conseguido acostumar-se. Por que desconfiar agora? Na
manhã seguinte examinaria o sangue. Estive sozinho muito tempo, pensou. Tornei-me tão
incrédulo que duvido de tudo, a não ser que o veja no microscópio. Sou um bom filho de
meu pai, maldita seja sua imagem.
De pé na escuridão da cozinha, desarrolhando a garrafa, Neville olhou para a sala. Ruth
tinha o corpo de uma adolescente. Não parecia que tivesse tido dois filhos.
E o mais insólito em todo este assunto, pensou, é que não me provoca nenhuma
excitação.
Se nos tivéssemos encontrado dois anos antes, possivelmente tudo tivesse sido
diferente. Tinha passado momentos terríveis naqueles dias, momentos que
obrigavam a aceitar qualquer solução, por mais espantosa que fosse.
Felizmente, tinha começado com os experimentos, e algo havia se acalmado em
seu interior. A salvação do monge, refletiu Neville.
Agora não sentia quase nada. Só um leve movimento, sob os abruptos estratos da
abstinência. Estava contente de que sucedesse assim. E, além disso, não podia estar
seguro de que Ruth fosse a companheira esperada. Nem sabia tampouco se na manhã
seguinte poderia continuar vivendo.
Curá-la? Era algo quase impossível.
Voltou para a sala com a garrafa aberta. Ruth sorriu delicadamente enquanto Neville lhe
servia vinho.
—Estive contemplando o mural —disse a jovem—. Primeiro, acreditaria-se, que em vez
de uma parede, há um bosque.
Neville emitiu um grunhido.
—Deve lhe haver custado muito acondicionar assim a casa.
—Você pode imaginar —disse Neville—. Você passou pelo mesmo.
—Não tínhamos nada semelhante —disse ela—. Era uma casa pequena. Em
nossa geladeira não cabia quase nada.
—Deve-lhes ter faltado comida —disse Neville olhando-a atentamente.
—Comíamos conservas —disse a jovem.
Neville moveu a cabeça. Era uma resposta lógica, devia reconhecê-lo. Mas não
gostava. Era só uma suspeita, sabia, mas não gostava.
—E a água? —perguntou.
Ruth o olhou em silencio durante um momento.
—Não acredita uma só palavra do que conto, não é mesmo?
—Não é isso —disse Neville—. Interessa-me conhecer sua forma de vida.
—É inútil, não pode dissimular. Esteve sozinho muito tempo. Perdeu a capacidade
de mentir.
Neville grunhiu. Tinha a impressão de que a jovem zombava dele. É ridículo,
argumentou. É só uma moça. Certamente tem razão e a casa era um esconderijo
escuro e desgraçado.
—Me fale de seu marido —disse de repente.
A sombra de uma lembrança cruzou a cara da jovem. Aproximou-se o copo aos lábios.
—Não agora —disse—. Por favor.
Neville se recostou na poltrona, sem saber por que se sentia irritado. As palavras da
mulher podiam ser verdade. Também podiam ser mentira.
Mas o que ganharia mentindo? Perguntou-se. Amanhã lhe analisarei o sangue. Do que
lhe serviria mentir agora se em seguida conhecerei a verdade?
—Sabe —disse Neville tratando de distender aquela rigidez—, Estive pensando que, se
três pessoas puderam sobreviver à praga, por que não mais?
—Você acredita que pode ser? —perguntou a jovem.
—Por que não? Haverá outros como nós.
—Me conte coisas sobre o vírus —disse ela.
Neville vacilou um momento, logo deixou o vinho sobre a mesa. E se lhe dissesse tudo?
E se ela fugisse e voltasse da morte conhecendo tudo o que ele sabia?
—É muito complicado.
—O que disse a respeito da cruz? —recordou a jovem—. Como tem certeza?
—Lembra o que lhe contei de Ben Cortman? —perguntou Neville, contente de voltar
para algo que a mulher já sabia, e esquivando sua curiosidade.
