sexta-feira, 9 de maio de 2008

Eu sou a Lenda - Capitulo 5

Capítulo 5
Neville girou a chave de ignição com dedos trêmulos. As mãos apertavam rigidamente o
volante, e dando meia volta, apontou para o jardim.
Que estúpido havia sido! Pelo menos teria demorado uma hora para chegar ao
cemitério. Tinha permanecido na cripta durante horas. Logo, a viagem em busca daquela
mulher, e a viagem ao supermercado, e depois de novo em busca da mulher.
Quanto tempo havia passado?
Idiota! Sentiu gelar as veias ao imaginá-los lhe esperando diante da casa. Oh, Meu
Deus, e a porta da garagem tinha ficado aberta! A gasolina, os equipamentos, o gerador!
Com um gemido entrecortado pisou fundo no acelerador e a caminhonete pôs-se a
correr. O ponteiro do velocímetro oscilou, e saltou dos noventa até os cem, e em seguida
até os cento e vinte. O que ocorreria se já estavam esperando-o? Como poderia
entrar em casa?
Tratou de acalmar-se. Não podia se desesperar agora. Tinha que entrar. Não há
por que preocupar-se, entrará, disse a si mesmo. Mas não lhe ocorria o método para isso.
Passou a mão nervosamente pelo cabelo. Fantástico, fantástico, pensou. Passar
por tudo isto para seguir vivo, e no dia pior planejado, não volta a tempo. Merecia
qualquer castigo por ter esquecido dar corda no relógio. E eles se
encarregariam gostosamente de castigá-lo.
As silenciosas ruas desfilavam rapidamente. Neville olhava de vez em quando as
portas das casas. Começava a escurecer aparentemente, mas sem dúvida era sua
imaginação. Não podia ser tão tarde.
Acabava de passar a esquina da Western e Compton quando um homem saiu correndo
de um edifício e gritou. A Neville lhe gelou o sangue. O grito do homem ficou ressonando
no ar.
Não podia ir mais depressa. Em qualquer momento arrebentariam os pneus, ou
se romperia o eixo da direção, e o carro iria estatelar-se contra qualquer casa.
Tremiam-lhe os lábios. Fechou a boca com força. As mãos lhe intumesciam no
volante.
Teve que reduzir a velocidade ao chegar à esquina da rua Silvestre. Pelo retrovisor, viu
um homem que saía de uma casa e corria atrás dele.
Os pneus chiaram ao dobrar a esquina. Neville afogou um grito. Estavam todos lhe
esperando em frente à casa.
Sentiu um nó de terror na garganta. Não queria morrer. Podia havê-lo imaginado. Mas
não queria morrer. Pelo menos, não deste modo.
Tinham ouvido o rugir do motor e as caras brancas foram se voltando para ele.
Alguns saíram correndo da garagem. Neville apertou com fúria as mandíbulas. Que
forma tão estúpida de morrer!
Vinham ao seu encontro, cruzando a rua. Neville compreendeu de repente, que
não podia parar. Apertou o acelerador, e um instante depois a caminhonete ia-os
atropelando, derrubando-os como se fossem pinos de boliche. Sentiu tremer o chassi com
o impacto. Os rostos brancos passaram diante da janela com gritos dilaceradores.
Deixou-os atrás, e viu pelo espelho retrovisor como corriam, perseguindo-o. Teve
uma idéia. De repente, diminuiu a velocidade até quarenta e em seguida trinta quilômetros
por hora. Virou a cabeça. As caras de um branco cinzento estavam cada vez mais perto,
com os olhos cravados no carro e nele.
De repente, girou-se sobressaltado. Alguém havia grunhido muito perto. Olhou pela
janela e viu o rosto enlouquecido de Ben Cortman junto ao carro.
Apertou rapidamente o pedal do acelerador, mas o outro pé escorregou sobre a
embreagem. A caminhonete morreu. Um suor frio lhe banhou a testa. Inclinou-se
sobre a chave de ignição. A mão de Ben Cortman lhe cravou no ombro.
Neville proferiu uma maldição e afastou aquela mão branca.
—Neville! Neville!
Ben Cortman o alcançou de novo, com suas frias garras de gelo. Neville conseguiu
livrar-se outra vez e seguiu girando a chave. Atrás se ouviam os gritos excitados dos que
se aproximavam.
Por fim, o motor arrancou no instante em que as unhas de Ben Cortman se cravavam na
bochecha de Neville.
—Neville!
A dor lhe fez fechar a mão, e o punho rígido se dirigiu para o rosto de Cortman.
Cortman caiu de costas contra o chão e o carro se afastou rapidamente. Outro tinha
subido na parte traseira da caminhonete. Durante uns instantes Neville viu o rosto
cinzento, apertado contra a janela. Dirigiu-se para a esquina e virou bruscamente; o
homem foi jogado para fora e se colocou a correr tropeçando pela grama, com os braços
levantados, indo chocar-se violentamente na frente de uma casa.
Neville se sentia intumescido e frio. O coração lhe saltava no peito. O sangue
lhe descia pela bochecha. Passou sua mão trêmula pelo rosto.
Virou na esquina, à direita. Foi até a rua Haas e dobrou de novo à direita. O que
aconteceria se cruzavam os terrenos baldios e bloqueavam a rua?
Viu-os lhe seguir, como uma manada de lobos, e reduziu um pouco a velocidade, para
voltar a acelerar imediatamente. Contava com que todos lhe seguissem. Suspeitariam
o que tramava?
