Segurança privada ilegal, o grande negócio de delegados e coronéis; vans
e ônibus clandestinos; bingos; grampos, legais e ilegais; as maquininhas dos
ovos de ouro, que se multiplicam feito coelhos; o venerável bicho, gasto e
antiquado, mas ainda na ativa; e as mil e uma transações com traficantes,
em sua exuberante variedade, dos chamados arregos nas favelas — os
pagamentos diários ou por turnos de policiais — aos acordos mais
ambiciosos e arriscados, ou mais estratégicos, digamos assim. Às vezes,
essas teias se embaralham e engatam na política, o que torna tudo mais
saboroso — e muito mais explosivo. A história que vou contar, não inventei.
Ouvi diretamente de alguns dos principais protagonistas. Na polícia é assim
mesmo, tudo se sabe, nada se esconde. Pelo menos, não por muito tempo. É
um tipo de trabalho duro e gratificante, que te enche de orgulho e vergonha,
te sufoca com doses maciças de adrenalina e te leva ao céu numa espécie de
viagem psicodélica, te mata de medo e te salva — pelo menos isso —, te salva
da cadeira da sala, diante da TV, numa tarde de domingo, essa cova rasa
que se cava a prazo.
Tá certo, os policiais, sobretudo os do BOPE, são cadáveres adiados.
Mas quem não é? É melhor tirar logo as máscaras, aposentar a retórica e os
bons sentimentos. Nas trincheiras da nossa guerra santa de todos os dias,
os melindres vão caindo de podre, rapidamente. Você fica impregnado do
cheiro ácido da urina morna do colega. Tudo circula. Saliva, porra, sangue,
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merda, pus e histórias. Nas operações de risco, as melhores e piores
emoções saem às golfadas, como vomito. O tempo vira um elástico, que se
comprime e estica. As palavras jorram, acontecem. Depois a gente passa o
braço pela boca e seca a saliva que escorre. Nada demais, portanto, que tudo
se saiba. Tudo se confesse. E tudo repouse no poço escuro do esquecimento
com um É assim que as coisas são na polícia, para o bem e para o mal.
Santiago se gabava de ter encenado, involuntariamente, um
espetáculo digno da Segunda Guerra Mundial, da Coréia, do Vietnã. Era
uma das histórias mais sórdidas.
Ele já era um policial cascudo, como a gente diz. Quer dizer, maduro,
vivido, velho na carreira. O contrário dos modernos, que são os que
entraram para a corporação depois. Como um bom cascudo, dava conselhos.
Foi o que fez ou pensou ter feito com um major que foi transferido para o
batalhão convencional em que ele, Santiago, estava lotado. Aliás, o major era
mais novo do que ele. A hierarquia tem dessas coisas. Ele era capitão. Nessa
época, o Santiago já tinha sido promovido a capitão. O outro era superior a
ele, era major; mas ele era mais velho. Isso pode acontecer por várias razões.
Por exemplo: a idade com que se ingressa na academia e o tempo que se leva
para ser promovido, porque as promoções não são automáticas. Entra muita
política, nesses processos, e outras "cositas más". O tal major, que se
chamava Coelho, veio do interior, igualzinho ao que tinha acontecido com o
próprio Santiago. E aterrissou no batalhão da capital com a goela
arreganhada, faminto, doido para arrumar a vida, rapidinho. Santiago
mudou ou foi mudado pela capital e pela polícia; Coelho, não. A julgar pelo
que se sabe de sua trajetória, tinha nascido daquele jeito. Logo percebeu que
Santiago era o cara. Num sábado, substituindo o coronel no comando da
unidade, Coelho convocou o Santiago.
— Capitão, pode entrar. Entra. Senta aí. Quer um cigarro? Fica à
vontade. Se quiser fumar, eu não me importo.
— Não, obrigado. Não fumo. Quer beber alguma coisa? Não, agora
não.
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— Eu sou sou um cara muito humano, sabe, capitão. Um homem
comum. A hierarquia, é claro que respeito a hierarquia, mas, sabe como é?
Cada coisa a seu tempo e em seu lugar. Também não sou de, sei lá, de achar
que só porque eu sou major e você é capitão...
— Não é assim. A vida não é assim. E ela dá voltas. Não sou um cara,
quer dizer, não me considero um cara tão vivido assim, mas já deu pra
aprender algumas coisas. Tá me entendendo, capitão?
— Claro.
— Então, tá. É isso que eu queria te dizer. Já deu pra aprender
algumas coisas. Que hoje a gente está em cima, amanhã está embaixo. Que
não adianta dar murro em ponta de faca. Que cão que ladra não morde. Não
é? Não é verdade? Pode ser sincero.
— É.
— Então. Por isso é que eu digo: melhor cuidar da própria vida e não
ficar por aí bancando o açoite da humanidade, querendo que tudo seja
perfeito, impondo a perfeição, cobrando os pecados dos outros, querendo
salvar o planeta. É ou não é? Pode dizer. Fala. Seja franco.
— Perfeitamente.
— Então. Por isso é que eu digo: cada um sabe de si. Não vou bancar
o que eu não sou. É ou não é? Hein? Pode falar, capitão.
— É.
— Então. Acho que estamos nos entendendo às mil maravilhas,
capitão. Não acha? Hein?
— Perfeitamente.
— Também acho. Perfeitamente. Melhor trabalhar assim, não é?
Melhor assim, se entendendo, compartilhando as coisas, cooperando, do que
perseguindo, atrapalhando, pressionando, enchendo o saco, humilhando. É
ou não é, hein?
— Isso.
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— Então. Foi pensando assim que resolvi te chamar pra essa
conversa franca, uma conversa amiga, de igual pra igual. Sabe por que te
chamei pra uma conversa de igual pra igual? Hein, capitão? Sabe? Pode
falar.
— Não, major.
— Chamei você pra um papo franco, de igual pra igual, porque é isso
que gostaria que tivesse acontecido comigo, quando eu era capitão, e porque
é isso que queria que acontecesse comigo, hoje, entende? Eu gostaria que o
coronel me chamasse pra uma conversa assim. Achei que você ia gostar de
conversar assim comigo. Acertei? Hein? Fala, capitão, não precisa ficar
inibido, não. Acertei ou não acertei?
— Perfeitamente.
— Então. Foi o que eu deduzi. Por isso é que eu te digo, capitão...
Tem certeza de que não quer fumar? Se importa que eu fume? Um dia depois
do outro. De que adianta prender esses pobres-diabos que a gente prende,
hein? Me diz? São uns pobres-diabos. Se somar tudo o que eles roubaram,
não dá um milésimo do que os grandes afanam, na surdina, com pompa e
circunstância. Esses políticos filhos da puta, hein? É ou não é, capitão?
— Por isso é que eu digo: não se deve pregar prego sem estopa. De
que adianta a gente se matar, fazer o dever de casa, tudo nos conformes,
entupir as cadeias de gente, entupir as penitenciárias, matar traficante como
quem mata mosquito, encher os cemitérios, de que adianta?. Heim, capitão,
me diz? Pra quê? Pra quê? Esses meninos que vendem droga, de pé no chão,
são uns miseráveis, uns pobres-diabos magricelas, que não têm onde cair
mortos. Nem cabelo na cara eles tem. São uns moleques pés-de-chinelo, uns
bagrinhos, hein? Pra quê? Me diga, capitão, pode dizer. Pra quê? Hein?
— É.
— Não é verdade? É ou não é? Eles estão lá no morro deles, vendendo
droga pra cambada aqui do asfalto. Mas a gente não desce a mão nos
filhinhos de papai, ou mete? Hein, capitão? Mete? Não, é claro que não. A
gente não é besta. A sociedade empurra esses bagrinhos da favela pra vala
comum e nós somos os carrascos, nós somos os coveiros, capitão. Estou
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errado, capitão? Pode falar. Eles são puros, esses filhos da puta da elite e
esses políticos. Eles é que cheiram, fumam, gozam, roubam, e a gente mata
e morre pra manter as ruas limpas. Uma putaria, capitão. Uma tremenda
putaria. A polícia é que faz o trabalho sujo, capitão. Não é verdade? Por
acaso estou mentindo? Pode falar.
— É.
— Então, capitão, por isso é que eu digo: mais vale um pássaro na
mão do que dois voando. O que é que você me diz? Temos ou não que baixar
a bola e tratar do que é nosso? Hein? Pode dizer, seja franco. Eu estou sendo
franco. É como estou dizendo, capitão, mais vale um pássaro na mão. Longe
de mim julgar os outros. Cada um cuida de si. É ou não é? Se cada um
tratasse de si, tudo não seria melhor? Hein? Sinceramente, eu acho que
seria. Por isso, pode ficar tranqüilo, capitão. Pode confiar em mim. Você tem
aqui um amigo. Não quero chegar impondo, determinando. Sou militar mas
sou um democrata, entende? Eu acho que a primeira coisa que um oficial
deve fazer quando chega a uma nova unidade e quando chega com
responsabilidade de comando, a primeira coisa é, ouvir os subordinados, os
companheiros, ouvir com abertura, entende? O que você acha? Acha que
estou certo ou não? Pode ser franco.
— Certo.
— Então, já estamos começando a nos entender, não é verdade?
Estamos ou não estamos, capitão? Hein?
— Certo.
— Ótimo. Nesse caso, acho que devo uma demonstração de que sou
um democrata. Não acha que seria bom, hein? Hein, capitão? Eu acho que
devo à tropa uma prova; uma demonstração de que desejo uma perfeita
integração com meus comandados. A mesma relação positiva que pretendo
estabelecer com meu superior hierárquico, o coronel Penido, quero construir
com meus subordinados. A tropa tem de entender isso. Concorda?
— Perfeitamente.
— Pronto. Então, chegamos a um consenso. Vamos fazer assim. Você
continua fazendo como vem fazendo as coisas que considera necessárias. Eu
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não pretendo interferir, certo? Concorda? Não vou interferir. Ao contrário.
Não vim para atrapalhar, nem para impor coisa nenhuma. Eu sou uma
pessoa tolerante. Não gosto de criar problema, entende? Não quero criar
nenhum problema pra ninguém, certo?
— Certo.
— Então, ótimo. Está tudo acertado. Fica tudo acertado. Não quero
receber nada que não seja justo. Veja aí o que vocês costumavam passar ao
meu antecessor e eu me adapto. Eu me adapto. Posso discutir um ou outro
detalhe, mas nada que crie qualquer dificuldade para entrarmos num
acordo, certo? Quanto é que vocês fazem aqui, por mês? É por mês ou por
semana? Imagino que a maior parte venha do tráfico, porque nessa zona tem
muita favela. Coisa boa, né? Mas deve ter muita van, também, bicho, bingo,
maquininha, sauna... Tem muita boate por aqui?
— Major, as coisas, aqui, não funcionam assim não. São um
pouquinho mais complicadas. O senhor está chegando do interior, onde tudo
é mais direto, mais simples, mais organizado: o prefeito indica o comandante
do batalhão, o coronel leva sua equipe, o bicheiro local se apresenta, ele
ajuda a financiar a campanha do prefeito vitorioso — porque ajuda todos os
candidatos, justamente pra não correr riscos —, em geral o pessoal que
controla as maquininhas é o mesmo e quando o tráfico se organiza, tem de
tomar bênção ao poder estabelecido e negociar o seu lugar. Tudo se encaixa.
Acertando com uns, tudo fica acertado. Aqui, não. É bem mais complicado.
Pra começo de conversa, o tráfico não dá pra todo mundo. O comandante,
por exemplo, não gosta de receber do tráfico. Só recebe da contravenção.
Aceita uns biscates, ultimamente as vans têm rendido muito, mas com
tráfico não gosta de negociar não. É um cara duro, sabe? Se converteu não
faz muito tempo. Está naquela fase puritana, sabe?
— Sei. Eu compreendo.
— Então, o melhor que o senhor tem a fazer é se apresentar. Porque
não tem dúvida de que, nessa área do batalhão, o maior potencial está no
tráfico mesmo. Mas o senhor tem de se apresentar.
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— Quer dizer, eu vou lá, chamo os moleques, reúno os moleques...
Não vai ficar meio...
— Não, não é isso. O senhor tem que mostrar o quanto vale. Quer
dizer, o senhor tem de justificar o preço que eles vão pagar. Eles vão pagar
de acordo com o risco que o senhor representar, tanto pra vida quanto pros
negócios. Pra ser mais direto, se o senhor me permite: se eles não avaliarem
que o senhor é perigoso, não vão entregar o ouro. Esse pessoal do
movimento dessa região é osso duro de roer. Por exemplo, o cabo Mazinho e
o sargento Mosca fazem a festa, ficam uma baba. O pessoal já sabe que, no
turno deles, se não tiver arrego, o pau vai comer, no alto e embaixo, na boca
e na pista. Já o sargento Naves, o Pereba, o Ruizinho, essa turma não dá no
couro. Eles gostam de ficar de conversa mole com as meninas do morro,
tomam umas geladas nos botecos, comem churrasquinho de gato. Essa
turma leva um troco e olhe lá. Por isso é que eu lhe digo, o negócio aqui é
muito individualizado. Cada um tem de mostrar seu valor e vender sua
mercadoria. Não basta chegar e mandar a conta Com todo respeito, major,
não é assim que funciona.
O major calou-se. Fechou a cara. Parecia emburrado. Despediu-se do
Santiago sem aquela rasgação de seda anterior. Tanto que o Santiago chegou
a pensar que talvez tivesse exagerado na dose. Mas o que estava feito, estava
feito. Paciência. Não havia como mudar. Ele não queria dar a impressão de
que não toparia algum acordo com o major, mas, afinal de contas, do ponto
de vista dele, que já se achava um profissional do ramo, cooperar não podia
significar carregar o outro nas costas.
No domingo à noite, Santiago foi convocado às pressas. O coronel
Penido, comandante do batalhão, fora informado pela P2 de que o major
Coelho estava entornando o caldo, na maior favela da Ilha do Governador.
Queria o Santiago no local, imediatamente. A ordem vinha naquele tom
estridente e histérico que era habitual, quando o pescoço do Penido estava a
prêmio. Tudo porque corria a notícia de que a imprensa já havia sido avisada
e estava a caminho da Ilha. Penido bradava ao telefone as manchetes
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hipotéticas da segunda-feira. Santiago ponderou que as redações já tinham
fechado àquela hora.
— Na terça, Santiago, então imagina as manchetes na terça-feira. E
se o Fantástico resolve dar um furo de reportagem, ao vivo?
— O Fantástico não faz matéria ao vivo, coronel. Fica tranqüilo. Vou
chegar antes da imprensa.
Profissional da grana, dos trampos, da mídia, da política interna à
corporação, da psicologia militar, o Santiago estava se achando o máximo.
Um profissional.
Chegou mesmo antes da mídia. E foi a salvação. Salvação para o
Penido, o Coelho e até para ele mesmo, porque uma eventual mudança
drástica de peças no tabuleiro do batalhão desorganizaria todos os seus
planos.
A população da favela se concentrava num platô largo, longo, que
formava um pátio vasto, quase uma aldeia indígena, com casebres em
círculo, ou quase, num desenho elíptico. Havia centenas de habitações nas
ruelas que sobem e descem, mas aquele era o espaço central, para onde
todos os caminhos vicinais convergiam.
As portas e janelas estavam escancaradas, todas elas, e as luzes
internas acesas. As famílias, de pijamas e trajes íntimos, tinham sido
jogadas para fora das casas. Homens, mulheres, velhos e crianças estavam
virados para as paredes frontais das casas, com as mãos levantadas.
Policiais vasculhavam gavetas, armários, embrulhos, colchões, fogões e
geladeiras, com lanternas, tiros para o alto, chutes e golpes de fuzil nos
objetos. As roupas eram atiradas ao chão e pisadas. As fotos, cadernos,
livros e revistas iam para um saco preto, antes de serem queimados. Os
eletrodomésticos estavam sendo destruídos e os adolescentes, todos eles,
conduzidos debaixo de pau para as patamos. Coelho comandava o
espetáculo com um megafone, proclamando-se o novo responsável pela lei e
pela ordem naquele pardieiro. Mandava seus comandados punirem os gritos
dos moradores com porrada nas costas e nas pernas.
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Quando, finalmente, conseguiu se esgueirar para perto do Coelho,
Santiago passou-lhe a mensagem, quase entre dentes: "O comandante me
mandou lhe dizer que o senhor errou a mão. O senhor exagerou. Essa
operação tá parecida demais com aquelas ações dos nazistas contra os
judeus. Pode dar a maior merda, major. Ê mais eficiente fazer um a um,
casa a casa. Mais discretamente. Sem tanto alarido. Não dá manchete, não
tem risco e o retorno é imediato."