—Este homem que você... Neville fez um sinal afirmativo.
—Sim. Venha —disse levantando-se— Lhe mostrarei. Quando estava junto a ela,
atrás do buraco, Neville sentiu que o aroma do cabelo e a pele da jovem não o agradavam.
Por que? Perguntou-se em seguida. Sou como Gulliver depois de visitar os cavalos
lógicos, o aroma humano me ofende.
—É o que está ao lado do poste —disse. A jovem assentiu.
—Por que são tão poucos?
—Matei a quase todos —disse Neville—. Só faltam esses.
—Como é que está aceso o poste? —perguntou Ruth—. Acreditei que tinham
destruído os circuitos elétricos.
—Sim, mas liguei o poste com meu gerador —disse Neville—. Assim posso vê-los bem.
—Não quebram a lâmpada?
—Protegi-a bem com arames.
—Não se empoleiram e tentam quebrá-la?
—Untei o poste com alho. Ruth sacudiu a cabeça.
—Não lhe escapa um detalhe.
Neville deu um passo atrás e a olhou um momento. Como pode olhá-los tão friamente,
pensou, perguntar com tanta curiosidade, fazendo só uma semana que viu como
destroçavam a seu marido? Mais dúvidas. Alguma vez elas cessariam?
Sabia que não, até saber definitivamente a verdade. Ruth se afastou do buraco.
—Me dá licença um momento? —disse.
Neville a seguiu com o olhar enquanto ela ia para o banho, e ouviu como fechava a
porta com chave. Em seguida fechou o buraco e voltou para poltrona. Um sorriso fatigado
lhe apareceu nos lábios. Olhou o fundo do copo e coçou distraidamente a barba.
«Me dá licença um momento?».
As palavras da Ruth tinham soado grotescamente divertidas. Restos de uma
educação esquecida. Conselhos de Emily Post para quem vivia na tumba. Etiqueta
para vampiros adolescentes.
Cortou-lhe o sorriso.
E agora o que? O que proporcionaria o futuro? Estaria ela ainda ali uma semana
depois, ou no poço de fogo?
Neville sabia que se ela estava infectada trataria de curá-la por todos os meios. Mas e
se não tinha o bacilo? De certa forma esta possibilidade era ainda mais enervante. No
primeiro caso já sabia o que empreender, sem abandonar esquemas e normas. Mas se a
jovem ficasse, teriam que estabelecer uma relação determinada, possivelmente ser marido
e mulher, ter filhos...
Sim, isto era mais difícil.
De repente compreendeu que nestes anos se havia transformado em um solteirão
obstinado e mal-humorado. Não pensava já em sua mulher, sua filha, nem seu passado.
Bastava o presente. E temia as responsabilidades e os sacrifícios. Temia entregar-se de
novo. Temia amar de novo.
Quando a jovem saiu do banho, Neville continuou na sala, pensando. O tocadisco
deixava ouvir somente o ruído da agulha.
Ruth deu a volta ao disco. Começou o terceiro movimento da sinfonia.
—Bom, e o que há com o Cortman? —perguntou sentando-se.
Neville a olhou surpreso.
—Cortman?
—Ia me contar algo sobre ele e a cruz.
—Ah. Sim, uma noite o fiz entrar e lhe mostrei a cruz.
—O que aconteceu?
Matarei-a agora? Matarei-a e queimarei sem esperar a análise?
Neville sentiu que lhe faltava o ar. Pensamentos semelhantes davam testemunho
do mundo que havia agregado; um mundo terrível onde era mais fácil assassinar que
esperar. Bom, não fui tão longe ainda, pensou. Sou um homem, não um animal destruidor.
—Tem algo errado? —disse a jovem nervosa.
—Por que?
—Crava-me o olhar.
—Desculpe-me —disse Neville friamente—. Estou... pensando.
