corresse em pista própria. O mais provável é que o Félix estivesse não
apenas na nossa mira, mas na mira de mais alguém. De outro... organismo,
digamos assim. Nossa hipótese é essa: Félix viu, na reunião com Luizão, dois
companheiros do grupo serem incumbidos de procurar o Anderson,
provavelmente em busca de algum acordo ou algum negócio para o grupo,
mesmo que Luizão tenha apresentado a operação como um serviço para
beneficiar Vitor, porque ele sempre faz questão de enfatizar sua lealdade a
Vitor. Félix, que vinha mantendo encontros reservados e sigilosos com Vitor,
provavelmente por precaução do chefe da polícia, que não confiava
suficientemente na lealdade de Luizão...
— Vitor desconfia de todos os que podem competir com ele —
espicaça Amílcar.
— Então, Félix, que trabalhava para Vitor, infiltrado no grupo de
Luizão...
— Sendo que o grupo do Luizão defendia o Vitor... — o secretário
proclama seu incômodo.
— Sim, secretário, mas nesse meio... O senhor mesmo disse que é um
vulcão...
— Pior, Vaz. Eu estava sendo bonzinho. Isso é uma selva aquecida a
napalm...
— Pois é. O fato é que, quando Félix viu que o grupo ia se apossar da
fita, o que daria ao Luizão poder de vida e morte política sobre o Vitor,
apressou-se a avisar o chefe. Vitor, na dúvida, determinou que o Félix agisse
antes, com todos os riscos que isso implicaria pra carreira dele, porque bater
de frente com o Anderson é bater de frente com o Amarildo e, portanto, com
o governador. Mas ele não tinha escolha. Provavelmente, deu a ordem para
que Félix eliminasse o Anderson, se apropriasse da fita, lhe deixasse como
uma encomenda inocente, na delicatéssen, e se retirasse para um local
seguro, que eles já deviam ter definido há bastante tempo.
Amílcar faz um sinal para Vaz e intervém:
— Nesse ponto é que entra o tal... outro organismo, que também
acompanha os passos desse pessoal todo. Eles devem ter visto o que nós
240
vimos. Imaginaram a possibilidade de que o Félix tivesse mantido consigo
uma cópia, o raptaram, se apossaram da cópia da fita e eliminaram o Félix.
Provavelmente, acabaram com ele.
— Mas Amílcar, como é que o Vitor teria ficado sabendo do
assassinato do Félix? — pergunta o secretário.
— Ele atendeu uma ligação do Luizão, usando o telefone do gabinete
da chefia da polícia.
— E daí?
— Ele sabe que nós grampeamos esse telefone. Nós descobrimos que
ele sabe e que mantém as coisas assim, pra tentar nos manipular. Ele só
fala naquele telefone o que deseja que a gente ouça. A gravação que nós
fizemos, agora à noite, por volta das oito horas, está aqui.
Amílcar aperta um botão no pequeno aparelho. Ouvem-se as vozes:
Voz não identificada — Doutor Vitor, o delegado Luizão na linha dois.
Vitor: — Alô.
Luizão: — Porra, por que é que você desligou o rádio?
Vitor: — Pode falar, Luizão. O que é que houve?
Luizão: — O que houve é que mataram o Félix.
Vitor: — O quê?
Luizão: — Ê isso mesmo que você ouviu.
Vitor: — Quem?
Luizão: — Os traficantes da Mineira. O pessoal do Índio.
Vitor: — Que tragédia. Que covardia. Como é que você ficou sabendo?
Luizão: — Ligaram pra mim do rádio dele. Tomaram o rádio dele e
ainda me sacanearam.
Vitor: — Meu Deus!
Luizão: — Disseram que vão ferver ele no microondas. Vitor: — Lá na
Mineira? Luizão: — Positivo.
Vitor: — Companheiro, agüenta firme o tranco. Nós vamos dar uma
resposta a essa humilhação. Vou tomar providências e já te ligo.
Luizão: — E o...?
241
Vitor: — Já te ligo.
Amílcar retoma seu relato:
— Secretário, dois mais dois são quatro. Se o Félix morreu mesmo,
não podemos ter absoluta certeza, mas podemos ter certeza de que não
morreu na Mineira. Se a conversa que o senhor acabou de ouvir não foi uma
representação, um grande teatro...
— Duvido. Só se o Luizão fosse um grande ator — diz o secretário.
— Também duvido. E se não foi teatro, o Luizão foi mesmo informado
do assassinato do Félix pelo rádio do próprio, e isso ele tinha como atestar
pelo bina do rádio dele. Portanto, provavelmente, alguém da PRF ligou para
Luizão, se passando por traficante da Mineira.
— Mas por quê? A quem, na PRF, interessaria incriminar os
traficantes da Mineira?
Agora, é Vaz quem fala:
— Se Vitor fez questão de desligar o rádio e impor a Luizão uma
conversa para nosso grampo, é porque, por alguma razão, interessa a ele que
essa conversa que eles tiveram seja ouvida pelo senhor, por nós. O que se
diz nessa conversa? Que uma pessoa morreu. Que essa pessoa morreu num
certo local e pela ação de traficantes.
— Todos ficariam sabendo de tudo isso, de qualquer jeito, ora bolas
— contesta o secretário.
— Será? O corpo, onde está? Microondas destrói o corpo. Sim,
sempre é possível um exame de DNA, mas quanto tempo pode levar até que
se achem as cinzas? Há tantos cemitérios clandestinos nas favelas e tantos
outros na Baixada Fluminense. Mas talvez o foco da atenção não sejam a
morte e o corpo, mas o local e as circunstâncias. Talvez a grande questão
seja essa.
— Eles querem incriminar a favela, determinados traficantes? Isso
tudo se relaciona com o seqüestro da Michele?
— Sim, claro. Veja, secretário: o seqüestro se frustrou. O Santiago
montou e provavelmente teve de desmontar, pra sobreviver. Se a intenção do
seqüestro não era grana...
242
— Não era? Ainda não estou convencido — diz o secretário.
— Digamos, por hipótese, secretário, apenas por hipótese, que não
tenha sido por dinheiro. Por que teria sido, então? Vamos voltar ao Félix.
Vitor ligou para o coronel Fraga, pedindo o BOPE. Ligou para o senhor. O
que é que ele queria?
— Tenho certeza de que ele não queria o BOPE, queria o Core lá na
Mineira — responde o secretário.
— Mas o que é que ele obteve, como a decisão do senhor? O BOPE na
Mineira, não foi?
— Foi. Mas não creio que fosse o que ele, de fato, quisesse...
— Mas foi o que acabou acontecendo, não foi? E a sua decisão,
provocada pela conversa com ele, coincide com o que ele pediu ao coronel
Fraga.
— E daí? O que é que tem a ver essa decisão com os dois crimes, o
seqüestro e o possível assassinato? — interroga o secretário.
— Os dois crimes apontam para o mesmo ponto — diz Vaz.
— O BOPE — completa Amílcar.
— O BOPE?
— Claro, secretário.
— Como claro? Vocês querem incriminar o BOPE?
— Não, ao contrário — Vaz retoma a explicação. — O coronel Fraga
não parece muito disposto a abrir mão do controle da Rocinha, onde o BOPE
está totalmente empenhado, certo? Um dossiê apócrifo contra o Fraga cai
como uma bomba, por acaso, por coincidência, na redação do mais
importante jornal do estado. O seqüestro falha, não é? Outra morte é
providenciada. Morte que empurra o BOPE pra Mineira. Pra onde se
desejava empurrar o caso Michele? Talvez para a necessidade de um
deslocamento do BOPE.