Política Fiscal
Mas que barbaridade.
Ornelas observava o chefe, que apertava o celular com a mão direita,
como se fosse estrangulá-lo, e mexia na cabeleira farta com a mão esquerda.
— Que barbaridade.
Andava de um lado para o outro, na salinha que servia de quartelgeneral
para o tráfico da Mangueira, de onde se via o Maracanã e a silhueta
das montanhas, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
— Bá, você deve estar de sacanagem comigo.
Ornelas balançava a cabeça preocupado e olhava para o Nivaldo. Boa
coisa não era. Quando Silas falava assim, boa coisa não era.
— Que barbaridade. Nivaldo não resistiu:
— Porra, Silas, fala português, caralho. Fala feito homem.
— Não enche o saco dele, Nivaldo. Não vê que o cara tá puto?
Ornelas era o braço direito do chefe e achava que tinha o dever de
protegê-lo.
Nivaldo olhou pra ele com uma cara, cuja mensagem era: "Vai ser
puxa-saco assim na puta que o pariu." Mas foi só a cara. Preferiu não
provocar. O ambiente já estava tenso demais. Melhor não provocar.
Desde que namorou uma gaúcha, Silas passou a falar assim. Não
tinha jeito.
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— Mas isso é uma barbaridade, chê. Isso não se faz. É uma
sacanagem. Isso vai contra tudo o que ficou acertado entre nós, porra. Tudo.
Ornelas permanecia sentado com as pernas abertas em volta do
espaldar da cadeira e os braços cruzados sobre ele. Encarava o chefe que lhe
fazia caretas enquanto caminhava, ouvindo o interlocutor.
— Com quem o Silas tá falando? — Nivaldo perguntou baixinho a
Ornelas.
— Aquele capitão filho da puta. — O que subiu pra acertar o arrego?
— O outro, o mais forte. Aquele metido a durão. Silas voltou a falar:
— Bá, isso é um absurdo, não posso aceitar. Como é que vou aceitar
um negócio desses? Se aceitar, tô desmoralizado. E como é que vou confiar
no arrego? Se é pra ir pro pau, vamos pro pau. O que não dá é pra ficar de
sacanagem. Vocês vieram ontem, aqui, não vieram? O seu parceiro me ligou,
do jeito que a gente combinou, e eu aprontei direitinho o paiol pra vocês. Foi
ou não foi? Peraí, peraí. Me diga, foi ou não foi? Não fiz o combinado? Vocês
subiram, fizeram aquele carnaval todo, levaram os vinte fuzis, montaram
aquele teatro bacana pra televisão lá no asfalto. Foi ou não foi? Eu vi
tudinho no RJ-TV. Foi o maior sucesso. Espera aí. Espera. Ouve. Eu, te vi lá
no maior caô, dando entrevista e o escambau. Mas, tudo bem. Até aí, tudo
certo. Cada um fez a sua parte. Tudo certo. Espera, cara, espera. Mas o que
é que eu tenho a ver com isso? Isso é contigo. Eu não tenho nada a ver com
isso. Isso já é problema teu. Não, de jeito nenhum. Qual era o acerto? Qual
era o acerto, porra? Caralho, assim a gente não vai se entender. Assim vai
dar merda. Olha o que eu tô dizendo, porra. Baixa a voz. Baixa você, caralho.
— Ih, cacete, melou. Pode ir preparando a tropa — Ornelas sussurrou
para Nivaldo, que não resistiu e declarou guerra à sua maneira:
— Engrossa, Silas. É isso aí. Bota pra foder. Eles que se fodam. Tem
de falar grosso mesmo. Eles só entendem a voz da bala, esses porcos.
— Cala a boca, porra. Não vê que o chefe tá apertado? Silas
prosseguia:
— Não, de jeito nenhum. Olha, cara. Admite. Admite. Isso é uma
baita sacanagem. Não é justo. Não existe mais regra? Ninguém respeita mais
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nada? A palavra não vale mais porra nenhuma? Não existe mais justiça,
porra? Não se pode mais confiar em ninguém? Claro, só posso pensar assim.
O que é que você faria no meu lugar? Tô falando sério, porra. Mas não tenho
de entender nada, não. Você é que não tá entendendo, caralho. Será que eu
falo grego? Você me telefona, pedindo — ouve bem —, pedindo pra gente
juntar vinte fuzis, preparar o paiol, no lugar combinado, que vocês viriam
buscar, daquele jeito mesmo que tinha ficado acertado. Não foi assim?
Então. Vocês não vieram? Não encontraram tudo que pediram? Não estava
no lugar certo? Não foi tudo feito com toda honestidade?
A gente cumpriu ou não cumpriu a palavra? Pois é, mas é o que tô te
dizendo, rapaz. Exatamente. Então? Vocês não entraram e saíram na maior
tranqüilidade? A gente não deu os tiros pra cima, respondendo às rajadas de
vocês, tudo certo, tudo direito, como manda o figurino? Arrego pra nós é
arrego, porra. Por isso é que a gente está estabelecido, com nome e respeito
no pedaço. Você mesmo disse na TV que a operação foi um sucesso. Então,
foi ou não foi? Rendeu RJ-TV, manchete nos jornais de hoje, tudo na maior
limpeza. Pois então... Agora tá na hora de vocês fazerem a parte de vocês.
Conforme o combinado. Como, "não dá"? Como, "deu problema"? E eu com
isso? Já pensou se você tivesse entrado ontem na favela e eu tivesse te
preparado uma arapuca? Eu sei que ia dar merda. Eu sei. Mas o que você tá
me dizendo também é uma merda, porra.
Ornelas soprou pra Nivaldo:
— O filho da puta não quer devolver.
Nivaldo balançou a cabeça, sentado na beira da cama, e acendeu um
cigarro de maconha.
— Quer um tapa? — perguntou a Ornelas, que levantou da cadeira e
foi até a cama. Deu uma tragada, enquanto Silas andava em círculos e metia
a mão esquerda no bolso da bermuda. Era um gesto habitual, quando ele
precisava se concentrar para tomar decisões difíceis.
Nivaldo virou-se para Silas:
— O filho da puta não quer devolver? Silas tapou o bocal do telefone e
respondeu:
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— Quer cobrar.
— Cobrar? — Nivaldo deixou escapar a voz e o verbo cobrar, repetido,
ecoou pelo barraco.
Ornelas comentou, baixinho:
— Não acredito, cara. Não acredito nisso, cara. Não se pode confiar
em ninguém. Não se pode acreditar em mais nada.
Silas continuava girando, até que estancou e apoiou o pé direito na
cadeira em que Ornelas estivera sentado, antes de juntar-se a Nivaldo para
fumar o baseado. Era sua vez de falar. Queria dar o assunto por encerrado,
restabelecendo sua autoridade:
— Olha, aqui, Santiago. Vamos falar de homem para homem Eu não
tenho saída. Vou ter de recomprar as armas de vocês. Não tenho saída. Sei
que vocês sabiam que eu ia acabar aceitando, por que vocês sabem que eu
sei que, se não revenderem pra gente, vocês venderiam pro pessoal do
terceiro comando. E vocês sabem que eu posso até ficar sem esses vinte
fuzis, mas não posso dar mole pros caras. Se fosse pra ficar com vocês, eu
tava cagando. Não ia recomprar porra nenhuma. Deixava pra lá, só pelo
gostinho de não fazer negócio com você. Eram armas perdidas. Tudo bem.
Elas iam lá pra Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE),
aquele cemitério de armas que vocês têm lá na polícia. Mas eu sei que não
vai ser assim. E sei que vocês sabem que eu sei que não vai ser assim. Por
isso é que você teve a cara-de-pau de me propor esse negócio. Então, tá,
Santiago. Negócio fechado. Vou pagar. Vou comprar. E, os vinte. Todos os
vinte fuzis. Isso mesmo, topo o preço, sim. É, em dólar, claro. Certo, entendi
o cálculo, sim. Mas não me faz de palhaço, porra. Não vem me dizer que é
um preço camarada. Pode mandar trazer. Tá certo. É. Entendi. Certo. Vou
dizer aqui pro pessoal. Vou dizer pro pessoal que não é recompra; é só uma
taxa pela devolução. Pode deixar que eu digo. Agora, em compensação, você
vai dizer pro seu pessoal que "política fiscal" é a puta que pariu.
Silas desligou o telefone, deu um chute na cadeira, tirou o baseado
da mão de Nivaldo, deu um tapa e ficou olhando o sol que descia atrás do
Maracanã.
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Traição
Era um pedido especial do coronel Hugo Flores ao BOPE. O comandante
determinou que eu visitasse o coronel, me inteirasse da demanda, planejasse
a ação solicitada e distribuísse as tarefas, caso cumpri-las ultrapassasse o
tempo de meu plantão. Foi uma longa viagem do Centro à Zona Oeste do
município, sobretudo no calor carioca. Aliás, como diz um amigo, o Rio só
tem duas estações: o verão e o inferno. Estávamos em pleno inferno — para
Dante nenhum botar defeito. Você já deve estar imaginando cumprir esse
trajeto em janeiro, cruzando a aridez do subúrbio. Tudo bem, só que nosso
carro não tem ar-refrigerado. Deve ser por isso que se chama viatura.
Lembre-se que, além do conforto, seu automóvel com ar-refrigerado aciona
um upgrading instantâneo em seu status: você ganha o direito de ser um
indivíduo e, se bobear, até um cidadão, e não se arrisca a ser chamado de
elemento. Tudo isso só vale se você for branco, bem entendido.
Não vamos ser cínicos e fingir que vivemos no paraíso da democracia
racial. E não estou falando só porque sou negro e vítima do preconceito, não.
Milhões de vezes me pego discriminando também. Na hora de mandar descer
do ônibus, você acha que escolho o mauricinho louro de olhos azuis,
vestidinho para a aula de inglês, ou o negrinho de bermuda e sandália? E
não venha me culpar. Adoto o mesmo critério que rege o medo da classe
média. É isso mesmo, a seleção policial segue o padrão do medo, instalado
na ideologia dominante, que se difunde na mídia. Não, não é jargão
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marxista, não. Depois eu conto por que lhe posso assegurar que não tenho
nada a ver com marxismo, comunismo, essas coisas. Depois. Cada história
há seu tempo.
Agora, tenho de chegar logo à Zona Oeste, que o coronel Flores me
espera para encomendar a missão especial. É manhã, cedo, mas planejar
uma operação não é fácil. É preciso levantar as informações pertinentes,
trabalhar com mapas, topografia, tudo isso demora.
Pensando melhor, vou adiar mais um pouco a chegada à Zona Oeste
só para lhe dar um quadro mais realista dessa questão. Vamos deixar o
coronel Flores esperando mais um pouco para acompanhar uma patrulha
que alguns colegas faziam na Tijuca.
Eles vinham de uma batida na boca de fumo da favela da Galinha,
descendo de viatura uma ladeira deserta, os faróis desligados. Um carro
subia. Era suspeito. Favelado não tinha carro importado. Enviesaram a
viatura num movimento súbito, desembarcaram armados e jogaram o foco
das lanternas no interior do carro. Duas aeromoças e dois tripulantes de
conhecida companhia aérea, ainda em uniforme de trabalho, certamente
chegando de uma viagem e, pelo visto, buscando decolar para outra.
Atrapalhadas e nervosas, as moças não demoraram a confessar: iam, sim,
comprar droga, mas não eram traficantes. Quem consome prefere o rótulo de
viciado, porque tem o dom de converter o crime em doença e o perpetrador
em vítima. Tudo bem, estava na cara que não eram mesmo traficantes. Mas
nem por isso o tenente Diogo refrescou. Ele ficava furioso com essa
cumplicidade hipócrita da classe média com os criminosos. Os maconheiros
financiavam os bandidos e depois faziam passeata contra a violência.
Mandou todo mundo saltar. Percebeu, com as antenas de policial
experiente, que elas eram casadas; eles, não. Dedução: não são pares.
Pronto, impôs-se a linha de trabalho. Escolheu a mais graciosa.
— Escuta aqui, sua putinha. Quer dizer que vocês vieram limiar,
cheirar e trepar com os garotões. O veado de seu marido vai gostar de saber
que o seu vôo está apenas começando. Cadê o celular? Isso, liga aí pro
chifrudo que eu quero falar com ele.
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A mulher chorava como se estivesse levando uma surra.
— Você também — dirigiu-se à outra. — Pode ir digitando o número.
Vamos fazer uma conferência virtual com os chifrudos. Chama o maridão,
sua puta.
Os rapazes intervieram, fazendo o tipo "vamos ser razoáveis". O
gênero enfureceu Diogo. Naquele momento, qualquer palavra poderia ser a
gota d'água. O problema é que, em vez de vir dos homens, a gota que faltava
veio da mulher mais destemida, que resolveu topar a briga, dizendo que o
tenente estava fazendo aquela cena para vender mais caro a liberdade. Levou
uma porrada que a fez girar sobre o próprio eixo, antes de desabar. Tonta,
foi erguida pelos rapazes, enquanto a fraquinha derramava-se toda, em
prantos. A equipe de bordo caiu na real, mas o tenente atingiu seu próprio
grupo, que achou o sopapo indecoroso, desnecessário, covarde.
— Porra, tenente, numa mulher?
O sargento Ávila traduzia o sentimento geral: "Numa mulher?" Fez
esse comentário piedoso depois que os comissários tinham ido embora,
liberados por Diogo, que também sentiu que havia exagerado a mão, por
assim dizer. Meio culpado, despachou os suspeitos, desistindo dos
telefonemas pedagógicos aos esposos cornudos.
Moral da história: não se bate em mulher nem com uma flor?
Negativo. Foi o próprio Diogo quem esclareceu:
— Vocês ficam me olhando com essa cara e resmungando, mas eu
queria ver se fosse uma negrinha de cabelo pixaim, mal vestida. Duvido que
me viessem com essas delicadezas. Atire em mim a primeira pedra quem
jura que não faria galhofa da pobre coitada e não faria questão de contribuir
com um pontapé para a surra na negrinha.
Como você vê, a cor da pele é nossa bússola. E, nisso, somos apenas
adeptos modestos e fiéis da cultura brasileira. Nunca me esqueci dessa
pequena história, porque ela é quase didática. De todo modo, já chega de
considerações gerais. Não posso mais adiar a chegada ao batalhão do
coronel Hugo Flores. Vamos lá.
118
Saí da viatura, no pátio do Batalhão, e fui recebido pelo ajudante-deordem
do comandante, que me conduziu ao Flores, no segundo andar.
Sempre achei incrível a organização espacial dos batalhões da PM. Parece
mais uma repartição de funcionários públicos, com funções meramente
burocráticas. O estado-maior fica longe do gabinete do comandante, que não
se comunica com os setores operacionais, que, por sua vez, recebem
chamadas como um hospital, como se a polícia não tivesse nada a ver com o
conhecimento das dinâmicas criminais e sua prevenção. É também
impressionante o número de policiais em tarefas absurdas. Por exemplo,
checando as chamadas telefônicas feitas de dentro para fora do Batalhão.
Para não falar do pessoal que conserta as viaturas, das equipes que se
ocupam da cozinha, dos grupos da limpeza.
Tem comandante mais agitado, que pega no pesado; mas tem os que
convocam as PFEM — policiais femininas — para fazer as unhas dos pés e
das mãos, e que passam o tempo articulando seus próprios negócios — em
geral são empresas de segurança privada que eles colocam nos nomes das
mulheres ou dos parentes. Chega a ser engraçado: na segunda-feira, o
superior hierárquico enquadra o inferior, aplicando o regimento disciplinar
medieval, duríssimo com o cabelo grande e leniente com o roubo, a extorsão,
o assassinato etc. Na terça-feira, ambos se encontram na empresa de
segurança, como patrão e empregado, ou seja, como cúmplices de um ilícito
— porque, como você sabe, policial não pode fazer bico na segurança
privada.
Na quarta-feira, de volta ao quartel, o soldado já perdeu o respeito
pelo superior e vive aquele teatro da ordem militar com ironia e repugnância.
E assim vamos ladeira abaixo.
Quando comecei a sacar isso tudo, mergulhei de cabeça na prova de
seleção para o BOPE. Não sou bandido, nem tenho vocação para funcionário
público. Aliás, para ser sincero, tenho mais nojo do policial bandido do que
do bandido assumido. Mas deixa pra lá. Um dia escrevo sobre isso — depois
que for expulso da corporação.
119
Entrei no gabinete do coronel Flores, prestei a continência regimental
e fui autorizado a sentar-me.
— Capitão, nós não temos conseguido entrar na favela do Cavalo. Os
traficantes têm sido hábeis no bloqueio. São muitos e estão bem armados.
