sexta-feira, 9 de maio de 2008

Eu sou a Lenda - Capitulo 6

II - Março de 1976
Capítulo 6
A casa, ao fim, era confortável outra vez.
Ainda mais que antes em realidade, pois, depois de três dias de trabalho tinha
conseguido isolar as paredes. Agora podiam gritar e uivar a seu gosto. Era um descanso
não ter que ouvir novamente Ben Cortman.
Havia-lhe levado tempo e trabalho. Em primeiro lugar teve que procurar uma
nova caminhonete. Não tinha sido tarefa fácil.
Teve que ir até a Santa Mónica. Não conhecia outra concessionária Willys, nunca
tinha dirigido outras marcas e não era momento para experimentos. Como não podia ir
andando até Santa Mónica, procurou outro carro pelos arredores. Mas a maior parte
não funcionava, por um motivo ou outro; a bateria descarregada, a bomba de óleo
rachada, falta de gasolina, pneus murchos.
Por fim, a um quilômetro de sua casa, encontrou um carro em bom estado e correu a
Santa Mónica em busca de outra caminhonete. Colocou-lhe uma bateria nova,
encheu o tanque de gasolina, carregou algumas latas e voltou para a casa. Chegou uma
hora antes do anoitecer.
Por sorte não tinham quebrado o gerador. Aparentemente, os vampiros não
conheciam sua importância. Neville só havia encontrado um cabo partido e as
marcas de algumas pauladas. Arrumou-o em seguida, durante a manhã seguinte ao
ataque, evitando assim que a comida se danificasse. Alegrou-se realmente, pois agora que
faltava eletricidade no bairro, seria impossível conseguir mantimentos congelados.
Depois, havia arrumado a garagem tirando restos de lâmpadas, fusíveis, cabos,
reposições de motor e uma caixa de sementes que tinha guardado ali fazia anos.
A máquina de lavar roupa não funcionava e a havia trocado. Mas tudo isto não tinha sido
difícil. Em compensação, havia custado tornar a encher as latas de gasolina. Nisto se
superaram a si mesmos, pensou com irritação enquanto limpava o combustível derramado
no chão.
No interior da casa tinha arrumado o gesso da parede e, como novo estímulo, havia
trocado o mural, dando assim uma aparência distinta à sala.
Pôs entusiasmo em seu trabalho, uma vez começado. Era algo no que se ocupar, algo
no que consumir os restos de raiva. Desse modo quebrava a monotonia das tarefas
diárias; o traslado dos cadáveres, as reparações do exterior, os colares de alho.
Nesses dias bebia pouco; tratava de não provar o uísque durante o dia, e de que os
drinques noturnos fossem simplesmente para acompanhá-lo nos momentos de descanso e
não um suicídio camuflado. Teve mais apetite e aumentou dois quilos. Até dormiu
profundamente nestas noites, e sem pesadelos.
Durante um dia ou dois pensou na idéia de mudar-se para um luxuoso
apartamento de algum hotel, mas a abandonou ao considerar todo o trabalho que seria
necessário para acondicioná-lo. Não, já estava bem em sua casa.
Agora, sentado no vestíbulo, escutava Júpiter, de Mozart, e pensava sobre como e onde
começaria sua investigação.
Conhecia alguns detalhes, mas eram só pequenos sinais em um terreno desconhecido.
Sem dúvida alguma, a resposta residia em outra parte. Possivelmente em algum
feito familiar, não considerado devidamente e sem relação aparente com o resto.
Mas o que?
Recostado na cadeira, com um copo na mão direita, observava o mural.
Era uma paisagem canadense: bosques profundos, estáticos e misteriosos, de
sombras verdes, onde reinava o profundo silêncio da natureza indomável.
Neville cravou pensativamente seu olhar nas sombras verdes do mural.
Aquela noite, fazia tempo, havia desatado uma tormenta de areia. O vento tinha
sacudido a casa, penetrando pelas frestas, e até pelos poros do gesso, cobrindo o chão e
os móveis com uma fina capa de pó que repousava sobre a cama e se metia nos olhos e
sob as unhas.
Neville havia passado meia noite acordado, tratando de ouvir a pesada respiração de
Virginia, mas só lhe chegava o estrondo da tormenta. Durante um momento, suspenso
entre o sonho e a vigília, havia chegado a sentir como se rodas gigantescas triturassem a
casa e umas terríveis superfícies abrasivas corroessem seu esqueleto.
Não chegava a acostumar-se às tormentas de areia, não suportava aquele som
sibilante dos redemoinhos. Quando começavam, quase não podia dormir, e ao dia
seguinte ia à fábrica com um grande cansaço no corpo e na mente.
E agora, além disso, a preocupação por Virginia.
Às quatro da manhã despertou e percebeu que a tormenta havia cessado. O
som do silêncio lhe assobiava nos ouvidos.
Enquanto se movia para acomodar o retorcido pijama, deu-se conta de que Virginia
estava acordada. Deitada de barriga para cima, olhava o teto baixo.
—O que houve? —perguntou-lhe sonolento. Virginia não respondeu.
—Querida...
A mulher se voltou para ele.
