Para você não perder o fio da meada, é importante conhecer a
história da granada. Mas para isso, é preciso que a gente deixe o hospital,
um momento, e volte no tempo, até as provas de ingresso no BOPE.
Depois de cavalgar 100 quilômetros, sem arreio e sem descanso,
mortos de fome e sede, completamente devastados pelo esgotamento com as
coxas e a bunda em carne viva, nós tínhamos a opção de sentar ou não na
bacia com salmoura. A experiência mostrou que valia a pena sentar, mesmo
ao preço de uma dor lancinante. Alguns desmaiavam de dor. Ainda assim,
era melhor. Quem se poupava, no dia seguinte não conseguia nem se mexer:
as feridas inflamadas, cobertas de pus; a coxa, o saco e a bunda inchados.
Resultado: imobilizados, eram reprovados. E o pior era o ritual de
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humilhação do desligamento: tinham de cavar a sepultura e simular a
própria morte, deitando-se no fundo da cova.
Vamos saltar a salmoura, porque depois é que vem o melhor — ou o
pior, depende do ponto de vista. Enquanto alguns cavalos morrem de fadiga
— não estou exagerando, morrem mesmo —, a comida é servida. Mas se você
está pensando em um farto e saboroso bandejão, engana-se. A comida é
jogada sobre uma lona, estendida no chão — lembre-se de que estamos em
pleno campo e que é noite de inverno. Temos dois minutos para comer. Eu
disse "dois minutos". Com as mãos. Coma o que puder, como puder — é o
lema. Vale tudo. Nessas horas é que a gente vê que, reduzido ao nosso
mínimo denominador comum fisiológico, somos todos, os humanos, entre
nós parecidos, e semelhantes aos mamíferos inferiores. A briga pela
sobrevivência é um troço feio de ver e pior ainda de sentir.
Mas depois da tempestade vem a bonança, assim como depois da
experiência física extrema, vem a contemplação, a abstração e o
adestramento intelectual. Agora, procure imaginar o seguinte: um bando de
marmanjos sujos, enlameados, fedendo a cavalo, com o saco esfolado, a
bunda e as coxas queimando, exauridos até a última gota de energia, ainda
cheios de fome e sede, com as unhas negras repletas de vestígios do jantar,
as mãos ensebadas, obrigados a assistir a uma longa aula teórica e
entediante sobre táticas antiguerrilha, em que não há referência a ações,
apenas aos conceitos fundamentais.
Adicione o seguinte ingrediente: a aula era lida, em tom
propositalmente hipnótico. Éramos um bando de enfermos, sonâmbulos,
espectros. Arregalávamos os olhos, sabendo que um cochilo custaria muito
caro. Amâncio não resistiu e bateu a cabeça, embriagado de sono. O
professor se ergueu devagar. Dirigiu-se até ele. Mandou que ficasse de
cócoras sobre um tronco, tirou do cinto uma granada, puxou o pino e
colocou-a na mão direita do aluno relapso. Um deslize seria o fim daquela
simpática e brava matilha. Dali em diante, ninguém tirou os olhos do
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Amâncio — todos vigiando a vigília do colega. O pavor nos despertou como
não faria o melhor café quente e amargo.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Elite da Tropa - UMA CLAREIRA NA SERRA DO MAR, INVERNO, TRÊS DA MANHÃ, ALGUNS ANOS
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