quinta-feira, 8 de maio de 2008

Elite da tropa - TUIUTI, AGOSTO, ÀS SETE DA MANHÃ

Esse caso ocorreu em um ano já distante. Descíamos do morro do
Salseiro, na Tijuca, onde passamos uma noite pesada. Em frente ao antigo
estádio do América, na Campos Sales, um carro estava parado no meio da
rua, com a porta do motorista aberta, ao lado de um carro-forte. Uma
senhora aflita fazia sinal. Paramos atrás do carro. Éramos cinco.
Encontramos o corpo de uma mulher, debruçada sobre o volante, com um
tiro de fuzil na cabeça. Você pode imaginar o quadro. Não vou lhe dar os
detalhes chocantes. Dá para entender por que a tal senhora, mãe da vítima,
se recusava a aceitar a morte e insistia na remoção do cadáver para
atendimento médico, por mais que o óbito fosse evidente. Se lhe contasse
como estava o console e o pára-brisa, você entenderia por que falo em óbito
evidente.
Deixamos com ela o cabo Ronaldo, para as providências, e partimos
no encalço dos assassinos. Eles tinham assaltado o carro-forte e levado 6
milhões de reais. A moça, assustada com a correria à sua frente, tentou
manter o carro imóvel, atendendo à ordem do bandido, mas tirou o pé da
embreagem, por nervosismo, provocando o solavanco que assustou o
marginal. Ele disparou um tiro seco e preciso. Para você ter idéia do estrago,
um tiro de fuzil, no interior do corpo humano, danifica uma área
correspondente a cinqüenta vezes o diâmetro do projétil. Ronaldo respeitou o
auto-engano da mãe. O desespero materno se manifesta por linguagens
estranhas. Sentou praça a seu lado como sentinela de sua dor e foi, aos
poucos, lançando pontes entre a loucura e a realidade. A mãe da morta
atravessou o abismo, lentamente. Até hoje, todo fim de ano, ela se lembra da
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gente, telefona, manda cartões. A gratidão que brota em situações extremas
não se apaga.
Deixamos Ronaldo e disparamos. A 1 quilômetro dali, na praça da
Bandeira, havia um ajuntamento. Abrimos passagem no bolo de gente. Um
sargento gordo, no chão, olhos esbugalhados, estava morto numa poça de
sangue. Tiro de fuzil no pescoço. Depois de uma noite tensa, aquilo foi
demais para nós. O sangue subiu à cabeça, e dois dos nossos homens
gritaram um bocado com o povo que se amontoava para espiar o cadáver.
"Vocês reclamam da polícia, falam da gente... esse homem era um pai de
família, a mulher dele está esperando em casa, os filhos também, ele estava
trabalhando", disse o soldado Castro. O cabo Álvaro continuou: "Vocês
querem que a gente prenda os filhos da puta que fizeram isso? Pra eles
voltarem pra rua, rindo da nossa cara? Os filhos da puta mataram uma
menina, roubaram um carro forte, assassinaram um trabalhador. O que é
que vocês dizem agora? Algum filho da puta vai falar em direitos humanos?
E os direitos desse homem que sangrou até morrer, feito um porco no
curtume?" Castro recomeçou: "Vocês querem o sangue dos assassinos?
Querem que a gente vá à caça? E depois? E depois, porra? Vocês vão depor a
nosso favor, na frente do juiz? Vão arrebentar as grades da jaula em que nós
estaremos apodrecendo?"
Duvido que alguém tenha ouvido aqueles gritos, no meio daquela
confusão toda. A morte do guarda de trânsito deu um nó no tráfego e tive de
deixar outro de nossos homens para cuidar da remoção do cadáver e pôr
ordem no caos. A cidade tinha de continuar sua jornada para dentro da
fumaça, do mormaço estilhaçado na lataria dos ônibus, do cheiro de sangue
e gasolina. Mais um dia igual aos outros. Afinal, no estado do Rio de Janeiro,
18 pessoas são assassinadas diariamente. E isso se repete feito um mantra
há mais de vinte anos. Aprendemos a conviver com essa maldição.
Sobretudo nós, policiais, que estamos mais expostos aos riscos e à miséria
em que os bandidos germinam como plantas selvagens. Somos as feras da
selva. Feras profissionais.
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Voltamos à viatura. Havia duas possibilidades: os marginais
poderiam ter ido em frente, à direita, seguindo para o Rio Comprido, pela
avenida Paulo de Frontin, ou retornado à esquerda, em direção à estrada de
ferro, São Cristóvão e Maracanã. Decidi tomar a esquerda. Quando
passávamos debaixo do Tuiuti, pedestres nos fizeram sinal, indicando a
favela. Acho que o próprio tráfico do Tuiuti não gostou da visita incômoda de
assaltantes de carro-forte, que subiram o morro com homicídios qualificados
nas costas para dividir responsabilidades e riscos. Embicamos ladeira
acima. Não foi difícil localizar a casa em que se esconderam. Os moradores
colaboravam abertamente. Sinal de que os bandidos não eram dali. Eles não
ousariam desafiar a lei do silêncio que o tráfico impõe.
Éramos quatro. Posicionamos nossas armas, avisamos que a casa
estava cercada e mandamos os bandidos sair, um a um, com as mãos na
nuca. Nada. Fuzilamos a casa, dispostos a derrubá-la. Foram uns
quatrocentos tiros. Ficou de pé, vazada feito paliteiro. Um vagabundo avisou
que ia sair. Deu os primeiros passos para fora. Delgado fez a mira e apertou
o gatilho. O cartucho estava vazio. Ele ainda teve tempo de recarregar,
enquanto o bandido aguardava, de pé, com as mãos na nuca, trêmulo e
pálido. Agora, sim, deflagrou o tiro no peito do vagabundo. Nenhum sinal de
vida no interior da casa. Era hora de invadir.