— Em direção à Mineira? — pergunta o secretário.
— Não sei, mas provavelmente para bem longe da Rocinha.
— Confesso que ainda estou meio confuso.
243
— É natural, secretário — diz Amílcar. — Nós também estaríamos, se
não tivéssemos visto as imagens que vamos lhe mostrar agora.
Vaz levanta-se, troca as fitas no aparelho e diz:
— Essas são imagens do seu carro, tomadas no dia 29 de agosto.
Repare. Atrás de seu carro está o carro com sua segurança. Observe o carro
que vai atrás do carro da segurança, mantendo uma certa distância. É um
Passat branco, chapa fria, com dois homens. Esse carro seguiu o senhor
durante um mês. Olhe bem, agora, secretário.
Nesse momento, a imagem congela num close. No halo, vê-se o rosto
do acompanhante do motorista, no Passat branco. Vaz prossegue:
— Está vendo este homem, secretário? Nós o acompanhamos.
Descobrimos quem ele é. É Jaime Correia, o Jaiminho Onça, braço direito
para assuntos menos recomendáveis, e extra-oficiais, do superintendente da
Polícia Rodoviária Federal, no estado do Rio de Janeiro, Polinices Vieira da
Silva. Silva, para os íntimos. Amílcar vai até a televisão, avança a fita e diz:
— Veja, agora, essas imagens, secretário. Um supermercado pacífico,
tranqüilo, ameno, ingênuo. Repare naquele carrinho no canto. Ele acaba de
ser deixado ali pelo mesmo homem que estava no Passat branco. Vou recuar
um pouco a fita para o senhor ver. Passei além do ponto. Aqui. Agora, sim.
Perceba, secretário: Jaiminho Onça fazendo suas compras frugais,
tranqüilamente, como um bom chefe de família, solidário com as lides
domésticas da esposa. Ele se afasta. Observe que, nesse momento, outro
homem entra no campo de visão. Pronto, assumiu o carrinho. Mas nenhum
dos dois fará nenhuma compra. O carrinho ficará abandonado, em algum
canto. Esse pessoal acredita tanto na impunidade, que nem se importa de
fazer o escambo em pleno supermercado, onde há câmeras por todo lado.
— Eles não estão nem aí — sublinha Vaz.
— Secretário, nós passamos a acompanhar o tal Jaiminho, desde
que o identificamos no carro que seguia o senhor. Acabamos nos deparando
com esse escambo: um leva um embrulho, deixa no carrinho; outro pega o
embrulho e deixa o carrinho.
244
— Se eles não temem a punição, por que não trocam embrulhos sem
essa encenação toda?
— Porque os que trocam o embrulho não se conhecem, secretário,
não são sempre os mesmos e não devem se ver. Não é proibido que se olhem,
mas devem evitá-lo, para sua própria segurança. Um dia, colamos uma
mulher no Jaiminho e, assim que ele saiu de perto do carrinho, ela deixou o
dela com um embrulho e ficou com o dele. Como os personagens não ficam
se olhando, conferindo as encomendas ou olhando pra trás, não foi difícil.
Veja a operação.
Amílcar volta a levantar-se e avança mais um pouco a fita, que
mostra ao secretário o movimento que lhe fora descrito.
— E vocês têm o embrulho?
— Claro, secretário. Está aqui —Amílcar responde, enquanto Vaz
abre uma maleta, tira um grande envelope e o entrega ao secretário, que não
consegue abri-lo.
— Está colado? Vocês não abriram?
— Abrimos, secretário. Puxe a fitinha azul, ali no canto. Deixe que eu
abro pro senhor,
As fotos e as fotocópias dos documentos bancários, em inglês, são
dispostas sobre a mesa.
— Meu Deus!
— O pior não são as fotos, secretário. Dê uma espiada nos
documentos bancários.
— Amílcar, isso é o quê, lavagem de dinheiro? Onde fica esse banco?
Em algum paraíso fiscal... E essas senhas, seriam dessa conta? Essa conta
seria mesmo do governador? Vaz, é impressionante. Esse pessoal tem o
governador nas mãos. As fotos já bastariam para acabar com ele. E eu que
pensei que tudo chegava a ele, sem meu conhecimento, porque ele era super
poderoso. Já está na hora de juntar as peças do quebra-cabeça. O que é que
vocês me dizem? Como é que tudo isso se relaciona com os grampos em meu
telefone e os receptores em meu gabinete? Quem fazia a troca de embrulhos
245
com o tal Jaiminho? A PRF está com Vitor ou contra ele? Se está com ele,
por que matou ou negociou com o Félix? Se está contra ele, por que ligou ao
Luizão do rádio do Félix, dizendo a Luizão o que o Vitor queria que fosse
dito, ou seja, dizendo ao Luizão que Félix foi assassinado na Mineira?
Vaz se levanta e puxa o quadro móvel para perto da mesa, voltando-o
para o secretário. Pilot na mão, apresenta a conclusão de sua hipótese:
— Minha convicção e a do Amílcar, secretário, é a seguinte. Por
alguma razão, o Vitor não quer o BOPE na Rocinha. Se não quer, é porque o
BOPE está dificultando alguma coisa que interessa a ele. A gente sabe que o
BOPE é violento, tem um treinamento duro para operações de guerra, não
poupa ninguém, trata as favelas como territórios inimigos e as comunidades
como populações inimigas. Em compensação, não corrompe, nem se deixa
corromper. Não admite os "arregos", as transações com os traficantes que
estão acabando com a PM. Hoje, secretário, não dá pra pensar o crime no
Rio sem pensar no tráfico. E não dá pra pensar no tráfico sem pensar nas
polícias. Um não existe sem o outro. Não só a PM. A exceção é o BOPE. Até
quando ele será exceção, não sabemos. Parece inevitável que se contamine
também. Ê impossível mantê-lo como uma ilha, cercada de corrupção por
todos os lados. Mas hoje, o BOPE ainda é uma ilha. Fraga não é corrupto.
Transige aqui e ali com uns e outros, porque sabe que não sobreviveria,
politicamente, se enfrentasse os focos dentro da polícia, em todas as frentes.
Quem tentar fazer isso, secretário, cai ou morre.
— Essa imagem do Fraga tá dourada demais pro meu gosto, Vaz.
Vigiar o secretário com motoristas você acha que é norma aceitável, é parte
do programa de trabalho de um comandante-geral, correto?
— Não, secretário. Não é aceitável. É que, nessa guerra, cada um se
agarra ao poder como pode. Se ele tivesse de se livrar do senhor e pudesse,
ele faria isso, tranqüilamente. Sem nenhum peso na consciência. O que ele
fez com o Amílcar não foi diferente. Ele tentou de todas as maneiras fritar e
rifar o coronel Amílcar, porque sempre temeu nossa proximidade com o
senhor. A mim ele não alcança, porque não sou PM. Se alcançasse, me
atingiria também.
246
— Continue o raciocínio, Vaz. Você montou o quadro, pegou o Pilot.
Parecia um professor. Volte à aula. Vamos deixar as especulações de lado.
— Exato. O ponto é: a presença do BOPE na Rocinha não interessa
ao Vitor.