Temos bons informantes lá, e já sabemos onde estão as armas e quem são os
líderes do movimento. Mas enquanto não conseguirmos romper o cerco que
montaram na parte baixa do morro, não haverá o que fazer. Assaltar pelo
alto exigiria uma força especial, porque o terreno é íngreme e acidentado, e
talvez esteja igualmente protegido. Nunca tive tanta dificuldade para uma
abordagem policial. A ordem do comando geral da PM é para que ocupemos
a favela. Mas, nas condições atuais, é impossível. Por isso, precisamos de
vocês.
Flores foi direto, educado, didático e profissional. Estive próximo de
rever a imagem que tinha dele. O coronel, digamos, não gozava de boa
reputação. Corriam muitos boatos. Diziam que ele era homem ligado a um
famoso traficante, que liderava uma das facções criminosas do Rio de
Janeiro. Você pode imaginar o que isso significa, mas, se não consegue, vou
dar uma dica: partilha com os criminosos do lucro obtido pelo tráfico, em
troca de certo direcionamento das incursões policiais, de acordo com os
interesses da facção criminosa com a qual se negocia. Não é incomum esse
tipo de aliança: a polícia é usada por uma facção contra a outra. Uma tática
conhecida é a provocação de uma crise artificial numa favela dominada por
determinada facção, para justificar operações que a enfraqueçam ou mesmo
a expulsem do território, abrindo espaço para novos negócios, mantidos os
antigos ideais... A facção beneficiada aproveita o momento para invadir a
favela, dominá-la, apropriar-se da boca e da correspondente fatia do
mercado de drogas. E assim caminha a humanidade. Se você está se
sentindo revoltado, imagina o que eu e meus colegas sérios sentimos,
quando descobrimos que estamos sendo manipulados e que nossas vidas
não valem porra nenhuma. Infelizmente, nem todos os companheiros
entendem o processo com clareza. Às vezes, culpam os políticos, sem
compreender que, antes das manobras dos políticos, são os nossos
120
camaradas e nossos superiores, muitos deles, alguns deles — vá lá —, os
principais responsáveis. E a mídia bate palmas, fazendo papel de trouxa,
enganando os otários que pagam impostos, inclusive os nossos miseráveis
salários. Mas não se apresse a tirar conclusões simplistas: "Coitados, eles se
vendem por causa dos baixos salários." Bullshit. Porra nenhuma. Fosse por
isso a Polícia Federal seria imune a esses probleminhas. E não é, como você
deve saber. A maioria da população brasileira é miserável e não se corrompe.
A primeira intervenção do Flores quase fez uma faxina na imagem
que eu tinha dele. Eu disse quase. Confesso que esperava encontrar um
personagem de gibi, um pequeno ditador de fancaria, um títere de opereta.
Mas ele, à primeira vista, não se parecia com as caricaturas — eu nunca
tinha estado com o Flores, pessoalmente. Ele era menos baixinho do que eu
imaginava. Menos barrigudo do que supunha. Menos grosseiro do que
diziam.
Pena, a compostura derreteu logo.
— Major — dirigia-se a um auxiliar —, mostre ao capitão o que
sabemos e dê a ele aquele mapa. E vá testando o nosso herói, pra ver se ele é
sujeito macho mesmo.
Deu uma risada de desenho animado e saiu, batendo a porta. Fingi
que não era comigo e fui estudar o mapa e os dados reunidos pela P2.
Uma hora e meia depois, mais ou menos, o comandante voltou.
Esperou que eu terminasse de lhe apresentar o primeiro esboço do plano e
alertou:
— Escuta aqui, capitão. Nós vamos aproveitar a limpeza que faremos
hoje à noite, na favela do Cavalo, para acertar umas contas atrasadas com
um traidor, ok? Então, vê se segura a onda, entendeu?
Voltando-se para o major:
— Amarildo, arma tudo direitinho que é a hora de passar o cerol no
Múcio.
— O sargento Múcio? — perguntou o oficial.
— É, porra. Não se faz de idiota.
121
Levei um susto, mas preferi não registrar o que só a posteriori
assumiu foros de realidade. Naquele ambiente e no meio daquele diálogo,
parecia que o Flores queria me confundir só pelo prazer infantil de me
sacanear. Brincadeirinha de macho, entende? A polícia é um vestiário de
futebol permanente. Ou você adere à linguagem, verbal e corporal, ou vira
veado. É como na escola, com o agravante das armas e da autoridade.
Repassei o plano com o major, deixei com ele as instruções para a
equipe do Flores, repisei as linhas mestras do movimento que o BOPE faria e
me mandei de volta. No caminho, passaria na firma de um amigo para,
novamente, tomar emprestados oito visores noturnos. Ou a gente se vira ou
nada acontece — e os riscos aumentam. Você acha que o Estado nos oferece
os equipamentos técnicos necessários? Pode tirar o cavalinho da chuva.
Aliás, pensei em chamar a operação Cavalo de Tróia, mas me soou muito
óbvio. A idéia era, em resumo, a seguinte: oito homens do BOPE invadiriam
a favela pelo alto, em silêncio, com os visores, surpreendendo os traficantes
por trás — eles nunca tinham sido abordados pela retaguarda, porque
estavam protegidos por uma pedra alta. Somos bons de rapel e, com os
visores, teríamos todas as condições para assaltar o QG dos traficantes.
Limparíamos a área para a subida do grupo do coronel Flores. Na pior das
hipóteses, os bandidos fugiriam para a parte baixa da favela. Se isso
acontecesse, desceriam desorganizados e seriam vencidos pela tropa regular
da PM, que já estaria preparada para o embate. Dificilmente daria errado.
No fim da tarde, entreguei os visores e o plano ao capitão Técio, que
me substituiria naquela noite. Ele comandaria a equipe do BOPE,
encarregada da operação no morro do Cavalo. Passei todos os detalhes e saí
exausto, louco para curtir uma noite de sexta-feira bem romântica com
minha mulher. Afinal, ninguém é de ferro.
Engraçado, alguma coisa não parecia certa. Eu tinha a sensação de
que faltava algo. Revi, na memória, cada ponto do plano. Tudo parecia se
encaixar perfeitamente. Mesmo assim, sentia um buraco no estômago, uma
angústia, uma voz que me comunicava uma mensagem ininteligível. Não
conseguia descansar, relaxar. Na cama, por mais que estivesse esgotado
122
fisicamente, o sono não vinha. Eu andava pela casa sem parar. Minha
mulher tampouco conseguia pregar o olho, preocupada comigo, captando no
ar minha ansiedade. Esse fenômeno não é raro. Quando eu participava do
planejamento de uma operação e não integrava a equipe, era difícil desligar.
Por motivos bons e maus: é horrível imaginar a derrota e é ruim não
compartilhar uma vitória. Liguei o rádio, telefonei e acabei conseguindo falar
com Técio:
— Uma merda, rapaz. Deu a maior merda. Não estou entendendo
nada — ele disse.
— O que é que houve? A operação não deu certo? Algum
companheiro está ferido? Alguém morreu, Técio?
— Não, cara, a operação não poderia ter dado mais certo. O problema
não foi esse. Um sargento morreu. Foi muito estranho. Porra, uma merda.
Ele morreu na minha viatura. Um sargento lá do batalhão do Flores.
— Caralho. Um sargento? Qual era o nome dele?
— Não lembro.
— Onde você está? Vou te encontrar agora. Preciso esclarecer uma
coisa.
Eu também não lembrava o nome que o Flores mencionara. Não
lembrava porque não tinha levado a sério a ameaça que ele fizera. Não tinha
levado a sério em termos, porque, no fundo, aquela angústia toda talvez
fosse a presença perturbadora daquela ameaça, que ecoava na minha cabeça
como uma espécie de maldição. Do mesmo jeito que passa mal quando come
um alimento estragado, a gente sofre quando não digere bem uma
informação, uma palavra. E um tipo de indigestão espiritual. O estômago e a
mente ficam embrulhados. Eu me culpava por não ter contado ao Técio a tal
história do sargento, para que ele ficasse atento. Merda total. E não
conseguia lembrar o nome do cara. Talvez, ouvindo o nome de quem morreu,
eu pudesse identificar se coincidia ou não com o nome que ouvira, no
gabinete do Flores.
123
Coincidia. Múcio. O sargento morto se chamava Múcio. O nome era o
mesmo. Não tive dúvida. Técio me contou o que aconteceu naquela longa
noite, na favela do Cavalo.
— Nós entramos por cima, conforme o plano. Descemos de rapei, com
visores. Foi mais fácil do que supúnhamos. Descemos até o primeiro nível de
assalto, passamos ao segundo estágio. Tudo certo. Sem sustos. Descemos
para a plataforma de ataque. Tudo conferia. Os vagabundos estavam por ali
mesmo, em torno da casa, que era o paiol das armas. Bloqueamos o beco
para onde eles teriam de recuar e fechamos as duas pontas do ataque, em
pinça, exatamente na formação planejada. Eles mal tiveram tempo para se
coçar. Eliminamos todos ou quase todos. Foram nove. Apreendemos um bom
lote de armas e alguns quilos de cocaína e maconha. Os bandidos que
sobraram desapareceram. Devem ter procurado refúgio nas casas e
dificilmente sairiam tão cedo. Pelo contrário, acho que, dadas as condições,
não vão ter como reorganizar o bando. A tendência é que abandonem a
favela.
— Isso, a partir da meia-noite.
— Exato.
— E o Flores?
— Pois é, avisamos ao pessoal do Flores pelo rádio que desceríamos
tranqüilamente, mas atentos a alguma emboscada. Determinei que eles nos
aguardassem naquele ponto que você marcou no mapa, para o encontro.
— Houve algum problema na descida?
— Nenhum. Paz de cemitério. Só mesmo a cachorrada, mas era até
bom o alarme dos latidos pra ninguém se meter a besta e sair de casa. Do
jeito que a gente estava ligado, sabe como é...
— E aí, lá embaixo, você passou a bola para o Flores.
— Passei. Estava tudo tranqüilo. A favela parecia um deserto. Todo
mundo em casa. O maior silêncio. Ninguém se atreveria a nenhuma ousadia.
De todo modo, indiquei a ele o caminho mais seguro para subir. Expliquei
que tinha deixado os corpos lá em cima. Talvez ele viesse a ter problemas
com as famílias. Essas coisas. Teve um detalhe que me deixou cabreiro.
124
— O quê?
— O grupo do Flores trazia dois sujeitos algemados e encapuzados.
Ele me disse que eram alcagüetes e que era preciso fingir que eles estavam
sendo presos e maltratados, para evitar futuros problemas para os rapazes.
— Entendo.
— Achei meio esquisito, mas tudo bem.
— E as armas que vocês apreenderam, também ficaram no alto da
favela, com os corpos?
— Tá louco? As armas, não. Nos trouxemos todas.
— Ah! Bem.
— Tá pensando o quê? Não sou nenhuma virgem do Sion. Sabe-se lá
quem são esses policiais do Flores...
— Sei.
— Sei que você sabe, mas o que você não sabe, nem eu desconfiava,
era que, uns vinte minutos depois que minha equipe tinha saído, o rádio
anuncia emergência no morro do Cavalo. Porra, emergência no morro do
Cavalo.
— Que merda!
— Exatamente. A gente já estava relaxando... a gente já se permitia
sentir os efeitos da tensão, a fadiga... Bem, você sabe muito bem o que é
isso.
— Voltaram.
— Dali mesmo. Acho que chegamos lá em uns dez minutos, porque
as nossas viaturas aumentaram a velocidade até o limite da
irresponsabilidade, como diria o Fernando Henrique.
— E?
— Calma. Paramos um pouco antes da entrada da favela. Subimos a
pé até o início da rua principal, que sobe o morro. O Flores estava sentado
na calçada com um major. Tranqüilos. Não estavam com aquela cara travada
que se carrega nos confrontos. Pareciam calmos. Ali na calçada, como se
fossem jogar cartas.
125
— Lembra o nome do major?
— Não. Nem interessa. Eles se levantaram e me apontaram o policial
caído.
— Onde?
— Logo ali adiante, bem no começo da rua que sobe a favela, ao lado
de uma viatura.
— Era o tal sargento.
— Escuta. Apontaram o colega e com o ar mais resignado natural do
mundo disseram que tinha morrido no tiroteio.
— Que tiroteio?
— Foi o que eu perguntei. Logo que a gente saiu, os traficantes
começaram a atirar. A tropa do Flores respondeu com fogo cerrado e os
bandidos recuaram. Nisso, enquanto o grupo do Flores subia, empurrando
os vagabundos de volta para cima ou os dispersando, o policial foi atingido.
Estava morto.
— Mas...
— Espera. Só que ele não estava morto. Puto com a pasmaceira do
Flores, que não era capaz nem de resgatar o corpo do companheiro, jogado
ali feito um animal, determinei que me cobrissem com fogo pesado e me
arrastei até o homem. Cara, ele estava vivo. Sangrava muito, mas tinha
pulso. Dei um grito, chamei o Dutra e puxamos o sujeito. Deixa eu te dizer
uma coisa. Uma coisa muito estranha mesmo. Sabe que quando gritei que o
homem estava vivo, olhando na lateral para o Flores e o major, sabe que eu
tive a impressão de que os dois se assustaram? Eles não vibraram, nem se
emocionaram. Eles se assustaram. Pareciam dois palermas, perplexos, sem
ação. Porra, cara, que filhos da puta. O camarada logo ali, se esvaindo em
sangue, e eles nem conferiram se ele tinha morrido ou não. Caralho. Nunca
vi nada igual.
— A ambulância da PM já estava lá?
— Não e não dava tempo para esperar a ambulância. O cretino do
Flores, provavelmente, demorou a chamar. Tivemos de jogar o homem em
nossa viatura e correr feito loucos. Estávamos desesperados, cara. Foi
126
horrível. O colega morrendo na nossa frente, no nosso colo, vomitando
sangue. Mas já era muito tarde. Não deu tempo. Uma merda, entende?
— Entendo perfeitamente. E faz todo sentido. Tudo se encaixa.
— Como, entende? O que é que se encaixa? Na verdade, nada se
encaixa. Pensa comigo: nós saímos depois de limpar o terreno. Quando
deixamos a favela, não havia o mais vago vestígio de capacidade de resposta
do tráfico. Os vagabundos que sobraram estavam dispersos, apavorados,
provavelmente sem armas e sem noção do que tinha acontecido e do que
aconteceria. Além do mais, tinham perdido um grande número de comparsas
— segundo nosso cálculo, executamos os mais experientes, os líderes, os
organizadores. Como é que os putos saltariam da dizimação para a
iniciativa, de uma hora para outra, sem mais nem menos?
— Eu sei como.
— Porra, cara. Impossível. Não teria dado tempo. Não haveria
condições.
— Eu sei, estou te falando que eu sei como teria sido possível.
— Não fode, capitão. Além do mais, tem o seguinte... e isso foi para
mim o sinal mais esquisito de todos: a chave não estava com o sargento que
morreu. Quando vi que não vinha tiro nenhum em minha direção, fiquei
mais tranqüilo e fui checar a viatura que estava ao lado do sargento. As
chaves não estavam na ignição e não tinha marca de bala. O Flores me disse
que ele tinha acabado de sair da viatura, quando foi alvejado. Mas como é
que houve o tal tiroteio, se a viatura está incólume? E as chaves, por que
não estavam com o sargento, nem na ignição? Onde é que foram parar? Por
quê? Porra, cara, nada faz sentido.
— Tudo faz sentido. Estou te dizendo. Tudo se encaixa. Eu não tinha
te contado, mas ouvi o coronel Flores comentar com um major que eles
aproveitariam a operação para se livrar de um sargento.
— Você está de sacanagem. — Verdade.
— Caralho, capitão, como é que você não me fala uma coisa dessas?
127
— Não sei. Acho que Não levei a sério, sei lá. Devia ter te contado.
Claro. Pode ter certeza de que nunca vou me perdoar por isso.
— Mas por quê?
— Estou te dizendo: não sei, não pensei que fosse para valer.
— Não, estou perguntando por que queriam eliminar o sargento?
— Disseram que ele era um traidor, vendido ao tráfico.
— Será? A história que ouvi é bem diferente.
— Sobre o Flores?
— Pois é. O que sei é que ele teria umas ligações bem esquisitas.
— Também ouvi falar.
— Não sei, rapaz. Não sei mais nada.
Amanheceu com o céu fechado, um mormaço desgraçado. Minha
cabeça parecia que ia estourar. Fiz questão de ir ao sepultamento do
sargento, no fim da tarde. Notei que o Flores e o major estavam
desconfortáveis. Coronel Ademar não saía de perto do caixão aberto. Era
visível que estava profundamente mobilizado. Ele era um desses velhos
oficiais, respeitados por toda a corporação. Quando surgiu a primeira
oportunidade, me aproximei e lhe disse que precisava falar com ele, em
particular.
