quinta-feira, 8 de maio de 2008

SÁBADO, 11 DA MANHÃ, CORREDOR DO HOSPITAL

Familiares do cantor se misturam a jornalistas na expectativa de uma
notícia do centro cirúrgico. Consternação e revolta. As vozes se confundem.
Ouve-se um relato:
— Ele estava no carro quando o blindado do BOPE entrou na favela.
Contou que, quando viu aquele farol do blindado focalizando o carro,
mandou a namorada ficar imóvel e abriu lentamente a porta, gritando que
estava saindo, na boa. Muita gente passava correndo pra tudo que era lado.
Quando pôs o pé na rua e começou a descer do carro, veio a rajada. Ele só
sentiu a pancada violenta e o calor úmido do sangue se espalhando debaixo
da calça. Ainda teve tempo de avisar à namorada que tinha sido atingido.
Ela não acreditava. Se recusava a acreditar. Ele desmaiou antes de sentir
dor. Foi um inferno. Se Deus quiser, vai recuperar os movimentos e vai
voltar a andar. Mas os outros dois meninos nem chegaram ao hospital.
Morreram junto ao alambrado, perto da Casa da Paz.
O noticiário da rádio mais popular da cidade informa: "O comandante
do BOPE acaba de ser destituído por determinação do secretário de
Segurança. Segundo o porta-voz da secretaria, favelado também é cidadão; a
comunidade de Vigário Geral merece o mesmo tratamento que a polícia
confere à população do Leblon." Em entrevista por telefone, o secretário
afirma: "...faltou técnica aos policiais do BOPE."

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