— Ele quer minha posição? É isso que o Vitor quer? Ser secretário de
Segurança?
— Não creio, secretário. Seu cargo não é tão cobiçado, porque é uma
posição de alto risco. O cargo lhe dá visibilidade máxima e, portanto, lhe
confere um tremendo potencial político. Por outro lado, é uma posição que
expõe muito a desgaste. É muito difícil passar pelo cargo sem pagar um
preço muito alto. É pancada todo dia. O desgaste político e pessoal é imenso.
É mais cômodo e mais útil permanecer na chefia da Polícia Civil, desde que o
secretário não interfira muito. É lá que se decide a distribuição das
titularidades das delegacias, e essa é a operação-chave, porque cada
delegacia vale uma determinada importância, na bolsa paralela da polícia.
Todo mês, o titular indicado e sua equipe pagam o tributo devido à caixinha
da chefia, caixinha que não é do chefe apenas, ela beneficia o grupo que está
no poder. O pagamento é uma espécie de taxa pelo lucro que cada delegacia
proporciona. Na PM, é bem diferente. O esquema é muito mais disperso,
muito mais fragmentário, justamente porque a hierarquia organiza a
instituição muito mais do que na Civil, que, a rigor, nem disciplina tem,
quanto mais hierarquia.
— Quer dizer o seguinte, secretário — Amílcar troca em miúdos a
aula de Vaz —, quanto mais organizada a instituição, mais varejista a
corrupção; quanto menos organizada a instituição, mais centralizada e
organizada a corrupção. Essa é a tese.
— Faz sentido, faz sentido — concorda o secretário.
— Desculpe, Vaz. Pode continuar. É que você começou a enrolar um
pouco.
— Ok. Vou ser mais direto. Acho que fica mais fácil começar pelo
negativo, pelo que não sabemos com certeza. Não sabemos se o Santiago
está ou não ligado ao Vitor — Vaz escreve o número um e resume o
247
enunciado. — Não temos certeza de que o seqüestro da Michele tenha tido
motivações não econômicas — anota o número dois e sintetiza a afirmação.
— Não sabemos se Vitor está ou não envolvido no caso Michele — registra o
número três e abrevia a frase.
— Também não sabemos se a PRF agiu ou não a serviço de Vitor, no
caso do desaparecimento ou da estranha negociação com Félix — assinalou
o número quatro e subdividiu o enunciado em duas partes, que receberam
as letras A e B.
— E o que é que vocês sabem? — pergunta o secretário.
— Nós sabemos que a PRF e Vitor se entenderam, estando ou não no
mesmo esquema, e que a mentira de que Félix foi morto na Mineira interessa
ao Vitor.
— Não entendi — confessa o secretário. — Por que vocês têm certeza
de que Vitor e a PRF se entenderam?
O próprio Vaz responde, dando seqüência ao argumento:
— Porque a falsa notícia do assassinato do Félix na Mineira foi dada
através do rádio dele mesmo, depois que ele foi capturado ou depois que se
encontrou com a PRF. Se essa mentira interessa ao Vitor, como vimos... o
senhor se lembra que o Vitor fez questão, de atender o Luizão no telefone de
seu gabinete, que ele sabia que nós controlamos? Pois então, se a mentira
interessa ao Vitor e foi transmitida ao Luizão pela PRF, é porque se
entenderam, antes ou depois do sumiço do Félix e qualquer que tenha sido a
participação de Vitor nesse sumiço, se é que houve alguma participação.
— Está mais claro. Para mim, agora, está claro. E o tal organismo de
que vocês falaram? Esse organismo é que trocava embrulhos com a PRF?
Esse troço está ligado ao Vitor e aos grampos nos meus telefones? E o
vazamento do seqüestro para o governador?
— Calma, secretário — Vaz tenta retomar o comando da
apresentação. — Vamos chegar lá devagar. Passo a passo.
QUARTO DE HÓSPEDE DO APARTAMENTO DE ALICE, 1º DE OUTUBRO, À 1H15
248
Alice ajeita o lençol, dobra a ponta, bate no travesseiro fofo e farto,
puxa a luminária mais para perto da cabeceira. As toalhas de banho e de
rosto estão dobradas aos pés da cama. Renata está sentada no braço da
poltrona com a foto de Pedrinho na mão e os pés descalços se deliciando no
tapete felpudo. As amigas haviam dedicado os últimos quarenta minutos a
falar sobre ter filhos, sobre como Pedrinho estava crescido e encantador, e
sobre um pressuposto da maternidade que tornava o projeto tão complicado:
a paternidade. Falaram também sobre amigos comuns e sobre a cadelinha
de Renata, Tábata, um bassê que estava provisoriamente abrigado pela
generosidade da vizinha, Doris. Agora, preparam-se para dormir. O dia
seguinte se aproxima com toneladas de problemas e tarefas. Uma pena que o
reencontro entre duas amigas não possa ocorrer em um tom alto-astral. A
dor de Renata é um travo permanente. E contagia Alice, atravessando todos
os temas, por mais leves que sejam.
— Puxa, Licinha. Eu fico até encabulada. Tanta atenção e carinho.
Tanto trabalho eu tô te dando.
— Que é isso, menina? Vê se minha camisola te serve. Olha, presta
atenção: você regula o ar-refrigerado aqui. Ele é central, mas você pode
ajustar a temperatura de acordo com sua preferência. Pode até desligar, se
quiser.
Alice fazia tudo para afastar a sombra do drama de Renata. Como se
isso fosse possível. Como se falar de coisas práticas e de trivialidades
bastasse para exorcizar os fantasmas.
— Acho que vou preferir, sim. Gosto de dormir com a janela aberta.
Ar refrigerado me deixa ressecada. Não me faz bem.
— Eu era assim, antes desse namoro. Mas acabei me acostumando.
— A gente se acostuma com tudo.
— Hoje, eu ligo mesmo quando tô sozinha. Não é incrível?
— É pra se sentir mais perto dele?
— Não, passei a sentir calor mesmo. Muito mais do que sentia.
Parece que a sensibilidade da gente vai se ajustando, se adaptando. Até a
sensibilidade física. Não é incrível, isso?
249
— É, sim.
— Meu professor de estética diz que os casais vão ficando parecidos.
Parecidos mesmo. Fisicamente. Acho que foi o Bergman que inventou essa
tese.
— Quem?
— O Ingmar Bergman.
— Não sei quem é.
— Puxa, Natinha. O Bergman. Não conhece o Bergman? O grande
diretor sueco.
— Não me lembro desse nome, não.
— Ele fez tanta coisa: Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, A
Hora do Lobo, Cenas de um Casamento...
— Tem tanto tempo que eu não vou ao cinema, Licinha... Você
falando assim, me dá uma certa angústia. De repente, eu me dou conta de
que tô ficando pra trás. A vida tá passando e eu tô arrastando o passo. Me
sinto tão ignorante. Meio vazia, sabe? As pessoas falam de cinema, teatro,
literatura, política. Até de política tô por fora. Logo eu, que já fui ligada
nisso.
— Eu sei. Então não sei? Eu te conheci no diretório. Você era do
movimento estudantil.
— Agora, tô longe de tudo isso. Parece que tô no exílio. Me sinto num
outro mundo. Distante do mundo que eu freqüentava, dos meus amigos, das
minhas coisas. Parece que eu perdi o bonde.