— Outra hora, capitão. Me procura outro dia. Hoje, não tenho
condições de conversar, não. Perdi um amigo. Múcio serviu comigo até há
poucos meses. Ele era um dos policiais mais honestos, leais e competentes
que já conheci.
Confesso que fiquei sem palavras e senti minha perna tremer. Minha
visão embaçar. Minha visão do mundo tremer.
No dia seguinte, o Flores voltou a pedir ajuda. Precisava da gente
para resgatar uns corpos que tinham ficado em um platô elevado, numa alça
de pedra. Avisou que era difícil subir até lá e, para o pessoal dele, impossível
descer com os corpos. Explicou que alvejaram alguns traficantes
remanescentes no morro do Cavalo. Os policiais foram ao alto da favela, por
fora, mas não desceram porque não treinaram rapel. Atiraram de cima,
128
porque os vagabundos estariam no alto da pedra, mais abaixo. E os corpos
ficaram por lá mesmo.
Realmente, não foi fácil chegar ao local. Muito mais difícil foi baixar
os corpos. Mas esse nem foi o maior problema. O pior de tudo era o cheiro,
os urubus e a imagem. Nunca tinha visto nada igual e acho que nunca mais
vou ver nada parecido. A história tinha sido um pouco diferente da versão
relatada pelo coronel Flores. Havia dois corpos despedaçados de um jeito,
que só me restou uma explicação: os dois encapuzados vistos pelo Télio não
eram alcagüetes; foram levados para o morro do Cavalo para serem
executados. Só que os policiais perderam a chave das algemas e, para não
deixar pistas, arrebentaram as mãos e os braços dos rapazes.
Dias depois, fui recebido pelo coronel Ademar. Ouviu minha história
em silêncio. A porrada foi muito violenta. Ele não conseguiu esconder
totalmente a emoção, que parecia ser um misto de ódio, indignação,
vergonha e desalento. Mas permaneceu calado. Quando lhe perguntei o que
eu deveria fazer, respirou, pensou um pouco e disse:
— Capitão, você tem duas opções: denunciar à corregedoria, ser
perseguido e acabar expulso da corporação; ou pedir desligamento e escrever
um livro.
Despedimo-nos. Saí do gabinete. Cumprimentei os colegas que
assessoravam o coronel. Quando me aproximava da escada, ele abriu a porta
e completou o conselho:
— Capitão, se você escolher o livro, não se esqueça de manter o
passaporte em dia.
Nós dois rimos e acenamos um para o outro. Os colegas não
entenderam as palavras, o riso e os sinais. Eu mesmo levaria um tempo para
entender um pouco melhor e de forma mais abrangente o sacrifício do
sargento Múcio. As cores da vida foram ficando mais turvas, à medida que
aquele episódio ia sendo metabolizado. As tonalidades mais sutis começaram
a se embaralhar. Aos poucos, as fronteiras foram sendo apagadas pela
seqüência das loucuras mais extravagantes. A realidade foi se tornando mais
129
grave, mais absurda e menos verossímil. A tal ponto que, poucos anos
depois, o testemunho verdadeiro não se distinguiria do delírio.
Dois Anos Depois:
A Cidade Beija a Lona
130
Santiago já aprontou poucas e boas. Aliás, muitas e péssimas. Ele excede
a cota média de confusão e sacanagem. Abusa dos feitos, com empáfia. Meu
avô diria que se trata de um boquirroto. Adora se vangloriar. Quem fala
muito, fala o que deve e o que não deve. Uma hora dessas, o destino dá o
troco. Sobretudo porque os relatos vão-se juntando a outros relatos, de
outras fontes, tanto da polícia quanto da bandidagem — que é outro poço
sem fundo de histórias, em que tudo se sabe e tudo se esquece, em benefício
da própria sobrevivência. As histórias são varridas para o lixo. O problema é
quando o entulho se acumula e alguma coisa empaca na obstrução do
esgoto. Mais dia, menos dia, um repórter colhe a flor rebelde que fura o
estéreo e levanta a cabeça — mesmo nos domínios do pântano, há o risco da
flor improvável. Pronto: aí, sim, a casa cai.
Dois anos depois do período em que ocorreram os episódios relatados
no "Diário da Guerra", Santiago montou a ratoeira e enrolou o cacho de
dinamites nos pilares da casa. Eis a oportunidade para que se perceba o
protagonismo do BOPE de outra perspectiva.
Para que você não se perca na história vertiginosa que vai começar, a
lista de personagens pode ser útil.
131
ADEMAR CAMINHA VIANA TORRES — Deputado federal pelo estado
do Rio de Janeiro.
ALICE DE ANDRADE MELO — Namorada do policial do narrador do
"Diário da Guerra" e do "Epílogo".
AMARILDO HORTA — Deputado estadual, ligado ao governador.
AMÍLCAR — Coronel da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro,
diretor do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública.
ANACLETO CHAVES DE MELO — Diretor da penitenciária de
segurança máxima, Bangu I.
ANDERSON — Informante da Polícia Civil, ligado a Amarildo Horta.
BABY — Apelido de Carlos Augusto, amigo de Renata.
BARROS, CHICO SANTOS, VILMAR E ZARA — Policiais do BOPE,
atuando em Bangu I.
BRITO — Sócio do bicheiro Saramago.
CARLOS MEIRELES — Ex-agente do SNI; oficial reformado do
Exército.
CEZINHA — Chefe do tráfico no complexo do Alemão.
DINO — Chefe do tráfico na Rocinha.
DIVALDO SININHO — Principal assessor de Anacleto Chaves de Melo.
132
DORIS — Vizinha de Renata.
ELPÍDIO — Coronel PMRJ, chefe do Gabinete Militar do governo do
estado do Rio de Janeiro.
ÉRICO, ITAMAR E JÚLIO — Amigos de Baby.
FÉLIX COUTINHO — Policial civil.
FRAGA — Comandante-geral da Polícia Militar do estado do Rio de
Janeiro.
ÍNDIO — Chefe do tráfico na favela da Mineira.
JAIMINHO ONÇA — Apelido de Jaime Correia, braço direito de
Polinices.
JARBAS — Síndico do prédio em que mora Renata.
JONAS — Auxiliar do chefe do tráfico na favela da Mineira.
JUVENAL — Recruta do Exército e ex-estudante de História.
LEONARDO — Traficante de ecstasy.
LÚCIO PÉ-DE-VALSA MORAES — Amigo de Luizão.
LUIZÃO FRANÇA — Delegado da Polícia Civil do Estado do Rio de
Janeiro.
MARIA DO CARMO — Cabo da PMRJ, atuando como secretária no
Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro.
133
MARQUINHO — Diminutivo de Marcos Paiva de Souza Carneiro,
chefe de gabinete da Secretaria de Segurança.
MAURO PEDREIRA — Delegado titular da Delegacia Anti-Seqüestro
(DAS), da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro.
MICHELE — Esposa de Moisés.
MIRANDA — Policial militar; braço direito de Santiago.
MOISÉS — Líder do Comando Vermelho.
NAMORADO DE ALICE — Oficial do BOPE e estudante de Direito da
PUC, é o narrador do "Diário da Guerra" e do "Epílogo".
NEREU — Chefe do tráfico na favela da Coréia.
NOCA — Chefe do tráfico no complexo da Maré.
NUNO CEDRO — Grande empresário e amigo do governador, cujas
campanhas financia.
OTACÍLIO MALTA — Policial civil, principal auxiliar de Luizão França.
PEDRINHO — Filho de Santiago e Renata.
POLINICES VIEIRA DA SILVA — Superintendente da Polícia
Rodoviária Federal no estado do Rio de Janeiro.
RAMIREZ — Oficial do BOPE; amigo do narrador.
134
RENATA FONTES — Ex-esposa de Santiago; mãe de Pedrinho;
assistente social da penitenciária de segurança máxima, Bangu I.
RINALDO — Comparsa que ajuda Dino a fugir.
RITA, RODRIGUINHO E MARCINHA — Esposa e filhos de Índio
.
RIVALDO — Chefe do tráfico na favela do Borel; ex-pastor evangélico.
RUSSO — Traficante inimigo de Dino.
SALES, SANDER, JUREMIR, CRICIÚMA, BERNARDINHO E ADRIANO
— Policiais civis, auxiliares de Luizão França
.
SANTIAGO — Capitão da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro;
ex-marido de Renata; pai de Pedrinho.
SARAMAGO — Banqueiro do jogo do bicho.
SAUL NOODLES — Repórter da TV Globo.
SUELY — Diarista que trabalha para Baby.
URUBU — Auxiliar de Cezinha.
VAZ — Delegado da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro e diretor
do Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública.
VIKIE — Auxiliar de índio.
VÍTOR GRAÇA — Chefe da Polícia Civil.
135
O secretário de Segurança e o governador são indicados por suas
respectivas funções — sem nomes próprios, portanto. O Core é a
Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil, do Estado do Rio de
Janeiro, unidade que, na prática, funciona como uma espécie de BOPE da
Polícia Civil.
POSTO DE GASOLINA DA PETROBRAS, NA RODOVIA BR-101, INTERIOR DA PARAÍBA,
DIA 11 DE JULHO, ÀS 13H50
Dino não sabe se a cabeça lateja por causa do calor que faz dentro do
carro, ou da pressão que sente, por dentro, por fora, no corpo todo, moendo
os ossos e mastigando os nervos. Se algum dia tivesse lido Nelson Rodrigues,
se a sua vida tumultuada lhe tivesse permitido ler, se o diabo da escola que
freqüentou tivesse ensinado a ler alguma coisa que valesse a pena, ele diria:
sol que derrete catedrais.
Naquela tarde, o calor racha o asfalto e levanta uma névoa líquida,
um vapor em que parecem boiar as coisas distantes. Dino não pode viajar à
noite. Questão de segurança. De dia é menos arriscado. Sente um grande
alívio quando abre a porta e pisa o chão de pedra do posto de gasolina. Uma
sombra àquela hora, um copo d'água gelada, é tudo que quer. Enche os
pulmões com o ar da Paraíba, ar de sua infância, oxigênio da liberdade.
Como faz bem estar longe. Como é bom se sentir bem, de novo. Mesmo
assim, ele sente um frio estranho. Pensa na mãe e nos panos que ela
costumava mergulhar n'água fria antes de pôr em sua cabeça, quando tinha
febre. Pensa na mãe, na febre e no gelo, e percebe que a boca está seca. Tem
sede. Uma corrente elétrica atravessa corpo e alma quando conta o tempo
que falta para chegar à casa da mãe: três horas, só três horas, depois de três
136
dias de viagem, um deles com Rinaldo, naquele carrinho de merda. Depois
de tantos anos. Ela não sabe que ele está chegando, muito menos que
pretende ficar.
Respira fundo e faz a oração que a mãe-de-santo lhe recomendara,
em Vitória da Conquista. Rinaldo deixa o frentista enchendo o tanque e vai
ao banheiro, atrás do barzinho, no fundo do posto. Dino percebe que não há
nenhum caminhão e imagina como seria tornar-se motorista de caminhão,
àquela altura da vida. Talvez fosse melhor do que virar agricultor, profissão
que matou seu pai muito cedo. Profissão dura demais, dura feito o povo do
Nordeste, e seu destino. O dele não é tão diferente, afinal de contas. A vida
do nordestino é uma guerra. Diferente da sua, mas só até certo ponto. Dino
vai em busca da água gelada. Se o estômago não estivesse tão apertado pela
agonia de não chegar nunca, ele até que comeria alguma coisa. Respira
fundo. É bom estar longe, bem longe, e respirar sem medo.
— E aí?
Dino se espanta com a voz tão próxima. — E aí, como é que vai?
Não tinha se dado conta da presença de alguém. De onde surgira
aquela figura?
— Não está se lembrando de mim? Fulmina o sujeito com os olhos, de
alto a baixo.
— Pois eu fui receber o arrego, várias vezes, das mãos de vossa
senhoria.
Antes mesmo de ouvir essas palavras, sua inspeção profissional
identifica uma arma sob a camisa larga do sujeito de voz melosa.
— Você não se lembra? Lá na Rocinha. Eu ia buscar a grana do Vitor
Graça. Pois é, Vitor é meu chefe.
Dino tenta pensar rápido, agir rápido.
— Não olha pra trás ou você morre aqui mesmo. Eu vou desarmar
você devagar. Você está na mira de meus parceiros. Um movimento e você
morre.
Dino deixa-se desarmar e continua tentando pensar em alguma
coisa, rápido.
137
— Agora, entra em silêncio naquele carro marrom que você está
vendo bem na sua frente. Você vai encontrar dois homens no carro. Outro
carro com mais dois parceiros vai nos seguir. Não vai te acontecer nada.
Pode ficar tranqüilo. Morto, você não vale nada. Queremos você vivo. Vamos
dar um jeito no seu motorista. Só um susto pra ele ficar três dias calado.
Dino olha o sujeito nos olhos.
— O Dr. Vitor manda lembranças. Ele vai estar te esperando no Rio.
Quer conversar com você.
Dino permanece congelado, imaginando o sentido daquelas palavras.
Não entende nada. De onde aquele cara tinha saído? O posto parecia
deserto. Quem era o traidor? Na Rocinha, ninguém sabia de nada. Mesmo
que tivessem grampeado o seu celular, não haveria como desconfiarem de
alguma coisa. Além disso, ele tomara o cuidado de trocar de celular várias
vezes e só usar pré-pago, para evitar que o seguissem pelo sinal do celular.
— Vai andando e não olha pra trás.
Quem tinha armado o alçapão? Como haviam montado a armadilha?
Desde quando ele estava sendo seguido? Daria para escapar? Seria mesmo o
pessoal do Vitor Graça? Vai ver o Russo fugiu da prisão para invadir a
Rocinha e essa turma é da quadrilha.
— Já disse pra ir andando, porra.
BR 101, NO KM 666, DIA 11 DE JULHO, ÀS 15H25
Uma hora e meia de viagem. O carro marrom entra à esquerda,
seguindo a seta com o nome da cidade. O segundo carro o acompanha como
uma sombra. Mais uns 200 metros, faz o retorno na rotatória e passa veloz
diante de um motel, um borracheiro, um campo de várzea, um punhado de
moleques dentro da nuvem de poeira. O motorista conhece o lugar. Acelera
para dentro da cidade. Pára na frente de uma padaria. Não era padaria. Era
uma rodoviária. Descem, compram água, bebem café. Oferecem água e café
a Dino. O segundo carro estaciona logo atrás. Ninguém desce. O homem que
se identificou como subordinado de Vitor Graça vai até a janela do carro e
138
conversa com um sujeito de óculos escuros. Não dá para ver sua fisionomia.
Percebe-se a silhueta: ele está falando ao celular.
Chega o ônibus, lavado e azul, o esmalte brilhando. Ônibus do
interior não faz turismo, transporta gente para lugares e pára como
peregrino nos templos de bênção e reza. Veículo de migração é o necessário;
é o que se tem. Um mundo de gente, bolsas e malas, levanta-se dos bancos
de madeira, na calçada. Dino não sabe se a angústia está na atmosfera que
os viajantes exalam ou se é apenas sua. Bebe água até encharcar os ossos.
Passa a mão na boca. Seus acompanhantes não lhe dizem nada; mal
conversam entre si. Só lhe resta adivinhar o que o aguarda no Rio. O letreiro
no ônibus informa o destino: Rio de Janeiro. Ás vezes fechar os olhos e
morrer é preferível à longa espera. Espera de quê? O futuro era farto, uma
fartura prodigiosa. Ele teria futuro suficiente para empanturrar-se na viagem
de volta ao Rio. E uma realidade comprida para digerir, minuto a minuto,
cheirando a poeira, urina e vômito, regada a choro de criança e leite
derramado. Pensa em leite derramado e quase sorri. Melhor que sangue.
Pega a folha de jornal largada sobre o balcão. Serviria para abanar-se. Não
tem mais idéia, espírito, mente, massa encefálica. Tem só crânio,
comprimido nas laterais. Os olhos latejam e parecem espumar, cozidos feito
ovos ao sol. Quase sorri de novo. Sobe os degraus do ônibus com sua
escolta.
BR- 101, DIA 11 DE JULHO, ÀS 22H20
Três homens de Vitor Graça embarcam no ônibus, com Dino, na
Paraíba. Serão 48 horas de viagem. A viagem de volta ao Rio será mais
rápida do que o caminho de ida. O ônibus é econômico e direto, não precisa
serpentear para despistar. Um senta-se a seu lado; dois, no banco de trás.
Nas inúmeras paradas, levantam-se todos para esticar as pernas, comer um
prato feito, morder um sanduíche e cumprir todos aqueles ritos próprios às
viagens longas.
