quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da tropa - Tiro Amigo

A notícia sobre o Amâncio me pegou de surpresa. Talvez seja uma bobagem
dizer isso. Claro que foi uma surpresa. Quem é que poderia estar preparado
para saber, de uma hora para outra, que um de seus melhores amigos levou
um tiro de fuzil nas costas e está entre a vida e a morte, num Centro de
Tratamento Intensivo hospital militar? Mais que surpresa; foi quase um tiro
que eu levei. Ele era policial também, ex-sargento do BOPE. Deu baixa
quando nasceu o primeiro filho. A mulher pediu e ele achou que a
preocupação dela fazia sentido. Engraçado. Quando a gente está no BOPE,
praticamente não pensa no perigo. Mas o perigo é nosso companheiro
permanente. Tanto que nunca deveria soar surpreendente a notícia de que
algum colega foi ferido e está entre a vida e a morte em um CTI.
Talvez o caso do Amâncio seja tão chocante justamente por ele já ter
saído do BOPE e pelas razões que o haviam levado a sair. Era uma puta
ironia que ele tivesse sobrevivido a tantas dezenas de incursões do BOPE
nas favelas mais perigosas e acabasse alvejado daquele jeito, numa tarde de
domingo, quando se preparava para voltar para casa, no final de um plantão
de 24 horas, provavelmente louco para rever a mulher e o filho. Ele estava
lotado na P2 do 2o. Batalhão. P2 é o setor responsável pelo serviço de
inteligência. Segundo as leis, a P2 deveria voltar-se exclusivamente para os
desvios de conduta dos colegas do próprio Batalhão. Mas não é nada disso o
que acontece. Como a Polícia Civil, com raras exceções, não investiga porra
nenhuma, é a P2 que faz campana* na entrada das favelas, grampeia os
* No vocabulário policial, fazer campana significa vigiar, espreitar sem ser visto. (N. dos A.)
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telefones dos traficantes e segue os suspeitos pela cidade. Por isso, os
policiais lotados nas P2 andam em carros civis, com chapa fria.
Há várias vantagens em ser policial. Uma delas é conhecer todo
mundo no hospital militar. Na guerra urbana, há sempre o que fazer por lá.
A gente passa levando gente, visitando, telefonando para saber notícias.
Portanto, você pode entender por que não foi difícil entrar no CTI,
contrariando prescrições médicas. Sentei ao lado do Amâncio, todo plugado,
e segurei sua mão. Ele abriu os olhos, ensaiou um meio sorriso, fechou os
olhos e sussurrou: "Não foi nas costas porra nenhuma. Foi na barriga. Tiro
na barriga." Senti um tremor que me atravessa o corpo quando estou prestes
a explodir. Falando assim, dou até a impressão de que sou uma arma. Quem
explode é granada. Mas tem situações em que eu me sinto uma arma. Mais
especificamente, uma granada. Nesse caso, a metáfora é bem apropriada.
Amando apertou minha mão e brincou: "Lembra da granada?"
"Claro, porra, quem é que poderia esquecer?", eu disse. "Ávida de
toda a turma esteve em sua mão. Literalmente."

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