— Puxa, Natinha. Que besteira. Você acaba de me mostrar a foto
dessa criança linda, maravilhosa e, agora, vem me dizer que perdeu o bonde,
que se sente vazia?
— É verdade. Tem o Pedrinho. Se não fosse ele...
— Só que ele não é um detalhe. Ele é um mundo inteiro. Você não
tem idéia, mas não tem a mínima idéia de como eu adoraria ter um filho,
como eu daria tudo o que tenho pra ter um filho como o Pedrinho...
— Desde que o pai do Pedro não viesse no pacote...
250
As amigas riem, dão-se as mãos e se abraçam. Renata chora
copiosamente. Lava o pavor dos últimos dias, dos últimos anos. O abraço
fica mais apertado. Renata soluça. Aos poucos, retoma a calma. Alice lhe
oferece um remédio, um remedinho leve, que ela costuma tomar quando está
nervosa. Só pra relaxar. Renata recusa.
— E um chá? Que tal? Um chá de camomila?
— Um chazinho eu aceito.
Renata agradece. As duas andam até a cozinha. Quando passam no
corredor, luzes indiretas e discretas vão se acendendo, automaticamente.
— Uauu — diz Renata. — Que máximo. Chiquérrimo, Licinha. Sua
casa não é o máximo? Nunca tinha visto isso.
— Isso é frescura de minha mãe, que tem complexo de novo-rico.
— Eu sou muito diferente dela. Acho que sou nova-pobre.
As duas riem e esquentam água no fogão elétrico. É Renata quem
fala:
— Licinha, tá na hora de eu começar a repensar a minha vida, sabe?
Acho que essa confusão horrorosa pelo menos vai me forçar a parar um
pouco, olhar pra trás, olhar pra frente. Repensar tudo.
— Isso é tão importante, não é? Eu acho. Acho que a gente deve fazer
sempre isso.
— Você ainda faz análise?
— Claro. Como é que você acha que eu consigo agüentar a louca da
minha mãe e o maluco do meu pai?
— Eu adoraria fazer análise. Sei lá, uma terapia qualquer.
— Você ainda freqüenta o Ravi?
— Quem?
— O nosso tarólogo. Foi você que me apresentou a ele.
— Nunca mais.
— Eu vou lá sempre que posso. Pelo menos, de três em três meses.
— Análise e tarólogo?
— Fora o centro que eu freqüento, lá na estrada Rio-Manilha.
— Não acredito. Você? — Sim, senhora.
251
— Não acredito, Licinha. Você vai até o outro lado da ponte Rio -
Niterói, entra pela Rio-Manilha... Olha que é uma viagem, hein?
— Viagem maior é a que eu faço numa outra esfera, Natinha. Na
esfera espiritual.
— Tudo bem. Não sou contra. Quem sou eu. Imagina. Acho o maior
barato. Só que eu nunca pensei que você... Aliás, pra falar a verdade, talvez
seja preconceito. No fundo, no fundo, eu achava é que rico não precisa
dessas coisas...
— Umbanda é coisa de pobre...
— É, eu sei que é bobagem, sei que é preconceito. Mas confesso que,
no fundo... Odeio preconceito, você sabe. Qualquer tipo de preconceito.
Mesmo assim, de vez em quando, me pego agarrada a algum.
— Acontece com todo mundo. Mesmo com gente que tem cabeça
aberta. Eu também admito que, lá no fundo de mim, não entendo muito bem
como é que uma pessoa como você pode passar os dias, durante anos,
metida com criminosos, dentro de uma penitenciária. Deve ser preconceito
meu, sei lá.
— Não, eu entendo. Eu também pensava assim. Quando fiz o
concurso e fui aprovada, há três anos, quase desisti. Eu tinha acabado de
me formar na PUC e você estava terminando o primeiro ano. Você tinha feito
o ciclo básico e estava entrando no curso de Comunicação, lembra? Eu
estava louca por um emprego. Já estava separada; o Pedrinho já grande. Não
agüentava mais morar com minha mãe, não ter o meu canto. Por outro lado,
não conseguia nem me imaginar tendo de ir a Bangu, todo dia. Começa por
aí, né? Um calvário. Sacudindo num ônibus. Quer dizer, em vários ônibus.
Ou dirigindo o carrinho que a merreca do salário me permitiria comprar e
manter. Depois, o mergulho no inferno.
— Mas, aqui entre nós, você tem uma puta coragem. Vendo uma
mulher como você, eu sinto ainda mais desprezo quando penso nos
machistas babacas, que sacaneiam a gente, que vêem a gente como bibelôs,
cretinas e medrosas.
— Não é bem uma questão de coragem. Sei lá.
252
— Na verdade, Renata, você sempre padeceu do complexo de madre
Teresa de Calcutá. Pelo menos um pouquinho... Confessa. Saiu da Psicologia
e eu pensei que você fosse fazer Comunicação, porque você sempre teve o
maior talento pra jornalismo, essas coisas, mas você foi fazer o quê? Serviço
Social. Olhe, aqui, madre Teresa. O chá está servido.
— Obrigada, Licinha. É verdade. Tenho um pouco disso, sim. Talvez
tenha a ver com minha família. Perdi o pai cedo, minha mãe sempre
trabalhou, tudo pra gente era difícil.
— Quer adoçante?
— Não, tomo sem nada mesmo.
— Mas você tá segurando a onda, lá em Bangu, apesar de tudo...
— Mais ou menos. Aprendi a ver aquilo lá com outros olhos. Não é
que aquilo não seja um inferno, mas quando a gente só vê esse lado, tende a
colocar mais um tijolinho nessa imagem, sendo que essa imagem também é
um tijolinho que ajuda a fazer daquilo lá um inferno. Não sei explicar muito
bem. Pena e nojo não são os melhores sentimentos. Não ajudam a mudar
coisa nenhuma. Só reforçam tudo o que é ruim. Só servem pra manter os
críticos bem protegidos, bem longe daquela nojeira, daquele lixo, daquele
inferno. Só servem pra expiar as culpas da gente, Licinha. Na prática, nojo e
piedade acabam empurrando aquela realidade pro fundo do poço, onde ela
não possa ser vista. Assim, ela fica bem longe e o fedor que ela exala não
contamina a nossa vida, Licinha, os nossos valores, a nossa superioridade.
Talvez um dia eu escreva sobre isso.
— Você já pensou em fazer mestrado? Com sua cabeça, você não
devia parar de estudar.
— Eu sei. Penso muito nisso. Meu sonho, sabe qual é? Encontrar um
parceiro bem legal e sair do Brasil por um tempo. Estudar fora, sei lá. Sair
um tempo. Pular fora desse dia-a-dia sufocante. Olhar isso tudo com alguma
distância. Pensar sobre tudo o que vivi. Sabe que reuni muita documentação
interessante, durante esses anos?
— Ter outro filho...
— Pode até ser. Pedrinho precisa mesmo de um irmão.
253
— Ficar bem longe dos bandidos.
— Mais ou menos. Isso eu não diria. Não diria assim, desse jeito. Não
gosto muito de falar assim, dizer que são bandidos, fechar a tampa e puxar a
descarga.
— Não tô dizendo isso, Renata.
— Em certo sentido, tá sim. Mas tudo bem. Pra que dourar a pílula?
É assim que a gente pensa mesmo. É assim que a sociedade pensa. Eu
também pensava e sentia assim, no início. Mas, com o tempo, fui mudando.
