Nem todo mundo que chega ferido à linha de montagem do hospital da PM
sai para receber as honrarias fúnebres. Alguns se salvam. Às vezes, salva-se
até mesmo quem se acha muito vivo. Ainda que a esperteza lhe custe caro.
Foi o que aconteceu com o tenente Ricardo, um rapaz, que gostava de
valorizar o próprio passe. Antes do relato, algumas notas técnicas. Elas
teriam sido muito úteis ao tenente.
Os médicos que se especializaram no atendimento às vítimas de
armas de fogo, no Rio de Janeiro, tornaram-se referências internacionais —
como aconteceu com o BOPE, modéstia à parte. Eles têm contado com a
colaboração da polícia e dos bandidos, cuja produtividade mórbida tem-se
aperfeiçoado ao longo dos anos. Não tem faltado osso estilhaçado, músculo
destroçado, órgão rompido, membro mutilado em escala industrial. Da
plástica à ortopedia, os médicos brasileiros estão entre os melhores do
mundo. Quando se trata de medicina de guerra, especializada em lesões por
arma de fogo, como já disse, não tem pra ninguém. No início, nossos
especialistas visitavam cirurgiões americanos que atuaram no Vietnã. Agora,
são os gringos que nos procuram.
Uma lição que aprendemos com eles salvou várias vidas: quando o
projétil é de grosso calibre, melhor sacrificar tecidos e órgãos, até o limite do
possível, do que tentar preservá-los. A experiência demonstrou que a
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preservação acaba sendo contraproducente. Em resumo: se o tiro é de fuzil,
abre-se a vítima de cima a baixo e só não se remove o que for vital. Por isso,
abriram o sargento Romero de alto a baixo, quando levou um tiro de fuzil
lateral na bunda, que entrou numa nádega e saiu pela outra.
Aparentemente, eram só dois furos, um de entrada, outro de saída, com uma
trajetória reta intramuscular. Nada que o tempo não cicatrizasse. Tanto que
o primeiro atendimento, aos cuidados de um profissional não especializado,
não envolveu nem uma sutura. Só dois curativos e um antiinflamatório. Mal
sentou na viatura que o levaria para casa, Romero esvaiu-se em sangue. A
hemorragia era drenada pelo ânus. Entrou em choque e quase morreu. Foi
reconduzido às pressas à sala de emergência. Sofreu, enfim, a cirurgia que
lhe extraiu não sei quantos metros de intestino e lhe salvou a vida.
Pena que o tenente Ricardo não soubesse disso quando chegou à sala
de emergência, posando de durão. Ele levara um tiro amigo de uma pistola,
na viatura. Não foi o único, aliás. Muita gente teve a mesma sorte — ou
melhor, o mesmo azar. Alguns não sobreviveram. Ricardo vinha sentado na
frente, e o colega, desatento, sentado no banco de trás, não tomou as
medidas de segurança necessárias. A arma sem protetor, inadvertidamente,
disparou, atingindo o ombro do tenente, por trás. Para driblar a corregedoria
e impressionar as enfermeiras, Ricardo entrou avisando: "Não foi nada. Uma
bobagem. Um bando de traficantes me armou uma cilada, mas dei um jeito
neles. Foi só um tiro de fuzil no ombro." Antes que contasse a próxima
vantagem, deram-lhe um sossega-leão na veia, entubaram-no e chamaram
os cirurgiões especialistas, que o abriram do umbigo ao i pescoço, adotando
o procedimento padrão. O tenente sobreviveu, mas aprendeu que nem
sempre vale a pena bancar o machão, exagerando o calibre do heroísmo.
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