Encontramos dois corpos entre os escombros e um sobrevivente.
O cara estava desfigurado, mas vivo. A cena ficaria por muito tempo
conosco, revirando o estômago e assombrando o sono. Cada homem da tropa
a digeriu como pôde. Dois de nós acabaram recebendo o apelido tarja-preta
por causa disso — esse apelido é dado a quem toma esse tipo de remédio.
Mesmo para quem vê a morte todo dia, não foi fácil encarar a vida sob
aquela forma. O infeliz perdera o queixo. Não tente imaginar. Você não
conseguiria. Aliás, melhor mesmo que não consiga.
"Ela está morta; ela está morta" — um senhor negro trazia uma
menina no colo, banhada cm sangue. Vinha dos fundos da casa. "Os
bandidos mataram minha neta" — e nos mostrava a criança. "Foram os tiros
dos bandidos", repetia. O soldado Délio tirou a menina dos braços do avô e
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correu para a viatura. "Vamos salvar a criança, vamos salvar a criança."
Corri com ele, segurei-o pelo braço e lhe disse, olho no olho: "Délio, a criança
morreu. Ouviu? Ela está morta." Ele permaneceu imóvel, olhando em frente,
a criança no colo. Depois de alguns minutos, veio até mim: "Capitão, fomos
nós que matamos a menina. Ela estava nos fundos. Os marginais estavam
de costas pra ela, atirando na gente. Era impossível atingir a menina. Nós
atiramos de frente, em direção à casa. O tiro foi nosso." Olhei de novo para
os olhos dele, bem no fundo: "Esquece isso." "Nós matamos a menina,
tenente", ele insistiu. "Esquece, porra. Esquece. O avô dela está convencido
de que foram os bandidos; então, foram os bandidos, porra. Esquece.
Acabou."
O vagabundo sem queixo morreu a caminho do hospital.
No final da manhã, fui conferir as ocorrências no Instituto Médico
Legal. Contei sete corpos, lado a lado, no galpão gelado. Eu me senti numa
gruta sombria, estuário secreto dos rios que fluem no subterrâneo da cidade
— ela continua a fazer barulho, alheia ao subsolo. Délio era só um dente na
engrenagem; eu era outro. Nós mal conhecíamos o funcionamento dos
aparelhos que estavam em movimento. Além disso, àquela hora, tínhamos
sido vencidos pela mais profunda exaustão.
Vidal ficou no Tuiuti, guardando as sacolas com dinheiro. As aves de
rapina da Polícia Civil têm excelente olfato. Chegaram em equipe e decididos,
mandando a PM se afastar. Tomariam conta do caso. Vidal subiu nas
sacolas e girou 360 graus, apontando o fuzil em todas as direções: "Quem
puser a mão na grana, leva chumbo. Não estou brincando, não. Eu atiro
mesmo. Vou atirar. Estou avisando. Vou atirar." Os coleguinhas preferiram
não brincar com fogo. Depois de 24 horas no ar e das guerras em que nos
havíamos metido ao longo daquela jornada, Vidal seria bem capaz de atirar
mesmo.
A relação dos policiais do BOPE com o comandante varia muito.
Quando o cara passou por tudo o que nós passamos, no treinamento e no
exame de seleção, e quando tem colhão para defender a nossa honra diante
das sacanagens da política, tudo bem. Tem a nossa lealdade. Mas quando o
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sujeito é um oportunista e sacrifica tudo para agradar o comandante geral
da PM e o governador, aí fodeu. Me desculpe ser assim direto, mas fodeu. Foi
o que aconteceu no último capítulo desse caso do Tuiuti.
O comandante foi procurado pelo banco cujo dinheiro nós havíamos
resgatado. A seguradora pagaria 5% aos policiais que se empenharam na
recuperação dos 6 milhões. Ou seja, 300 mil reais migrariam da conta
biliardária da seguradora para minha poupança de meus modestos colegas
de farda. Nenhuma fortuna, mas nada desprezível: dividida por cinco — ou
oito, se quiséssemos homenagear todo o pessoal que compõe a unidade sob
meu comando, independentemente de ter ou não participado daquela
operação (aliás, imprevista — tivesse sido planejada, os oito teriam estado
presentes) a grana engordaria em 60 mil ou em 37 mil e 500 reais as nossas
contas. O comandante resolveu enviar uma lista, digamos, mais generosa,
fazendo caridade com o dinheiro alheio: incluiu-se a si próprio, mais uns
cinco ou seis amiguinhos do peito. Resolvemos melar a festa. Conversamos
com a seguradora, explicamos as dificuldades sugerimos uma solução
salomônica: que a doação fosse feita em equipamentos para a unidade,
sobretudo em coletes à prova de bala. Os nossos eram velhos, pesados e
frágeis. Acabou sendo muito útil. E a indignação do comandante funcionou
como um prêmio suplementar. Lavamos a alma.
Por falar em alma, chegou o dia das condecorações. Muitos meses já
haviam passado, mas a ferida continuava aberta. Délio não se conformava
com a morte da menina e o espectro do marginal desfigurado ainda
assombrava alguns de nós. Perdemos sono e sossego, por um longo tempo. O
ritual de condecoração faria com que revivêssemos a experiência, porque os
registros da ocorrência, com todos os detalhes, seriam lidos na cerimônia.
Revolver esse passado era a última coisa que poderíamos desejar. Se nos
quisessem premiar, que nos deixassem em paz, nos esquecessem e nos
permitissem esquecer. A memória, às vezes, parece um cofre em que a gente
é enterrado vivo.
Não houve jeito. Prenderam no nosso peito aquele fato, envolto numa
fitinha azul.

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