—Nada —disse—, dorme.
—Como você está?
—Igual.
—Ah.
Neville a olhou um momento.
—Bom —disse ao fim, e virando-se, tratou de dormir.
O despertador soou às seis e meia. Quase sempre Virginia desligava-o, e em algumas
ocasiões Neville, estirando o braço por cima do corpo imóvel de sua mulher. Virginia
seguia de barriga para cima, olhando ao teto.
—O que houve? —perguntou Neville preocupado. Virginia o olhou e sacudiu a cabeça.
—Não sei —disse—, não posso dormir.
—Porquê?
A mulher se encolheu de ombros.
—Sente-se fraca ainda? —perguntou Neville. Sua mulher tentou sentar-se e não pôde.
—Trate de não se mover. —Neville lhe aproximou uma mão à testa—. Parece que não
tem febre —lhe disse.
—Não me encontro mal —disse Virginia—. Só... cansada.
—Está muito pálida.
—Já sei. Pareço um fantasma.
—Não se levante.
Virginia havia se levantado.
—Não vou morrer disto —disse—. Vamos, se vista.
—Não se levante, se não se sente bem, querida. Virginia deu-lhe uma palmada no
ombro e sorriu.
—Passará logo. Vá se aprontar.
Neville estava barbeando-se quando ouviu os passos da Virginia arrastando os chinelos.
Abriu a porta e a viu cruzar a sala muito devagar, vestida com um roupão
e cambaleando-se ligeiramente. Neville tornou a fechar a porta sacudindo a cabeça.
Não deveria levantar-se.
O pó também cobria a bacia. Tinha pó por toda parte. Neville teve que improvisar
uma capa sobre a cama da Kathy. A lona estava pendurada da parede, junto ao
travesseiro da cama, e duas madeiras a sustentavam no chão.
A areia havia impregnado o sabão e Neville não pode barbear-se bem. Mas já era tarde,
e não podia perder mais tempo. lavou a cara, pegou uma toalha limpa do armário do
corredor e se secou.
Antes de voltar para sua casa, olhou no quarto de Kathy.
Dormia ainda. A cabecinha loira descansava relaxada sobre o travesseiro. O
sonho havia colorido suas bochechas. Neville passou um dedo pela lona e ficou cinza de
pó. Sacudiu a cabeça aborrecido e saiu do quarto.
—Se estas condenadas tormentas de areia terminassem de uma vez —disse ao entrar
na cozinha, uns minutos depois—. Me parece que...
Calou-se. Habitualmente Virginia estava de pé junto à cozinha, fritando uns ovos, ou
preparando umas torradas, ou fazendo café. Hoje estava sentada na mesa sem fazer
nada. Sobre o fogão fervia o café, somente.
—Querida, se você não se encontrar bem, volte para a cama —lhe disse
Neville—. Eu me ocuparei do café da manhã.
—Não, deixe-me —disse Virginia—. Só estava descansando. Sinto muito. Em
seguida lhe prepararei uns ovos.
—Descanse —replicou Neville—. Não sou um inútil. Aproximou-se da geladeira e a
abriu.
—Eu gostaria de saber o que eu tenho —disse Virginia—. A metade dos vizinhos tem o
mesmo e você diz que na fábrica, a maior parte do pessoal está de licença.
—Possivelmente se trate de algum vírus.
—Não sei.
—Entre as tormentas, os mosquitos e as enfermidades, a vida vai tornando-se difícil —
disse Neville servindo-se suco de laranja de uma garrafa—. É algo diabólico. No suco de
laranja havia uma bolinha preta.
—Não entendo como entram no refrigerador —comentou Neville.
—Não me sirva , Bob —disse Virginia.
—Não quer um pouco?
—Não.
—Te faria bem.
—Não, obrigado, querido —disse a mulher, tratando de sorrir. Neville tornou a garrafa a
seu lugar e sentou-se frente a ela com o copo na mão.
—Não lhe dói nada? —perguntou—. A cabeça? Ou algo?
Virginia negou com um gesto.
—Se eu soubesse o que tenho... —disse.
—Chame hoje mesmo o doutor Busch.
—Farei-o —disse Virginia erguendo-se.
Neville lhe acariciou a mão.
—Não, não, querida, não se mova.
—Mas não há motivo para estar assim.
Parecia zangada. Sempre foi assim Desde que Neville a conheceu. A
enfermidade a irritava, de algum modo lhe parecia como um insulto.
—Vamos —Disse Neville levantando—. Ajudarei-lhe a voltar para a cama.
—Não, ficarei aqui com você. Me deitarei quando Kathy sair para a escola.
—Bom. Não precisa de nada?
—Não.
—Um pouco de café, talvez? Virginia negou com a cabeça.
—Vai adoecer seriamente se não comer.
—Não tenho apetite.
Neville terminou sua laranjada e se voltou para fritar uns ovos. Quebrou as cascas na
borda da frigideira, e jogou gemas e claras na manteiga derretida. Tirou logo o pão de uma
gaveta e voltou para a mesa.
—Me dê. Colocarei-o na torradeira —disse Virginia—. Termine você... Oh Deus.