139
Aos poucos, calor e cansaço entorpecem os corpos, e a luz do sertão
produz uma espécie de embriaguez. Lentamente, a noite apaga a larga
planície, cortada pelos espetos de luz dos faróis.
Dino mergulha na nebulosa de suas lembranças, caçando o rosto do
homem que o rendeu no posto de gasolina. Fecha os olhos, mas deixa uma
fresta pela qual flagra seu perfil, agora sentado a seu lado, cão de guarda.
Aperta os olhos e o fita de frente, no posto. Pode ainda ouvir a voz melosa. As
lembranças brotam com cheiros e sons. Põe em marcha a máquina da
imaginação. Roda filmes e filmes, revivendo noite após noite. "O filho da puta
esteve comigo, sim. Ele não estava mentindo." Quando? Onde? "Talvez, sim,
talvez tenha sido ele." Trinca os dentes. "Filho da puta." Pensa tão forte que
teme ter dito filho da puta, mas não disse ou, se disse, seu ódio não chegou
a despertar o cão, refestelado a seu lado, rosnando enquanto dorme. Dino
captura a imagem do policial na treva de um beco da Rocinha, devolvendolhe
as armas que lhe tomara na véspera e recebendo a grana prevista no
arrego.
RIO DE JANEIRO, RODOVIÁRIA, DIA 13 DE JULHO, ÀS 5H05
Dino e os três homens são os últimos a sair do ônibus. Ele espera
encontrar a fanfarra de sempre: desceria os dois degraus, seria algemado
diante das câmeras de televisão e jogado na caçamba de uma viatura com o
giroflex ligado, que partiria a toda velocidade, seguida pelo cortejo dos carros
de reportagem, para a exibição, ao vivo e em cores, no zoológico da
Secretaria de Segurança Pública. Mas não há nada, nada além do
movimento de sempre, gente descendo e subindo, puxando crianças pela
mão, sacos e malas. Dino pisa a plataforma, inala gasolina, engole a náusea,
firma as pernas. Ninguém, nada. Isso não cheira bem. É melhor a prisão do
que o seqüestro. Se ninguém fica sabendo de que ele está nas mãos da
polícia, tudo é possível. Podem executá-lo e desaparecer com o corpo. Qual o
registro de que ele fora capturado no interior da Paraíba? Ninguém soube,
ninguém viu. "Se quisessem me matar, já teriam feito, lá mesmo. Para que
140
me trazer de volta ao Rio?" A experiência briga com o medo na arena turva
de sua consciência.
— Nós vamos te levar pro hotel.
— Onde, que hotel?
— Aqui mesmo, na rodoviária. O chefe vai te ligar daqui a pouco.
Relaxa, toma um banho, um café, e se prepara, porque o dia vai ser longo.
Você vai voltar ao batente. Acabou a vida mansa. Fim das férias. O chefe tem
de pagar as dívidas de campanha, meu camaradinha. Ele precisa de você.
HOTEL DA RODOVIÁRIA, DIA 13 DE JULHO, ÀS SETE E MEIA DA MANHÃ
Dino, depois do banho, do café amargo e do misto-quente meio frio,
cai na cama. Repassa na imaginação os capítulos de sua vida: a chegada ao
Rio com o irmão; a adolescência na casa de um tio, na Rocinha; o vício do
irmão; a cocaína arruinando o irmão; o vício o levando à dívida e à ameaça;
seu horror à droga e o desprezo pelos comparsas violentos; a necessidade de
aderir ao tráfico para pagar a dívida do irmão; sua ascensão no crime; o
sucesso e o gozo do poder; a descoberta de que aquela vitória era uma
merda; a vontade de largar tudo e começar de novo; o sonho da fuga; o longo
planejamento para a fuga; a saída da favela disfarçado; viagem a Vitória da
Conquista; a visita à mãe-de-santo; o encontro com Rinaldo; a chegada à
Paraíba; a emoção na travessia da fronteira; o trecho final para a casa da
mãe no carro de Rinaldo; o encontro com o diabo no posto de gasolina; o
inferno; a volta ao Rio; o desastre, a derrota, a iminência da morte.
O ventilador no teto faz um ruído incômodo mas regular, de efeito
entorpecente. Tenta usar o telefone sem sucesso. Está bloqueado. Não há
janela. O basculante dá para uma área interna escura. Não seria fácil
escapar. Os homens rondam a porta do quarto e farejariam qualquer
movimento em falso. Despenca na vertigem do sono, rápido e fundo. Breu.
141
Silêncio. Vazio. Até que salta, ofegante. Pensa ter ouvido sirenes. O telefone
está tocando. Leva alguns segundos até situar-se. Atende o telefone. Vitor
Graça, em pessoa. Era ele mesmo, o chefe da Polícia Civil. Conhece sua voz e
seu jeito de falar.
Quer 400 mil reais até o fim do dia e 10 mil por dia, a partir da
semana seguinte. Dino teria de voltar à Rocinha e retomar seu posto no
comando do tráfico. A galinha dos ovos de ouro não pode suspender a
produção. A Polícia Civil precisa desta fertilidade, conta com ela. "Não tenho
400 mil", chega a dizer. Use o telefone do hotel à vontade, você vai dar um
jeito — é mais ou menos o que lhe diz Vitor Graça. Dino não ouve direito. Já
pensa em um jeito de pagar o resgate e cair fora daquele lugar. Depois
pensaria em algum modo de se livrar dos 10 mil diários. Quem sabe fugindo
do Rio, novamente. Imagina-se longe e uma onda de angústia o sufoca. Vitor
parece uma hidra, um leviatã de mil olhos. De que jeito zerar tudo, fazer o
tempo parar e cair fora? Seria possível começar a vida de novo?
DOIS MESES DEPOIS. COPA E COZINHA. CASA DE SANTIAGO NO ALTO DA TIJUCA,
DIA 15 DE SETEMBRO, ÀS 20H15
Toca o interfone. O segurança da guarita avisa que a visita
aguardada acaba de chegar. Santiago deposita talheres, copo e prato na
bancada da pia. Caminha para a porta da sala. Recebe o visitante com
saudação calorosa.
— Obrigado por ter vindo. Achei melhor conversar onde a gente
pudesse ficar mais à vontade.
— Também prefiro.
Oferece bebida. O visitante agradece. Aceita café. O anfitrião vai à
cozinha buscar a garrafa térmica e xícaras, açúcar e adoçante. Serve ao
convidado e troca amenidades, enquanto a voz testa os canais. Finalmente,
palavras e vontade convergem para a mesma freqüência. Santiago começa a
falar:
— Você sabe que o Vitor tem sido um bom amigo nosso.
142
— Verdade.
— Pois é, ele tem sido um cara fiel e é muito bom a gente ter, assim,
do nosso lado, pessoas como ele. Você sabe. Ele é um sujeito de categoria.
Eu acho, sinceramente, que ele vai longe.
— Tem tudo pra isso.
— Tirou a palavra daqui: tem tudo. É jeitoso, competente — Santiago
insiste.
— Fala bem.
— Fala muito bem. Se comunica bem, o que é ainda mais importante,
não é?
— Sem dúvida.
— Se comunica muito bem. Hoje em dia, ninguém pode chefiar uma
polícia sem ter uma boa estampa, fotografar bem e mostrar desenvoltura na
televisão.— Sem dúvida — admite o visitante.
— Sem isso, hoje em dia, não se chega a lugar nenhum.
— Lugar nenhum mesmo.
— E ele tem tudo isso e tem classe.
— Tem classe. Isso tem — reconhece o visitante.
— Eu diria que ele pode chefiar qualquer polícia do Brasil, e tem
mais: pode ir mais longe.
— Ele pode, sim. O Vitor pode ir longe. Tem tudo pra isso. É muito
habilidoso, sabe negociar, se entende bem com todo mundo.
— Não há quem não goste do Vitor — Santiago reitera.
— Todo mundo gosta dele.
— E se ele tem tudo pra ir mais longe, por que não dar um
empurrãozinho? Se a gente der uma mãozinha, ninguém segura.
— Você acha que ele pode virar secretário? Secretário de Segurança?
— pergunta o visitante.
— Pode ir além. Olha, o Vitor pode crescer. Pode crescer muito. Pode
ir além.
— Você acha?
143
— Tenho certeza. Olha, parece que ele andou fazendo umas
pesquisas por aí. O nome dele aparece bem. Bem mesmo.
— Ele não teve muitos votos pra deputado estadual. Santiago explica:
— Foi uma infelicidade. Ele foi muito infeliz. Deu muito azar. As
eleições aconteceram num momento ruim. Tinha muito candidato forte, com
muito dinheiro. Você sabe que, hoje em dia, voto é dinheiro, eleição é grana.
— Isso é.
— Ele teve pouco dinheiro e gastou mal. O anfitrião vai ao ponto:
— Eu quis conversar com você, uma conversa séria, porque tenho
certeza que o Vitor aprumou o barco e nas próximas eleições vai vir com
tudo. Ele se elegendo, vai fazer o secretário, vai controlar a Polícia Civil, vai
distribuir as delegacias e nós vamos poder trabalhar com tranqüilidade. Nós
sabemos trabalhar, não é? É só não atrapalharem.
— Isso é verdade.
— Ele é parceiro de fé. Parceiro pra toda obra. É um irmão.
— E a PM. Qual é o plano pra PM? — indaga o visitante.
— Esse é o problema. Agora, você tocou no nosso problema. Esse é
um osso duro de roer. Mais café?
— Não, obrigado. A impressão que dá é que ninguém manda na PM,
ninguém controla aquilo. É um acordinho aqui, outro ali, a gente correndo
atrás, tendo de remendar aqui e acolá.
— Um tremendo varejão.
— Isso aí, varejão. Santiago arrisca:
— Pois é, a gente precisa de uma solução global. Mesmo que custe
um pouco mais, acaba compensando. Esse varejo é um barato que sai caro.
— Sai muito caro.
— Eu tenho me dedicado bastante a esse problema... Tem certeza?
Nem café, nem chá? Não aceita um scotch? Se você não se importa, eu vou
me servir. Preciso relaxar. Esses dias não têm sido brincadeira. Uma
pauleira... Mas, como eu te dizia, tenho me dedicado bastante a esse
problema e acho... belo scotch, uma delícia; você não sabe o que está
144
perdendo... acho que encontrei uma solução. A gente vai precisar negociar
isso com muito carinho. O primeiro passo é destituir esse comandante-geral,
que é ruim de roda. Já temos um candidato bem afinado com a gente.
Vamos promover um grande debate, com muita mídia, e isso vai custar um
pouco, vamos ter de conversar sobre isso também. O Vitor vai convidar
policiais de fora do país, pesquisadores, ONGs, universidades, essa gente
toda. O mote vai ser: diálogo entre as duas polícias. Vamos martelar muito
essa tese. Nosso candidato a comandante-geral da PM vai crescer justamente
porque vai aparecer na mídia como um defensor do diálogo, um amigo do
chefe da Polícia Civil, um amigão pessoal do Vitor. Enquanto isso, vamos
bater no atual comandante-geral. Vamos plantar notinha, essas coisas. A
gente mata dois coelhos com uma cajadada só: rifa o Fraga e fortalece o
Vitor.
— E se o Fraga se enquadrar e se transformar no campeão do diálogo
entre as polícias? — pergunta o visitante.
— Não tem problema. Ele não cairia por falta de diálogo, por ser
contra diálogo. Isso é conversa mole. Demagogia. É só pra dar ao governo
uma bela justificativa. Tem uma armadilha pra ele, bonitinha. Um dossiê;
belo dossiê. Tá quase pronto.
— Muito bom.
— Profissional, meu amigo. Com a gente só tem profissional.
— Isso é muito bom.
Santiago esclarece:
— Pois é. Nossa dificuldade, no momento, pra fazer andar tudo isso, é
desbloquear a conta do Vitor.
— Como assim?
— É um modo de dizer. O Vitor tem ótimas relações com o movimento
na Rocinha. Um movimento, diga-se de passagem, bem-sucedido.
Competente. Eficiente.
— É, eu sei.
— O pessoal é de primeira qualidade. O tráfico lá não tem criança,
violência, tiro pra se exibir. É coisa madura, séria, pra ganhar dinheiro. Eles
145
ficam na deles, não aprontam confusão e fazem um bocado de dinheiro.
Aquilo é uma senhora máquina.
— É verdade.
Santiago se levanta, vai à copa buscar gelo e, à distância, pontifica:
— Mas não há mal que não se acabe, nem bem que sempre dure.
— Vai acabar, a Rocinha? Volta à sala.
— Um vagabundo filho da puta fugiu da prisão, o Russo, urna jogada
lá, com os agentes penitenciários...
— Aquele pessoal é de amargar.
— De amargar. Tudo petequeiro. Eles topam qualquer marreca.
— De lascar...
— O vagabundo fugiu e quer tomar a Rocinha.
— Pra quem? Tá a serviço de quem?
— Não tá muito claro, ainda. Tamos na cola dele pra descobrir.
— O dono do morro não tinha desaparecido, largado tudo?
— Já voltou. O Dino.
— Voltou?
Santiago põe os pingos nos is:
— Pois é, voltou. Vitor trouxe ele de volta, pra continuar produzindo.
Tudo dependia da Rocinha. Os outros negócios do Vitor não dão nem pra
saída. Ele tem a dívida de campanha, dívida com a caixinha dos delegados,
dívida com a caixinha do governo, tem de investir na ampliação da rede.
Tudo o que você pode imaginar. É muita responsabilidade. A Rocinha é
fundamental.
— Estratégica.
— Justamente. Só que com a confusão que esse tal vagabundo, o
Russo, armou, o secretário deslocou o BOPE pra lá como medida
permanente. Em outras palavras, meu amigo: o BOPE está ocupando a
Rocinha.
— Eu vi na imprensa e soube da história, assim por cima, por que
não é a minha área, você sabe... Puta, que problema, hein?
146
— Problemão. Tá tudo trancado. Com o BOPE não tem jogo. Você
sabe. Cheque bloqueado, meu amigo. Não tá dando pra negociar com o Dino.
O próprio Dino mal está conseguindo manter o tráfico. Teve de fechar a
boca, provisoriamente. Por enquanto, tô operando só com aviãozinho. Com o
BOPE na Rocinha, o negócio caiu muito.
— E aí?
— Aí, que eu tive de agir.
— Convencer o secretário?... Mas ele não é meio duro de cintura?
É Santiago quem admite:
— Duro, muito ruim, roda presa. Não dá. Não é por aí. O único jeito
é criar uma guerra em outro ponto da cidade e atrair os caveiras pra bem
longe. É um artifício para forçar a saída do BOPE da Rocinha e liberar os
negócios do Dino.
— Criar uma guerra?
— É. Atiçar pitbull contra pitbull. Jogar o Comando Vermelho contra
o Terceiro Comando, num teatro de operações longe da Rocinha.
— Gostei do "teatro de operações". Mas de que jeito?
— Seqüestrando a mulher do líder do CV, por exemplo. A questão,
meu caro, é que eu não tenho como fazer isso sem sua ajuda. Sem a ajuda
de vocês.
— Poxa, mas você tá jogando muito pesado. Tá querendo muito. Isso
não é brincadeira. É complicado.
Santiago abre o jogo:
— Complicado e arriscado. Mas dá pra fazer. Com profissionalismo,
dá pra fazer. Vocês são profissionais, controlam as rodovias federais, têm
uma puta estrutura de comunicação, um nível de organização invejável.
Vocês têm bala na agulha. Se vocês entrarem no negócio, dá pra fazer. Não
tenho nenhuma dúvida.
— Não sei. É complicado. E eu não posso me expor. Você sabe, na
minha condição, pela posição que ocupo, com os compromissos que tenho...
São compromissos muito sérios. Muita gente depende disso. É todo um
147
esquema pesado, você sabe... A política é complicada... A responsabilidade é
muito grande. Como é que você tava pensando a operação?
— A mulher tem de sumir e aparecer morta numa casa do Terceiro. É
só invadir uma reunião do pessoal do Terceiro Comando, eliminar os caras e
deixar o corpo da mulher de vela. Antes da manchete do dia seguinte, o CV
já vai saber. Mas é preciso escolher bem. Não dá pra eliminar a cúpula do
Terceiro, porque aí não tem guerra. Pegar só bagrinho também não dá. Ê
uma questão de ajuste fino. Tem de acertar um ou outro fodão e tem de
empurrar os caras pra um confronto em alguma praça de guerra bem
distante da Rocinha.
— E você já combinou com os beques?