A jovem não discutiu. Levantou o copo e Neville viu que tremia. Devia tomar cuidado.
Não queria que ela suspeitasse o que ele sentia.
—Quando lhe mostrei a cruz —continuou, Cortman desatou em risadas. Ruth fez um
gesto de compreensão.
—Mas quando lhe mostrei o Torá diante dos olhos, reagiu violentamente.
—O que lhe colocou diante dos olhos?
—O Torá. O livro da lei, acredito que esse é seu nome.
—Mas como... que reação lhe produziu?
—Tinha-o atado à cadeira, mas quando o viu se desatou de repente e me atacou. A
jovem parecia ter recuperado a confiança.
—O que aconteceu?
—Golpeou-me na cabeça com algum objeto contundente. Não recordo com que. Mas
utilizei o Torá para subjugá-lo e fazer retroceder até a porta.
—Oh...
—Entende? A cruz não tem o poder absoluto que lhe confere a lenda. Quando a lenda
apareceu na Europa, a cruz se converteu naturalmente em um símbolo defensivo por
tratar-se de um continente católico. A cruz lutando contra o poder das trevas.
—Não podia ter disparado contra Cortman? —perguntou Ruth.
—Como sabe que eu tinha uma arma?
—Bom... imaginei. Nós tínhamos uma pistola.
—Então, já sabe que as balas não surtem efeito sobre os vampiros.
—Não... não tínhamos a certeza —disse a jovem, e acrescentou rapidamente—: Você
sabe por que? Por que as balas não os destroem?
Neville negou com a cabeça.
Ficaram em silêncio, escutando a música.
Em realidade sabia, mas preferia não dizer-lhe. Experimentando com vampiros mortos
tinha averiguado que os bacilos provocavam a secreção de um líquido pegajoso que
selava rapidamente as feridas de bala. O líquido envolvia as balas, as isolando, e os
germes seguiam ativando o corpo. Disparar contra os vampiros era como lançar pedras
à água. O líquido pegajoso impedia que as balas destruíssem qualquer órgão vital.
Olhou a jovem, que estava arrumando-se nesse momento as dobras da saia.
Neville vislumbrou uma coxa morena, mas em vez de se excitar, irritou-se. Aquele era um
típico truque feminino, pensou, um movimento forçado.
À medida que passava o tempo, sentia que ia afastando-se dela. Em certo sentido, até
desejava não havê-la conhecido. Tinha alcançado certo equilíbrio com os anos, havia
assumido a solidão, havia se acostumado a ela, e agora...
Para acalmar a ansiedade procurou seu cachimbo e o tabaco. Preparou o cachimbo e
acendeu. Por um instante, pensou: Pergunto-lhe se incomoda a fumaça? Não, não
pergunto.
O disco terminou. A jovem se levantou e Neville viu como olhava as capas. Parecia uma
adolescente, tão magra. Quem é?, pensou. Quem é realmente?
—Posso pôr isto? —perguntou a jovem mostrando um álbum. Neville respondeu sem
olhar.
—Ponha o que quiser.
A jovem se sentou e começaram para ouvir os primeiros compassos do segundo
concerto de Rachmaninoff. Seus gostos não são notavelmente atrevidos, pensou
Neville olhando-a expressivamente.
—Me conte algo sobre você —disse a mulher.
Outra frase tipicamente feminina, pensou Neville. Em seguida acusou-se de suscetível.
Por que sua irritação aumentava?
—Não tenho nada que dizer.
A moça sorria de novo. Por acaso se enganava?
—Esta tarde me assustou terrivelmente —disse ela—. Com esse aspecto desalinhado.
E esse olhar selvagem.
Neville lançou uma baforada de fumaça. Olhar selvagem? Que ridículo comentário. O
que pretendia? Reduzir as distâncias com joguinhos?
—Que segredos esconde debaixo dessas barbas? Neville tratou de sorrir, mas não
pôde.