—O que houve?
A mulher sacudiu fracamente uma mão diante do seu rosto.
—Um mosquito —disse com uma careta.
Neville se aproximou e esmagou ao mosquito entre as palmas das mãos.
—Mosquitos —disse Virginia—. Moscas. Moscas de areia.
—Entramos na era dos insetos —disse Neville.
—Eu não gosto delas —continuou Virginia. Trazem pestes. Teremos que pôr também
uma mosquiteira na cama da Kathy.
—Sim, sim —disse Neville voltando para a cozinha e movendo a frigideira para que os
ovos não grudassem—. Já tinha pensado nisso.
—Não acredito que esse inseticida sirva —disse Virginia.
—Não?
—Não.
—Deus, dizem que é um dos melhores.
Neville colocou os ovos em um prato.
—Realmente não quer café? —perguntou.
—Não, obrigada.
Neville se sentou e sua mulher aproximou-lhe a torrada com manteiga.
—Espero que não estejamos criando uma raça de super-insetos —disse
Neville. —Lembra-se aqueles gafanhotos gigantes que encontraram no Colorado?
—Sim.
—Possivelmente os insetos são... Como os chamam? Mutantes.
—O que quer dizer?
—Oh, significa que... mudam. Evoluem saltando fases intermediárias, e chegam a
desenvolver-se como nunca o fariam se não fosse por...
Silêncio.
—Os bombardeios? —perguntou a mulher.
—Pode ser.
—Bom, pelo menos provocam as tormentas. E possivelmente outras coisas.
Virginia suspirou cansada e sacudiu a cabeça.
—E dizem que ganhamos a guerra —disse.
—Quem ganhou?
—Os mosquitos ganharam.
Neville sorriu fracamente.
—Parece que tem razão —disse.
Calaram-se um momento. Só se ouvia o garfo de Neville no prato e o da xícara no pires.
—Levantou-se ontem à noite para ver a Kathy? —perguntou por fim a mulher.
—Acabo de vê-la agora. Estava dormindo.
—Bom.
Virginia olhou Neville atentamente.
—Estive pensando, Bob —disse—. Possivelmente deveríamos enviá-la ao Leste, para a
casa da sua mãe, até que melhore. Pode ser contagioso.
—Possivelmente sim —disse Neville, duvidando—. Mas se for contagioso, na casa da
minha mãe ela não estará melhor.
—Tem certeza? —perguntou Virginia. Parecia preocupada.
Neville se encolheu de ombros.
—Não sei, querida. Penso que aqui ela está a salvo. Se as coisas piorarem no bairro, ela
deixará de ir à escola.
Virginia começou a dizer algo, mas em seguida se deteve.
—Bom —disse. Neville olhou seu relógio.
—É melhor que você vá.
Virginia assentiu com a cabeça e Neville terminou rapidamente seu desjejum.
Estava a ponto de tomar o café quando Virginia lhe perguntou se tinham o jornal do dia
anterior.
—Está na sala —disse Neville.
—Algo novo?
—Não, o de sempre. Invadiu todo o país, um pouco em cada lugar. Não
descobriam ainda de que vírus se trata.
Virginia mordeu seu lábio inferior.
—Ninguém sabe nada?
—Duvido. Se alguém soubesse suponho que já diriam.
—Mas devem ter alguma idéia.
—Todos têm idéias, mas...
—O que dizem?
Neville se encolheu de ombros.
—Fazem todo tipo de comentários, começando pela guerra bacteriológica.
—Pode ser?
—Guerra bacteriológica?
—Sim.
—A guerra terminou —disse Neville.
—Bob —disse Virginia de repente—. Você acha que deve ir
trabalhar? Neville sorriu.
—Que outra coisa posso fazer? —perguntou—. Temos que comer.
—Eu já sei, mas...
Neville, estirando-se sobre a mesa, pegou a mão de sua mulher. Estava gelada.
—Tudo se resolverá, querida —disse.
—Mando a Kathy à escola?
—Sim, não se preocupe. Enquanto as escolas estiverem abertas, não há motivo para
deixá-la em casa. Não está doente.
—Mas os outros meninos...
—Acredito que é o melhor para ela —disse Neville.
Virginia deixou escapar um som entrecortado. Em seguida disse:
—Bom, se você acha...
—Não quer nada antes que eu vá? —perguntou Neville.
Virginia sacudiu a cabeça.
—Não saia hoje —disse-lhe Neville—, e fique deitada.
—Assim o farei —disse ela—. Quando a Kathy se for.
Neville lhe apertou a mão. Lá fora soou uma buzina. Neville terminou o café em um gole
e foi ao banheiro escovar os dentes. Em seguida pegou a jaqueta do armário e a colocou.
—Até mais tarde, querida —disse a Virginia beijando-a—. Fique tranqüila.
—Até mais tarde —disse ela—. Tome cuidado.
Neville cruzou o jardim. Sentiu entre os dentes o pó do ar. Podia cheirá-lo e
dava-lhe coceira no nariz.
—Bom dia —disse quando entrou no carro.
—Bom dia —respondeu Ben Cortman.

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