— Dá pra fazer. É complicado, mas dá pra fazer. O que tá em jogo é
muito importante. Não é à toa que te chamei pra conversar. Isso é coisa de
vulto, coisa pra equipe de primeira. Pra seleção. Vitor estaria disposto a
dividir com você e sua equipe o ganho líquido da Rocinha durante o verão.
Não podemos é perder o timing. O verão é a estação dos grandes negócios.
15 DIAS DEPOIS. GALERIA CENTRAL, PENITENCIÁRIA DE SEGURANÇA MÁXIMA,
BANGU I, DIA 30 DE SETEMBRO, À UMA E MEIA DA MANHÃ
Os homens de preto do BOPE apontam as mangueiras para as celas.
Os presos continuam dormindo, tombados pela exaustão.
O capitão Barros faz o sinal de comando. As torneiras são abertas. Os
jatos d’água gelada esguicham para dentro das celas com força máxima,
espirrando nas grades e nas quinas de aço, provocando um estrondo que
amortece os gritos dos líderes do Comando Vermelho. Um minuto basta para
encharcar corpo e alma. Os condenados terão mais trinta minutos de
repouso. Os policiais farão um lanche rápido nesse intervalo.
REDAÇÃO DO JORNAL DE MAIOR CIRCULAÇÃO — E REPUTAÇÃO — DA CIDADE DO
RIO DE JANEIRO, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H34
148
O diretor da redação ao telefone com o secretário de Comunicação do
governo do Estado.
— Não vou discutir. Eu só digo a você que nós não podemos retardar
mais. A edição de amanhã tem de entrar no ar, na internet. E eu tenho de
mandar o jornal pra gráfica, já. Não dá mais para esperar. Você me
prometeu a confirmação do furo e sabe que uma notícia como essa não
posso dar sem confirmação. Não vou dar sem confirmação. É meu cargo que
está em jogo. Imagina se eu digo que o prefeito da capital suspendeu as
aulas das escolas municipais, ontem, sem necessidade, só pra difundir o
pânico e disseminar a impressão de que os traficantes tomaram conta da
cidade? Só por razões políticas. Você já pensou se eu publico essa bomba de
hidrogênio e isso não se confirma? Você acha que vou entrar na tua só por
seus belos olhos, ou porque você está me garantindo? Diante de todo o
material, fartíssimo, que nós reunimos sobre as ações dos traficantes,
impondo o fechamento das lojas, em diversos bairros da cidade, por que é
que eu deveria privilegiar a sua interpretação? Claro que é interpretação. Até
agora é só isso. Até agora você não me deu uma prova concreta, objetiva, de
que foi manipulação política do prefeito contra o governo do Estado. Quem
me garante que não se trata do contrário? Como é que eu vou saber que não
é o governo do Estado que está tentando lavar as mãos e jogar a culpa na
prefeitura? Como não houve? Claro que houve. Está comprovado que houve.
Traficantes desceram os morros e ordenaram o fechamento do comércio. Foi
o que aconteceu. Ou você me dá algum dado que confirme o que está
dizendo, ou vou fechar o jornal. Não posso mais esperar. Se eu não mandar
pra gráfica imediatamente, vou ter problemas graves com a distribuição.
Você é do ramo, sabe disso.
SALA DA ENFERMARIA, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H45
Chegam as primeiras vítimas do tratamento de choque determinado
pelo governo do Estado. Dois homens na casa dos 30 anos. São os veteranos
da turma. Parada cardíaca e outras paradas. Tudo pára, menos os órgãos da
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segurança, bravos braços do Estado na manutenção da ordem pública. Já
que não dá para garantir que o comércio abra as portas e as escolas voltem a
funcionar, melhor prevenir, secando a fonte. Isto é, molhando a fonte.
Regando a fonte até amolecer sua disposição de luta. A véspera foi o caos.
Ruas desertas, comércio fechado, portas cerradas, trânsito fluente, largos
espaços vazios e silenciosos. A única voz que se ouvia, aos berros, era da
mídia e da oposição: a cidade nas cordas; a cidade beijando a lona; knockdown;
joguem a toalha; intervenção federal, pelo amor de Deus; uma idéia,
pelo amor de Deus; uma bandeira branca ou um tiro de canhão, rápido;
pano, rápido.
SALA DE REUNIÃO DOS TÉCNICOS PENITENCIÁRIOS, DIA 30 DE SETEMBRO, À 1H50
Dezesseis soldados e oficiais do BOPE sentados nas cadeiras, na
beira da mesa e no chão. Tomam refrigerantes e copos de leite. Comentam a
receptividade vip com que foram acolhidos. Lanche de madrugada era coisa
rara. Mordem com pressa a mortadela. Têm mais dez minutos antes do
próximo banho. Vilmar comenta com Zara, observado pelo Chico Santos:
— Por mim, o banho seria outro. Definitivo. Esse negócio de jato
d'água parece um troço meio esquisito. Não parece um troço sério, de sujeito
homem.
— Isso é porque tu não lá do lado de lá da mangueira.
— Pois é, mas esse negócio de mangueira, não sei não.
— Deixa de sacanagem.
— Eu, por mim, preferia levar logo uma azeitona na testa Passar um
dia e uma noite sendo bombardeado com água gelada, cara fica maluco.
Barros suspende o recreio. Hora de trabalhar.
PRÉDIO DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA, NONO ANDAR, DIA 30 DE
SETEMBRO, ÀS DUAS DA MANHÃ
150
O movimento permanece intenso. Assessores cruzam ante-salas.
Secretárias atravessam corredores com garrafas térmicas. Motoristas
cabeceiam, folheando revistas na recepção. Assessores de imprensa
discutem, debruçados sobre os monitores, navegando na internet. Os
auxiliares mais próximos dos dois chefes das polícias não se falam. Ninguém
ousa entrar no gabinete do secretário. A luz vermelha continua acesa.
GABINETE DO SECRETÁRIO, 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H05
Paletó e gravata pendurados no cabide, atrás da porta do banheiro
exclusivo. O chefe da Polícia Civil dá o último gole no resto do café frio. O
comandante da Polícia Militar franze a testa e lê as palavras miúdas
impressas nas margens da planta da penitenciária de Bangu I, que cobre
três quartos da mesa. Os três homens de confiança do secretário conversam
baixo, no sofá. O telefone vermelho toca, emitindo o som inconfundível.
— Puta que o pariu. Não se pode nem mijar em paz. Que merda.
Marquinho, atende aí pra mim. Diz ao governador que o secretário está
urinando. Pergunta se urinar pode, se urinar não afeta a imagem política do
executivo. Marquinho, eu tô brincando, hein! Olha lá o que você vai falar.
FAVELA DA MINEIRA. SAI.A DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, DIA 30 DE
DEZEMBRO, AS 2H10
Índio tenta mais uma vez contato com Bangu I. Troca de celular com
Jonas. Digita novamente. Espera ansioso uma resposta.
— Nenhum sinal. Mudo, mudo.
— Quando eu ligo, tá dando "fora da área de cobertura". Não dá nem
caixa de mensagem.
— Claro que não, Jonas. Tu é burro paca. Como é que vai dar "caixa
de mensagem", porra. Tá tudo bloqueado. Os porcos fecharam o espaço todo
em volta de Bangu.
— Então, não vai ter jeito.
151
— Claro que não, sua anta. Vai chamar o pessoal. Acorda todo
mundo. Traz quem estiver na boca.
— Chamo os falcões também?
— Claro que não, babaca. O que é que tu tá querendo? Tá querendo
nos foder. Tá querendo armar alguma armadilha? Virou X-9, seu puto? Cada
falcão fica em seu posto. Mais atento do que nunca. Manda avisar que tô
determinando alerta total.
— Posso chamar o pessoal dizendo que é tu mesmo que tá
chamando?
— Claro, seu verme. Sabe dizer meu nome?
— Índio.
— Então, porra, qual é a dificuldade? O índio tá chamando. O índio
mandou chamar. É difícil dizer isso?
— Não.
— Então não fode, porra. Vai, caralho. Corre.
GABINETE DO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H15
O secretário olha a avenida Presidente Vargas deserta pelo vidro da
janela, que reflete o movimento interno da sala. Fecha as mãos em concha
para espiar a igreja da Candelária, ao fundo. Pensa em falar da chacina, mas
desiste. As imagens da chacina enchem sua cabeça. Volta a se lembrar de
Vigário Geral. Quando a memória de Carandiru é acionada, o fluxo do
pensamento é interrompido pela campainha do interfone. Marquinho se
apressa a atender:
— Secretário, o coronel Amílcar e o delegado Vaz estão aí. Precisam
falar com o senhor com urgência. Trouxeram um relatório especial da
Inteligência.
— Manda entrar.
Favela da Mineira, dia 30 de setembro, às 2H18 Índio fica de pé:
— Silêncio que eu vou falar. Todo mundo tá presente? Falta alguém?
Olha em volta, procurando Jonas.
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— Jonas, caralho. Cadê você, porra?
Jonas abre uma fresta da porta do banheiro, que fica num joelho,
atrás da coluna da sala:
— Tô ouvindo. Pode falar.
— Falta alguém, caralho?
Jonas responde pela fresta da porta:
— Não, tá todo mundo aqui. Os representantes dos irmãos presos e
os amigos das comunidades mais importantes. Aqui só tem dono de morro e
cidadão de responsabilidade. E o nosso pessoal aqui da Mineira, também, tá
todo aqui. Menos os falcões, que é pra não dar moleza prós homens, no caso
de...
— Eu sei, cara, isso fui eu que disse.
Jonas quis cumprir seu papel de mestre-de-cerimônias, mesmo de
dentro do banheiro. Por isso, elevou a voz e gritou, num tom empostado:
Aí, rapaziada. Chegou a hora de fazer silêncio para ouvir o Índio.
Índio, é com você.
Bateu a porta. Índio assumiu o comando:
— Eu chamei vocês, porque temos uma missão. Perdemos o contato
com os irmãos, em Bangu I. A orientação foi executada, durante o dia todo
de ontem. Fechamos o comércio em vários bairros e mandamos fechar as
escolas. A missão de amanhã ia depender de um telefonema, por volta da
meia-noite, que viria de Bangu. Não aconteceu. Os irmãos estão bloqueados.
Estamos sem contato. A ordem para o caso de o contato não ser possível era
repetir, amanhã, quer dizer, hoje, porque já passa de meia-noite, a ação de
ontem e atirar em algum prédio público ou na portaria de algum hotel da
Zona Sul. Por enquanto, não vamos ferir ninguém. O plano é contar pra
imprensa o que tá acontecendo. As mulheres dos irmãos presos têm que
armar o maior barraco na frente de Bangu I, diante das câmeras das TVs,
com faixa e o escambau. A gente tem que estar preparado para o caso da
polícia resolver mostrar serviço e invadir alguma comunidade. Todos têm
que estar ligados. Todo mundo vai ficar de plantão. A união é nossa força. Se
tomarem a Mineira, o Noca organiza a resistência na Maré. Se fizerem
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incursões na Maré, o Cezinha assume o comando no Alemão. Se o Cezinha
cair ou se tomarem o Alemão, a direção passa pro Rivaldo, no Borel. Se
pintar sujeira em todas as áreas, ao mesmo tempo, o Nereu vai assumir e
comandar lá de Niterói, do morro da Coréia. Tá entendido? Alguma dúvida?
SALA DA DIREÇÃO DE BANGU I, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H20
Batem à porta. O diretor, Anacleto Chaves de Melo, permanece
sentado na poltrona, vendo TV, com as pernas apoiadas na mesinha de
centro. Emite um som gutural ininteligível. Seu principal assistente, Divaldo
Sininho, abre a porta devagar, põe a cabeça na fresta e avisa que a ordem foi
cumprida. Pergunta a Anacleto se ele quer falar com o preso ali mesmo.
Informa que o cara está à espera, na ante-sala.
— Leva o vagabundo até a sepultura. Abre, puxa a mesa, mete a
cabeça dele no buraco, pra ele sentir mais de perto aquele aconchego
uterino. Depois traz ele aqui.
Enrolado numa toalha, algemado, azulado, lábios roxos, olheiras
profundas, cabelos ralos desgrenhados, olhar sem foco, Moisés é conduzido,
aos tropeços, por três policiais militares até um compartimento obscuro, no
fundo do almoxarifado, debaixo de uma escada. O assistente do diretor abre
uma portinhola na parede, que parece uma lixeira ou uma pequena janela
interna, de três palmos de altura por quatro de largura. Puxa uma alça
prateada do interior da parede, presa a uma plataforma envernizada, de
ferro ou latão. Uma espécie de maca escorrega para fora da parede, exalando
um cheiro azedo e forte, que parece uma mistura de urina, vômito, formol e
mofo.
— Dá uma olhada nisso, Moisés. Já ouviu falar na sepultura? Cova
rasa, para os íntimos. Espia aí dentro. Dá pra ver alguma coisa? Mete a
cabeça. Dá uma olhada.
Um dos policiais acende uma lanterna e aponta para o buraco na
parede. Moisés se agacha para olhar, forçado por Divaldo. Resiste 1 à
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pressão no pescoço e tira a cabeça, num movimento abrupto. Fica de pé
num salto e perde o equilíbrio. É amparado pelos vigilantes que o escoltam.
— Vamos falar com o Dr. Anacleto. Ele quer falar com você
Voltam à sala do diretor. Batem na porta, ouvem o grunhido, Divaldo
repete a cena, mete a cara na fresta, sussurra alguma coisa, recua e ordena
que os policiais entrem com Moisés. Anacleto os recebe sem se levantar. Tira
os pés da mesa de centro, desliga a TV e ameaça a Moisés:
— Você escolhe. Alguns saem vivos de lá, outros não. Dizem que
felizes são os que morrem logo. Eu não sei. Você pode fazer a experiência e
depois contar, se sobreviver e se conseguir falar. Porque o mais engraçado é
que dificilmente o cara que sai vivo dali recupera a fala. Falar até fala, mas
nunca mais diz coisa com coisa. Você é que sabe. Se, daqui a algumas
horas, vocês fizerem a mesma baderna de ontem, fechando comércio e
outras gracinhas, você vai repousar na gaveta, na cova rasa, Moisés. Hein?
Que tal?
Moisés mantém a cabeça baixa. Não olha para Anacleto.
— As regras da gaveta são as seguintes: uma refeição por dia e um
copo d'água. O carcereiro puxa a plataforma só uns 30 centímetros, o
suficiente para empurrar o prato de comida e o copo d'água. Lembre-se que
você vai estar deitado, na horizontal, feito um defunto, todo o tempo. Ele
empurra a refeição até a altura do seu joelho, pra que você possa se
alimentar com as mãos. O copo talvez você consiga levá-lo até a altura da
boca, já que você é magro. Recomendo que você não perca o controle. Quem
fica histérico, se fode logo. Não adianta chorar. Quem entra na cova, só sai
no terceiro dia, igual a Cristo. A ressurreição, lembra? Ninguém morre sem
ar, porque a gaveta tem furos nos pés. Não entra luz, mas entra ar. Só morre
sufocado quem fica histérico ou tem bronquite, asma, essas doenças do
pulmão. Espero que não seja o seu caso, porque eu quero estar presente
quando desenterrarem você bem vivo, no terceiro dia.
Moisés permanece de cabeça baixa.
— Mas você pode evitar esse sofrimento inútil e salvar sua vida.
Depende de você. Se você decidir se salvar, pode usar o telefone da diretoria
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para dar as ordens necessárias. Nós vamos ouvir o que você vai dizer e
vamos monitorar a conversa, é claro. Portanto, nada de truques. Uma
tentativa sua de nos dar um golpe só vai piorar sua situação.
— Eu não tenho nada a ver com o que tá acontecendo — diz Moisés,
gaguejando.
Divaldo intervém:
— Sem essa, malandro, nós sabemos muito bem que você é o cara.
Não adianta negar.
Anacleto encerra o encontro. Dirigindo-se a Moisés:
Você tem poucas horas pra pensar e decidir. Falando com Divaldo:
— Deixa o cara longe dos outros. Deixa ele dormir um pouco Se ele
não descansar, não vai conseguir pensar. Sem pensar, não vai conseguir
nem pesar as coisas. Põe o Moisés no berço, Divaldo.
GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H25
Amílcar e Vaz estão sentados à mesa, sobre a qual abriram uma
pasta preta e conectaram dois minúsculos gravadores, ligados a um
notebook, cujo monitor viraram para a cabeceira, onde está o secreta rio. Ao
seu lado, sentam-se o chefe da Polícia Civil e o comandante da Polícia
Militar. Atrás de ambos, acotovelam-se os poucos assessores que
permanecem na sala. A tela de cristal líquido exibe a foto de uma mulher
que devia ter os seus 30 anos.
Amílcar fala primeiro:
— Secretário, o senhor vai gostar de ver e ouvir umas bombas que
trouxemos para o senhor.