Renata puxa para si uma lata de biscoitos que Alice lhe oferecera
mais cedo, quando ela recusou o jantar. Alice se cala e desenha formas
aleatórias com o dedo, na tampa da mesa da cozinha, enquanto a amiga
mastiga com voracidade. A anfitriã rompe o silêncio:
— Aos poucos, você passou a vê-los como seres humanos...
— É, mas... Isso não diz muito, né? Nossa obrigação é essa, ver as
pessoas como seres humanos. Isso vale pra tudo e pra todos. Acaba não
valendo muito. Não sei. Ando meio intolerante pro discurso politicamente
correto dos direitos humanos, da religião. Pra falar a verdade, acho uma
xaropada demagógica meio nojenta.
— Mas você militou naquela ONG de direitos humanos, o Viva Rio.
Não foi no Viva Rio? Eu me lembro de você, nos pilotis, convocando pra
manifestação pela paz.
— Foi. Eu também me lembro. Até com saudade. Aliás, devo muito ao
Rubem César e ao Viva Rio. Se não fossem eles, você acha que eu teria
conseguido a bolsa na PUC? Só pelos meus belos olhos? Devo muitas outras
coisas também. Foi muito legal aquele tempo. Mas enchi o saco do discurso,
dos símbolos, da lengalenga bonitinha, todo mundo vestidinho de branco. "O
dia do carinho." Não dá, Licinha. Não dá mais. Chega a ser ridículo. Meu
coração deu uma volta. Às vezes, sinto até raiva disso tudo. De boas
intenções o inferno tá cheio. Tudo isso é muito distante da realidade,
Licinha. A realidade do Brasil é outra, minha amiga. Quer saber? A realidade
é foda. Foda. Ê tiro, sangue, bosta, massa encefálica espalhada, misturada
com feto que desce o esgoto a céu aberto. Estado, política, polícia, justiça, é
254
tudo ficção, Licinha. História da carochinha. Chamar os presos de
criminosos é correto, claro; mas também não é. Eu aceito chamá-los assim,
se a gente combinar que também vai chamar o Estado de criminoso. E a
justiça, a polícia, a política, toda essa bosta. Se não valer pra todos, eu não
concordo, porque os bandidos de Bangu I não são piores que os bandidos
que os prenderam. E a sociedade em que eles cresceram fez deles o que são.
Essa bosta de sociedade em que a gente vive, Licinha.
— Então não tem livre-arbítrio? Ninguém escolhe nada? É tudo culpa
da sociedade? Se fosse assim, todo miserável seria criminoso.
— Sei lá. Só sei que aqueles homens que estão naquela jaula de
segurança máxima e que são humilhados e torturados ali, naquela jaula,
não são piores que o pai do Pedro.
— Aí é que está, Natinha. Agora você tocou o ponto mais profundo.
Eu tava sentindo justamente isso: que você tava falando de você. Não da
sociedade ou das instituições, mas de você. Você teve uma experiência
horrorosa com um policial, traumática, mas nem todo policial é como seu exmarido.
— Só os que conheci até hoje...
— Todos?
— Todos.
— Meu namorado também?
— Não. Claro que não, Licinha. Ele é diferente.
— Então, não são todos.
— Tá certo. Mas ele é uma exceção.
— Natinha, quando ele sai de manhã, às vezes sai dizendo que talvez
não volte. Que acha que vai morrer. Natinha, tem dias que ele sai pensando
na morte. Ele pega três ônibus todos os dias, pra ir e pra voltar. Passa as
noites na guerra e as manhãs na PUC. Sustenta o padrasto aposentado, que
é cardíaco e não pode trabalhar, e a mãe. Paga o aluguel, o condomínio, a
alimentação. Mal sobra pra ele. Não compra roupa, nada. Não bebe, nem
fuma. E não faz isso por religião, não. Acha que é o dever dele. Não aceita
que eu pague nada. Evita vir aqui, comer aqui, dormir aqui. Não gosta nem
255
de andar no meu carro. Só saímos no Fiat Uno dele, Uno Mille. É o carro
dele, Natinha. Como não tem dinheiro pro combustível, só tira da garagem
no fim de semana. Pra gente passear, Nati. Você não imagina como dói nele,
e em mim, quando ouvimos nossos colegas e professores falando da polícia
como se fosse uma corja de bandidos, a escória da sociedade.
Alice faz uma pausa. Vai à geladeira, abre uma cerveja. Servem-se. É
ela quem volta a falar:
— Não sei se você sabe o que eles passam pra entrar no BOPE. Tem
idéia?
— Mais ou menos.
— Sofrem todo tipo de desafio. Os limites do corpo e da mente são
estendidos até o máximo. Você não calcula o sofrimento. Tem gente que tem
vertigem, tem medo de altura, mas eles não poupam ninguém. Pra ser
aprovado, tem de se equilibrar sobre uma espécie de trilho, suspenso a uns
10 metros de altura, sem rede de proteção. Sabia que os candidatos passam
por sessões de tortura?
— Não, mas não me surpreende.
— Passam por tortura: pau-de-arara, cadeira do dragão, afogamento,
surras. Mesmo assim, nada é pior do que a dor provocada pelo desprezo das
pessoas. Chamam de Charlie-Charlie, essa parte dos testes.
— Charlie-Charlie?
— É o jeito policial de dizer CC.
— O que é CC?
—Campo de concentração.
— Deus me livre. E você acha isso saudável? —Não, claro que não.
— Acha saudável seu namorado ter-se submetido a isso? Acha bom
ele ser membro de um grupo que se forma com esses métodos? Já se
perguntou como é que agem os que são treinados pelo terror? Será que não
agem aplicando os mesmos métodos?
— Renata, não sei se existe outro jeito de preparar uma pessoa pra
enfrentar o que esses homens enfrentam. Você não pode esquecer que a
loucura do treinamento tem um outro lado: quanto mais bem treinado for
256
um policial, menos ele vai colocar em risco a vida dele e da população; mais
responsável e eficiente ele vai ser. Não adianta demonizar o treinamento.
Isso é feito em todas as partes do mundo, independentemente dos regimes
políticos. Eu sei que é uma loucura. Mas nosso mundo é louco.
— Não aceito isso, não posso aceitar. Não sei que eficiência é essa de
que você fala.
— Renata, eu tenho certeza de uma coisa: eles abominam a
corrupção. Arriscam a vida pra cumprir o dever e não admitem corrupção de
nenhum tipo, em nenhuma circunstância.
— E você acredita que uma ilha pode resistir à força do oceano?
— Como assim?
— Você acha que o BOPE vai permanecer imune à corrupção por
muito tempo, sendo parte de uma corporação que está tão profundamente
degradada?
— Mas não é só o BOPE, não, Natinha. Tem gente muito boa nas
polícias. Fico sabendo de histórias lindas, todos os dias.
— E a violência policial, Alice? O problema da polícia não é só
corrupção. É a brutalidade, também. O que você acha do extermínio? Da
tortura?
— Você mesma criticou seus ex-companheiros dos direitos humanos
e agora tá falando igualzinho a eles. E o extermínio de policiais, Renata? E a
crueldade dos traficantes? Eles podem, porque são pobres?
— Alice, olha só que horas são. Tenho de acordar amanhã antes das
sete. Como é que eu faço pra sair sem te acordar?
— Renata, você prometeu que não ia sair desse apartamento,
enquanto seu caso não se resolvesse.