—Um rosto comum, simplesmente.
—Que idade tem, Robert?
Neville sentiu um nó na garganta. Era a primeira vez que lhe chamava por seu nome.
Ouvi-lo dos lábios de uma mulher, depois de três anos, era estranho e inquietante. Não me
chame assim, esteve a ponto de dizer. Não queria confiança. Se a mulher estava infectada
e não podia curá-la, desfaria-se dela como de um estranho.
A jovem voltou a cabeça.
—Não tem por que responder se não quiser —disse serenamente—. Não lhe
incomodarei mais. Irei embora amanhã.
Neville se colocou rígido.
—Mas... —disse.
—Não quero mudar sua vida —disse ela—. Não tem por que sentir-se obrigado...
porque somos... os únicos.
Neville a olhou fixamente e sentiu um calafrio de culpa. Por que não confio nela?,
perguntou-se. Se está infectada, não sairá daqui com vida. O que posso temer?
—Perdão —disse—. Tenho... passado muito tempo sozinho. A mulher não levantou a
vista.
—Se quer saber algo sobre mim —continuou Neville— Tratarei de agradá-la. A mulher
duvidou. Em seguida olhou Neville com olhos profundos.
—Eu gostaria de saber algo sobre a enfermidade —disse ao fim—. Perdi as minhas
duas filhas. E também a meu marido.
Neville a observou e logo disse:
—É um germe. Uma bactéria cilíndrica. Introduz no sangue uma solução isotônica. A
circulação do sangue fica lenta. O bacilo vive no sangue. Sem ele os bacteriófagos o
matam, ou passa ao estado de esporo.
A moça o olhou assombrada. Neville advertiu que não tinha informação de nada.
—Bom —continuou—, não importa. O esporo é um corpo de forma oval, com os
elementos básicos do bacilo comum. Se o vampiro se decompuser, os esporos,
transportados pelo vento, germinam em outros corpos e os infectam.
A mulher moveu a cabeça, incrédula.
—Os bacteriófagos são proteínas inanimadas. Neste caso o metabolismo anormal
destrói as células.
Em seguida Neville explicou, simplificando, os danos que o germe causava no sistema
linfático. Citou o alho como elemento alérgico e outros sintomas da enfermidade.
—Por que acredita que somos imunes? —perguntou a jovem.
Durante um momento Neville a olhou sem responder. Ao fim se encolheu de ombros, e
disse:
—Não sei nada sobre você. Quanto a mim, quando estava no Panamá, durante
a guerra, mordeu-me um morcego. E embora não possa demonstrar-lhe, acredito
que havia mordido antes a algum vampiro, contraindo assim a doença. O germe lhe
obrigou a consumir sangue humano. Mas, felizmente, era um germe débil, e embora
estivesse terrivelmente doente, não cheguei a morrer. Meu corpo então ficou imunizado.
Esta é minha teoria. E, por hora, não encontro uma explicação melhor.
—Mas... não existirão outras pessoas que lhes ocorreu o mesmo?
—Não sei —disse Neville serenamente—. Matei o morcego. —encolheu-se de ombros—
Possivelmente não tinha atacado a mais ninguém.
A mulher olhou-o sem dizer uma palavra, e Neville se sentiu incômodo. Começou a falar
de novo, mas esta vez sem vontade.
Referiu-se sumariamente às dificuldades com que tinha deparado em seus estudos.
—No princípio acreditei que as estacas deviam atravessar o coração. Era a
lenda. Descobri depois, que não era imprescindível. Atravessava-lhes qualquer parte do
corpo e morriam igualmente. Pensei então que a hemorragia matava-os, mas um dia...
E Neville lhe contou o caso da mulher que se tinha desintegrado diante dos seus olhos.
—Então me dava conta de que não era a hemorragia —continuou Neville recordando
satisfeito seu descobrimento—. Não sabia o que fazer. No fim, um dia encontrei a solução.