O secretário faz um sinal com a mão, interrompendo a apresentação,
e procura o assistente na penumbra da sala.
Marquinho, confere se está acesa a luz da porta e avisa pra
suspenderem os telefonemas. Não atendo telefone, interfone, nada; não
atendo mais ninguém, ouviu? Só atendo o vermelho ou algum chamado
156
urgente do comando do BOPE. Pode seguir, Amílcar. O coronel retoma a
palavra:
— Essa mulher que o senhor está vendo no monitor é Renata. Vamos
adiante, Vaz. Pode passar.
Vaz aperta uma tecla do notebook e a foto é substituída por outra.
— Agora, o senhor está vendo a Michele. Renata e Michele: o enredo
desse nosso drama, secretário, gira em torno dessas duas personagens.
Enquanto Amílcar fala, fotos diferentes das duas mulheres são projetadas,
numa seqüência veloz. Ele prossegue:
— Renata é assistente social, tem 32 anos...
O comandante-geral da PM, coronel Fraga, interpela seu subalterno:
— Mas essa aí, essa Renata, não era aquela agitadora, do sindicato
dos agentes penitenciários? Quando eu vi a foto, pensei que essa aí fosse
aquela que pôs lenha na fogueira, durante a última rebelião. Lembra dela,
Amílcar?
— Mas é ela mesma, coronel. É ela. Só que ela insuflou os agentes
penitenciários porque é metida a líder política. Na verdade, ela não é agente
coisa nenhuma. Ela é assistente social. Deve ser comunista.
— Dá no mesmo, Amílcar. Assistente social e comunista é tudo a
mesma coisa — completou Vitor Graça, o chefe da Polícia Civil.
— Deixa de besteira, Vitor. Se vocês continuarem interrompendo o
Amílcar, como é que o homem vai me contar o que veio contar? — perguntou
o secretário. — Porra, gente, deixa o homem ir até o fim. Vamos lá, Amílcar,
mais objetividade. Vai direto ao ponto. Marquinho, arranja um café pra mim.
Quente. Fala, Amílcar, desembucha.
— Como eu dizia, secretário, Renata é assistente social, tem 32 anos,
um cachorro bassê, um apartamento no Flamengo de dois quartos...
— Genial, Amílcar. Essa é genial — emendou o secretário. — Quer
dizer que o cachorro da moça é um bassê. Isso é que é um Serviço de
Inteligência arretado. Enquanto a cidade desmancha, a secretaria derrete,
vocês conseguem essa proeza inacreditável. Descobriram a raça do diabo do
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cachorro da moça. Eta, Inteligência boa que só a porra. Vai, Amílcar, vai,
meu camarada.
— Renata tem um filho de 10 anos e um ex-marido muito especial, E
um pequeno detalhe, secretário: ela trabalha em Bangu I.
— Um detalhe interessante — disse o secretário. — Agora está
ficando quente. O que continua frio é o meu café. Ô Marquinho, pelo amor
de Deus, levanta essa bunda da cadeira, meu filho. Faz alguma coisa
decente. Toma uma providência, cacete. Já te disse que eu quero um café
quente. Será que nessa porra dessa secretaria não se sabe fazer café fresco?
Continua, Amílcar. Segue que está esquentando.
— Pois é, muito interessante. Sobretudo se o senhor souber quem é o
ex-marido dela, da Renata. O Vaz trouxe a ficha do sujeito. Vou deixar pra
ele o filé mignon.
— Eu pensei que o filé fosse a outra moça, que não é de se jogar fora.
Como é o nome dela?
— Michele. É, um mulherão... Mas a Michele está mais pra boi de
piranha do que pra filé mignon. Ela tem 27 anos, um casal de filhos e é
mulher do Moisés, que está preso em Bangu I. O Moisés do Comando
Vermelho. O detalhe interessante sobre a Michele, secretário, é que ela foi
seqüestrada.
— Ela está seqüestrada — o Vaz interveio, corrigindo seu parceiro.
— Isso mesmo: está seqüestrada. Agora, o senhor vai entender o que
é que essas mulheres têm a ver com o caos na cidade. É melhor o senhor
mesmo ouvir. Roda aí, Vaz.
— Secretário...
Vaz se ajeita na cadeira; se atrapalha com os movimentos do
secretário, que se serve de café, parecendo desligado do espetáculo que os
homens da Inteligência lhe estão proporcionando; e recomeça, quando as
atenções voltam a se concentrar.
— Esse aqui é o tipo do serviço que enche a gente de orgulho.
Quando a gente ouve o que as pessoas andam dizendo da polícia, quando a
gente lê o que se escreve na imprensa, a gente fica ferido, secretário, a gente
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fica mordido e a resposta a gente tem de dar no trabalho, na competência,
porque...
— Vamos lá, Vaz, vamos ouvir o grampo de uma vez.
— Pois não, secretário, é o que eu ia dizer. Vamos então ouvir a fita.
É um telefonema de Renata para um amigo. Ela diz que... Bem, o senhor vai
entender.
Ouve-se a voz de Renata, trêmula, chorosa: "Eu não devia estar te
dizendo isso por telefone, mas tô tão nervosa. É o seguinte: será que você me
faria um grande favor? Um favor que só se pede a um irmão?"
Uma voz de homem responde: "Renata, eu já estou ficando nervoso.
Você está me pondo mais nervoso do que você. Fala o que é, criatura."
Renata: "Antes me promete que você vai fazer o que eu te pedir.
Promete?"
Homem: "Prometo. Puxa, Natinha, confia em mim. Eu sou ou não sou
o seu melhor amigo?"
Renata: "Então promete que você vai fazer exatamente o que eu te
pedir."
Homem: "Deus do céu, eu já prometi."
Renata: "Quero que você vá buscar o Pedrinho na escola, leve ele pra
tua casa, diga que eu fui chamada pra fazer uma viagem a trabalho, de uma
hora pra outra, e que a vó dele não vai poder ficar com ele essa noite. Ele
adora você, Baby. E na escola, as professoras já te conhecem. Você já
buscou o Pedrinho outras vezes ou já foi comigo várias vezes à escola. Não
vai ter problema. Aí, você cuida direitinho dele, essa noite, não deixa ele
sozinho um momento sequer. Promete, Baby?"
Homem: "Ah, Natinha, logo hoje? Tem de ser hoje? Por que você me
pede as coisas em cima da hora? Hoje, justamente essa noite, eu combinei
de sair com o Érico. Justamente hoje, gata. Hoje. Depois de séculos. Você
sabe que ele está fugindo de mim há séculos. Ah, Natinha, hoje não. Pede
outra coisa. Pede qualquer outra coisa. Olha, eu pego o Pedrinho amanhã e
fico com ele até o fim de semana. Que tal? Você sabe que eu adoro o
Pedrinho. Que tal?"
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Renata: "Você não tá entendendo, Carlos Augusto."
Homem: "Ih! Já vi que é coisa grave. Quando você chega ao ponto de
me chamar de Carlos Augusto, é que a coisa é gravíssima."
Renata: "E é mesmo, Baby. É gravíssima. Me meti na maior merda."
Homem: "Pra variar, né, meu bem?" . Renata: "A maior merda."
Homem: "Imagino que algum bofe te chamou pra sair e você tá com
vergonha de me contar, porque teria de admitir que nunca me falou dele.
Confessa."
Renata: "To falando sério. Por que é que você não me leva a sério:
Homem: "E desde quando amor não é sério? Eu acho sério. Acho a
coisa mais séria do mundo. Só que hoje, minha santa, justamente hoje não
vai dar. Eu não posso ficar com Pedrinho. Não é só você, Natinha. Eu
também tenho os meus problemas, os meus cachos."
Renata: "O pai do Pedro seqüestrou a mulher do Moisés. Só isso, tá?
Tá satisfeito, agora?"
Homem: "Quem é Moisés? Deus do céu, quem é Moisés?" Renata:
"Vai me dizer que você não sabe..."
Homem: "Não sei. Não faço a menor idéia. Agora, há muito tempo eu
sei e você sabe quem é o pai do teu filho. Aliás, nunca entendi como é que
você foi se casar com aquele brutamontes. Eu já ouvi de tudo sobre ele.
Seqüestro é novidade. Mas o que é que você tem a ver com isso?"
Renata: "Puxa vida, Baby. Às vezes parece que você está em outro
mundo."
Homem: "E estou mesmo. Eu não me dou com gente que seqüestra."
Renata: "Acho que você não é desse planeta. Do planeta Terra, do
planeta Brasil. Do planeta Rio. Rio de Janeiro. Cai na real, Baby. Cai. Moisés
é o líder do CV. Sabe o que é CV ou também não sabe? Moisés tá preso lá
onde eu trabalho. Ele me trata super bem. Nós estabelecemos uma relação
muito positiva. Como é que eu não vou contar isso pra ele? Mas se eu
contar, o que é que o pai do Pedro e a gangue dele vão fazer comigo?"
Homem: "Meu Deus do céu, virgem santíssima. Como é que você se
mete numa coisa dessas?"
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Renata: "Não fui eu que me meti, Baby. Será que você não está
entendendo?"
Homem: "Mas tem uma coisa que eu não entendi mesmo: se você
contar para o tal Moisés, como é que o pai do Pedro ficaria sabendo que foi
você que contou? Aliás, eu também não entendi outra coisa: como é que você
ficou sabendo do seqüestro?"
Renata: "As duas coisas estão ligadas. Aí é que está o problema. Eu
soube pelo Pedrinho. Ele foi passar o fim de semana com o pai e ouviu umas
conversas estranhas, que ele mesmo não decifrou, mas eu decifrei na hora —
porque você sabe que, quando volta pra casa, ele conta tudo o que aconteceu
na casa do pai."
Homem: "Principalmente, quando o papai dele e os amiguinhos do
papai dele atiram pra cima no final do churrasco, que é um manifestação
muito saudável de júbilo coletivo, não é, Natinha?
Renata: "Eu tô falando sério, Baby. Será que você não leva nada a
sério?"
Homem: "E você não acha sério dar tiros pra cima, na frente de uma
criança, depois de um churrasco, só pra ostentar a macheza e seduzir as
mulheres presentes? Eu acho muito sério."
Renata: "Eu também acho, Baby, só que não é disso que a gente tá
falando agora. Você parece que não consegue focalizar as coisas Presta
atenção. Você tomou sua ritalina hoje? Baby, presta atenção Quando o
Pedrinho me conta alguma coisa que me mobiliza — e tá n; cara que isso me
mobilizou paca... Apesar de eu ter tentado disfarçar não pude deixar de fazer
a ele um milhão de perguntas... Quando ele me conta alguma coisa que me
toca, desconfio que ele conta pro pai depois. Quer dizer, Baby, ele conta o
que me conta e como eu reajo ao que ele me conta. Essas coisas de criança.
Baby, vou ter de desligar. Pega o Pedrinho. Leva pra tua casa. Cuida bem
dele. Não larga ele. Você não tem escolha. Me desculpa, mas dessa vez não
tem escolha. Faz isso. Vou passar a noite longe de casa. Ainda não sei pra
onde vou. Enquanto essa história não se resolver, vou tomar chá de sumiço.
Tá bom? Posso contar?"
161
Homem: "Que remédio? Que alternativa você me dá? O que é que eu
vou dizer?"
Renata: "Um beijo, Baby. Você é maravilhoso. Não vai furar, pelo
amor de Deus. Não liga pra mim. Vou mudar de telefone. Te ligo assim que
der. Um beijo. Vou ter de desligar."
FAVELA DA MINEIRA. SALA DE REUNIÃO DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, DIA 30
DE SETEMBRO, ÀS DUAS E MEIA DA MANHÃ
Noca rompe o silêncio que se seguira ao discurso do Índio.
— Tô aqui, em meu canto, ouvindo. Vim da Maré com Murici e com
os manos que estão por aí. Tô ouvindo, ouvindo o Índio, e remoendo o que
ele disse. Quando ele acabou de falar, ouvi muita gente dizendo "é nós", "é
nós". Tudo bem, eu também tô junto na parada, só que tem coisa aqui que
não tá certa. Eu não tô gostando. Tu tá posando de general da parada, Índio,
mas essa parada não tem general. Se tiver algum, ele não tá aqui com a
gente, pela vontade de Deus. Ele tá lá em Bangu, pagando os pecados dele.
Talvez essa parada tenha general, até mais de um. Tudo bem. Mas eles não
tão aqui. Aqui não tem cacique, viu, Índio? Tu não é cacique, eu não sou, o
Cezinha não é, Rivaldo não é, nem o Nereu. Ninguém aqui é general, nem
cacique, porque nessa parada, não tem general nem cacique. Tu tá
entendendo, Índio? Nossos irmãos presos, sim, alguns deles, se tivessem
aqui, poderiam cantar de galo. O Moisés... Se o Moisés estivesse aqui com a
gente. Mas Deus não quis, ele não está. Então, não tem general, nem
cacique. Tá entendido? Vamos começar tudo de novo. Fala aí, Murici.
— Índio, tu não conseguiu falar com os amigos de Bangu, porque tu
tá tentando falar com a ala norte, que tá bloqueada. Na ala sul, o Silvinho tá
fazendo contato, normalmente. Quer dizer, não é normalmente, porque eles
tão debaixo de chuva. Mas de hora em hora, ele tá fazendo contato. E o que
ele diz é bem diferente das idéias do Índio.
162
— Porra, eu não tô entendendo — o Índio interrompe Murici. — Tu
vem aqui, Noca, com teu pessoal, pra me criar problema, na frente do meu
pessoal e de todos os amigos do Rio, da Baixada, de São Gonçalo, do interior
e de Niterói? Tu vem aqui pra questionar minha autoridade na frente de
todos os amigos do Comando? Qual é a tua, cara? Será que não basta o
seqüestro da Michele? Será que a gente vai ter mais problema?
Jonas aproveita a deixa:
— Quem é o Silvinho pra se meter a chefe? O que é que o Silvinho tá
pensando?
Índio:
— Não te mete, porra. Cala essa tua boca, Jonas. Eu mandei tu falar?
Não faz merda, porra.
Agora, é Cezinha que intervém:
— Ninguém aqui pode duvidar do Silvinho, porra. Que negócio é
esse? Ele é um parceirão e tá ligado no processo. Se ele falou com o Murici e
mandou mensagem lá de dentro, a gente tem de saber qual é a mensagem,
antes de decidir o que fazer. Vamos deixar de disse-me-disse e de veadagem.
Ninguém é mais que ninguém aqui. Nem a gente tá aqui pra decidir quem
manda em quem. A gente tá aqui pra cumprir as ordens dos amigos de
Bangu, que tão ao lado do Moisés. Fala aí, Murici. O que é que o Silvinho
disse?
— Ele disse que não é pra fazer mais nada, não. Que já tá de bom
tamanho. Que o arrocho na penitenciária tá muito forte. Que é melhor
esperar pra ver como é que fica. Basta mandar as mulheres fazerem a
manifestação e denunciarem na imprensa os maus tratos. No mais, é
aguardar novas instruções.
Noca retoma a palavra:
— O mais importante é o seguinte. O Silvinho disse que ninguém
entendeu direito por que a polícia seqüestrou a Michele. Grana não é. Por
que é que os porcos fariam isso pra morder alguma grana? Eles tão no
arrego das bocas, tão no acordo das armas, tão sempre aumentando o
percentual deles, no máximo, pinta uma porradaria aqui e ali, uns tiros aqui
163
e ali, mas a gente acaba chegando a algum entendimento. Dinheiro, eles
sabem que não tem mais por onde esticar. Eles também sabem que mexendo
com a mulher do Moisés só iam arrumar sarna pra se coçar. Só iam arranjar
confusão.
Rivaldo, que estivera calado todo o tempo, interrompe o raciocínio do
Noca, com seu incomparável jeitão de pastor evangélico:
— Aí é que está, meus irmãos. Aí é que está o pomo da verdade.
Jesus falou: eu sou o caminho, eu sou a luz; só por mim se chega ao pai.
Isso significa o seguinte: só por Cristo é que se chega à verdade. E Jesus
Cristo falou para nós e através de nós. O Espírito Santo iluminou o Silvinho
e abençoou o Noca. Por meio deles, Jesus nos soprou a brisa vivificadora da
verdade. Qual é a verdade, irmãos? Está aí, diante de todos nós. Graças a
Deus, graças a Jesus e ao Santo Espírito, a verdade chegou até nós, fez a
sua longa travessia e, depois de penosa jornada pelas sombras da
ignorância, chegou até nós, aqui, nessa madrugada. Deus seja louvado,
irmãos. A verdade cristalina está aí: os porcos sabiam que mexer com
Michele provocaria a maior confusão, o maior tumulto, o caos. Não é? Noca
não disse isso? Pois é, irmãos. É isso mesmo: os porcos queriam colher a
confusão que semearam. Eles não estavam atrás de dinheiro. Estavam atrás
de confusão. Compreenderam?