— Pra que o caso se resolva, eu tenho de ajudar. Não vou conseguir
ficar aqui, esperando. Fica tranqüila. Pode ter certeza de que eu sei me
cuidar.
— Promete dar notícias? Pelo menos isso?
—Prometo.
257
GABINETE DO SECRETARIO, 1º DE OUTUBRO, À 1H45
Amílcar toma a palavra, se ergue e vai à televisão, enquanto Vaz volta
a sentar-se. Liga o vídeo e recua a fita até a imagem do escambo no
supermercado. Paralisa a seqüência quando, depois que Jaiminho encosta
seu carrinho numa gôndola, surge, de perfil, no canto direito do vídeo, a
imagem de um homem maduro, farta cabeleira grisalha.
— Observe bem o rosto desse homem, secretário.
Vai à mesa, abre uma pasta de papelão amarela e entrega uma foto
três por quatro, preto-e-branca, ao secretário.
— O homem da foto, secretário, é o mesmo que aparece no vídeo. O
nome dele é Carlos Meireles, ex-agente do SNI, oficial reformado do Exército.
Nenhum cargo reconhecido. Esteve na Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) há alguns anos. Voltou ao Rio, supostamente para aproveitar a
aposentadoria. Reúne-se com freqüência com alguns ex-colegas. Colegas que
têm a mesma origem, mas nem todos têm a mesma idade e nem todos se
envolveram na repressão, durante o regime militar. Eles não se misturam
com gente das polícias. Esse é um ponto importante, secretário. Outra
informação importante: nossas fontes nas polícias, que têm-se mostrado
bastante confiáveis, garantem que a P2 e o Serviço de Inteligência da Polícia
Civil não têm nada a ver com os grampos em seus telefones ou com os
receptores de áudio em seu gabinete, e no elevador exclusivo. O Serviço de
Inteligência da Polícia Civil, aliás, nem merece esse nome. É precaríssimo e
tem sido mantido a pão e água, porque não interessa a nenhum chefe
reforçar uma unidade que pode assumir alguma independência e lhe causar
dificuldades, de uma maneira ou de outra, obstando suas ações ou criando
problemas. A PM venceu a disputa que travou com a Polícia Civil pelo
privilégio de dirigir o seu carro e lhe oferecer segurança pessoal. Para eles,
isso já constituía controle suficiente sobre sua movimentação e sua
intimidade. Eles não ousariam mais do que isso, nem teriam condições
operacionais de ir além.
258
— Nenhuma dessas forças tentou cooptar vocês dois ou um de vocês?
Aliás, devo confessar que estou impressionado com a competência de ambos.
Minha impressão não era essa. Vou falar francamente: pensava que vocês
eram mais dois patetas.
— Pro senhor ver, secretário — é Vaz quem responde. polícia, é
preciso cuidado. Ninguém abre o jogo e todo mundo é muito cioso das
hierarquias. A gente só revela a competência que cabe em cada momento.
Esperteza demais come o dono. Na polícia então, mais ainda. Por incrível que
pareça, a capacidade do sujeito. pode ser fatal pra carreira. Melhor parecer
idiota do que arriscar ser considerado um risco para os superiores. E quanto
à cooptação, secretário, a resposta é não. Nossa história, minha e do Amílcar
é conhecida. Já aprontamos confusão suficiente nas corporações pra alguém
se arriscar a uma abordagem que poderia significar, e significaria — um tiro
no pé. O Amílcar já comandou o BOPE, Comandou a P2. Fez contrainteligência.
Sabe tudo o que acontece na PM. Teve todas as oportunidades
do mundo e nunca vacilou. Todo mundo sabe que ele é sério. Até os políticos
sabem disso e não se metem com ele. Mas todo mundo sabe que ele é
prudente e que não morde, se não provocarem. O risco que ele corre não é
que tentem cooptá-lo; é que o matem. Mas ele é cuidadoso.
Vaz sorri e é interrompido por Amílcar.
— Já que ele falou de mim, secretário, tenho de falar dele.
Vamos parar com essa bajulação mútua e vamos em frente — adverte
o secretário.
Amílcar volta à exposição:
— Eu lhe dizia que nem a PM, nem a Civil estariam em condições de
operar a escuta, nem se arriscariam tanto. E, segundo os relatórios dos
nossos informantes, nas duas polícias ninguém fez isso. Assim como
ninguém, nas polícias, teria acesso ao governador. Vamos agora examinar a
hipótese de que os grampos tenham tido origem no Gabinete Militar. O
Gabinete Militar, secretário, não tem estrutura própria para agir e seus
vínculos com as corporações são sobretudo institucionais. Claro que todo
chefe do Gabinete Militar faz tudo para credenciar-se a substituir o
259
comandante-geral da PM ou o secretário de Segurança. Usa os contatos
pessoais, enfim, faz o que pode para obter informações classificadas. Mas,
em nosso caso, dificilmente alguma coisa se faria à margem do controle do
coronel Fraga, porque ele e o coronel Elpídio têm uma relação muito antiga e
profunda. São velhos parceiros desde os tempos de academia.
— O Elpídio não parece mesmo o tipo de pessoa que fizesse isso. Por
acaso, conheci o Elpídio numa missão fora do Brasil, há bastante tempo.
Sempre tivemos ótimas relações — diz o secretário.
— Portanto, secretário, excluindo as polícias e o Gabinete Militar,
sobra mesmo a hipótese de que o grampo e, quem sabe?, o vazamento, sejam
obra desse grupo, desse, sei lá, organismo clandestino.
— E o tal Santiago, nessa história toda? Amílcar está sentado. Vaz é
quem responde:
— Não sabemos onde está o Santiago. Sabemos que ele não está
sendo procurado só por nós. Há mais gente atrás dele. Mas não temos a
mínima idéia sobre o seu destino. Lembre-se, secretário, que, se a nossa
hipótese estiver certa, a hipótese sobre o curioso interesse do Vitor pela
Rocinha, ele e o Santiago seriam parceiros.
— Ele, o Santiago, o Luizão... — acrescenta o secretário.
— Não necessariamente. Nem sempre é taticamente adequado
trabalhar com grupos coesos, cujos integrantes se conheçam uns aos outros
e compartilhem informações estratégicas. Em geral, secretário, é melhor
trabalhar em rede, como as organizações de esquerda costumavam fazer,
durante o regime autoritário.
— Durante a ditadura, Vaz. Vamos falar português claro.
— Nas redes, secretário, só um membro de cada segmento estabelece
conexão com um elemento de outro segmento. As redes não são compostas
por agentes que se conhecem. O conhecimento é restrito àquele âmbito de
cada segmento.
— Eu sei, Vaz. Conheço isso.
— Claro que o senhor conhece, secretário, estou só reiterando para
que o senhor entenda nossa análise do caso. Nas redes, nem os líderes
260
conhecem todos os liderados. É mais seguro assim. As redes são eficientes e
ágeis, e seguras, justamente porque são opacas, nos eixos vertical e
horizontal. Como o senhor sabe muito bem. Portanto, não podemos saber se
Luizão sabe que Santiago está ligado ao Vitor, nessa história do seqüestro.
Pode ser que sim, como pode ser que não. Como também não sabemos se o
Santiago sabe alguma coisa sobre o envolvimento da PRF. E muito menos se
o Santiago ou mesmo o Vitor sabem do esquema desse tal organismo.