—Que solução? —perguntou a jovem.
—Experimentei com um vampiro morto. Pus-lhe o braço em uma câmara pneumática e
cravei-o no vazio. Saiu sangue. —Neville fez uma pausa—. Isso foi tudo.
A mulher o olhou fixamente sem compreender.
—Não entendeu —disse Neville.
—Eu... não —admitiu ela.
—Quando entrou ar na câmara, o braço se decompôs. A moça seguiu escutando
atentamente.
—O bacilo —disse Neville— é um organismo saprófito e pode viver com ou sem
oxigênio, mas no sangue é anaeróbico e vive em simbiose com o vampiro. O vampiro o
alimenta com seu sangue, e o germe lhe proporciona energia.
—Sim? —disse a jovem.
—Quando entra o ar —prosseguiu Neville—, a situação do germe troca:
transforma-se em aeróbico e a simbiose se interrompe. O bacilo fica em situação
de parasita, e com sua particular violência, devora o hóspede.
—Então a estaca... —começou a dizer a mulher.
—Deixa entrar ar, naturalmente. E mantém a abertura na carne. O líquido
pegajoso não fecha as feridas como no caso das balas. O coração, pois, não é
essencial. Basta abrir os pulsos —Neville sorriu fracamente—. Quando penso no tempo
que investi fazendo estacas!
Ela manifestou sua compreensão. O copo que tinha ainda na mão, o deixou na mesa.
—Por isso aquela mulher —disse Neville— se decompôs tão depressa. Tinha
estado morta muito tempo, e quando entrou o ar, o germe provocou uma
desintegração imediata.
Um estremecimento percorreu o corpo da jovem.
—É horrível —disse.
Neville a olhou surpreso. Horrível? Era curioso. Não o havia ocorrido pensá-lo durante
anos. Para ele a palavra «horrível» carecia de significado. Um horror acumulado termina
por converter-se em costume. Para Neville a situação se reduzia a simples feitos,
nada mais. Não se qualificavam.
—E o que acontece com aqueles... que ainda continuam vivos? —perguntou ela.
—Bom —disse Neville— quando lhes cortam as veias, o germe atua como lhe expliquei.
Mas a maioria morre simplesmente por hemorragia.
—Simplesmente por hemorragia —repetiu a jovem, e voltou a cabeça.
—O que houve? —perguntou Neville.
—Nada. Nada. Neville sorriu.
—Uns se acostumam a estas coisas —disse—. É obrigado. A jovem voltou a
estremecer-se.
—Acredite em mim —disse Neville—. Não há outro caminho. Seria melhor deixálos
morrer da doença, para que depois voltem convertidos em vampiros?
Ela se apertou as mãos.
—Mas você disse que há muitos ainda vivos —recordou nervosamente—. Como sabe
que não seguirão assim?
—Sei —disse Neville—. estudei o germe. Sei como se reproduz. O organismo luta, mas
ao fim o germe sempre ganha. Empreguei antibióticos, mas não servem de nada.
É inevitável. As vacinas não imunizam tampouco nos casos avançados. Não se pode
lutar contra os germes e de uma vez elaborar anticorpos. É assim, acredite. Se não os
mato, cedo ou tarde morrerão, e então virão me buscar. Não há mais alternativa.
Neville e a jovem calaram-se e na sala só se ouviu o som da agulha roçando os sulcos
interiores do disco. Ela tinha o olhar fixo no chão. É curioso, pensou Neville, justificar
agora o que ontem parecia necessário. Nunca havia pensado que podia estar
equivocado. A presença da mulher despertava agora outros pensamentos.
Pensamentos estranhos.
—Acredita que estou equivocado? —perguntou Neville com voz incrédula. A jovem se
mordeu o lábio inferior e evitou a resposta.
—Ruth —disse Neville.
—Eu não posso julgá-lo —disse ao fim.

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