Cezinha não compreende:
— E daí, Rivaldo? O que é que tudo isso quer dizer? Por que é que os
policiais iam querer confusão?
Índio é quem puxa o fio da meada:
— Eu entendi o que o Rivaldo quis dizer. Não sei se ele tá certo, mas
entendi o que ele quis dizer. A polícia quer a confusão. Essa merda toda, por
alguma razão, é o que eles querem. Os porcos é que estavam atrás dessa
merda toda. A merda interessa a eles.
Cezinha: — Mas o que é que eles querem com isso? O que é que eles
ganham com a merda na cidade? Isso é político? Será que querem derrubar
o governo?
Rivaldo: — Ou o secretário? Noca: — Ou o chefe da polícia?
164
Índio: — Ou não querem derrubar ninguém. Quem sabe os porcos
têm algum plano para promover alguém? Ou pode ser um outro esquema
mais complicado, que a gente não tem como descobrir agora.
Noca: — Tu não é cheio dos contatos políticos, Índio? Porque é que tu
não tenta desvendar essa porra desse mistério?
Rivaldo: — É isso mesmo. Onde há mistério, há luz e escuridão.
Vamos orar. Vamos orar por Michele, por Moisés, por nossos irmãos em
Bangu, por todos os irmãos, por nossa união. Depois vamos em paz.
Amanhã vai ser um dia difícil. Vamos repousar e vamos nos recolher. O
recolhimento não é um recuo. É um movimento tático que demonstra
prudência e sabedoria. Enquanto isso, Índio vai fazer a sua pesquisa.
Noca: — Amanhã, a reunião vai ser lá na Maré. Cezinha: — Depois de
amanhã, no Alemão.
Índio: — Não vai ter depois de amanhã, porra. Vocês não perceberam
que a coisa é grave? Ou vai ou racha. Só sei que isso não dura mais 48
horas. Tá tudo suspenso até amanhã à noite. Ninguém faz marola.
GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30 DE SETEMBRO
O delegado Vaz conclui sua exposição:
— Michele desapareceu do morro da Providência, onde foi visitar a
mãe, com o casal de filhos. Saiu pra rever umas amigas. Voltaria no final da
tarde para buscar as crianças. Não voltou. Isso foi no domingo, há dois dias,
quer dizer, três... hoje já é quarta-feira.
O comandante-geral da PM intervém:
— A mãe registrou a ocorrência? A DP foi informada?
— Não, coronel. Sabe como é. Mulher do líder do CV desaparece. A
matéria é de estado-maior do crime. A sogra do Moisés jamais daria parte à
polícia.
— É, eu sei. Foi o que imaginei. Por isso, achei estranho vocês terem
essa informação. Você disse que a Inteligência está monitorando a
ocorrência desde a madrugada do domingo pra segunda?
165
Sendo assunto tão sério pra eles, achei estranha a rapidez com que
os informantes agiram. De qualquer modo, parabéns.
— Parabéns, o escambau — era a vez do secretário. — Parabéns,
coronel? Como, parabéns? Belo serviço, a Inteligência acompanha o caso e
deixa essa merda explodir. De que é que adiantou a rapidez da informação,
se só agora a gente está tendo acesso a ela, depois que a porra toda
explodiu? Foi obra do Terceiro Comando ou desse tal ADA, o Amigos dos
Amigos?
Vaz: — Do comando azul, secretário.
— Que porra é essa? Os vagabundos já criaram outra organização
criminosa?
O chefe da Polícia Civil saboreia as palavras:
— Comando azul é a PM, secretário. Vaz: — É como o crime chama a
PM.
Secretário: — E vocês da Inteligência, para mostrar coerência com o
título, fidelidade ao título, passaram a usar o vocabulário do crime?
O comandante Fraga concorda com a cabeça:
— Isso não ajuda, delegado Vaz. Isso não é bom.
Vaz: — Desculpa. Não era minha intenção. Eu só estava citando o
que ouvi dos criminosos.
Amílcar: — O Vaz não fez por mal, não. Taí um cara leal à nossa
corporação militar, de coração. Às vezes eu até me esqueço que ele é civil.
Realmente, nem parece.
Vitor Graça: — Por quê, coronel? Não entendi. Você foi consertar e só
piorou. Algum problema em ser policial civil?
Secretário: — Porra, vamos parar com essa veadagem toda. Vaz,
daqui pra frente, quando quiser falar em PM, fala PM, entendeu? Já basta o
vandalismo que tomou conta da cidade. Não sei até que dia eu vou ficar
nessa cadeira. Isso vale pra vocês dois também (disse isso, olhando para
Vitor e Fraga). Se vocês continuarem com essa frescura, nós não vamos a
lugar nenhum. Vamos brigar e morrer juntos, no abraço do afogado.
Continua, Vaz. A mulher foi seqüestrada pelo comando azul...
166
— É, exato, quer dizer, isso mesmo, secretário, a Michele foi
seqüestrada pela PM.
Fraga: — Você quer dizer, por algum policial militar, não pela
instituição policial militar...
Secretário: — Ah, cacete! Fraga, porra. Fraga! Você entendeu, não
entendeu? Então, não fode. Segue, Vaz. E agora chega de interrupções.
Vaz: — A mulher do Moisés desapareceu no domingo à tarde e, ao
que tudo indica, foi seqüestrada por policiais militares.
Fraga: — Desculpe, secretário, mas eu gostaria de fazer uma
pergunta ao delegado Vaz.
O secretário permanece em silêncio, olhando para a mesa à sua
frente. Respira fundo, depois movimenta a mão direita, levemente, como que
passando a palavra ao comandante-geral da PM, numa coreografia irônica.
Fraga: — O delegado Vaz mencionou policiais militares. De onde vem
essa certeza? Não haveria policiais civis envolvidos?
Secretário: — De novo? Mas será possível?
Fraga: — Perdão, secretário, mas a pergunta é exclusivamente
técnica.
Vaz hesita e olha para o secretário, que mantém o silêncio.
Vaz: — Ainda não sabemos, coronel. Por enquanto, só sabemos dos
policiais militares.
Secretário: — O ex-marido daquela moça que trabalha em Bangu I...
Amílcar: — Renata.
Secretário: — É policial? Policial militar?
Vaz: — Exatamente, secretário. É o capitão Santiago.
BANHEIRO DA CASA DE SANTIAGO. ALTO DA TIJUCA, DIA 29 DE SETEMBRO, ÀS
19H18
O banho é interrompido pelo sinal do rádio. Santiago fecha a torneira,
puxa a toalha, estende o braço, atende o celular e escuta. Em seguida,
responde:
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— Repete com calma a história, Miranda. Não fica nervoso. Não
adianta nada ficar nervoso. Por que sair de minha casa? Tenho toda a
segurança aqui. Mas por quê? Como é que é? Onde é que você ouviu isso?
Como é que você ficou sabendo? Ele quem? Por quê? Mas ele mesmo te
disse? Tá bem. Já entendi. Entendi. Agora, fica calmo, respira fundo, fica
tranqüilo. Não, de jeito nenhum. De jeito nenhum, porra. Ficou maluco? Me
encontra no abrigo anti-nuclear. Você sabe, cacete. Entendeu? Claro. Daqui
a uma hora. Leva ele também. E mergulha, Miranda. Mergulha, copiou?
EDIFÍCIO DE QUATRO ANDARES, NA RUA DOIS DE DEZEMBRO, NO FLAMENGO, DIA
30 DE SETEMBRO, ÀS 2H50
O interfone do apartamento 202 toca sem parar. Depois de muita
insistência, no pequeno jardim que separa a portaria da calçada, ouve-se
uma voz feminina:
— Quem é? Quem é?
— Polícia. Precisamos que a senhora desça e abra a porta. Não é
nada com a senhora, não. Não se preocupe. Precisamos dar uma batida no
apartamento de uma vizinha sua, que é receptadora de drogas. A senhora
não mora na frente? Pode dar uma olhada pela janela. Temos de verificar
uma denúncia. Temos mandado judicial.
— Trote, numa hora dessas? Você acorda uma senhora, mãe de
família, uma hora dessas, pra fazer uma brincadeira? Tem cabimento?
— Não é brincadeira, minha senhora.
— Se não é trote, é assalto. Você assustou meu filho, sabia? Vai
embora ou eu chamo a polícia.
— Mas eu sou a polícia... Alô, alô.
Depois de apertar muitas vezes o interfone, ouve-se a mesma voz
feminina:
— Já disse, ou você pára ou chamo a polícia.
— E eu já disse, minha senhora, eu sou a polícia. Viemos verificar
uma denúncia de receptação de drogas. Pode olhar pela janela. A senhora
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verá a viatura com o "giroscópio ligado. Me diga o número do apartamento
do síndico, senão vamos ter de arrombar a porta.
— Drogas, no prédio?
— É, drogas. Qual é o apartamento do síndico?
— É o 104. Seu Jarbas. Ele vai ficar furioso. Não diz que fui eu que
dei o número, hein?
— Pode deixar.
Tratativas concluídas, caso bem explicado, seu Jarbas desce as
escadas resmungando e pensando que, afinal de contas, a economia que se
faz no condomínio talvez não valha tanto a pena assim. Quando sobe as
escadas com os dois policiais, chega a cogitar a hipótese de se mudar para
um prédio com elevador, contrariando suas teorias sobre a boa equação
preço-qualidade.
— Segundo andar — anunciou como se fosse necessário, dando
graças a Deus pelo fato de o traficante não morar no quarto andar. Ele
precisaria tomar fôlego, antes de subir os outros dois andares. Segundo
andar — repetiu, para evitar dúvidas. Ele preferia as coisas claras, sem
ambigüidades. Por isso, detestava atrasos e indisciplina. Seu Jarbas se
orgulhava da carta que escrevera para O Globo e que o jornal finalmente
publicara, em 1988, sobre as mazelas que decorrem da confusão entre o
público e o privado. Citava o exemplo que sempre lhe pareceu o mais
revelador: as mães mal-educadas que deixam seus filhos brincarem nos
corredores dos prédios. Ele sabia de cor a carta, porque sempre a relia em
voz alta, nas efemérides familiares: "Pior as mães que os filhos. Tudo começa
e termina na família. A indisciplina dos mais velhos é a escola da desordem
urbana. A bala perdida é filha bastarda da mãe relapsa."
— Seu Jarbas, o senhor tem de ficar aqui e entrar conosco.
Precisamos de testemunha. Onde é o apartamento 203?
— Nos fundos.
Um dos policiais toca a campainha do 202. Jarbas não se contém:
— Vocês estão atrás da dona Renata, do 203?
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— Acho que é esse mesmo o nome — respondeu o policial, checando
os documentos que folheava. — Renata Fontes, apartamento 203.
— Eu não devia dizer isso. Principalmente a vocês e num momento
como esse, mas me parte o coração ver como essas jovens não ligam pra
família, não conseguem manter uma vida familiar decente, e acabam se
perdendo nas drogas. Essa moça é uma boa pessoa... parece, pelo menos. Ê
uma lástima que não tenha marido, uma vida equilibrada, normal. Vive
sozinha com o filho. Essas moças divorciadas, vocês sabem. Elas recebem
uns amigos que não recomendam muito. Vai ver foram as más companhias.
Me parte o coração, mas não me surpreende: "Tudo começa e termina na
família. A indisciplina dos mais velhos é a escola da desordem urbana. A
bala perdida é filha bastarda da mãe relapsa."
— O senhor é professor?
— Em certo sentido, meu filho, em certo sentido devo admitir que
sou, sim. Mas me formei em contabilidade. Aposentado, hoje em dia estou
aposentado.
Jarbas cala-se e observa a preparação dos policiais para o
arrombamento, depois de tocarem a campainha e esmurrarem a porta. Em
seguida, volta à carga:
— Dona Renata parece uma moça boa. É uma pena. Tão simpática. A
gente de vez em quando briga, por causa daquele pequeno terrorista que ela
tem em casa, mas aprendi a gostar dela. Eu me afeiçôo às pessoas. Sou de
uma outra época. Além do mais, a gente vai ficando velho e o coração vai
ficando mole.
Um policial olha para o outro, enquanto aperta a campainha do 202.
Pensam, os dois, em dizer alguma gracinha, mas consideram que seu Jarbas
talvez não receba com fairplay a brincadeira.
— Vocês são do 2º Batalhão?
Um dos policiais pergunta sobre os demais moradores do andar.
Jarbas apresenta seu relatório improvisado:
— No 202, mora dona Doris, amiga de Renata, mãe de um filho da
idade do filho da dona Renata. Os meninos estudam e brincam juntos. A
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diferença entre elas é que Doris é viúva, não é separada. No 204, mora uma
senhora de idade. Dona Laura é surda feito uma porta. Vocês podem
derrubar as paredes do prédio que ela não vai acordar. O 201 está vazio,
desde que o morador morreu. Os filhos não se entendem. O apartamento
está no inventário. Esse negócio de inventário... Por isso é que eu já escrevi
meu testamento. Desde que fiquei viúvo, escrevi.
Doris abre a porta, com um roupão de piscina.
— Que baderna é essa? O que é que vocês querem? Seu Jarbas, o
que é que está havendo?
— A dona Renata é traficante de drogas e os policiais vão revistar o
apartamento.
— O quê?
Um dos policiais completa a informação prestada pelo síndico:
— Precisamos de duas testemunhas.
— Renata? Renata, traficante? Que absurdo! Seu Jarbas, o senhor
não vê que é um absurdo? É calúnia. Só pode ser denúncia falsa. Como é
que a Renata ia ser traficante, seu Jarbas? Imagina? Morando aqui, em um
apartamento de dois quartos de fundos, no Flamengo... Se ela fosse
traficante devia estar melhor de vida, o senhor não acha?
— Dona Doris, nessas coisas a gente não deve achar nada. A gente
deve ficar calado e deixar a polícia achar o que tem de ser achado.
— Aposto que foi o senhor que denunciou. Aposto que é vingança do
senhor, porque o Pedrinho xingou o senhor e a Renata riu.
— Minha filha, falta de educação a gente cura com multa, não é com
batida policial, não. A senhora já deveria ter-se convencido de que eu sou
um legalista. A multa já foi expedida pelo condomínio.
Doris dirige-se aos policiais, que estouram a moldura da porta:
— A dona da casa não está? Dona Renata não está em casa? Como é
que vocês sabem...?
Os policiais entram na pequena sala de estar de Renata e procuram
pelo interruptor para acender a luz. Chamam as testemunhas e avançam
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para o interior escuro da casa. Enquanto Jarbas e Doris discutem, um dos
policiais vem do quarto com um saco:
— Pronto, missão cumprida. Tá aqui. Cocaína e maconha. Deve ter
dois quilos de cada. Vamos ver se ela também guarda as armas em casa.
Doris não conseguia conter a perplexidade, agora intensificada:
— Armas?
O policial é escolado em busca e apreensão:
— Quero que as duas testemunhas venham ver onde estava o saco
encontrado.
GABINETE DO SECRETÁRIO, DIA 30 DE SETEMBRO, ÀS 2H59
Secretário: — Como é que vocês chegaram a esse Santiago? Vaz: —
Pela Renata, secretário.
Amílcar: — Nós temos seguido os passos do Moisés. Os passos é
modo de dizer, porque o homem tá preso. O senhor entende... Estamos
acompanhando o camarada. Ele troca de celular a toda hora. Os traficantes
da Mineira, da Providência, da Maré, do Alemão, do Jacarezinho, do Borel,
da Coréia, o pessoal do comando mais próximo ao Moisés, nós temos tentado
monitorar, na medida do possível. É difícil, porque hoje em dia é difícil
encontrar quem se disponha a cooperar. Ninguém quer ser X-9 e acabar
torrado no microondas. Além disso, os chefes, os gerentes e os que fazem a
ponte com Bangu se cuidam. Usam pré-pagos, Nextel, rádio, vão trocando e
evitam falar muito. Numa das conversas que conseguimos grampear, surgiu
o nome da Renata. Parece que ela fez amizade com alguns dos presos e já
andou ajudando a levar e trazer informações. Coisas menores, sem
importância, fotos familiares, coisas assim. Mas foi suficiente pra conquistar
a confiança do pessoal. Nós aproveitamos e transferimos o foco para a moça,
que é muito mais fácil. Apostamos e ganhamos. Sabíamos que mais cedo ou
mais tarde, ela nos levaria a alguma mina de ouro.
Vaz: — Santiago, nós levantamos que é um sujeito meio
problemático. Na corporação, ele andou se metendo em alguns problemas. O
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