A caminhonete alcançou rapidamente a outra esquina. Neville virou a oitenta por hora,
chegou à rua Silvestre e dobrou outra vez à direita.
Aproximou-se da calçada e abriu a porta. Enquanto descia do carro, alguns gritos
aproximavam-se pela esquina.
Tentaria fechar a garagem. Do contrário, podiam destruir o gerador; não tinham tido
tempo ainda. Correu pela calçada.
—Neville!
Deteve-se bruscamente. Cortman saiu dentre as sombras da garagem e se chocou
contra ele, quase derrubando-o. Sentiu suas mãos frias e fortes lhe apertando o
pescoço e um hálito fétido que lhe banhava o rosto. Neville retrocedeu tropeçando para a
calçada. A boca branca e fungosa lhe buscou a garganta.
Neville levantou bruscamente o punho direito e o deixou cair com toda sua força sobre o
peito de Cortman. Ouviu-se um som surdo. Um homem apareceu pela esquina,
correndo e gritando.
Neville agarrou violentamente Cortman pelos sujos e largos cabelos e o arrastou pela
calçada até o carro. A cabeça de Cortman golpeou o estribo.
Não tinha tempo para ocupar-se da garagem. Neville subiu rapidamente os degraus do
alpendre e parou de repente. Meu Deus, as chaves!
Sentiu que lhe faltava o fôlego. Inspirou e pôs-se a correr para o carro. Cortman
se aproximou grunhindo afônicamente. Neville lhe golpeou a cara com o joelho, e Cortman
caiu de novo contra a calçada. As chaves estavam no porta-luvas.
Quando Neville saiu da caminhonete, um deles saltou para ele.
Retrocedeu apoiando-se no assento, e o homem, tropeçando com suas pernas, rodou
pesadamente pela calçada. Neville deu um salto, cruzou a grama, e alcançou o alpendre.
Estacou-se para procurar a chave e outro homem subiu atrás dele. O impacto jogou
Neville contra a casa. Outra vez aquele fôlego fétido e a boca entreaberta sobre seu
pescoço. Afundou o joelho no ventre do homem e em seguida, apoiando-se contra a
parede, empurrou-o bruscamente com o pé. O homem, dobrado sobre si mesmo, caiu
em cima do outro que se aproximava pela grama.
Neville abriu a porta, entrou, e se voltou para fechá-la, quando um braço alcançou-o
passando pela abertura. Neville apertou com todas suas forças até ouvir quebrar os
ossos. Em seguida abriu, jogou o braço quebrado e fechou com uma portada. Colocou a
tranca com mãos trêmulas.
Apoiado na parede, foi escorregando lentamente para o chão e se inclinou de
costas. Ficou ali na escuridão, com o peito agitado e os braços e as pernas estendidos e
insensíveis. Lá fora, ouviam-se gritos furiosos e golpes violentos. Pedras e tijolos
choveram sobre a casa.
Ao cabo de um momento Neville se dirigiu ao bar. Parte do uísque se derramou
sobre o tapete. Bebeu apoiando o corpo no móvel, com um nó lhe apertando a garganta e
os lábios trêmulos.
Sentiu descer o calor do líquido até o estômago e se sentiu reconfortado.
Respirou devagar.
Lá fora se ouviu um estrondo.
Neville correu a espionar pelo buraco. Pedras e tijolos quebravam o pára-brisa
da caminhonete, derrubada no meio da rua, e alguns homens providos de paus
golpeavam o motor com todas suas forças. Neville sentiu fúria nas veias, uma corrente
como um ácido lhe percorreu todo o corpo.
De repente se lembrou do gerador e tratou de acender o abajur. Não havia luz. Correu
até a cozinha. O refrigerador não funcionava. Foi de uma casa a outra. Todos os
mantimentos se danificariam. A casa era uma casa morta.
—Basta! —gritou em um ímpeto de cólera.
Revirou as roupas da cômoda com impaciência até que as mãos se encontraram com as
armas.
Cruzou a sala e tirou a tranca da porta deixando-a cair ao chão. Os de fora o ouviram e
começaram a uivar. Já saio, bastardos!, gritou Neville em sua mente.
Abriu a porta repentinamente e disparou contra o primeiro na cara. O homem rodopiou e
caiu do alpendre à grama, aonde duas mulheres com os vestidos rasgados receberam-no
em seus braços. Neville viu como os corpos se retorciam com as balas e ouviu gritos
dilaceradores.
Disparou até esgotar as balas. Logo, seguiu dali ao alpendre, golpeando-os
cegamente com as culatras das armas, e observando aterrorizado como voltavam para ele
quão mesmos havia ferido. E quando lhe arrebataram as pistolas, recorreu aos punhos e
aos cotovelos, e afastou-os á cabeçadas e chutes.
Só quando sentiu aquela intensa dor no ombro se deu conta do que estava fazendo.
Afastando de um lado a duas mulheres, chegou até a porta. O braço de um
homem lhe rodeou o pescoço. Neville se dobrou para frente jogando o homem por cima de
sua cabeça.
Antes que o alcançassem outra vez, fechou a porta em seguida e trancou.
Apoiando-se contra a parede de pé na fria escuridão da casa, Neville voltou a
escutar os gritos dos vampiros. Quase sem forças golpeou o gesso da parede; as
lágrimas lhe corriam pelas barbudas bochechas; a mão machucada lhe doía
intensamente. Tudo estava perdido, tudo.
—Virginia —soluçou como um menino perdido e assustado—. Virginia. Virginia.

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