— E o governador, Vaz, até que ponto ele conhece tudo isso? —
Também não sabemos, secretário.
— Será que ele já viu o dossiê que estão montando contra ele?
— Provavelmente — diz Amílcar. — Quem chantageia só tem poder,
na medida em que o chantageado conheça o poder de fogo do chantagista.
— Mas diante das fotos e dos dados bancários, a fita da mulher do
empresário é secundária — avalia o secretário.
— Claro.
— Tudo é munição preciosa — pondera Vaz.
— A quem serve esse, esse tal organismo, esse grupo? Se eles trocam
tanto com a PRF, isso significaria que eles ainda manteriam contato com a
Abin ou com o Governo Federal de alguma maneira? — pergunta o
secretário.
Amílcar responde:
— Não parece que o pessoal desse clube, desse grupo, mantenha
contato com a Abin ou, pelo menos, que esteja vinculado à Abin. E digo isso
não apesar dos contatos do grupo com a PRF, mas justamente por conta
desses contatos.
— Não entendi — admite o secretário.
— É que a PRF está totalmente fora do controle do governo federal. A
superintendência foi entregue, num acordo político firmado lá atrás, a um
deputado que vende caro seu apoio ao governo federal. Um sujeito muito
independente e muito poderoso no estado, o Ademar Caminha Viana Torres.
— Ele tem laços com esse tal grupo?
— Aparentemente, não, secretário. Mas nunca se sabe.
261
— De qualquer modo, se a PRF tem cópia desses documentos que
comprometem o governador, o deputado Viana Torres também tem —
calcula o secretário.
— Provavelmente, sim. Digo, provavelmente, porque nesse ambiente
de golpes e armadilhas, não se pode ter certeza, porque o superintendente
pode precisar de alguma forte carta na manga para negociar futuros passos
na carreira ou para prevenir-se contra surpresas desagradáveis futuras.
— Eu sei — concorda o secretário. — E comum que os políticos
guardem munição uns contra os outros, sem nunca usá-las. Parece a lógica
da guerra fria. Você vai se armando pra dissuadir o inimigo. Se todos
lançassem merda no ventilador, uns contra os outros, não sobraria
ninguém. Ou quase ninguém.
— Eles precisam pensar na sobrevivência coletiva, na preservação da
espécie — Vaz acrescenta.
— Isso produz um certo equilíbrio — diz o secretário.
— Um equilíbrio sob tensão — complementa Amílcar.
— Enquanto a corda não arrebentar, eu sobrevivo, me mantenho
secretário. Mas, falando francamente, depois dessa noite está muito claro:
em que é que eu mando? São bandos e grupos e gangues e barões feudais e
políticos... Que secretaria é essa, Vaz? Que polícias são essas? Não são
instituições. São campos de batalha. São mercados persas. São tribos em
luta. Ninguém comanda nada. Essas polícias não existem. Esse Estado não é
governável, Amílcar.
— Não sei, secretário. Não sei. Talvez seja, sim, mas por alguém que
não caia na malha das chantagens.
— Alguém que não tenha o rabo preso — diz o secretário.
— Vamos falar português claro. Existe pessoa assim? Se existir, uma
pessoa assim chegaria ao governo? E se chegasse, não teria de deixar de ser
a pessoa que é? Não teria de pagar um preço? Não teria de prender o rabo?
E, depois, não basta uma pessoa. As coisas não são assim. Teria de ser bem
mais que isso.
262
— Não sei se tem saída, secretário. Ouço as pessoas mais experientes
na política ridicularizando o moralismo, mas elas não entendem que, no Rio,
moralismo não é virtude espiritual, é condição mínima — e bastante prática
— para que o governo não vire refém.
— Será que as pessoas um dia vão entender isso, Amílcar? O que é
que você acha, Vaz?
— Acho que a gente foi muito longe, que o senhor foi muito longe, e
que agora não dá mais pra recuar.
— Mas avançar seria voluntarismo ingênuo, Vaz, seria suicídio. Que
apoio nós temos pra isso? Estamos com os pés na areia movediça.
263
Epílogo
Não sei bem por que fiz isso. Não entendi o impulso. Mas o fato é que fui
visitar o comandante-geral da Polícia Militar. Pedi uma audiência; ele aceitou
me receber. Talvez o fato mais estranho não tenha sido meu impulso, mas a
receptividade do coronel. A PM exerce uma curiosa atração sobre os seus
membros. Até sobre os que saíram, como eu. Não paro de pensar na
corporação, nos colegas, nas operações. Depois que entrou em minha vida, a
polícia nunca mais saiu. Acho que nunca vai sair. Este livro é prova disso.
Ainda que também seja prova do contrário. Quer dizer, de minha vontade de
me livrar do passado. Talvez eu ainda alimente a ilusão de que minha
história tenha se tornado parte da história da corporação; de que eu esteja
cravado na polícia como ela está em mim. Dizendo isso, não pude deixar de
pensar na faca enterrada na caveira, o escudo do BOPE. Vai ver esse tipo de
simbiose só acontece com quem passou por todas as provas e se tornou
oficial da tropa de elite: cada prova, uma cicatriz, ou várias. Por isso, o
resultado é uma espécie de tatuagem. Fica gravado no corpo e grudado na
alma. Não tem como lavar. Como não se lavam as culpas, nem se apaga o
orgulho.
— Tudo bem com o senhor? Obrigado por me receber, coronel. Eu
vim trocar umas palavrinhas com o senhor sobre o livro que estou
escrevendo. E, o livro sobre a polícia, sobre o BOPE. Na verdade, o livro é
sobre mim mesmo ou sobre minha experiência no BOPE, e na polícia, de um
modo geral. De qualquer maneira, obrigado por se dispor a me ouvir. Nem
todos os que antecederam o senhor e se sentaram nessa cadeira estiveram
dispostos a me receber, muito menos a me escutar. Mesmo quando eu
264
estava na polícia. Aliás, é engraçado isso, se outros tivessem manifestado
essa generosidade, talvez eu ainda estivesse vestindo a nossa farda. Deixa
pra lá, coronel, vou deixar essa conversa sentimental de lado, senão eu
acabo me emocionando e fazendo um papelão. Mas o senhor há de entender.
Não é fácil voltar aqui, entrar no comando geral, rever velhos colegas,
encarar a garotada nova, subir essas escadas à paisana, olhar as fotos
históricas, as bandeiras, sentir o cheiro da madeira envernizada das
escadas. Certo, vou logo voltar ao ponto. Sei que o senhor está em pleno
expediente, no meio do fogo cruzado, com um milhão de problemas pra
resolver, pressão de todo lado, governador chamando, secretário na linha,
imprensa na cola, denúncia pra todo lado, bala perdida, comunidades
queimando ônibus, bandidos queimando ônibus. Pois é, vou direto ao motivo
de minha visita: eu vim aqui justamente porque não quero queimar o seu
filme, coronel, nem o da instituição. Já chega de fogo, inclusive de fogo
amigo. Se é que o senhor me entende.
E expliquei o sentido e as intenções do livro. Disse ao comandante
que a verdade liberta. Ele até sorriu nesse momento, provavelmente
pensando que eu era mais um convertido.
— Não, coronel, não virei crente. Acredito mesmo nisso. Não me refiro
à verdade religiosa, metafísica, que se revela aos fiéis e exige a fé. Falo
daquela verdade mais modesta que distingue as pessoas entre mentirosos e
honestos, falsos e sinceros, hipócritas e autênticos. Ou que divide os
companheiros entre a impostura e a lealdade, entre a empulhação e a
dignidade, entre a traição e a fidelidade.
Eu ia continuar, mudando de tom e falando da verdade que separa as
instituições entre a infâmia e a legitimidade, o abuso e a lei, mas me contive.
Achei que ficaria exagerado, meio empolado, meio metido a besta. Ia parecer
que eu queria dar uma lição de moral ou me mostrar. Logo eu, que detesto
esse tipo de coisa. O coronel também não gosta nada disso. É um sujeito
simples, como eu. Um cara inteligente, mas simples. Além disso, se
prosseguisse nesse caminho, acabaria me perdendo ou, o que seria ainda
265
pior, acabaria chegando aonde eu não queria chegar. Até porque, se
chegasse aonde não queria, o tiro sairia pela culatra.
Quer dizer, todo aquele esforço de marcar hora, conseguir vaga na
agenda do comandante, ser recebido, preparar o terreno, criar um clima
legal, tudo se perderia. Eu não estava ali para abrir as baterias contra a
polícia, como a casa da hipocrisia, o antro das mentiras mais deslavadas.
Pelo contrário. Estava ali para tranqüilizar o comandante. Minha intenção
era mesmo contar a verdade. Só isso. Claro que isso não é pouco. Claro que
as conseqüências poderiam ser graves. Ê óbvio que a verdade seria chocante
para quem não a conhecesse. Mas o sacrifício seria terapêutico. Depois da
tempestade, viria a bonança.
Em outras palavras, a polícia tem sido uma grande mentira, que
afeta, em primeiro lugar, os próprios policiais. Para rasgar as cortinas e tirar
as máscaras, nada como a verdade. Santo remédio. E não me venham com a
velha história: a dose pode matar o paciente. Se matar, paciência. Quanta
gente já morreu nessa brincadeira. O que não aceito é que continuemos o
joguinho, a farsa, em silêncio, fingindo que não está acontecendo nada.
Claro que eu não disse isso. Quer dizer, até disse, mas com jeitinho,
sem que o coronel percebesse a carga explosiva do que lhe dizia. Tudo é uma
questão de jeito. Acho que cumpri meu papel. Tanto que saí revigorado, com
a alma lavada, uma sensação de alívio. Ele me agradeceu a atenção e pediu
que eu tivesse cuidado com cada palavra e com o que ia contar. Mencionou
as responsabilidades, a imagem pública da instituição e tudo o mais.
— Muito bem, meu caro. Então, tenha juízo e boa sorte.
Levantei, agradeci de novo a oportunidade daquele encontro, toquei a
testa com o dorso da mão direita, mecanicamente. Nem pensei no que estava
fazendo. Mas, tudo bem. Algumas coisas que eram da polícia hoje são
minhas também. Rodopiei e bati em retirada.
Na ante-sala do gabinete, ainda estava fechando a porta atrás de
mim, quando Laerte me viu e abriu os braços. O major Laerte era um velho
camarada, de muitos carnavais. Foi do BOPE mais ou menos na minha
266
época. Não fazia muito tempo, fiquei sabendo que ele tinha sido promovido a
assessor jurídico do comando geral. Coisa fina.
— Rapaz, mas você está muito bem... Quando é que vem a nova
promoção? Quero te ver tenente-coronel ainda esse ano, hein?
Eu estava sendo sincero. Sempre gostei do Laerte. Ele era um sujeito
muito decente.
— Ah! Que bom te encontrar aqui. O que é que você veio fazer no
gabinete do comandante-geral? Não vai me dizer que vai pedir baixa da
baixa?
— Não, Laerte, nem se fosse possível eu faria uma coisa dessas. A
melhor decisão que tomei foi sair da PM.
— Porra, não vai me dizer que deu pra cuspir no prato que comeu?
Você sempre foi o mais empolgado de toda a turma. Ninguém levava a polícia
tão a sério quanto você. E agora vem me dizer que sair foi o melhor negócio?
— Mas o pior é que foi isso mesmo, Laerte. O que é que vou fazer?
Não vou mentir pra você.
— Tudo bem, está certo. Não querer voltar eu entendo. Estava só
brincando pra te provocar. Mas, por falar nisso e já que te encontrei, queria
bater um papinho com você. Coisa rápida. Você tem aí uns minutinhos?
— Porra, Laerte, qualé? Parece até que não me conhece. Não é porque
saí da PM que deixei de ser quem eu sou, cara. Quando foi que você precisou
marcar hora pra falar comigo, porra?
— Legal. Então vamos sentar ali no sofá. Bobeia, o ajudante-deordem
do comandante ou o chefe de gabinete nos servem um cafezinho.
Segui o Laerte até o sofá, desabotoei o paletó e sentei ao seu lado. A
ante-sala do gabinete estava na penumbra, uma temperatura agradável —
privilégios do comando. Naquele momento, estava vazia, o que, aliás, era
raríssimo. Meu amigo engrenou uma segunda e começou a ladainha:
— Porra, cara, o que eu queria te falar é o seguinte: andam dizendo
por aí que você está escrevendo um livro sobre a polícia.
Ele parou, me olhou, continuei olhando pra ele, calado.
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— Pois é — prosseguiu. — Ê o que ouvi dizer. Ele me olhava; eu
olhava de volta, em silêncio.
— É verdade, cara?
— É, Laerte, é verdade.
— Dizem que você vai jogar merda no ventilador... Silêncio lá, silêncio
cá. Olho no olho.
— É verdade?
Continuei calado, olhando meu amigo bem nos olhos.
— Diga, Laerte, vamos lá. Não enrola, cara. Diga o que veio me dizer.
Ou você acha que eu acho que nosso encontro foi casual, que você estava
por acaso passeando na ante-sala do gabinete justa mente quando eu ia
saindo da audiência... Porra, Laerte, não sou criança. Renunciei à farda, não
à capacidade de raciocinar. Então, qual é o recado?
— Tudo bem, cara, não tenho nada a ver com tua vida. Quem sou eu
pra te dizer o que fazer. Além do mais, você já é bem grandinho. Mas não
custa compartilhar contigo algumas preocupações. Te incomoda se eu fizer
algumas considerações sobre isso?
— Diga logo o que você quer dizer, Laerte. Deixe de embromação.
Você vai falar de qualquer jeito. Pensa que não te conheço?
— Tudo bem. É o seguinte, cara: pensa bem. Porra, cara, pensa bem.
Entende o que estou te dizendo? Estou te pedindo pra pensar bem no que
você vai fazer.
Ele olhava pra mim e pra porta de entrada. A qualquer momento
alguém ia entrar. Pelo visto, ele não queria ser interrompido. Talvez por isso,
falava baixo, como se estivesse conspirando. Eu torcia pra alguém entrar
logo. Já estava ficando nervoso com aquele papo.
— Compreendo que você deu baixa de um modo complicado; sei que
a polícia não te tratou bem; claro que sei o que você passou aqui dentro,
cara. Mas, porra, pensa bem. De que vai te adiantar uma vingança? Pra que
escrever com o fígado? Você só vai fortalecer a imagem de ressentido e, ainda
por cima, vai dar de bandeja um gostinho a quem te perseguiu. Eles vão
dizer: viu? Foi tudo merecido. Ele não valia nada mesmo. Está provado. Você
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